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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tempestade - Planeta em Fúria


Da seara de "filmes-catástrofe", o que a gente espera? Muita destruição em massa, cenas de fuga alucinante e um final feliz. Tempestade - Planeta em Fúria (Geostorm, 2017) tem tudo isso, mas parece que a receita desandou em algum ponto. Para começar, acho que essa história do "único homem capaz de resolver os problemas e salvar o mundo" já está muito batida e fora de uso. A era dos lobos solitários defensores da humanidade já ficou para trás, lá em 1990/2000. No século XXI tem muito mais condições de conseguir resolver os problemas em grupo. Mas, vamos lá.

A sobrevivência do nosso frágil ecossistema depende agora da monitoria de satélites espaciais - e do bom relacionamento entre dois irmãos, Jake (Gerard Buttler) e Max (Jim Sturgess) Lawson. Max, o mais novo, precisa cuidar do gênio forte do irmão Jake, o responsável técnico da Dutch Boy - a estação espacial responsável pelo controle da rede planetária de satélites que monitoram as mudanças climáticas - porém nem sempre é ouvido ou respeitado. Assim, Jake acaba sendo expulso do programa enquanto Max é promovido, o que racha a já frágil conexão entre eles.

Já imaginou uma cidade no deserto completamente congelada?
Mas um misterioso incidente metorológico acontece: uma cidade afegã foi completamente congelada, causada por um aparente defeito no satélite que a monitorava. Pouco tempo depois foi a vez de Hong Kong sofrer com uma aparente explosão de gás desproporcional (provavelmente causado pelo satélite da cidade), e a suspeita de um defeito crítico na Dutch Boy leva o conselho do presidente Palma (Andy Garcia) a ceder e chamar Jake de volta. Mesmo receoso de reencontrar o irmão após anos sem falar com ele, Max recebe de Dekkom (Ed Harris), o Secretário de Defesa, a missão de convencê-lo a consertar a estação, pois era primordial para a política do país entregar para o Conselho Internacional um aparelho funcional.


Depois de certa relutância, Jake aceita voltar à estação que ele praticamente criou. Ao chegar na estação, as coisas estão um pouco diferentes: a comandante Ute Fassbinder (Alexandra Maria Lara) apresenta a nova equipe e as novas circunstâncias da Dutch Boy. Alguns acidentes envolvendo a tripulação levam Jake a pensar em uma espécie de sabotagem - e ele vai precisar da ajuda do irmão para conseguir descobrir quem está por trás disso e impedir que as alterações criadas pela estação espacial desencadeiem uma reação catastrófica que pode dizimar a vida na Terra.

A tripulação só podia assistir à catástrofe na Terra: o tempo para salvar o mundo está acabando

Então temos um cenário bastante alarmante e uma boa premissa, com pano de fundo político intrigante e um elenco estelar. Mas a coisa toda é tão previsível que nem as piadas (supostamente inseridas para aliviar a tensão inexistente) servem para divertir. De fato, as gracinhas feitas com filmes e personagens anteriores de Buttler (como batizar os satélites de "rock'n'rolla", mesmo nome de um famoso filme em que ele era protagonista) seriam mais bem aproveitadas se houvesse algo mais prender a atenção da gente. As falas são piegas, as atuações são sofríveis - especialmente as de Abbie Cornish, que faz Sara Wilson (namorada de Max e chefe de segurança do presidente Palma) e Andy Garcia, que está tão burocrático que chega a incomodar. Nenhuma das "viradas" do roteiro é realmente surpreendente. 

Ute (Lara) e Jake (Buttler): unindo forças para salvar o planeta
Apesar disso, os efeitos especiais apocalípticos são muito bons, e isso eu preciso reconhecer. A destruição do planeta (e aqui incluo uma impagável cena de catástrofe na praia de Copacabana) é caprichada, mas só isso não é o suficiente para fazer o filme funcionar. De fato, acho que o maior problema é que o diretor e roteirista Dean Devlin quis passar uma mensagem maior em um filme de ação, mas não conseguiu atingir o alvo. A ideia de que um inimigo em comum (no caso, a natureza em fúria) seria um elo para redimir a humanidade já está mais do que desgastado e a trama política que deveria sustentar o arco mais denso é frágil demais. Tempestade - Planeta em Fúria é um filme que vai passar em branco, mas que pode agradar a quem é fã do gênero.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Além da Morte


A proposta de Além da Morte (Flatliners, 2017) é ser um filme de suspense diferente. O que chega a ser uma pena, porque enquanto o diretor Niels Arden Oplev (Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Mr. Robot) se propõe a fazer o famoso "feijão com arroz" que o gênero pede de forma impeável, o filme anda com muita desenvoltura e sucesso - mas é justamente na hora do "fazer diferente" que ele desanda. O final meio esquisito do roteiro de Ben Ripley é que estraga, porque tinha em mãos excelentes produção, diretor e elenco para fazer deste, talvez, um bom exemplo de filme de gênero. 

O grupo de estudantes pesquisadores: resultados empolgantes porém perigosos
Courtney (Ellen Page) é uma estudante de medicina que sobreviveu a um acidente de carro há alguns anos, no qual sua irmã mais nova, Tessa (Madison Brydges), acabou morrendo. Enquanto faz residência no hospital universitário, ela fica obcecada pelo que acontece no pós-morte. Determinada a fazer experiências sobre o tema, ela acaba atraindo seus amigos Sophia (Kiersey Clemons, que será Iris West no próximo filme do The Flash), Jamie (James Northon, de Rush - No Limite da Emoção), Marlo (Nina Dobrev, do seriado de tv Vampire Diaries) e Ray (Diego Luna) para participarem do perigoso processo.

Como são todos médicos residentes, ela confia que eles terão sucesso em trazê-la de volta após uma morte controlada e conseguir mapear o que acontece em seu cérebro nesse período. Mesmo que uns estivessem mais assustados, outros animados, ou até relutantes, todos acabam envolvidos no procedimento. E uma vez que Courtney retorna, a maioria quer participar - principalmente porque, depois do experimento, a jovem parecia ter se tornado um gênio da medicina. Mas nem tudo são flores: os próximos colegas a passar pela experiência e a própria Courtney vão descobrir que a mente pode pregar peças muito perigosas quando ativada daquela forma.

Ray (Luna), Marlo (Dobrev) e Courtney (Page): encabeçando o bom elenco

Dito isso, preciso completar que, até aqui - com os amigos aprofundando os laços de amizade e descobrindo os riscos de se experimentar a morte controlada - o filme consegue prender a atenção. Até mesmo quando os fantasmas dos passados vêem atormentar os que passaram pela experiência é bacana: clichês como "o barulho na casa quando o personagem deveria estar sozinho" e as alucinações que eles sofrem são bem feitas, criando o clima perfeito de tensão e não tem nada de gratuitas. Ponto muito positivo. O problema aqui é a resolução final. Soa boba, depois de tudo o que eles passaram até ali - além de frustrar o espectador por não entregar o banho de sangue prometido pelo crescente clima sombrio. Uma pena.

Kiefer Sutherland faz uma ponta como o médico professor do grupo: homenagem ao longa de 1990
O elenco, encabeçado por Page, Luna e Dobrev dá conta do recado. A tímida participação de Kiefer Sutherland é quase desnecessária, porém é uma homenagem à versão original de 1990 do longa (Linha Mortal, para nós), que tinha ainda Julia Roberts, Kevin Bacon e William Baldwin sob direção de Joel Schumacher (cujo trailler, aliás, me deu vontade de ver essa pérola). No fim, Além da Morte é um bom passatempo, mas será facilmente esquecido após o fim da sessão. 

sábado, 14 de outubro de 2017

Pequena Grande Vida



Contando com muito bom humor, Pequena Grande Vida (Downsizing, 2018*) é um olhar crítico sobre a hipocrisia. Em tempos de Trump no governo americano falando em "tornar os Estados Unidos grande de novo" e as tecnologias e discursos engajados - porém pouco eficientes - para salvar o planeta da destruição, o diretor Alexander Payne não tem medo de pôr o dedo na ferida.

Após uma experiência científica revolucionária - pela primeira vez a ciência conseguiu reduzir pessoas e animais sem que houvesse qualquer prejuízo na saúde destes - o mundo mudaria para sempre: se toda a população aceitasse diminuir, não haveria mais problemas com escassez de alimentos. Vivendo em cidades menores, produzindo menos lixo, consumindo muito menos do que pessoas de tamanho normal, essa seria a solução para os problemas do mundo. Certo? Vejamos.

Dez anos depois, a miniaturização já é uma realidade. Várias comunidades espalhadas pelo mundo são prósperas e vendem a ideia do "sonho americano" como água no deserto - afinal, o pouco dinheiro no mundo grande se torna uma fortuna quando você aceita se miniaturizar. Quem não quer viver uma vida de luxo, segurança e conforto? Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig) são um casal como outro qualquer. Empolgados pela iniciativa de fazer o mundo melhor e pela oportunidade de finalmente conquistar uma vida boa, eles aceitam o processo. Mas nem tudo acaba sendo como eles imaginaram.

E aí temos esta pérola: uma pequena alfinetada, polida e redondinha, para a gente entender que nem sempre as boas intenções são suficientes - e que nem sempre o que parece altruísmo o é de verdade. As doses generosas de crítica bem humorada nos levam a refletir sobre as relações humanas em vários níveis, e o quanto nossas ações são mais importantes que nossa palavra. De forma leve e divertida, o Payne nos faz pensar sobre assuntos tão pertinentes - e isso foi o que mais me encantou neste longa.

Em um filme recheado de participações especiais (e algumas caras conhecidas do público, como o ator português Joaquim de Almeida e o eterno Dawson do seriado, James Van Der Beek), as atuações de Hong Chau como Ngoc Lan Tran, uma ex-prisioneira vietnamita, e de Christoph Waltz como Dusan, o novo vizinho  excêntrico de Paul, são a cereja do bolo. A partir do momento em que a personagem de Chau entra em cena, o filme é dela. Waltz é um caso à parte: basta um sorriso e ele já disse a que veio (desculpem, sou fã assumida - mas ele é maravilhoso mesmo.) Matt Damon também não fica atrás, dando conta de seu "ingênuo homem-comum" com bastante credibilidade.

Pequena Grande Vida é um filme diferente, que traz elementos de comédia normal disfarçando uma reflexão profunda sobre a sociedade e o futuro da humanidade. Com certeza vale a pipoca do fim de semana.

*O filme terá exibição nesta edição do Festival do Rio nos dias 13, 14 e 15/10. Depois dessas, só no lançamento oficial em janeiro de 2018. Se estiver na cidade, não perca a oportunidade!

domingo, 8 de outubro de 2017

A Forma da Água

Eu só tenho a agradecer a Guillermo del Toro por esse presente. É assim como me sinto depois de assistir a essa delícia de filme que é A Forma da Água (The shape of water, 2018). O longa estreia em janeiro de 2018, porém eu tive o privilégio de assistir à primeira exibição dele durante a abertura do Festival do Rio 2017. E ele já se tornou um dos meus favoritos de todoa os tempos.

No longa, del Toro nos conta uma linda e emocionante fábula: Eliza Esposito (Sally Hawkings) é uma mulher comum que tem um problema de fala, o que não a impede de ter uma vida normal. Alternando as visitas a seu recluso vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) e seu turno noturno de trabalho em uma base científica secreta, ela sobrevive apesar das dificuldades. Um dia, porém, um novo projeto científico chega à base e sua vida mudará por completo. Uma criatura capturada na Amazônia foi levada para lá afim de ser estudada, e uma improvável amizade entre eles nascerá.

Sobre essa premissa, del Toro discute profundos temas como sexualidade, beleza, auto-conhecimento, humanidade e divindade, poder, racismo e preconceito - tudo azeitado com muito bom humor e delicadeza. O longa é o que eu descreveria como um poema e um sonho combinados, um surrealismo poético que emociona e alcança o público como poucos. Seus personagens são tão cativantes em suas diferentes personalidades que é quase impossível não se apegar a eles.

Todo o elenco é magnífico, e as atuações delicadas só reforçam a empatia com os personagens. Eles parecem humanos, reais, mesmo que estejamos presenciando um conto de fadas. Destaco as interpretações de Hawkings e Octavia Spencer, que fez de sua Zelda um delicioso contraponto à quieta amiga de trabalho. Michael Shannon também merece ser mencionado por dar vida ao vilão Strickland, um homem que consegue resumir em suas contradições o que há de pior em nossa sociedade.


Nem preciso mencionar o primor que é a fotografia e produção de arte, que nos mergulha (com perdão do trocadilho) no universo meio mágico, meio Guerra Fria. Um belo subtexto aqui, pois o tempo era de resistência à mudanças enquanto havia esperança de um mundo melhor, mesmo que as ações fossem regidas pelo medo e nem sempre terminassem como se esperava. Aliás, há muito o que se ler nas entrelinhas desse filme.

Uma belíssima obra, de uma sutileza e impacto como poucos filmes recentes conseguiram trazer à tela - e à tona. A Forma da Água é o que eu acredito que o cinema é: poesia e emoção, que faz pensar e repensar nossa forma de ver o mundo, de agir. Ansiosa para vê-lo novamente. Vem logo, 2018!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049


Sabe aquele medo de ver uma sequência que estraga o original? Pois esqueça. Blade Runner 2049 (2017) é daqueles filmes que vão agradar aos fãs mais fervorosos e ainda deve arrastar mais um monte de gente para o universo futurista e decadente dos androides. Denis Villeneuve homenageia o original de Riddley Scott, mas não perde o foco quase dissecador em seus protagonistas. Assim, o questionamento iniciado no primeiro longa é ampliado: o que é ser humano?

K (Ryan Gosling) é o melhor caçador de androides em atividade e está em seu ambiente de trabalho. Procurando pelos últimos exemplares dos Nexus rebeldes (androides que se recusavam a ter prazo de validade), ele encontra uma pista que poderá mudar para sempre a História. Pressionado por sua chefe a eliminar evidências antes que o caso se espalhe, acaba sendo vigiado pela empresa que fabricou os androides com "defeito": eles tem outros planos para a descoberta que K fez.

K (Gosling) e Joi (de Armas): um amor complicado
O longa tem um ritmo diferente dos atuais filmes de ficção científica: contado de forma linear, de modo a deixar o público captar as entrelinhas das cenas ao invés de bombardeá-lo com informações e palavras difíceis de entender. As longas pausas entre diálogos nos mergulham na paisagem caótica e na emoção dos personagens, o que para mim foi um acerto enorme. Essa forma mais lenta, noir, de narrativa pode cansar o espectador mais ansioso por ação. Superada essa barreira, o filme é um prato cheio para conversas pós-sessão.

Metalinguagem na fotografia: homenagem ao original, porém mudando ligeiramente o foco

Eu senti como se o universo tivesse se expandindo: questionando os questionamentos, a dúvida é a única certeza. O que é verdade naquela rede de informações? Como androides podem ser tão ou mais humanos que os humanos? (aliás, ainda existem humanos na Terra ou todos já abandonaram o planeta arruinado para a nova espécie?) Metáforas profundas e belas sobre relacionamento, sentimento, a angustiante busca pelo verdadeiro conhecimento de si próprio. Tudo isso em diálogos curtos e longos takes de tirar o fôlego: a fotografia é soberba, mesclando luz e escuridão, dia e noite; detalhes incríveis e desfoques intencionais - como se nos dissesse "você não tem uma visão clara da situação". No mínimo, vai ser impactante.

K e Luv (Hoetz): criaturas indo encontrar seu criador
O elenco está ótimo, com todos os atores entregando atuações primorosas - com destaque para Dave Bautista (conhecido por ser o Drax de Guardiões das Galáxias, prova que não é só músculos e piadas em sua pequena porém importante participação), Ana de Armas e sua apaixonada Joi (uma holograma), e Sylvia Hoeks, que faz de sua androide Luv uma das melhores coisas desse filme. A exceção é Jared Leto. Pode parecer perseguição ou implicância minha, mas Leto não acertou o tom (de novo) como um vilão. Quem já o viu em Réquiem Para um Sonho ou Clube de Compras Dallas sabe que ele é melhor do que o que apresentou. Mas nem isso atrapalha o andamento do filme, que sabe segurar bem os ases nas mangas e soltar na hora certa a bomba (atômica) no colo do espectador.

Jared Leto como Niander Wallace: trejeitos ficaram artificiais, porém não comprometem o personagem

O mais interessante de Blade Runner 2049 é que ele funciona para quem é fã do primeiro longa, mas também para quem nunca viu o original. Fica bem claro que ele foi feito para (e por) apaixonados pelo longa original e pelo livro que o inspirou, mas ele se permite ser acessível para quem não os conhece. É fato que alguns detalhes vão passar despercebidos, mas o entendimento geral da estória está claro para todos - até porque o questionamento "Quem sou eu? De onde eu vim? Qual é a minha missão?" é universal. Mais do que recomendado, ele chega às telonas com status de OBRIGATÓRIO na lista de qualquer cinéfilo que se preze. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Kingsman - O Círculo Dourado

Precisei de uma pausa para apreciar a genialidade desse filme: muito além do puro entretenimento de filmes de ação, Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman – The Golden Circle, 2017) é a sequência de Kingsman – O Serviço Secreto, sucesso de 2014, e consegue ser ainda mais interessante que seu antecessor.  As críticas ao comportamento social e ao próprio gênero de filme de ação/espião estão ainda mais ácidas e divertidas, e as mais de 2h de filme passam sem que o espectador se canse – e ainda termine querendo mais.


Um aviso: como o roteiro segue com as consequências diretas dos acontecimentos do primeiro longa, essa resenha pode conter alguns spoilers (mas acho difícil encontrar alguma outra que seja 100% spoiler free). Prometo fazer o possível para não entregar demais.

Depois de salvar o mundo da destruição pelo plano maligno de Valentine (Samuel L. Jackson), Egsy (Taron Egerton) assumiu o posto de Galahad - que era de Harry (Colin Firth) - na Kingsman e segue a rotina de um espião da agência. O que ele não esperava era ser atacado por um ex-recruta, Charlie (Edward Holcroft). Ele acreditava que o rapaz tinha morrido na festa de Valentine, mas ele estava muito vivo – e com um braço mecânico, ainda por cima! Depois de uma alucinante luta para salvar a própria pele dentro de um táxi, Egsy consegue escapar e ainda chegar a um local seguro no Hyde Park. O que ninguém esperava é que o braço mecânico perdido no carro fosse capaz de hackear o sistema da Kingsman. Um desastre está para acontecer: com base nos endereços encontrados ali, todas as casas de todos os agentes da Kingsman, inclusive a sede, são destruídos por mísseis teleguiados.

Egsy (Egerton): o que fazer agora?
Egsy se salva por simplesmente não estar em casa no momento do acidente, mas nenhum outro agente escapa – nem mesmo Arthur (Michael Gambon, substituindo Michael Caine no cargo) e Roxy (Sofie Cookson), a Lancelot. Arrasado, Egsy encontra ajuda no único outro sobrevivente do massacre: Merlin (Mark Strong, excelente). Juntos, eles precisam por em ação o protocolo final. A ajuda vem do jeito que eles menos esperavam: uma agência irmã, nos Estados Unidos, seria a última saída. O contato, porém, não foi muito amigável a princípio.

A Statesman é a agência de inteligência secreta americana, e se esconde sob a fachada de uma destilaria. Passada a desconfiança inicial (que inclui uma surreal e divertida sequência de “reconhecimento” à americana, do tipo “atire primeiro, pergunte depois”), ambas agências passam a trabalhar juntas com a pouca informação que Roxy conseguiu buscar: o palpite da falecida agente era de que o Círculo Dourado, uma organização de tráfico de drogas, estaria de alguma forma envolvida com o estado atual de Charlie – e, consequentemente, com o desastre que veio acontecer depois. Logo a suspeita se comprova acertada.

Os agentes da Statesman tem os melhores codinomes!
Poppy (Juliane Moore, deliciosamente macabra) se revela como a chefe da organização de um jeito bastante inusitado: num anúncio na TV, ela avisa à população que contaminou suas drogas propositalmente com um vírus e o único antídoto está sob sua guarda. O que ela espera em troca da cura é que o presidente dos Estados Unidos descriminalize o uso de narcóticos. Assim que o decreto estiver assinado, ela liberaria o antídoto para todos os países atingidos (o que seria praticamente o mundo todo). Mais uma vez cabe a Egsy agir para salvar o mundo de um maluco megalomaníaco, e dessa vez ele tem motivos mais pessoais ainda para parar Poppy.

Poppy (Moore): quem vê cara...
Como prometido, tentei segurar as melhores partes para deixar surpresas para quem for ao cinema - quanto ao personagem de Colin Firth, os posteres entregam um pouquinho do que acontece porém não vou estragar a forma como ele surge na trama. O roteiro é um primor: não há “barrigas” ou excessos, alternância de ritmo com cenas de ação e pura emoção, toneladas de sarcasmo para todos os lados (do american way of life ao cavalheirismo inglês, passando pelas relações amorosas nos dias atuais e clichês dos gêneros cinematográficos, não há perdão para ninguém) e nenhuma ponta solta. São várias as cenas memoráveis, principalmente as que têm participação especial de Elton John (essa nem foi spoiler, porque o nome dele está no cartaz!) e as que se passam na Casa Branca. Aqui vale uma dica: esteja atento ao noticiário internacional e conseguirá entender as piadas internas mais escrachadas e bem executadas que eu já vi na vida. Um adendo: Pedro Pascal (o eterno Oberyn, de Game of Thrones) faz uma participação muito maior do que eu esperava - e é hilário ver como um não-americano absorve e se orgulha das "americanices".

Agente Whisky (Pascal): representando o american pride (!)
Há também algumas coisas um tanto questionáveis, como a sequência na tenda do show no Festival de Glastonbury, por exemplo. Mas se lembrarmos que esse é um filme que tira sarro das coisas justamente exagerando e carregando nas tintas, percebemos que o grotesco ali foi usado para incomodar mesmo – para nos fazer se perguntar “nossa, mas era mesmo necessário?” não só ali, naquele momento, mas em todos os outros em que aparecem em outros filmes. Simplesmente genial.

Se você não acha que um lança-míssil disfarçado em maleta de grife é um exemplo da sátira descarada, então precisa rever seus conceitos
A sessão a que assistimos foi em 3D, porém acredito que não tenha sido necessário. Quem já viu o primeiro longa, sabe que a ação alucinante é uma marca registrada da franquia e não precisa de efeito nenhum além do que já está em cena. A franquia, aliás, que promete ser expandida – e o público agradece. Pessoalmente eu não conheço os quadrinhos que inspiraram essa maravilha cinematográfica, mas acredito que o diretor Matthew Vaughn tenha feito um bom trabalho ao traduzir novamente os quadrinhos para a telona. Vaughn também merece créditos por conseguir entregar um trabalho tão denso com tanto bom humor; um produto que vai além do entretenimento por si só – e que tampouco falha em ser só entretenimento. Aproveitando o tom do filme, me arrisco a um trocadilho super clichê: um tiro certeiro, em todos os alvos. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Columbus

Columbus (Columbus, 2017) é o típico caso de um artista que se deixa inspirar pelo ambiente e o transborda na sua arte. O diretor coreano naturalizado americano Kogonada se apaixonou pela cidade de mesmo nome e dela sentiu fluirem tema, estória, personagens. E que conflitos e reflexões uma visita a uma pacata cidadezinha no interior dos Estados Unidos pode refletir! É nesse delicado viés que o filme transita.

Casey (Haley Lu Richardson, maravillhosa) é uma jovem apaixonada por arquitetura. Sua cidade é basicamente a meca para arquitetos e amantes da arte: vários prédios de influência modernista acabam por costurar a vida pacata e sonhadora da garota com a de Jin (John Cho, excelente). Ele é filho de um renomado arquiteto, que estava na cidade para uma palestra quando teve um mau súbito e precisou ficar internado. Os dois não podiam ser mais diferentes nem mais parecidos.

Uma forte amizade nasce em torno da presença/ausência dele. Casey sonha em ser arquiteta, ou ao menos uma guia de turismo especializada em arquitetura; ele não suporta mais o tema por ter sido (talvez) a única paixão de seu pai. Conforme ela se demonstra encantada e conhecedora, ele sente a evidência do quanto essa paixão que ela também reflete o afastou do pai. A diferença de idade entre eles também traz outra visão sobre a cidade, porém não da maneira que se espera. Ele não quer ficar por lá, ela não pensa em sair.

E essas diferença se evidenciam, se aprofundam e, estranhamente, os aproximam. É como se os dois fossem a versão que o outro gostaria de ser, na ilusão de que a vida teria sido bem mais fácil se assim o fora - apesar de focar evidente que não seria.

A forma delicada com que o diretor conduz a narrativa expressa o seu receio quanto ao sutil equilíbrio entre vida e morte - mesmo que dentro de si próprio - e a inevitabilidade das coisas é tocante. A fotografia não podia deixar de ser menos caprichada, especialmente em um filme que tem a forte estrutura modernista como pano de fundo e metáfora, e o elenco não podia ser mais acertado.
Columbus é um filme de arte, sutil como poucos. Não há arroubos cênicos, nem um ritmo descontruído - é a sensação da existência passando, às vezes até mesmo da perda de tempo em não fazer acontecer nada. É intenso, e pode não ser perfeito - mas é equilibrado, exatamente como a arquitetura modernista. Uma experiência diferete, especialmente para quem está acostumado a só ver blockbusters de roteiros saturados e repetitivos. Merece a sua atenção e, principalmente, a sua reflexão.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Atômica

Atômica (Atomic Blonde, 2017) me deixou seriamente dividida. Enquanto uma parte de mim ficou muito empolgada pela belíssima fotografia, a excelente trilha sonora e o pano de fundo interessante para uma estória de espiões, o fetichismo e o final previsível acabaram por tirar muito do brilho do longa. Mas vamos por partes.


A premissa é: uma lista contendo todos os nomes de agentes de todos os serviços secretos (e suas operações) que estava em mãos de um agente britânico foi perdida e há muitos interessados nela. A agente Lorraine Brought (Charlize Theron, em atuação enérgica e convincente) é selecionada pelo serviço britânico para resolver o problema. Ela é enviada a Berlim, às vésperas da queda do muro, para procurar outro agente aliado, David Percival (James McAvoy, a gente já se acostumou a vê-lo entregar-se completamente aos papeis que interpreta). 

Lorraine (Theron) e Percival (McAvoy): aliados em Berlim - ou não?
Acontece que Percival não é exatamente alguém confiável. Para completar, paira sobre eles uma ameaça chamada Satchel, um agente duplo que ninguém sabe quem é ou para quem trabalha - e que pode arruinar de vez a missão de Lorraine. Querendo descobrir mais sobre o que realmente aconteceu com o agente que perdeu a lista (por motivos pessoais), Lorraine se compromete a ficar mais tempo em solo alemão e ameaça por em risco toda a operação para correr atrás da verdade. 

O interrogatório dura todo o filme: narrativa em flashback intercalado com o depoimento de Lorraine
Em linhas gerais, a trama é empolgante assim. Some-se a isso uma trilha sonora empolgante, uma produção de arte e figurinos acima da média, a fotografia bonita e funcional (mudando de acordo com o humor da personagem e o clima da cena), cenas de ação empolgantes e boas atuações de todo o elenco. Eu não esperava menos que isso, e foi o que me entregaram. Só que Atômica não superou minhas expectativas. O roteiro, apesar de bem executado, é apenas correto - e as soluções para surpreender a plateia realmente não funcionam. Quem já viu filmes de espiões saca na hora que tem caroço naquele angu (e que a gente deve sempre "confiar desconfiando"). 

Charlize fez a maioria das suas cenas de ação: mandou muito bem!
A montagem do longa, que conta a estória a partir do relatório "pós-confusão" (para ficar com uma palavra fofa), ajuda a manter o mistério, brincando com a memória do espectador e reforçando a veia detetive do público. Mas aí entra em campo um fator bastante incômodo - pelo menos para a audiência feminina: o fetiche. Lorraine é uma espiã extraordinária, com habilidades incríveis e astúcia. É lógico que usará de seu poder de sedução em algum momento, mas até na hora de enfrentar um relatório filmado ela precisa fumar sensualmente? Fica ainda mais difícil acreditar quando a gente lembra que a própria Charlize fez a magnífica Imperatriz Furiosa, em Mad Max - Estrada da Fúria

Theron e Boutella: boas atuações além das cenas de sexo entre elas
Se pararmos para analisar, só há duas atrizes no longa: as duas são belas e representam a loira fatal e a morena sensual; e é óbvio que as duas se pegam. Para perceberem o quanto isso é chato, um dos comentários que ouvi ao sair da sala foi "a cena das duas na cama foi a melhor coisa do filme". Viu só? Tudo se reduziu ao prazer de ver as duas em cenas quentes, infelizmente. Charlize foi fundo na composição da personagem, fazendo ela mesma a maioria das cenas de luta e ação; até a forma que ela pega a arma é diferente da maioria das outras beldades que precisam empunhar uma arma em cena. Mas do que se lembram? Pois é.

John Goodman: o ator mais subaproveitado nesse elenco de estrelas
Portanto, eu estou realmente dividida com o filme. Gostei bastante, principalmente pela estética e ritmo de ação; mas os pequenos detalhes se acumularam tanto que não consegui superá-los. Esperava muito mais do que o que foi entregue, principalmente ao ver os nomes de peso do elenco, como Toby Jones e John Goodman, e pouco os vi em cena - mas ainda assim, o resultado foi aceitável. A estória, baseada na HQ de Anthony Johnston, The Coldest City, deve agradar ao grande público - especialmente aos fãs de ação. Para mim, foi uma experiência divertida que não vai ficar na memória.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Torre Negra


A Torre Negra (Dark Tower, 2017) é um longa baseado na saga homônima de Stephen King, não necessariamente no primeiro volume dos sete que a compõem. E aí já começou aquela sensação de incômodo que permeou toda a duração do filme. Não consigo sacudir a impressão de que quem montou o roteiro acabou sem saber o que fazer com tanta informação para pouco tempo de tela. Resta saber porquê não decidiram antes se condensavam toda a estória em um único filme épico (o que eu acho quase impossível) ou resolveram apostar de cara em uma franquia.

Roland (Elba) e Jake (Taylor): o encontro de dois mundos - literalmente

Começamos acompanhando Jake Chambers (Tom Taylor, excelente) e seus estranhos pesadelos com uma terra devastada e experimentos com crianças. A coincidência desses sonhos ruins com estranhos e cada vez mais frequentes terremotos faz a família do fragilizado Jake acreditar que ele precisa de ajuda psiquiátrica. Ao perceber que ao invés de ser mandado para uma clínica ele seria, na verdade, raptado pelos vilões de seu sonho, Jake resolve fugir e buscar ajuda com o único em quem sentia que podia confiar: um Pistoleiro. Na outra dimensão, Jake encontra Roland Deschain (Idris Elba), o último Pistoleiro vivo. Amargurado por perder todos a quem amava pelas mãos do Walter (Matthew McConaghey), o terrível Homem de Preto, Roland vaga pelo seu mundo destruído atrás de vingança. Quando seu caminho cruza com o de Jake, o destino dos dois está selado. Um vai precisar ajudar o outro a encontrar seu caminho. E é exatamente nesse ponto - o mais importante da trama, diga-se - que o filme falha.

McCounaghey interpreta o vilão Walter, mais conhecido como o "Homem de Preto"
Tem muita coisa errada nesse filme, e mesmo quem não conhece a obra por completo (como eu) percebe que tem algo estranho na tela. Há uma mitologia que não é explicada e acaba sendo pouco explorada (o que dificulta muito para que o público se encante e se interesse) e a ação corrida não deixa brecha para se apegar aos personagens. O vilão, aliás, é um sério engano: a figura nitidamente encarno o papel da Morte e deveria ser sombria e má, mas a forma escolhida para mostrar sua influência sobrenatural sobre os outros é risível. De um status sobrenatural, a vilania acaba caindo para um clichê (quase literal, diga-se) de "vilão que tira doce de criança". A audiência que não conhece minimamente os personagens não vai compreender os laços profundos e complexos que unem o Pistoleiro e o Homem de Preto, nem os que acabaram de ser criados entre o Roland e Jake. Confesso que li o primeiro volume para não chegar boiando no cinema e saber pelo menos a origem das coisas - e quase nada do que eu li aconteceu ali.

Cenas de ação: muito malabarismo e pouca emoção
Bem, se eu que não sou fã achei que tudo estava meio "nada a ver", eu imagino a revolta que vai causar nos verdadeiros fãs da saga. Muitas soluções apressadas nos fazem questionar a verossimilhança dos argumentos, muita coisa soa muito falsa - e olha que a gente está falando de um universo multidimensional com seres monstruosos e mágica envolvida, mas até para que isso exista algumas regras precisam ser obedecidas. A gente já viu bala ser congelada no ar e até fazer curva para atingir um alvo, e a gente até se empolgou com essas coisas - mas aqui, infelizmente, o mesmo efeito não é alcançado. Eu fiquei realmente brava por não ter conseguido me empolgar com nenhuma cena de ação - além de achar bem canastrona a interpretação de McCounaghey e muito apática a de Elba. Nenhum dos dois conseguiu transmitir o carisma que esses personagens precisam ter.

Uma pequena demonstração do que eu falei sobre a atuação de McCougnahey e dos malabarismos especiais
A quem não está interessado em mergulhar no universo, sobram a tensão inicial com o drama sobre Jake, a atuação do pequeno Tom Taylor e, mais para o fim, algumas piadinhas bem colocadas. Uma pena não terem pensado em um roteiro firme, com propósito definido, e o que chegou a nós foi um produto meio remendado - quase como um trabalho enfim finalizado porém sem muita convicção. Uma pipoca bem morna, daquelas que a gente só termina de comer porque já tá quase no fim mesmo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Malasartes e o duelo com a Morte


Apesar de ser um personagem do folclore ibero-americano, Pedro Malasartes não é um dos mais populares em terras tupiniquins - embora personifique com perfeição o nosso famoso (e discutível) "jeitinho brasileiro". Talvez os mais velhos se lembrem das estórias do malandro se buscarem na memória as aparições dele em estórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo ou pelo filme de Mazzaropi, mas com certeza ele é bem desconhecido pelas gerações mais novas. Eis que esse problema está perto de ser resolvido! Malasartes e o duelo com a Morte (2017) é uma ótima pedida para aquele cinema em família, e vai arrancar boas gargalhadas do público.

Julio Andrade é a Morte: a imortalidade pode não ser tão bacana assim...
Reza a lenda que a vida era cuidada por três bruxas, chamadas Parcas: a Fiandeira (Julia Ianina), que criava o fio da vida; a Tecedeira (Luciana Paes), que tecia as tramas; e a Cortadeira (Vera Holtz), que era responsável por cortar o fio quando a hora da pessoa tivesse chegado. Porém, um dia, um homem rouba a Vela da Vida Eterna e se torna a Morte - e ele teria a vida de todos em suas mãos, o que fazia dele o homem mais poderoso. Acontece que a vida imortal pode ser extremamente enfadonha, então a Morte (Júlio Andrade), depois de algum tempo ceifando vidas, decidiu tirar umas férias. Para isso, ele precisaria de um substituto - e este precisaria ser um homem especial, muito esperto. Depois de muito procurar, ele encontrou o homem certo.

Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa, impecável) é o típico cara folgado: enrola todo mundo que conhece só para fugir do trabalho. É assim que conhece o pobre Zé Candinho (Augusto Madeira, impagável), que acaba sendo enganado por ele - e que vai ser uma peça importante mais pra frente na estória. Até a pobre Áurea (Ísis Valverde), a ciumenta namorada do moço, sofre com as artimanhas dele - e é justamente por conhecer a fama do rapaz que Próspero (Milhem Cortaz) não quer nem saber de deixar Malasartes perto de sua irmã, Tudo o que ele quer é fazê-lo pagar pela dívida herdada de seu pai, por isso o põe para trabalhar na roça, e depois que ele suma da vida de Áurea. Mas os dois são muito apaixonados, e não vai ser a valentia de Próspero que vai atrapalhar a vida do fanfarrão.

Jesuíta Barbosa está impagável como Pedro Malasartes
Aquele dia, porém, era seu aniversário de 21 anos e Malasartes esperava uma visita muito esperada - seu padrinho, que ele nunca vira antes, viria finalmente conhecê-lo e lhe dar um presente. Ele nem desconfiava que a Morte viria lhe encontrar naquele dia (como ele havia planejado por séculos), nem fazia ideia de qual seria o seu "presente"! Será que Malasartes vai conseguir se safar dessa?

Usando de muito bom humor, o longa conta uma fábula sobre esperteza e amor verdadeiro, brincando com o sobrenatural e as pequenas fanfarronices de todo dia. Malasartes é - por falta de uma expressão melhor - uma peste, mas é tão cativante que é difícil odiar o personagem. Jesuíta Barbosa dá um tempero todo especial ao personagem, que fica ainda mais carismático. A participação especial de Leandro Hassum como Esculápio, um atrapalhadíssimo assistente da Morte, é acertada: pontual e certeira, é - junto com Zé Candinho, brilhantemente defendido por Augusto Madeira - um dos personagens que mais chama a atenção entre os coadjuvantes.

Esculápio (Hassum) e a Parca Cortadeira (Holtz): mais problemas para Malasartes!

A produção, cheia de efeitos especiais maravilhosos, é de encher os olhos. Especialmente na parte do Submundo, com as teias das Parcas e velas de almas, o visual é lindo - algo que eu nunca tinha visto em uma produção nacional. É um passo adiante para que haja mais produções de fantasia com essa qualidade de efeitos, o que me deixou bastante empolgada. Espero que mais filmes nacionais invistam nesse tipo de narrativa, já que nosso folclore e costumes tem tantas coisas maravilhosas que - agora - eu já consigo visualizar no horizonte. 

A produção como um todo também é muito caprichada, e o diretor Paulo Morelli chegou perto do timing perfeito de comédia (não adianta, eu sempre vou comparar comédias nacionais com a espetacular versão de O Auto da Compadecida de Guel Arraes), nos presenteando com um filme delicioso e divertido. O tom ligeiramente lúdico deve agradar à família inteira, especialmente às crianças. Malasartes e o duelo com a Morte, porém, não se restringe a um único público e merece a atenção dos que procuram entretenimento de qualidade. Diversão garantida!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O estranho que nós amamos




Há algumas considerações a se fazer antes de iniciarmos a conversa sobre esse longa. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017) é um remake de uma estória adaptada para o cinema: ou seja, é uma atualização da estória sob o viés decididamente feminista da diretora (e ativista) Sofia Coppola. Em linhas gerais, temos a Guerra Civil americana como pano de fundo para a trama de um soldado ferido que encontra refúgio em uma escola para moças. Mas o filme é mais do que apenas isso.

Quando a jovem Amy (Oona Laurence) encontra o Cabo John McBurney (Colin Farrel) ferido, seu bom coração e a boa educação que recebera no internato da Sra. Martha Farnsworth (Nicole Kidman), não pensa duas vezes antes de levá-lo para a mansão. Escondida em meio à mata, cercada pela guerra - porém sem ser diretamente atingida por ela - a casa resiste para dar suporte àquelas que não tem para onde ir. Ao chegar com mais uma pessoa para dividir teto, cuidados e alimento, a garota jamais imaginaria o que viria acontecer depois.

Martha (Kidman) e o cabo McBurney (Farrel): relação tensa desde o início
Martha, pressionada pelas boas maneiras e pela moral de sua religião, aceita cuidar do inimigo mesmo sabendo que ele pode trazer muitos problemas - especialmente com o exército, que volta e meia rondava sua propriedade. Decidida a dar um bom exemplo cristão, parte para a praticidade: com a ajuda da outra adulta da casa, a professora Edwina (Kirsten Dunst), cuida do ferimento do homem e o mantém separado das outras garotas. Sua esperança era de que, assim que estivesse curado, ele fosse embora e a vida voltasse à normalidade.

Mas a rotina do internato, especialmente em tempos de guerra, não era das mais agradáveis. A mera presença de um homem na casa abala as mulheres ali dentro, por muitos motivos. A solidão das mulheres mais maduras e a ânsia de descobrir o amor da joven Alicia (Elle Fanning), a inocência de Amy e Marie (Addison Riecke), a irritação de Jane (Angourie Rice) por não poder praticar sua música - tudo é afetado pelo cabo, que consegue criar uma relação com cada uma delas.

Edwina (Dunst): um belo pássaro engaiolado
Aos poucos, conforme o tempo passa e ele demonstra melhora, as interações aumentam. Se antes apenas sua pequena amiga Amy lhe parecia amigável, agora ele já era convidado a jantar e fazer orações. Conforme a intimidade aumenta, a tensão também cresce e John começa a se preocupar com o que será de sua vida fora daquelas paredes acolhedoras. Lá fora, somente o que lhe espera é a guerra, e as duras leis que terá que enfrentar por sua deserção. E é aí que o filme surpreende.

Até então, o espectador mais desatento poderia esperar um romance vitoriano tradicional, com as tensões se dissolvendo até que os amantes se unissem em felicidade plena pela eternidade; porém esse não é um conto de amor. O estranho que nós amamos mostra o quão destruidor pode ser uma relação desigual, independente de quem esteja envolvido. A forte crítica ao machismo do cabo John (que eu não explicarei propositalmente, para não virar um spoiler - mas que muita gente já pode imaginar o que seja) fica evidente na mudança de comportamento delas. A lição que parece ser dada a nós é "todas as mulheres são afetadas". Há um contexto sexual forte e óbvio, mas até as mais inocentes sofrem com as consequências.

As meninas se enfeitam para um jantar na companhia do cabo John
O fato de estarem insatisfeitas em um quase-mundo-paralelo não seria tão ruim quanto foi ao abrirem as portas para um desconhecido. Um homem sozinho conseguiu desestabilizar as vidas de todas elas em pouco tempo. E o que será delas depois que tudo acabar? O argumento é como um tapa na cara, para alertar homens e mulheres das pequenas violências cotidianas. Muitos daqueles comportamentos ainda estão refletidos nos dias de hoje - e olhe que estamos falando de uma estória passada durante o século XIX! É necessário empatia para acabar com as diferenças - e esse é, a meu ver, a falha do longa.

Particularmente, senti um certo distanciamento da diretora com as personagens. Ela as retrata, porém não "interage" ou "reage" com elas. A produção, impecável em todos os sentidos (figurino, maquiagem, produção de arte, fotografia, trilha sonora), soa fria e distante. Pode ter sido um recurso intencional - incrivelmente inteligente - de retratar exatamente essa ideia de "bolha" em que as mulheres viviam, mas me incomodou o fato de eu não me apegar a nenhuma das mulheres mesmo que tenha rolado uma identificação. Afinal, quem nunca se sentiu preso às obrigações e deveres? Quem nunca teve sonhos frustrados? Quem nunca teve medo do futuro? Exatamente por isso fiquei um tanto decepcionada por não ter me apegado a nenhuma delas.

Nicole Kidman como Sra. Martha: bom trabalho, embora fosse mais interessante alguém mais austera

O elenco extremamente reduzido - basicamente, só estão em cena os oito atores principais - é bastante exigido: é como se houvesse uma lupa em cima de cada um dos personagens, e qualquer deslize seria fatal. Para tanto, tiro o meu chapéu para eles. Até mesmo as mais jovens e menos conhecidas atrizes estão impecáveis em seus papeis. Minha única ressalva, talvez, tenha sido a escolha de Nicole Kidman para a dona do internato: creio até que ela fez um belíssimo trabalho, mas a personagem que interpreta, se fosse dada à uma atriz que aparentasse mais idade e mais austeridade, seria ainda mais interessante. 

Contudo, minhas ressalvas são muito particulares - apenas detalhes que não devem atrapalhar nem a experiência do longa nem o debate que ele deve (e merece) trazer à tona. Por tudo isso, O estranho que nós amamos é um filme que merece ser visto e avaliado, pensado e estudado. Um filme que, com certeza, vai render muito papo com os amigos depois da sessão. Obrigada, Sofia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O filme da minha vida


A primeira impressão que se tem é que este é um filme europeu. Mas a narração em bom português já no começo do filme vem para te ambientar: uma cidade do interior, um jovem filho de um francês e uma brasileira, tem sua vida totalmente transformada depois que o pai vai embora de casa sem dar nenhuma explicação. A ausência do pai causa uma profunda mudança na família - como lidar com aquela sensação de perda e seguir em frente?

Esse é o dilema de Tony Terranova (Johnny Massaro), um jovem que vivia tranquilo na cidadezinha de Remanso e fora estudar na cidade grande e se formar professor. Ao retornar, ele descobre que seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), havia abandonado a família e voltado para a França, sua terra natal, sem dar maiores explicações. Sua mãe, Sofia (Ondina Clais), fica sem chão - porém tenta manter a normalidade. Esse vácuo, essa sensação de que a vida nunca mais será a mesma, parece contaminar toda a rotina dos dois.

Paco (Mello) e Tony (Massaro): como conviver sem Nicolas por perto?
Buscando apoio em um dos melhores amigos do pai, Paco (Selton Mello), Tony começa a perceber que é preciso seguir em frente. Ele pode, e deve, continuar seu caminho e aproveitar a vida. Conhecer o amor, educar os mais jovens, ajudar a própria mãe a sair do buraco. E é isso que ele tenta fazer. Assim ele se envolve com a família Pereira: seu aluno Augusto (João Prates), tão ávido para conhecer os prazeres do amor que o impactam diretamente; Luna (Bruna Linzmeyer), a amiga que adoraria ser "algo mais" com ele; e Petra (Beatriz Arantes), a jovem mais bela da cidade - e que abala as estruturas de Tony.

Então Tony começa a reestruturar a vida, porém ele descobre que nem tudo o que ele sabia sobre o sumiço do pai era verdade. E, como o próprio Tony comenta no início do filme, eu não posso falar o que é. Melhor deixar que o público descubra e se encante. As personagens são tão delicadas e fortes, e Selton Mello fez um excelente trabalho ao manter uma aura quase onírica, mas ao mesmo tempo bastante consciente das emoções dos envolvidos. Emoções reais, de dor, abandono, alegria, descoberta trazem esses personagens cativantes para perto de nós.

Petra (Arantes) e Luna (Linzmeyer): as belas irmãs que rondam os pensamentos de Tony

Todo o elenco está à vontade com seus personagens, e destaco a pequena mas impactante participação de Ondina Clais. A forma como sua Sofia reage à ausência do marido, o amor de sua vida, é algo impressionante - sutil e forte, assim como é o filme. Johnny Massaro também entrega um personagem bastante crível, com inseguranças e certezas que qualquer jovem teria ao regressar e encontrar seu pequeno mundinho desabado. Os deliciosos toques de humor são muito por conta do personagem Augusto, que tem outra função na trama - ser a pequena pedrinha que detona a avalanche. 

A direção sensível de Selton Mello, a fotografia quase mágica de Walter Carvalho, a belíssima produção de arte - que reproduziu uma cidade do interior gaúcho nos anos 1970 com perfeição, e a bela estória inspirada no livro de António Skármeta (autor chileno que escreveu "Um pai de cinema", que inspirou esse longa, e "O carteiro de Pablo Neruda", que inspirou outro clássico do cinema, o filme "O carteiro e o poeta") fazem de O filme da minha vida uma experiência imperdível. Como os bons filmes, nos transporta para uma outra época, outra vida, outro jeito de ver a vida. Lindo é pouco.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dunkirk

Dunkirk (Dunkirk, 2017) é um filme de guerra onde a guerra em si é o menos importante. Humano sem ser melodramático, cumpre sua função de emocionar e fazer refletir sobre o que é estar em conflito. Misturando fatos históricos com ficção em uma linha do tempo não-linear, o diretor Christopher Nolan entregou um trabalho primoroso - e que entrou facilmente no meu Top 03 de filmes de guerra.


Fato: cerca de 400 mil soldados ingleses e aliados ficaram encurralados pelas forças alemães na praia de Dunkirk, apoiados por franceses que tomavam conta da retaguarda enquanto os britânicos esperavam apoio marítimo para retornar pra casa. Mas esse apoio era constantemente sabotado pelos bombardeiros aéreos inimigos. Num trabalho conjunto, Exército e Marinha lutavam para resgatar esses homens, mas o esforço não estava surtindo muito efeito: centenas de navios naufragados na beira da praia, de fundo muito raso, dificultavam a aproximação dos poucos navios que conseguiam chegar até o molhe (um píer, duramente mantido de pé pelos soldados). Então a Marinha passou a recrutar pequenas embarcações civis para ajudar na operação.

Tendo isso em mente, saiba que Nolan explicou tudo isso com poesia e maestria. Os pontos de vista de todos os envolvidos na operação são observados: o soldado que só quer voltar vivo pra casa, o que considera uma vergonha ter que voltar assim pra casa, o que já viu demais da guerra, os comandantes e suas difíceis escolhas, os civis com vontade de ajudar. Seres humanos, como eu e você, presos em um conflito tanto interno quanto muito maior que eles - o embate entre dominação e liberdade é pertinente ao ser humano, não é? Envolve a todos, mesmo àqueles que não querem se comprometer com política - e o que é uma guerra senão um duelo de ideias entre pessoas que não se compreendem? Quantos têm que sofrer e morrer (ou sobreviver e lidar com as consequências) antes que a briga recomece?

Um elenco que mistura a experiência de atores premiados como Kenneth Brahgnah e Mark Rylance com jovens e promissores talentos (inclusive o surpreendente desempenho de Harry Styles, cantor da boy band One Direction, de quem - confesso - eu tinha certa resistência), uma fotografia incrível e um ritmo cadenciado, alternando cenas de drama em conflitos internos e tensão ao máximo, só veio abrilhantar essa ótima estória do lado mas sombrio da nossa História.

Com certeza não passará em branco pelas maiores premiações do ano que vem, e cada prêmio será justíssimo. Uma obra belíssima, das melhores que Nolan já apresentou. Simplesmente imperdível (e, no meu caso, inesquecível).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em ritmo de fuga


Em ritmo de fuga (Baby Driver, 2017) me surpreendeu. Não tinha visto nem ouvido muita coisa sobre ele antes de entrar na sala do cinema, mas saí com um leve sorriso no rosto e a certeza de que a vida da gente é muito mais sem-graça por não ter trilha sonora em tempo real. Dois bons filmes em um só: drama e ação, temperados com muita música boa e atuações brilhantes. Edgar Wright, roteirista e diretor do longa,acertou na mosca!

Baby (Elgort): todo esquisito, mas super eficiente quando o "dever" chama
Já no início, um grupo bastante distinto se prepara para assaltar um banco. Baby (Ansel Elgort) é um jovem piloto de fuga, que parece não se encaixar no perfil de bandido experiente - mas a aparência quase inocente do rapaz engana: mesmo mais novo que os outros três integrantes, ele tem quilometragem de sobra (e, aparentemente, tem gelo nas veias também). Com seus fones de ouvido, um par de óculos escuros e sua trilha perfeita, Baby consegue fazer milagres (loucuras?) ao volante e sempre levar o prêmio para casa. Ou seja, apenas mais um dia na vida de Baby.

Darling (González) e Buddy (Hamm): e não é que dá certo esse casal?
No esconderijo/escritório onde encontram com o cabeça da operação, Doc (Kevin Spacey), a gente começa a compreender como tudo funciona. Doc jamais repete uma mesma formação de grupo para evitar possíveis problemas, e Baby é o único que se repete nesses esquemas. Vivendo em seu mundinho de fugas da polícia, música e pouco papo, dividindo um apartamento com seu pai adotivo - um senhor doente e surdo, Baby se encontra em um momento crucial da vida: está prestes a se livrar da dívida que tem com Doc e se apaixona por Debora (Lilly James), uma garçonete sonhadora e tão apaixonada por música quanto ele. Lógico que não podia dar tudo certo, não é?

Debora (James) e Baby: amor puro e inocente como poucos
Diferente da maioria dos filmes do gênero atuais (que se preocupam em basicamente enfileirar sequências de ação mirabolantes e meia dúzia de frases de efeito enquanto o mocinho arrasa-quarteirões - dentro ou fora da lei, não importa - e encontra o amor na musa sexy), aqui temos um bom drama embutido em um filme de ação bem pensado. Tem drama, conflito e romance na jornada na dose certa para Baby se tornar um homem. A trilha sonora, como se pode imaginar, tem papel fundamental no longa: além de cadenciar o ritmo - literalmente - da ação, é ferramenta para Baby  (e, convenhamos, quase todo mundo) sobreviver ao estresse. O equilíbrio entre drama e ação é perfeito, e a atuação inspirada de todo o elenco só complementam a experiência.

Baby e Doc (Spacey): a parte dramática e densa equilibra muito bem com a adrenalina
Por tudo isso, Em ritmo de fuga é um filme que deve agradar e decepcionar muita gente. Explico: para aqueles que estão à procura de um bom filme, divertido, com trilha sonora perfeita e ótimas atuações, vai sair mais do que satisfeito do cinema; mas aqueles que procuram um filme de ação alucinante e ininterrupta podem se sentir um pouco desapontados. Eu me encontro no primeiro grupo, e considero o filme a minha maior surpresa - e um dos meus favoritos - do ano. E ainda arrisco dizer que, daqui a alguns anos, esse vai se tornar um clássico cult queridinho do público e da crítica. É esperar pra ver.