3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Lar das Crianças Peculiares


Uma realização peculiar para uma fábula peculiar - creio que essa seja a melhor forma de definir este O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's home for peculiar children, 2016). O longa de Tim Burton cumpre a função de apresentar um mundo diferente, mas deixa a desejar aos fãs que esperavam voltar a vê-lo em sua fase mais fantástica ou sombria.

Jake Portman (Asa Butterfield, que tá enorme) é um adolescente comum que vê sua vida virar de ponta-cabeça quando seu avô, Abe Portman (Terrence Stamp), sofre um ataque: ele sofria de demência, e acreditava estar sendo perseguido por monstros. Jake acaba descobrindo que os monstros que o avô lhe contava estórias realmente existem da pior maneira.

Crianças peculiares na sessão diária de filme: momento divertido
Com dificuldades de acreditar no que viu, ele precisa de ajuda médica para se equilibrar e voltar à vida normal. Mas um presente de aniversário deixado por seu avô antes de sua morte o faz querer confrontar de vez a fantasia que o avô fizera tanta questão de manter incutida em sua cabeça: as pistas encontradas no livro e no cartão postal, recebido de há pouco tempo, comprovavam a ligação entre as antigas estórias pra dormir que ele lhe contava e a realidade de seu passado no exército e as viagens pelo mundo que o afastavam de sua família.

Sra. Peregrine (Green): protegendo e ensinando as crianças
 Jake acaba viajando com seu pai até o País de Gales com o filho atrás do endereço do orfanato onde seu avô morou quando criança. O rapaz está animado por finalmente ter uma chance de descobrir a verdade. Ao chegar ao local, ele descobre que o prédio está totalmente destruído desde 1943, quando foi alvo de uma bomba nazista. Chateado por ter pensado que o fantástico realmente não existia (e que era apenas uma fuga do passado traumático de seu avô), Jake é surpreendido pelas crianças peculiares quando volta a visitar o lugar com mais calma.

Familiares a ele, pois os conhecia pelas fotos que Abe guardara, ele as segue até o período de tempo onde eles estão escondidos. É assim que ele descobre que todo dia é dia 03 de outubro de 1943 para eles, e como isso acontece. Recebido alegremente pela própria Sra. Peregrine (Eva Green) e pela maioria das crianças, Jake só não compreende porque nenhum deles quer lhe contar mais sobre seu avô. Mas acontecimentos estranhos começam a acontecer na ilha onde eles se encontram, e Jake é um dos principais suspeitos: preocupado que o filho estivesse em um acesso de loucura, seu pai decide ficar mais presente. Mas uma informação confidencial à sra. Peregrine, enviada por seu avô, se faz urgente: um ataque recente a um porto seguro semelhante ao orfanato pode por as crianças em perigo - e Jake pode ser a única pessoa capaz de evitar o desastre.

Jake (Butterfield) em ação: só precisa aprender a mirar melhor
O filme entretém do começo até o fim, mas não permanece na memória por muito tempo depois que saímos da sala de cinema. As personagens são divertidas, mas as peculiaridades acabam sendo mal aproveitadas - em algumas sequências é bem óbvio que elas poderiam ter feito muito mais do que fizeram. A direção de arte é impecável, mas a fotografia (por incrível que pareça) deixa a desejar: o efeito azulado e frio da noite americana não funcionou como deveria, e deixou saudades de uma paleta de cores mais impactante como em outras obras do diretor.

Asa Butterfield se dedicou à construção de Jake e o faz parecer realmente verossímil - infelizmente, as outras crianças passaram longe de atingir o mesmo resultado. Com o elenco de adultos, os nomes mais importantes também não se sobressaem. Ao passo que Samuel L. Jackson interpreta vilão Barron de forma caricata "no limite" - ele parecia realmente estar se divertindo no set, dame Judi Dench mal aparece em cena. Eva Green fez de sua Peregrine uma mistura de Nanny McPhee e a bruxa Angelique, de Sombras da Noite (também de Tim Burton). Às vezes os trejeitos meio robóticos chegavam a incomodar. E ainda há um agravante: conversando com leitores da obra de Ranson Riggs, descobri que foram feitas mudanças significativas em personagens e funções na estória, o que pode levar a algumas reações bastante negativas por parte dos fãs da trilogia. Para quem não leu, a mudança funciona - o roteiro, apesar de uma falha aqui e outra ali, é bem amarradinho.

Emma (Purnell): efeitos bacanas em cena impactante
Mas apesar de todos essas dificuldades, o filme consegue agradar. "Satisfatório" seria a melhor definição para o resultado do longa, que manteve o ritmo constante de ação, distribuiu as doses de drama e comicidade em partes iguais, e ainda trouxe algumas imagens realmente belas (a sequência no salão do navio afundado é interessantíssima). Comparando aos outros blockbusters desse ano, o filme se mantém no saldo positivo - mas se comparado aos outros trabalhos do diretor, O orfanato da Sra. Peregrine deixa muito a desejar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O bebê de Bridget Jones

O bebê de Bridget Jones (Bridget Jones' baby, 2016) é uma agradável surpresa para os fãs do primeiro filme que não ficaram tão fãs assim da continuação. Em tempo, mesmo aqueles que curtiram o segundo longa da solteirona mais amada (e disputada) do mundo, também irão se divertir com a sequência, que recuperou o tom despretensioso do início e conseguiu juntar um bom elenco em um roteiro bem ajeitado.

Bridget (Reneé Zelwellger, quase irreconhecível) está sozinha e abandonada de novo em seu apartamento em pleno aniversário. Em flashback, descobrimos como isso aconteceu. Todos os seus amigos mais antigos tem filhos e/ou algo mais importante para fazer, os novos do trabalho estão cada um curtindo sua solteirice e Bridget parece que não se recuperou ainda do término com Mark Darcy (Colin Firth, maravilhoso).

Para completar, ela ainda vai ao enterro de Daniel Cleaver (Hugh Grant, que não aparece no longa) e faz mais um dos seus tenebrosos discursos em público. Com a nova chefe no trabalho, mais nova e cheia de pose, ameaçando a estabilidade de todo mundo, abalada com a realidade de estar novamente solteirona aos 40, Bridget finalmente resolve arriscar.

Junto com a amiga Miranda (Sarah Solemani), apresentadora do programa que ela supervisiona, Bridget vai ao seu primeiro festival de música. Obviamente, ela não estava nem um pouco preparada. O desafio que sua amiga lhe propõe: transar com o primeiro cara que a abordar. Esse cara é Jack Qwant (Patrick Dempsey), e de cara eles se dão bem. Ainda relutante em aceitar o desafio da amiga, ela deixa a oportunidade passar e vai curtir o festival. Mas o destino parecia querer dar uma forcinha para Bridget e Jack.

Pouco depois, foi a vez de Bridget reencontrar Darcy. Durante o batizado de seu afilhado, eles, como padrinhos, acabam se reconectando. Mas para Bridget fica claro porque eles não deram certo, e antes que pudesse se magoar, ela vai embora. Depois dessa maratona emocional, ainda havia a pressão no trabalho. E tudo o que ela menos esperava era ficar grávida àquela altura do campeonato.

Ao descobrir o que acontecera, veio a dúvida: quem seria o pai? Quem era aquele Jack, que ela só vira uma noite? Será que, com um bebê na equação, as coisas poderiam se acertar com Mark? E no emprego? Como ficariam as coisas? Bridget não sabe, mas vai resolver tudo isso do jeito dela.

O bebê de Bridget Jones lembra bastante o primeiro longa da franquia, em que se propunha a ser uma comédia leve e até um tanto previsível, porém bem executado e resultando num filme acertado em que se propõe. O fato é que todos adoram as trapalhadas de Jones e como ela acaba sendo ferrenhamente disputada por dois homens maravilhosos (cada qual a seu jeito) e improváveis pares românticos. Com a idade dos personagens, surgem novos desafios e inseguranças - e essa nuance é bastante interessante, o que diferencia este filme dos outros do mesmo gênero.

Mas apesar de algumas situações realmente hilárias e participações especialíssimas de Emma Thompson e Ed Sheeran (que rendeu uma das melhores piadas do filme), o longa não supera algumas falhas importantes. O roteiro, apesar de enxuto, não surpreende de forma alguma. Há problemas sérios de continuação e maquiagem (os cabelos e rugas de Darcy podem mudar inclusive na mesma cena) e muitas situações acabam sendo variações do que deu certo antes.


Todo o elenco de apoio reaparece em algum momento, o que é fofo, mas ele não são tão relevantes na vida de Bridget quanto eram antes - e também não há destaque para os novos personagens. Algumas soluções são um tanto óbvias e até forçadas, além de o novo par romântico de Jones, Jack, não ser tão charmoso e irresistível quanto o anterior, Daniel.

Ironicamente, mesmo com vários fatores contra, o filme resulta em algo mais que satisfatório. Parece mesmo com a vida da personagem, que faz tudo errado e, no fim, acaba dando tudo certo. Vale pela nostalgia, pelas gargalhadas genuínas e pelo desfecho (um tanto previsível, admito) feliz. Mas, sabe como é... Nada dura para sempre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sete homens e um destino

Um faroeste moderno à moda antiga. Acho que é assim que posso definir essa ótima surpresa que é Sete homens e um destino (The magnificent seven, 2016). A estória clássica do mocinho versus bandido, onde o gatilho mais rápido vence, ganha bons ingredientes sem perder o charme clássico do gênero.

A cidadezinha de Rose Creek é formada por homens e mulheres camponeses, em sua maioria. Mas a ambição sem limites de Baetholomeu Bogue (Peter Saarsgard), que deseja explorar todo o ouro da região. Revoltados com a forma coo são explorados, alguns moradores resolvem se reunir em um comitê e decidir o que fazer: uns querem paz, outros querem luta, outros quer fugir, outros ainda preferem negociar. Mas Bogue decide por eles: decidido a dar uma lição contra quem quiser se opor a ele, deflagra um massacre na cidade.

Pouco tempo depois, em outra cidade perto dali, o justiceiro Chisolm (Denzel Washington) chega em seu cavalo e logo a cidade sabe que vem encrenca por aí. Buscando por um fugitivo, encontra Joshua Faraday (Chris Pratt, também conhecido como Starlord) ganhando a vida como sabe -roubando no jogo. Este fica impressionado com a forma como Chisolm age e como é respeitado, embora ele próprio também seja tão perigoso quanto. Depois de se apresentarem, cada um segue seu rumo. O que eles não esperavam era que teriam um destino a cumprir.

Emma Cullen (Hayley Bennet, uma grata surpresa) é viúva de um dos homens assassinados em Rose Creek. Ela e seu amigo Teddy Q. (Luke Grimes)resolveram buscar ajuda para vingar sua cidade. A princípio pouco interessado, ele viu o desespero dos dois e a determinação de Emma. Ao ouvir quem havia tomado a cidade, ele decide que irá ajudar. Mas, para isso, precisará de ajuda.

Assim, Faraday é o primeiro a ser recrutado. Indo com o grupo mais por gosto pelo perigo do que pelo dinheiro, acaba sendo enviado por Chisolm para recrutar o lendário Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke, excelente) e acaba por convence-lo a fazer negócio. No pacote, fora incluso Billy Rock (Byung-hun Lee, em ótima parceria com Hawke), imigrante chinês mais que habilidoso e novo braço direito de Goodnight.

Chisolm consegue recrutar Vásquez (Manuel García-Rulfo), outro procurado de sua lista, e juntos eles partem para mais um último recrutamento: Jack Horne (Vincent D'Onofrio, maravilhoso). Renimado caçador de índios, já estava velho e sem trabalho. Mesmo ele não sendo mais o mesmo homem que era, eles precisavam seguir adiante. Havia pouco tempo antes que Bigue retornasse de sua viagem de negócios, e aquela era a janela de tempo mais preciosa e curta para agir.

Sendo assim falta apenas o sétimo e último homem mais perigoso da região para termos o nosso magnífico grupo, certo? Bem, essa é uma parte que eu não gostaria de estragar.
O filme tem vários acertos, a começar pela escalação do elenco. Todos parecem bastante confortáveis com os papéis a que foram designados, e o grupo agindo na tela tem bastante química. Fotografia, direção de arte e edição são acertadas, enfatizando a beleza das cenas de ação sem jamais roubar a cena. Apesar do ritmo mais ágil, típico dos roteiros modernos, há espaço para várias tomadas lentas como nos velhos clássicos de faroeste. É bastante interessante ver como os elementos novos e antigos se misturam harmonicamente no longa, e o resultado é bastante agradável.

O longa tem boas chances de fazer sucesso nas bilheterias brasileiras, pois o bom humor bem pontuado e as explosivas e rápidas cenas de ação devem agradar ao público mais jovem e o clima nostálgico embala até os que não são muito fãs dos faroestes tradicionais - mesmo àqueles que, assim como eu, não assistiram ao clássico original. Ótima pedida para o fim de semana.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ok, escolha não escolher, mas sustente isso!

Escolha vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma merda de uma televisão grande, escolha máquinas de lavar, carros, CD players e abridores de lata elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo, e plano dentário. Escolha prestações fixas para pagar. Escolha uma casa para morar. Escolha seus amigos. Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine. Escolha um terno feito do melhor tecido. Escolha se masturbar e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo. Escolha sentar no sofá assistindo programas que nada te acrescentam, game shows, estufar-se comendo um monte de porcarias. Escolha apodrecer no fim de tudo, numa casa miserável, envergonhando os pirralhos egoístas que você gerou para te substituírem. Escolha seu futuro. Escolha sua vida. Mas por que eu iria querer me preocupar em fazer coisas como essas? Eu escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa. E a razão? Não há razões. Quem precisa de motivos quando se tem heroína?
Ah.... esse monólogo despejado sobre o expectador em um ritmo frenético, durante uma fuga com o sotaque charmoso de Ewan McGregor parecia tão promisso inicialmente não é? Até que ele chega à parte dos motivos e eles se resumem à heroina. Aí não demora muito para você perceber, que o discurso de "escolher, não escolher" é vazio e um disfarce para as verdadeiras escolhas que aqui são as mais idiotas possíveis. Como poderia ser diferente? Os personagens estão chapados.


Os amigos Mark Renton (Ewan McGregor), Sic Boy (John Lee Miller), Spud (Ewen Bremmer), Tommy (Kevin McKidd) e Begbie (Robert Carlyle), são jovens, educados e com boas condições de vida, e como muitos escolhem a vida louca das drogas. Cada um com seu narcótico, estilo e falsas tentativas de ficar sóbrios. Acompanhamos suas desventuras pela cidade de Edimburgo, e os extremos de seus vícios, atitudes impensadas e relacionamento nada construtivo. Nem mesmo problemas com a justiça colocam um freio no grupo.

Super elogiado na ocasião de seu lançamento (1996), o filme abordaro extremo da desilusão em uma geração regida pela sociedade de consumo. Estes adotam a marginalidade como protesto, o que não é uma boa escolha afinal. O retrato de uma época

Trainspotting - sem limites, é uma excelente adaptação. Uma produção bem dirigida, com ritmo frenético e um elenco de "futuras" estrelas, em um eficiente primeiro trabalho de peso. Entretanto é 2016, o mundo mudou, filmes inspirados nestes foram feitos à exaustão e agora. O resultado: se você, assim como eu, só o viu agora este longa soa apenas como mais um deles.

Um pensamento fica com certeza: não importa quais sejam minhas escolhas, estou feliz por não precisar ver a supra-mencionada cena do banheiro, ou um bebê mecatrônico no teto, para não escolher o mesmo caminho de Renton e cia.