3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Zoeira sem limites: "old style"

"Old style", velha guarda, tão das antigas que o "politicamente incorreto" provavelmente nem havia sido inventado ainda. Assim é Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu! (Airplane! - 1980). Uma comédia escrachada sem medo de piadas racistas, sexualizadas ou mesmo pedófilas. Ainda sim, uma produção de fazer inveja à qualquer projeto atual dos irmãos Wayans.
Piloto automático, o melhor profissional da tripulação!
Referências? Tem sim senhor...
Em um dia comum no aeroporto de Los Angeles (inclua aí uma horda de fanáticos religiosos no saguão, e uma briguinha de casal entre os locutores de anúncios), Ted Striker (Robert Hays) um taxista ex-combatente de guerra apaixonado tenta reatar com a namorada aeromoça Elaine (Julie Hagerty). Ele segue a moça em seu voo para Chicago encarando seu trauma de voo adquirido da guerra. 

Em meio a uma seleta gama de passageiros e tripulação escolhidos à dedos para criar piadas, o serviço de bordo serve peixe estragado. O resultado é muita gente que preferiu não comer carne em estado grave, inclusive os pilotos e o navegador. Como problema pouco é bobagem, as condições climáticas não eram as melhores aquele dia.

Todos em suas posições de acidente!

Dr. rumack, salvando vidas com truques de mágica!
No céu Elaine vai ter que deixar o orgulho de lado e aceitar a ajuda de Ted. Este por sua vez precisa superar seus traumas e pousar um modelo de avião que nunca pilotou. O Dr. Barry Rumack (Leslie Nielsen), é a ajuda em terra, cuidando dos enfermos e fornecendo apoio moral.

Em terra a ajuda vem da descrente equipe do aeroporto de Chicago. O supervisor McCroskey (Lloyd Bridges), logo percebe que precisará de ajuda experiente para auxiliar o pouso e convoca o capitão Rex Kramer (Robert Stack), que só para complicar é um desafeto de Ted. A dupla realmente se esforça para trazer todos em segurança ao chão, mas não esconde nem um pouco sua descrença quanto ao sucesso da tarefa. Mas os destaques aqui ficam por conta do funcionário desobediente e zoeiro Johnny (Stephen Stucker) e da visita dos "abutres da imprensa".

Momento de piada de mal gosto!
É nesse bem estruturado roteiro que cria uma trama concisa repleta de piadas que está o grande acerto de Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu!. Não importa o quão absurdas, escatológicas ou preconceituosas são as piadas, incluídas de forma orgânicas, elas mantém a trama em movimento. Muito diferente da coleção de esquetes que se tornaram as paródias cinematográficas atuais, que param a história sempre que precisam fazer graça.

É verdade, muitas piadas são de gosto duvidoso. A grande maioria usa e abusa de estereótipos e preconceitos. Mas eram outros tempos. E sim, sempre podemos, além de rir, enxergar a crítica social contida em cada uma delas. Outra função essencial do humor, que perdemos atualmente. Rir dos nossos erros, de forma a compreendê-los melhor, e mudá-los. É mais que suficiente para um besteirol de 1980, não?

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Alice através do espelho


Alice através do espelho (Alice through the looking glass, 2016) é uma continuação de Alice no País das Maravilhas, sim, mas tem contexto bem diferente do livro. Aliás, o primeiro longa, com direção de Tim Burton, também pouco tem a ver com o livro original e mais a ver com o universo quase onírico criado por Lewis Carrol. E, seguindo esse pensamento, essa nova produção tem certa coerência. Sem Burton na direção do longa, as cores caprichadas e os efeitos visuais de encher os olhos contam uma estória do Chapeleiro Maluco (Johnny Depp).
 
Chapeleiro (Depp): estaria enlouquecendo de vez?
Alice (Mia Wasikowska) está no mar, capitaneando o navio de seu pai, Wonder, enquanto foge de piratas. Depois de manobra arriscada (e praticamente impossível), ela consegue voltar para casa. Encontra sua mãe enfrentando dificuldades em se manter sozinha na sociedade aristocrata: depois da recusa em se casar com Hamish (Leo Bill) e de se decidir se aventurar no mar, recusando-se a aceitar o padrão para uma dama, a jovem senhora enfrentava o preconceito da sociedade. Forçada a fazer negócios e penhorar o navio que era herança de Alice, esta acaba se desentendendo com a própria mãe em uma festa. Mas, para sua surpresa, Absolem (voz de Alan Rickman, em seu último trabalho) aparece no salão e guia Alice até uma sala onde um espelho a levaria de volta ao País das Maravilhas.


Alice (Wasikowska) e Absolem (Rickman): hora de voltar ao País das Maravilhas

Sua volta era novamente esperada, mas não comemorada: Mirana, a Rainha Branca (Anne Hathaway), o Coelho Branco (Michael Sheen), TweedleDee e TweedleDum (Matt Lucas), a Lebre de Março (Paul Whitehouse) e outros personagens estão preocupados com o Chapeleiro. Este está recluso em casa, triste por não se sentir compreendido. Encontrara ao acaso um chapéu de papel que ele tinha criado quando criança e dado de presente ao pai, e agora estava atormentado pela possibilidade de sua família estar viva. Ciente de que toda a família Hightopp havia sido massacrada pelo monstro de estimação de Iracebeth, a Rainha Vermelha (Helena Boham-Carter), Alice não acredita que possa ajudá-lo. A descrença de Alice só entristece ainda mais o Chapeleiro.

Tempo (Baron-Cohen): seria este o maior vilão de todos?
Num último recurso, Mirana decide que Alice pode ser a única que pode verdadeiramente ajudar o Chapeleiro: como não é uma criatura do País das Maravilhas, ela pode ir até o Castelo do Tempo e usar a Cronosfera para descobrir a verdade. Enfrentando o Tempo (Sacha Baron-Cohen) e viajando para o passado, tentando descobrir o que aconteceu com a família do Chapeleiro, Alice descobre bem mais do que apenas o paradeiro dos Hightopp - mas será que ela consegue voltar a tempo de salvar o Chapeleiro do desaparecimento e o próprio País das Maravilhas de ser destruído pelo Tempo?


Alice mostra o quanto amadureceu

Como disse antes, apesar de Alice ser a protagonista das ações, o filme é voltado para solucionar o drama do Chapeleiro Maluco - praticamente um spin off. Gostei de acompanhar as descobertas de Alice, principalmente as que surgem nos ensinamentos que só a experiência consegue imprimir nas pessoas, como a de que não há um bom sem um "porém" (ditado de vó, mas que se encaixa bem aqui), e de que nem sempre o Tempo é um vilão. Alice amadurece ainda mais do que havia amadurecido na aventura anterior, mas não somente ela - o que é interessantíssimo. As referências ao Tempo e a forma como a estória é desenrolada me lembrou muito a narrativa de Carrol nos livros originais, apesar de não haver nenhuma relação com o "Através do Espelho".

Tempo (Baron-Cohen) na hilária cena do Chá da Tarde:ótimas sacadas
No mais, o visual é feito para deslumbrar e os efeitos (apesar de, às vezes, exagerado) cumprem bem a tarefa. O roteiro, apesar de linear, é bastante eficiente e tem todos os nós amarradinhos - e algumas surpresas incluídas. As piadas a respeito do Tempo são as melhores, numa sequência impagável na mesa do chá. O filme tem um ritmo alucinante, com saltos no tempo e muitos aparelhos interessantes. O elenco todo está "ok", o que não é muito elogioso para o time escalado. O longa deve entreter, especialmente pelo espírito grandioso, mas não é lá muito memorável. Ao menos não fiquei entediada (como aconteceu no seu precursor). Vale a pipoca com os pequenos.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O lado B da fama

Se o filme começa assim, você já sabe como termina...
Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950) é um filme espetacular em vários sentidos. A atuação de Gloria Swanson como a decadente estrela de cinema mudo que preferiu se isolar do mundo a ter que aceitar a mudança é fenomenal, e o carisma de William Holden como o talentoso porém não muito sortudo escritor de cinema Joe Gillis formam a química perfeita para os maiores personagens da trama. Se compararmos com a atual situação do cinema americano, dá para perceber o quanto o filme ainda é atual.

O endereço e o carro onde tudo começa
A era de ouro do cinema mudo acabou e agora Hollywood só tem olhos para os filmes falados, principalmente as grandes produções com algum musical. Nessa seara, Joe tenta emplacar outro roteiro e pagar suas dívidas antes que lhe tomem o carro, mas parece que todas as ideias já foram feitas. Para fugir dos homens que queriam lhe tirar seu único bem, Joe é obrigado a encostar o carro em uma mansão que parecia à muito abandonada na Sunset Boulevard. O que ele não esperava é que ali ainda vivia uma antiga estrela do cinema, Norma Desmond (Swanson), que o estava esperando. Bem, não exatamente a ele, mas ao serviço funerário que faria o enterro de seu falecido bichinho de estimação.

Problemas com auto-estima? Não, estrelas não tem problemas...
Após resolver esse pequeno engano, Joe recebe uma proposta da esnobe senhora: ele poderia trabalhar para ela e ganhar um bom salário se ele editasse seu terrível roteiro de Salomé. Ela havia, por anos, se dedicado à escrita do roteiro, e toda sua dedicação e amor ao cinema mudo estava naquela papelada. Mas aquilo já não servia para o cinema atual, e embora Joe tentasse lhe dizer isso, ela estava completamente surda aos seus apelos de realidade. Sempre seguida por Max (Eric von Stroheim, excelente), seu fiel escudeiro, ela não ouvia qualquer coisa que não quisesse. Joe, vendo que nada poderia ajudar naquele sentido, resolve aceitar a ajuda ofertada. Começa a trabalhar no roteiro e vai, aos poucos, se acomodando à condição de viver na mansão decrépita.

Joe (Holden) escolhe suportar os delírios de Norma (Swanson)
Ao perceber que Norma confundia sua gratidão pelo emprego com amor, Joe tenta romper aquela estranha conexão. Queria voltar à sua vida, à sua juventude, aos sonhos de poder conquistar seu lugar ao sol. Reencontra-se com seu amigo Artie (Jack Webb) e conhece sua noiva, Betty Schaeffer (Nancy Olson) - uma revisora que, aliás, já havia reservado duras críticas a seus roteiros. Mas ela era jovem e estava muito arrependida de sua grosseria, e quis ajudá-lo de alguma Norma. Ao reler um roteiro antigo, descobriu potencial nele. Sua proposta era refinar o texto para que, enfim, os dois pudessem ter uma verdadeira chance em Hollywood. Mas, após um telefonema, Joe descobriu que não seria assim tão fácil.

Betty (Olson) e Joe (Holden): amor proibido
Norma tentara o suicídio depois da partida de Joe, não podendo viver sem ser adorada por quem quer que a conhecesse. Vendo aquela situação, com pena da pobre mulher, ele opta por aceitar sua prisão dourada. Vive para confortá-la, para usufruir com ela dos muitos bens que possui. Seus sonhos de escrever um roteiro próprio e original foram consumidos no papel de ghost writer para Norma, que não desistia da ideia de apresentá-lo a seu diretor favorito, Cecil B. DeMile (ele próprio) - mas um novo encontro com Betty acendera a centelha da criação. Não havia como negar a atração entre eles, e as noites que passava com ela em seu pequeno escritório, criando coisas novas para o roteiro, eram o respiro de alívio para Joe. Seria ele capaz de trair seu amigo Artie? E à sua benfeitora? Que futuro ele poderia prometer à bela Betty?

Norma (Swanson): a fotografia realça a loucura da personagem
Fotografia primorosa (alguns efeitos me pareceram avançados pra época; fico me perguntando como a plateia recebeu aquela tomada "debaixo d'água"), produção de arte luxuosa, trama envolvente, ritmo ágil e atuações magníficas emolduram essa obra-prima do cinema. O final, trágico e emocionante, nos leva a refletir a que ponto o ser humano é capaz de ir quando se trata de seguir os seus sonhos. Tentar nos enganar para viver de sonhos - desses que nunca alcançaremos ou daqueles que já nos escaparam das mãos, e do que seríamos capazes para consegui-los (seja para o bem, ou para o mal). A fragilidade humana sob os holofotes, a efemeridade do sucesso, os percalços da fama. Um filme eterno, atual, essencial na lista de qualquer cinéfilo.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse


Terceiro filme da nova fase dos Mutantes nas telonas, X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016) segue a linha do antecessor, Dias de um futuro esquecido (2015). Com mais estória e menos ação (como o trailer nos leva a crer), o longa começa mostrando o Egito antigo, onde humanos veneravam um deus vivo (a antiga noção do faraó) e se preparavam para mais uma homenagem a ele. En Sabah Nur está velho e precisa trocar sua consciência para outro corpo - seus fiéis ajudantes, quatro no total, encontraram um mutante com habilidades regenerativas (interpretado por Oscar Isaac, de Star Wars - O despertar da Força): assim, seu mestre ficaria menos exposto à morte. Durante a transferência de poder, porém, o mutante é traído: guerreiros humanos tramam para a morte e desaparecimento do mutante superpoderoso, mas seus ajudantes conseguem mantê-lo vivo - embora agora sua história e seu novo corpo estejam soterrados sob toneladas de pedra e areia de sua magnífica pirâmide.

Eric (Fassbender): Magneto tenta se misturar, mas a paz não dura muito
Dando um salto na História, vemos os mutantes lidando com as consequências do último ato de Magneto (Michael Fassbender): há uma nova aura sobre os mutantes, uma espécie de respeito vindo pelos humanos que reconheceram a importância de Mística (Jennifer Lawrence) ao defender a humanidade naquela circunstância, e uma verdadeira devoção dos novos mutantes para a metamorfa. Tentando dar uma nova chance à paz, Magneto, vivendo sob um falso nome, trabalha em uma mineradora em sua terra natal. Vive modestamente e criou uma nova família, com mulher e filha. Mística voltou a usar seu poder para não andar azul por aí, mas não mais por não ter orgulho de ser mutante: apenas para continuar sua luta para libertar os mutantes da dominação humana. Como muitos ainda são tratados como animais de circo, Mística continua a libertá-los - o que aumenta ainda mais sua admiração por ela. É assim que ela recolhe Noturno/Kurt Wagner (Kodi Smith-McPhee) de uma luta mortal contra Anjo (Ben Hardy). 

Jean (Turner), Noturno (Smith-McPhee) e Summers (Sheridan): aprendendo na prática
Enquanto isso, Xavier (James McAvoy) recebe um novo aluno em sua Escola para Superdotados: Scott Summers (Tye Sheridan), irmão do ex-X-Man Destrutor/Alex Summers (Lucas Till), descobre de maneira desagradável que também tem um poder tão destruidor quanto o irmão mais velho (uma das diferenças para os quadrinhos). Lá ele conhece Jean Grey (Sophie Turner, a Sansa de Game of Thrones), Fera (Nicholas Hoult), Jubileu (Lana Condor) e tenta se adaptar à sua nova condição. Do outro lado do mundo, Moira McTargett (Rose Byrne) segue as pistas de uma seita que costumava cultuar En Sabah Nur e acaba acidentalmente completando o processo de transferência: o despertar do mutante causa um enorme tremor, sentido em várias partes do mundo. Na mineradora onde Magneto trabalha, este tremor quase causa um acidente fatal - mas ele impede que uma caldeira cheia de metal derretido caia sobre um de seus amigos e se expõe. Perseguido internacionalmente, ele sabe que precisa fugir dali antes que seja tarde demais.

En Sabah Nur (Isaac): recrutando mutantes para a limpeza do mundo
O tremor também causou instabilidade em outra mutante, Jean. Perseguida por um sonho onde o fim do mundo era feito de fogo e areia, encontra ajuda nas palavras de Xavier. Este, por sua vez, começa a investigar de onde veio aquele tremor e porquê ele abalou tanto Jean. Descobre que Moira estava perto da origem de tudo, e a perspectiva de vê-la abala o coração de Xavier. En Sabah Nur, por sua vez, está chocado com o mundo que o cerca. Percebe que os humanos estão dominando o planeta que ele considera dele e logo decide que precisa "fazer uma faxina". Mas, para isso, ele vai precisar de ajuda - e ele vai recrutar os quatro mutantes mais fortes para ajudá-lo: custe o que custar.

Sim, essa cena acontece!
Para os fãs dos mutantes que já viram essa estória antes (seja no quadrinho ou na animação), vai perceber diferenças grandes. Mas, no fim, o longa funciona muito bem. Bryan Singer ainda está na fase de amarrar as pontas soltas entre a primeira trilogia e preparar o terreno para que os X-Men que a gente está acostumado a ler apareçam nas telas. Uma mexida aqui e outra ali podem incomodar (e muito, como vi alguns colegas reagirem mal às mudanças propostas), mas o filme cumpre o que propõe: a confusão dos jovens mutantes descobrindo seus poderes, a afirmação de Charles Xavier como um mentor excepcional e necessário para o desenvolvimento de todos, a impossibilidade de Magneto se firmar como vilão ou mocinho (a vida e o coração dele são tão perturbados que ele não consegue se encaixar em nenhum padrão - o que, particularmente, o torna um dos mutantes mais interessantes), alívios cômicos realmente divertidos (que aparecem quando você menos espera), introdução de novos personagens e um vilão tão poderoso que nem só a união dos mutantes consegue detê-lo. 

O Apocalipse e seus Quatro Cavaleiros
As atuações de Fassbender e McAvoy são um espetáculo à parte, e Isaac também não faz feio com seu vilão, mas, de novo, quem rouba a cena é o Mercúrio/Pietro Maximoff de Evan Peters. As cenas de ação são o ponto mais fraco do longa, principalmente se comparadas às outras cenas com muitos super-heróis envolvidos (sim, eu falei de Vingadores e Guerra Civil). Há pouco espaço para as esperadas aparições de Tempestade (Alexandra Shipp) e Psylocke (Olivia Munn), o que deve deixar os fãs das duas bem decepcionados, mas o embate final com a participação decisiva delas deve servir para acalmar os ânimos. Mais uma vez, o 3D deixou a desejar - não fez diferença, sinceramente - e o final nos deixa empolgados pela terceira fase dos Filhos do Átomo. Tomara que, a partir de agora, a gente finalmente vá aos cinemas para ver batalhas épicas, já que toda a gênese (mesmo que diferente do original) já foi contada.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A Vingança Está na Moda

Anoitece, e acompanhamos uma misteriosa e elegantíssima mulher chegar a uma cidade aparentemente fantasma: isolada no meio do nada, muito pobre e quase deserta, em nada combina com aquela figura. Myrtle Dunnage (Kate Winslet, cada vez mais linda), conhecida como Tilly, está de volta - e em sua primeira fala já anuncia o que veio fazer ali: "Estou de volta, filhos-da-mãe".


Aos poucos, descobrimos do que se trata a vingança de Tilly, e, surpreendentemente, junto com ela. Voltando à sua cidade natal depois de 25 anos fora, acusada de um homicídio, Tilly foi expulsa da cidade e aperfeiçoou seu dom com os melhores do mundo da moda. Mas precisava voltar para sua cidadezinha por dois motivos: ela não lembrava de ter cometido nenhum assassinato (embora não se surpreenderia se isso realmente tivesse acontecido) e para cuidar de sua mãe, Molly Dunnage (Judy Davis, maravilhosa). Conhecida como Molly Maluca, continuava a morar no mesmo lugar de sempre - a casa no alto da colina de Dungatar. Resgatar a memória da mãe a própria é o principal objetivo de Tilly, o primeiro passo para a vingança ser completa.
Mas esse não era a única meta de Tilly: o acerto de contas com o passado passava por aquela lembrança que ela não tinha, mas não podia parar ali. Todas as pessoas que foram cruéis com ela quando ela ainda tinha apenas 10 anos, aqueles que a afastaram de sua mãe e a abandonaram à vida miserável que a senhora hoje levava, todos os anos torturada pela crença de que era amaldiçoada. Todos eles iam pagar de um jeito ou de outro.
Nesses anos fora, Tilly desenvolveu um talento extraordinário. Exímia costureira, aprendeu a moldar vestidos de forma a realçar a beleza das mulheres - um talento que nenhuma costureira mais próxima daquele fim de mundo que era Dungatar jamais teria. Tilly prova o poder que um vestido tem ao causar durante um jogo de futebol australiano e convence a desajeitada Gert (Sarah Snook, ótima) a usar um de seus vestidos para o baile dos campeões. Assim, ela tinha certeza que a garota conseguiria consquistar o coração de William Beaumont (James Mackay).

Gert chega causando alvoroço no baile, e logo todas as mulheres momentaneamente se esquecem do ódio que sentem por Tilly e lhe encomendam vestidos tão fabulosos quanto os de Gert para... Bem, para qualquer coisa: de trocar lâmpadas a apenas passear pela cidade. Bruxaria de Tilly ou poder da moda? Não importava, desde que estivessem glamorosas. É quando o prefeito da cidade resolve contra-atacar e contratar outra modista. Una Pleseance (Sacha Horler) não tem o mesmo talento de Tilly, mas pelo menos não é uma bruxa da moda.
Apesar do turbulento recomeço, quanto mais o tempo passa, mais as memórias de mãe e filha voltam. A Tilly pode contar ainda com a amizade verdadeira de alguns moradores, como o sargento Farrat (Hugo Weaving, fabuloso) e Terry McSwiney (Liam Hemsworth). As peças do quebra-cabeça vão se encaixando aos poucos conforme a proximidade do casamento de Gert e William, e todos os personagens vão se mostrando muito mais do que apenas aparentam. Muitas surpresas esperam por Tilly e reviravoltas acontecem quando o passado vem à tona.
O longa é um tiro certeiro: a direção de Jocelyn Moorhouse é suave e o bom roteiro flui bem, além de uma ótima produção de arte e figurinos glamorosos na medida (devido à dificuldade de se chegar à cidade, muitas coisas deveriam ser levadas em conta quanto a materiais disponíveis - e até nisso a produção foi atenta) criando a atmosfera melancólica e vívida de um pedaço esquecido do mundo. Um elenco primoroso, onde todos os atores envolvidos parecem muito à vontade em cena e nos dão a impressão de se divertir ao trabalhar, realmente dão o tom do filme. A fotografia, bastante inteligente e eficiente, faz parte da narrativa e acrescenta facetas aos já bem intrigantes personagens. O desenrolar da trama sucede de forma orgânica, sem apressar ou omitir detalhes, e o final é bastante coerente (e, para alguns, pode ser até surpreendente).
Um filme que, apesar de estar na seara dos "livros adaptados" (sem um roteiro original), consegue fugir do lugar-comum e ser uma deliciosa surpresa. Divertido e interessante, tocante e instigante, um ótimo passatempo. Como eu não conhecia a obra original de Rosalie Ham antes, assistir ao filme antes me deixou a estranha sensação de que o livro, agora, vai ter que se esforçar para superá-lo.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Um mocinho fora-da-lei

Os passageiros da diligência: cruzar o deserto era o menor dos problemas
John Wayne é uma figura lendária no cinema americano, e não por menos: foram inúmeros filmes em que ele atuou como o herói americano, o cara certo que faz a coisa certa e salva o dia.  Mas em No tempo das diligências (Stagecoach, 1939) ele não é o mocinho típico: a começar, seu personagem está sendo procurado pela polícia por estar fazendo justiça com as próprias mãos. Sim, senhoras e senhores, John Wayne é um justiceiro neste filme. Mas vamos com calma. Comecemos pelo início.

Ringo Kid (Wayne):  justiceiro e  cavalheiro
Em uma cidadezinha perdida no interior dos Estados Unidos, vemos o preconceito agir com vontade (e maldade): uma jovem senhorita está sendo expulsa da cidade pela "patrulha da moral", e junto dela, um médico. Dallas (Claire Trevor) e Doc Boone (Thomas Mitchell) tem suas razões para estarem vivendo a vida que levam: ela é moça pobre, e como não tinha ninguém para apoiá-la, foi viver da única maneira que conseguia - o que não lhe dava nenhum orgulho; ele, atormentado por seu passado, preferia embebedar-se até esquecer de si próprio - era mais fácil viver assim. Mas, quem são eles para conseguir o perdão e a ajuda da sociedade, não é? Pois bem. Expulsos, seguiriam viagem com a diligência do delegado Curly Wilcox (George Bancroft), que ainda levaria mais alguns passageiros. Lucy Mallory (Louise Platt), uma jovem arrogante e rica, que buscava encontrar-se com seu marido na cidade vizinha; Samuel Peacock (Donald Meek), o vendedor de uísque que encontrou no médico um "prestativo" ajudante; Sr. Hatfield (John Carradine), um galante cavalheiro que, por acaso, estava fascinado pela bela Lucy e ofereceu-se a acompanhá-la na viagem - vai que a moça fica com má fama por causa da companhia...; e Henry Gatewood (Berton Churchill), um banqueiro muito suspeito que carregava uma maleta e tinha muita pressa para sair daquela cidade. 
Já imaginou a dificuldade que foi filmar nesse lugar?
Antes de partir, o delegado recebe uma mensagem urgente do exército: a diligência deveria levar a mensagem até Lordsburg, o destino final da viagem, o mais depressa possível. Eles teriam escolta por um trecho, mas o resto do caminho seria por conta deles. Os índios estavam bastante agitados e mutos eram os ataques às diligências, e todos os passageiros sabia o que significava viajar naquelas condições. Mas, por um motivo ou outro, todos deveriam seguir em frente. No meio do caminho, Ringo Kid (Wayne) encontra uma vaga na diligência para seguir até o fim da viagem. Lá, segundo teve notícias, estavam os responsáveis pela morte de seu pai e irmão. Mesmo contra a vontade do delegado, este resolve ajudá-lo - afinal, fora um grande amigo do pai de Ringo. Com o passar do tempo, as coisas vão ficando cada vez piores.

E ainda tem espaço pra um romance!
Ao pedirem abrigo em uma estalagem, o preconceito fica cada vez mais evidente: o banqueiro, a aristocrata e o cavalheiro se recusam a tomar lugar próximos à prostituta e o bêbado. Contrariando as regras da sociedade, o justiceiro se recusa a tratar a jovem como uma degenerada e sempre lhe é cortês - e exige cortesia dos outros também. Do médico bêbado, confiava na competência dele como nenhum outro homem naquela diligência - nem ele próprio. A viagem ficou ainda mais difícil depois que foi preciso uma pausa de emergência: Lucy entrou em trabalho de parto em uma estalagem e foi obrigada a engolir seu preconceito com a senhorita Dallas e a mulher do estalajadeiro (que era apache) para que pudesse sobreviver. Enquanto os homens pensavam uma estratégia, mais um revés: a tribo roubou os cavalos de reserva da diligência e logo eles não tinham mais escolha. Precisavam sair dali ou seriam chacinados. Ao fugirem, um ataque indígena quase os matou - o grande guerreiro Gerônimo e seu grupo apache os atacou, mas os homens conseguiram impedir o pior. Ao finalmente chegarem em seu destino final, todos tem o seu o acerto de contas - em especial, o encontro entre Kid e os irmãos assassinos prometia parar a cidade.

Ringo (Wayne) e Dallas (Trevor): fotografia impecável
A cena de perseguição da diligência é tão espetacular que, mesmo tantos anos depois, empolga a gente que está sentado tranquilo no sofá. Tem muito diretor que precisa dar uma relembrada nesse clássico para aprender que nem só de explosões se faz uma boa cena de ação: a edição das imagens, a velocidade com que os participantes estão fugindo e perseguindo, a tensão da situação desfavorável (chega uma hora em que a gente acredita que não vai mesmo sair ninguém vivo dali)... Um trabalho de gênio de John Ford. Sem dúvidas, esse filme é inspirador: tanto que Orson Wells e Akira Kurosawa disseram ter se inspirado nele para criar suas obras-primas. Além disso, a questão social fortemente presente no roteiro é um deleite. O preconceito escancarado e fortemente rebatido com gentileza é um tapa na cara da sociedade (inclusive a atual, que anda muito nervosa ultimamente), um heroi com uma história pessoal trágica e violenta que consegue ser uma pessoa melhor que um bando de cavalheiros... É de tirar o chapéu! A fotografia incrível nos presenteia com algumas cenas lindíssimas, como a sequência da noite na estalagem e o primeiro "encontro" entre Ringo e Dallas, e toda a passagem por Lordsburg. Uma boa pipoca para aquela tarde preguiçosa, e mais um clássico que eu me surpreendi ao ver.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Angry Birds - O filme

Para quem nunca ouviu falar do jogo dos passarinhos brabos e não sabe que eles tem uma raiva mortal dos folgados porcos verdes, Angry Birds - O filme (Angry birds, 2016) veio solucionar os seus problemas. Apresentando os principais personagens do viciante joguinho, o filme é um passatempo divertido para crianças e também para os pais - que podem se surpreender com algumas piadas.


Red (Marcelo Adnet na versão brasileira, Jason Sudeikis no original) viaja pela floresta enfrentando vários desafios para não chegar atrasado em seu trabalho. Mas, como não pode voar (assim como todos os outros passarinhos da ilha), ele tem um longo caminho ao estilo Tarzan para fazer sua entrega. Chegando atrasado e tendo problemas com o cliente, Red perde a cabeça quase que tudo dá muito errado. Como na Ilha dos Pássaros, todos os passarinhos vivem em harmonia, felizes e em paz, Red foi condenado pelo júri a passar por uma "reabilitação": controlar a raiva era a lei mais importante do lugar, e somente quando Matilda (Dani Calabresa/Maya Rudolph) dissesse que ele estava curado, ele poderia voltar para sua vida normal. Bem, não seria nada fácil ele manter a calma com aquela turma.

Totalmente compreensível a raiva de Red (Adnet) com esse boneco aí
Na aula de Matilda, que aparentemente também tem problemas para controlar sua calma, Red conhece os seus futuros melhores amigos: Chuck (Fábio Porchat/Josh Gad) é um passarinho amarelo e apressado demais que adora se meter em confusões; Bomba (Mauro Ramos/Danny McBride) pode literalmente explodir se assustado, então aprender a se controlar é muito importante; e Terêncio (participação de Sean Penn no original) é bem caladão e amedrontador - mas que, no fundo, tem um coração maior que ele.

Dá pra confiar nesses porcos? Não, né...
Quando a Ilha dos Pássaros recebe uma visita inesperada de um barco vindo da Ilha dos Porcos, e de dentro dele surge um porco verde chamado Leo (Guilherme Briggs/Bill Hader) e dois ajudantes prometendo muita diversão, todos os outros inocentes passarinhos ficam animadíssimos - menos Red. Ele desconfia que algo muito errado está acontecendo, mas ninguém lhe dá ouvidos. Quando ele resolve invadir o navio, descobre que eles tem muitos artefatos estranhos, como camas elásticas e dinamites, e muitos outros porcos escondidos no porão. Tentando desmascarar o vilão, Red acaba sendo novamente ignorado pelos outros pássaros. Buscando conselho com aquele que seria o mais sábio e importante pássaro de todos os tempos, o lendário Mega Águia (Márcio Simões/Peter Dinklage), que há tempos se isolou no topo da montanha e nunca mais fora visto por ninguém. Red, Chuck e Bomba vão atrás de conselho, descobrir o que ele sabe sobre os visitantes - mas a penosa (com perdão do trocadilho) viagem não se mostra muito frutífera. Com o ego maior do que a barriga, o velho herói já não parece muito bem da cabeça. Desolados, eles voltam para a ilha sem nenhuma ajuda.

A ajuda vem do alto... Ou não!
Quando chegam, uma enorme festa rolava e todos os pássaros estavam empolgadíssimos e, enquanto isso, os porcos estavam secretamente roubando os ovos de toda a ilha. O trio tenta impedir o roubo, mas nenhum de seus esforços é recompensado. Desesperados, sem saber o que fazer, os outros pássaros pedem a ajuda de Red. Como salvar seus filhotes se nenhum deles sabia voar? Agora, não havia espaço para a paz e a harmonia: agora era a hora de ficar com muita raiva!

Chuck (Porchat) e suas maluquices: uma das coisas mais engraçadas do longa
Um roteiro bem amarradinho, com muitas piadas físicas (torta na cara, machucados e quedas diversos), além dos gráficos, do colorido e do carisma dos personagens (que coisas mais fofas os filhotinhos!) garantem a atenção dos pequenos do começo ao fim. Algumas piadas e referências a outros filmes vão entreter os adultos que acompanham as crianças, e vão trazer sorrisos sinceros aos mais atentos. A dublagem em si, se não foi um empecilho, tampouco foi brilhante - fica bem evidente o esforço dos comediantes brasileiros, mas basta ouvir os personagens dublados pelos experientes Ramos, Simões e Briggs para se notar a diferença. Um filme típico para a diversão em família, e promete algumas sequências: afinal, se essa foi apenas a introdução aos personagens, ainda tem muitas "fases" divertidas ainda por vir.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Estes caras não tem uma guerra para lutar?

Ao invés de perder tempo com boxe, bebidas, garotas, passeios na praia e brigas de bar? Ok, admito deve ser difícil de se concentrar em uma guerra quando sua base é no, até então pacífico, Havaí. Mas, até a chegada dos japoneses esses rapazes tinham uma vida muito distante do conceito de guerra que conhecemos em A um passo da eternidade (1953).


Prewitt (Montgomery Cliff) chega nesta nova base paradisíaca, e logo complica a própria vida. Conhecido campeão de boxe aposentado, se recusa voltar à ativa e completar o time de seu pelotão. Resultado: bullying! O que no exército significa, além de colegas pegando no pé, trabalho forçado sem folga, quando seu comandante não tem a devida noção de prioridade. Ainda sim, Prewitt arruma tempo para se encantar, e construir uma relação peculiar com Lorene (Donna Reed), funcionária de um clube para rapazes.

Seu único amigo no pelotão Angelo Maggio (Frank Sinatra, o melhor em cena), é aquele quem proporciona um pouco de diversão à Prewitt, inclusive o encontro com Lorene. Mas, também é eficiente em trazer mais problemas. Sempre bêbado parece empenhado em arrumar problemas com quem não deveria, e isso trará consequências.

Enquanto isso o Sargento Warren (Burt Lancaster) se apaixona pela mulher do chefe. A esposa do capitão, Karen (Deborah Kerr), vive um casamento de fachada, e também encontra conforto ao lado do belo Sargento. A dupla precisa fazer tudo às escondidas, inclusive planejar o divórcio da moça. Mas, não sem arrumar um lugarzinho deserto para protagonizar a mais ousada cena de beijo da época.


Traumas passados, abuso de poder, bullying, insubordinação, alcoolismo, romance (proibido, ou apenas complicado), adultério, todos temas ainda atuais. Daqueles que não saem das listas de discussão. Mas tudo parece um esforço sem sentido quando, já conhecemos o desfecho daquela base militar em particular.

É possível que para os estadunidenses em geral, o longa represente uma agressão, do que era bom sem seu "american way of life". Os problemas do dia-a-dia, bruscamente interrompidos, e perdendo importância diante dos horrores da guerra. Especialmente na época que foi lançado, quando a memória da nação ainda era muito fresca.

Para nós, brasileiros de 2016, que nasceram muito depois e aprendemos sobre essa época em livros de história e outros filmes, A um passo da eternidade soa como uma curiosidade. Um retrato de outra época, com um ritmo ao qual não estamos acostumados. Dilemas que conhecemos, mas que nos causam pouca empatia.

A melhor parte é finalmente conhecer as circunstâncias de um beijo famosos, e altamente referenciado. Apenas isso!