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quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Caçador e a Rainha do Gelo


O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter's War, 2016) é uma sequência-prólogo de Branca de Neve e o Caçador, que foi lançado em 2012 e tinha a crepuscular Kristen Stewart no papel principal. Charlize Theron fez a madrasta má, chamada Ravenna, e o público gostou tanto dela que, ao que parece, os produtores acharam que seria uma boa ideia fazer um novo filme com ela. Daí nasceu essa sequência. Se você não viu o primeiro filme, saiba que vou precisar dar dois spoilers aqui, afim de explicar a gênese desse longa. Durante o resgate de Branca de Neve, o Caçador (Chris "Thor" Hemsworth) comenta sobre sua esposa falecida, e ao fim, a Ravenna morre - e todos são felizes para sempre. Ok, mas o que isso tem a ver com esse novo longa? Digamos que a Rainha Má guarda rancor.
Freya (Blunt) e Ravenna (Theron): as rainhas más
Desde nova, Ravenna era muito bela e poderosa. Sua irmã mais nova, Freya (Emily Blunt, linda de morrer) ainda não despertou a mágica que corria em seu sangue, mas ela já haiva descoberto o amor - que deixou a invejosa irmã com muita raiva. Ravenna tenta persuadir a irmã sobre a ilusão do amor, mas esta não desiste do seu sentimento mesmo sabendo que seu amado estava prometido à outra. Freya já estava grávida, e resolve ter o bebê mesmo contra todo o bom senso. Mas um terrível incêndio acaba por tirar a vida de sua amada filha ainda no berço. Desespedaçada de dor, raiva e desespero, a princesa descobre seu poder: seu coração gelado transforma qualquer coisa em gelo.
Sara (Chastain): ela nunca erra
Precisando se isolar, Freya resolve partir para o norte e no caminho destrói vilas e sequestra crianças. Ela os tem como filhos, mas sua única regra é que eles não podem amar. Cria, assim, um exército de Caçadores - homens e mulheres treinados desde a infância para a guerra sem as distrações que o amor causa. Sob a vigilância constante da rainha, alguns conseguem driblar suas rígidas regras. É o caso de Eric (Hemsworth) e sua esposa Sara (Jessica Chastain), que desde crianças se mostravam ser os melhores com o machado e o arco e flecha. Assim que foram descobertos, foram obrigados a lutar pelo seu amor - e isso significava ter que lutar contra um exército de amigos, tão bem treinados quanto eles. Talvez eles tivessem conseguido, se a própria Rainha do Gelo não tivesse intervisto.
Os caçadores e os anões tem que enfrentar goblins na floresta para recuperar o Espelho Mágico
Então foi assim que o Caçador foi parar na outra estória, a que tinha a Branca de Neve, e foi assim que os caminhos dele e de Ravenna se cruzaram - o que nos leva à verdadeira estória desse longa: Príncipe William (Sam Claffin, também conhecido como Finnick Odair da saga Jogos Vorazes) vem pedir ajuda ao caçador pois o Espelho sumiu do quarto de Branca de Neve. Ela temia que ele voltasse a fazer algum mal, já que ela própria estava sofrendo com as influências negativas dele. A missão para o caçador era encontrar o Espelho e o levar para o Santuário, o único lugar onde ele não teria poder de fazer mal a ninguém.
Freya (Blunt) espionando seus filhos: nada pode escapar a seus olhos
Porém, o que ninguém esperava era encontrar uma antiga espiã mágica da Rainha do Gelo. Temendo o que ela faria agora que sabia do Espelho, uma fonte de poder mágico, e de seu desaparecimento, era urgente que ele o encontrasse antes. Com a ajuda de dois anões - um já velho conhecido seu, pois o ajudara no resgate de Branca de Neve, e outro que só estava ali para ganhar uns trocados a mais pela recompensa - ele parte em busca do rastro do espelho. No caminho, reencontra Sara e descobre que ambos foram enganados pela rainha. Logo ele parte para reconquistar o amor dela, mas ela parece imune às tentivas dele. Capturados por duas anãs, também em busca de recompensas em ouro, logo o grupo está formado e eles terão que enfrentar coisas mais terríveis que apenas goblins para conseguir por as mãos no Espelho.
Freya e o Espelho: efeitos visuais lindíssimos
Os furos no roteiro são grandes - a começar pelo fato de Ravenna ter tido um irmão gêmeo no outro filme, que lhe seguia para tudo quanto era lado, e aqui ele sequer é mencionado, além de algumas coisas bastante incongruentes (como cortar uma ponte de corda no meio da floresta para fugir de um ataque de goblins que agiam como macacos e podiam facilmente atacar pulando sobre as árvores). Há um excesso de referências mal ajambradas, e cada coisa que aparece parece ter saído de algum outro lugar: as esculturas de gelo no pátio da Rainha de Gelo lembram as estátuas da outra Rainha de Gelo, a de Nárnia, e a coleção de desafetos da Bruxa do Mar de A pequena sereia; o próprio castelo é uma mistura de Hogwarts, Arendelle e o castelo da Cinderela; o banho quente do caçador e sua esposa lembra Jon e Igritte na caverna pra lá da Muralha; Freya parece muito uma versão má de Elsa de Frozen - Uma aventura congelante; há uma passagem onde o Caçador e os anões parecem entrar em uma estalagem de Bri... Posso ficar um dia inteiro aqui nessa brincadeira.
Srta. Bromwyn (Smith): melhor pessoa
Obviamente o público alvo desse conto de fadas macarrônico são as crianças, que devem se divertir com os anões - a melhor de todas é, de longe, a mercenária Senhorita Bromwyn (Sheridan Smith) e tem duas rainhas más a mais para temer. Figurino (especialmente os das duas rainhas), maquiagem e produção de arte estão impecáveis, e os efeitos visuais também são muito bons. Fora Hemsworth, que parece se divertir com seu personagem, os outros atores estão apenas na média: Blunt e Theron fazem caras e bocas para parecerem más, mas eu nem posso culpar as duas - culpo a direção, que como muitas outras produções, insiste em colocar atrizes talentosas usando de trejeitos e carões exagerados para "meter medo". Resultado: uma pipoca gostosa, mas nada mais que isso. Se bem que o fim deixa um cheiro de trilogia no ar...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O escaravelho do diabo


Adaptação livre do livro escrito por Lúcia Machado de Almeida que fez parte da infância de muita gente graças à Coleção Vagalume, O escaravelho do diabo (2016) é um filme que vai causar muita estranheza aos fãs mais conservadores. Obra début do diretor Carlo Milani, o longa promete surpreender quem nunca ouviu falar do Assassino do Escaravelho e sua estranha obsessão por cabelos ruivos, e pode ainda agradar aos pequenos que se interessam por um suspense.
O aviso da morte

Quando Alberto (Thiago Rosseti), um menino muito apegado a seu irmão mais velho, Hugo (Cirilo Luna), descobre que ele fora assassinado em sua casa de forma brutal após receber um escaravelho em uma caixa pelo correio, e logo em seguida um jovem também ruivo aparece morto em um aparente suicídio - porém sem motivo algum -, a única esperança dele é contar com a ajuda do delegado Pimentel (Marcos Caruso, eficiente). Ao contar a ele sobre suas suspeitas sobre as mortes estarem conectadas entre si e aos escaravelhos que ambos receberam, primeiro não consegue receber a devida atenção justamente por ser uma criança. Mas a partir do terceiro crime, os adultos começam a dar atenção àquela linha de investigação.
Hugo (Luna) e Alberto (Rosseti): as primeiras vítimas do Escaravelho do Diabo
Mas o próprio delegado tem seus próprios problemas a enfrentar. Batalhando com a própria saúde para se manter no cargo e nas investigações, além de ajudar ao próprio garoto, Pimentel ainda tem que enfrentar a imprensa (que está louca para saber mais sobre o assassino). Alberto, por sua vez, se preocupa com Rachel (Bruna Cavalieri), a menininha ruiva por quem é apaixonado. Tentando de todas as formas fazer com que sua família compreenda que o melhor para eles é fugir da cidade enquanto o assassino está à solta, o pai da jovem, o dono do antiquário Jairo Saturnino (Celso Frateschi) parece esconder um segredo.
Rachel (Cavalieri): a mudança drástica em alguns personagens não funcionaram muito bem
A produção é caprichada, e tem locações interessantes, mas o maior problema é a falta de ritmo. O longa se arrasta em sequências longas demais e na demora em apresentar todos os personagens principais. Falta o mistério que envolvia o texto no livro, em que pistas eram lançadas a todo momento e não traziam nenhuma resolução - apenas mais suspeitas, e sobre qualquer um. O começo é totalmente diferente para explicar a gênese do vilão, mas tampouco convence: uma tentativa de trazer algo mais sombrio e, quiçá, sobrenatural, não funcionou. A transformação de Alberto em um personagem criança também não funcionou, assim como a alteração de outros personagens também incomodaram. Fora o acréscimo do repórter, que foi um alívio cômico bem-vindo e um personagem muito bem defendido por Bruce Gomlevsky, a adaptação ficou muito aquém da expectativa dos fãs - que, como eu, esperaram anos para ver a eletrizante estória nas telonas.
Delegado Pimentel (Caruso): enfrentando vários problemas ao mesmo tempo
Salvo as interpretações dos atores mais velhos, como Caruso, Frateschi, Jonas Bloch e Selma Egrei, o filme não empolga. Quando parece que finalmente vai embalar e acontecer mais alguma coisa, chega-se ao clímax. Mas uma coisa eu preciso reconhecer: a atualização do livro, escrito na década de 1970, para a realidade de uma cidade do interior do século XXI foi bem feita (afinal, soa bem mais coerente uma estrela do rock querer fazer um clipe em uma fazenda do que um jovem ir a uma montagem de ópera; além de haver uma proximidade com o público ao se excluírem os personagens estrangeiros da pensão da Sra. O'Shea). Só me resta esperar que, um dia, alguém tenha a vontade de produzir uma versão mais fiel - e para maiores de 18 anos - da estória que tanto me assustou quando criança.