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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Malasartes e o duelo com a Morte


Apesar de ser um personagem do folclore ibero-americano, Pedro Malasartes não é um dos mais populares em terras tupiniquins - embora personifique com perfeição o nosso famoso (e discutível) "jeitinho brasileiro". Talvez os mais velhos se lembrem das estórias do malandro se buscarem na memória as aparições dele em estórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo ou pelo filme de Mazzaropi, mas com certeza ele é bem desconhecido pelas gerações mais novas. Eis que esse problema está perto de ser resolvido! Malasartes e o duelo com a Morte (2017) é uma ótima pedida para aquele cinema em família, e vai arrancar boas gargalhadas do público.

Julio Andrade é a Morte: a imortalidade pode não ser tão bacana assim...
Reza a lenda que a vida era cuidada por três bruxas, chamadas Parcas: a Fiandeira (Julia Ianina), que criava o fio da vida; a Tecedeira (Luciana Paes), que tecia as tramas; e a Cortadeira (Vera Holtz), que era responsável por cortar o fio quando a hora da pessoa tivesse chegado. Porém, um dia, um homem rouba a Vela da Vida Eterna e se torna a Morte - e ele teria a vida de todos em suas mãos, o que fazia dele o homem mais poderoso. Acontece que a vida imortal pode ser extremamente enfadonha, então a Morte (Júlio Andrade), depois de algum tempo ceifando vidas, decidiu tirar umas férias. Para isso, ele precisaria de um substituto - e este precisaria ser um homem especial, muito esperto. Depois de muito procurar, ele encontrou o homem certo.

Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa, impecável) é o típico cara folgado: enrola todo mundo que conhece só para fugir do trabalho. É assim que conhece o pobre Zé Candinho (Augusto Madeira, impagável), que acaba sendo enganado por ele - e que vai ser uma peça importante mais pra frente na estória. Até a pobre Áurea (Ísis Valverde), a ciumenta namorada do moço, sofre com as artimanhas dele - e é justamente por conhecer a fama do rapaz que Próspero (Milhem Cortaz) não quer nem saber de deixar Malasartes perto de sua irmã, Tudo o que ele quer é fazê-lo pagar pela dívida herdada de seu pai, por isso o põe para trabalhar na roça, e depois que ele suma da vida de Áurea. Mas os dois são muito apaixonados, e não vai ser a valentia de Próspero que vai atrapalhar a vida do fanfarrão.

Jesuíta Barbosa está impagável como Pedro Malasartes
Aquele dia, porém, era seu aniversário de 21 anos e Malasartes esperava uma visita muito esperada - seu padrinho, que ele nunca vira antes, viria finalmente conhecê-lo e lhe dar um presente. Ele nem desconfiava que a Morte viria lhe encontrar naquele dia (como ele havia planejado por séculos), nem fazia ideia de qual seria o seu "presente"! Será que Malasartes vai conseguir se safar dessa?

Usando de muito bom humor, o longa conta uma fábula sobre esperteza e amor verdadeiro, brincando com o sobrenatural e as pequenas fanfarronices de todo dia. Malasartes é - por falta de uma expressão melhor - uma peste, mas é tão cativante que é difícil odiar o personagem. Jesuíta Barbosa dá um tempero todo especial ao personagem, que fica ainda mais carismático. A participação especial de Leandro Hassum como Esculápio, um atrapalhadíssimo assistente da Morte, é acertada: pontual e certeira, é - junto com Zé Candinho, brilhantemente defendido por Augusto Madeira - um dos personagens que mais chama a atenção entre os coadjuvantes.

Esculápio (Hassum) e a Parca Cortadeira (Holtz): mais problemas para Malasartes!

A produção, cheia de efeitos especiais maravilhosos, é de encher os olhos. Especialmente na parte do Submundo, com as teias das Parcas e velas de almas, o visual é lindo - algo que eu nunca tinha visto em uma produção nacional. É um passo adiante para que haja mais produções de fantasia com essa qualidade de efeitos, o que me deixou bastante empolgada. Espero que mais filmes nacionais invistam nesse tipo de narrativa, já que nosso folclore e costumes tem tantas coisas maravilhosas que - agora - eu já consigo visualizar no horizonte. 

A produção como um todo também é muito caprichada, e o diretor Paulo Morelli chegou perto do timing perfeito de comédia (não adianta, eu sempre vou comparar comédias nacionais com a espetacular versão de O Auto da Compadecida de Guel Arraes), nos presenteando com um filme delicioso e divertido. O tom ligeiramente lúdico deve agradar à família inteira, especialmente às crianças. Malasartes e o duelo com a Morte, porém, não se restringe a um único público e merece a atenção dos que procuram entretenimento de qualidade. Diversão garantida!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O estranho que nós amamos




Há algumas considerações a se fazer antes de iniciarmos a conversa sobre esse longa. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017) é um remake de uma estória adaptada para o cinema: ou seja, é uma atualização da estória sob o viés decididamente feminista da diretora (e ativista) Sofia Coppola. Em linhas gerais, temos a Guerra Civil americana como pano de fundo para a trama de um soldado ferido que encontra refúgio em uma escola para moças. Mas o filme é mais do que apenas isso.

Quando a jovem Amy (Oona Laurence) encontra o Cabo John McBurney (Colin Farrel) ferido, seu bom coração e a boa educação que recebera no internato da Sra. Martha Farnsworth (Nicole Kidman), não pensa duas vezes antes de levá-lo para a mansão. Escondida em meio à mata, cercada pela guerra - porém sem ser diretamente atingida por ela - a casa resiste para dar suporte àquelas que não tem para onde ir. Ao chegar com mais uma pessoa para dividir teto, cuidados e alimento, a garota jamais imaginaria o que viria acontecer depois.

Martha (Kidman) e o cabo McBurney (Farrel): relação tensa desde o início
Martha, pressionada pelas boas maneiras e pela moral de sua religião, aceita cuidar do inimigo mesmo sabendo que ele pode trazer muitos problemas - especialmente com o exército, que volta e meia rondava sua propriedade. Decidida a dar um bom exemplo cristão, parte para a praticidade: com a ajuda da outra adulta da casa, a professora Edwina (Kirsten Dunst), cuida do ferimento do homem e o mantém separado das outras garotas. Sua esperança era de que, assim que estivesse curado, ele fosse embora e a vida voltasse à normalidade.

Mas a rotina do internato, especialmente em tempos de guerra, não era das mais agradáveis. A mera presença de um homem na casa abala as mulheres ali dentro, por muitos motivos. A solidão das mulheres mais maduras e a ânsia de descobrir o amor da joven Alicia (Elle Fanning), a inocência de Amy e Marie (Addison Riecke), a irritação de Jane (Angourie Rice) por não poder praticar sua música - tudo é afetado pelo cabo, que consegue criar uma relação com cada uma delas.

Edwina (Dunst): um belo pássaro engaiolado
Aos poucos, conforme o tempo passa e ele demonstra melhora, as interações aumentam. Se antes apenas sua pequena amiga Amy lhe parecia amigável, agora ele já era convidado a jantar e fazer orações. Conforme a intimidade aumenta, a tensão também cresce e John começa a se preocupar com o que será de sua vida fora daquelas paredes acolhedoras. Lá fora, somente o que lhe espera é a guerra, e as duras leis que terá que enfrentar por sua deserção. E é aí que o filme surpreende.

Até então, o espectador mais desatento poderia esperar um romance vitoriano tradicional, com as tensões se dissolvendo até que os amantes se unissem em felicidade plena pela eternidade; porém esse não é um conto de amor. O estranho que nós amamos mostra o quão destruidor pode ser uma relação desigual, independente de quem esteja envolvido. A forte crítica ao machismo do cabo John (que eu não explicarei propositalmente, para não virar um spoiler - mas que muita gente já pode imaginar o que seja) fica evidente na mudança de comportamento delas. A lição que parece ser dada a nós é "todas as mulheres são afetadas". Há um contexto sexual forte e óbvio, mas até as mais inocentes sofrem com as consequências.

As meninas se enfeitam para um jantar na companhia do cabo John
O fato de estarem insatisfeitas em um quase-mundo-paralelo não seria tão ruim quanto foi ao abrirem as portas para um desconhecido. Um homem sozinho conseguiu desestabilizar as vidas de todas elas em pouco tempo. E o que será delas depois que tudo acabar? O argumento é como um tapa na cara, para alertar homens e mulheres das pequenas violências cotidianas. Muitos daqueles comportamentos ainda estão refletidos nos dias de hoje - e olhe que estamos falando de uma estória passada durante o século XIX! É necessário empatia para acabar com as diferenças - e esse é, a meu ver, a falha do longa.

Particularmente, senti um certo distanciamento da diretora com as personagens. Ela as retrata, porém não "interage" ou "reage" com elas. A produção, impecável em todos os sentidos (figurino, maquiagem, produção de arte, fotografia, trilha sonora), soa fria e distante. Pode ter sido um recurso intencional - incrivelmente inteligente - de retratar exatamente essa ideia de "bolha" em que as mulheres viviam, mas me incomodou o fato de eu não me apegar a nenhuma das mulheres mesmo que tenha rolado uma identificação. Afinal, quem nunca se sentiu preso às obrigações e deveres? Quem nunca teve sonhos frustrados? Quem nunca teve medo do futuro? Exatamente por isso fiquei um tanto decepcionada por não ter me apegado a nenhuma delas.

Nicole Kidman como Sra. Martha: bom trabalho, embora fosse mais interessante alguém mais austera

O elenco extremamente reduzido - basicamente, só estão em cena os oito atores principais - é bastante exigido: é como se houvesse uma lupa em cima de cada um dos personagens, e qualquer deslize seria fatal. Para tanto, tiro o meu chapéu para eles. Até mesmo as mais jovens e menos conhecidas atrizes estão impecáveis em seus papeis. Minha única ressalva, talvez, tenha sido a escolha de Nicole Kidman para a dona do internato: creio até que ela fez um belíssimo trabalho, mas a personagem que interpreta, se fosse dada à uma atriz que aparentasse mais idade e mais austeridade, seria ainda mais interessante. 

Contudo, minhas ressalvas são muito particulares - apenas detalhes que não devem atrapalhar nem a experiência do longa nem o debate que ele deve (e merece) trazer à tona. Por tudo isso, O estranho que nós amamos é um filme que merece ser visto e avaliado, pensado e estudado. Um filme que, com certeza, vai render muito papo com os amigos depois da sessão. Obrigada, Sofia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O filme da minha vida


A primeira impressão que se tem é que este é um filme europeu. Mas a narração em bom português já no começo do filme vem para te ambientar: uma cidade do interior, um jovem filho de um francês e uma brasileira, tem sua vida totalmente transformada depois que o pai vai embora de casa sem dar nenhuma explicação. A ausência do pai causa uma profunda mudança na família - como lidar com aquela sensação de perda e seguir em frente?

Esse é o dilema de Tony Terranova (Johnny Massaro), um jovem que vivia tranquilo na cidadezinha de Remanso e fora estudar na cidade grande e se formar professor. Ao retornar, ele descobre que seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), havia abandonado a família e voltado para a França, sua terra natal, sem dar maiores explicações. Sua mãe, Sofia (Ondina Clais), fica sem chão - porém tenta manter a normalidade. Esse vácuo, essa sensação de que a vida nunca mais será a mesma, parece contaminar toda a rotina dos dois.

Paco (Mello) e Tony (Massaro): como conviver sem Nicolas por perto?
Buscando apoio em um dos melhores amigos do pai, Paco (Selton Mello), Tony começa a perceber que é preciso seguir em frente. Ele pode, e deve, continuar seu caminho e aproveitar a vida. Conhecer o amor, educar os mais jovens, ajudar a própria mãe a sair do buraco. E é isso que ele tenta fazer. Assim ele se envolve com a família Pereira: seu aluno Augusto (João Prates), tão ávido para conhecer os prazeres do amor que o impactam diretamente; Luna (Bruna Linzmeyer), a amiga que adoraria ser "algo mais" com ele; e Petra (Beatriz Arantes), a jovem mais bela da cidade - e que abala as estruturas de Tony.

Então Tony começa a reestruturar a vida, porém ele descobre que nem tudo o que ele sabia sobre o sumiço do pai era verdade. E, como o próprio Tony comenta no início do filme, eu não posso falar o que é. Melhor deixar que o público descubra e se encante. As personagens são tão delicadas e fortes, e Selton Mello fez um excelente trabalho ao manter uma aura quase onírica, mas ao mesmo tempo bastante consciente das emoções dos envolvidos. Emoções reais, de dor, abandono, alegria, descoberta trazem esses personagens cativantes para perto de nós.

Petra (Arantes) e Luna (Linzmeyer): as belas irmãs que rondam os pensamentos de Tony

Todo o elenco está à vontade com seus personagens, e destaco a pequena mas impactante participação de Ondina Clais. A forma como sua Sofia reage à ausência do marido, o amor de sua vida, é algo impressionante - sutil e forte, assim como é o filme. Johnny Massaro também entrega um personagem bastante crível, com inseguranças e certezas que qualquer jovem teria ao regressar e encontrar seu pequeno mundinho desabado. Os deliciosos toques de humor são muito por conta do personagem Augusto, que tem outra função na trama - ser a pequena pedrinha que detona a avalanche. 

A direção sensível de Selton Mello, a fotografia quase mágica de Walter Carvalho, a belíssima produção de arte - que reproduziu uma cidade do interior gaúcho nos anos 1970 com perfeição, e a bela estória inspirada no livro de António Skármeta (autor chileno que escreveu "Um pai de cinema", que inspirou esse longa, e "O carteiro de Pablo Neruda", que inspirou outro clássico do cinema, o filme "O carteiro e o poeta") fazem de O filme da minha vida uma experiência imperdível. Como os bons filmes, nos transporta para uma outra época, outra vida, outro jeito de ver a vida. Lindo é pouco.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dunkirk

Dunkirk (Dunkirk, 2017) é um filme de guerra onde a guerra em si é o menos importante. Humano sem ser melodramático, cumpre sua função de emocionar e fazer refletir sobre o que é estar em conflito. Misturando fatos históricos com ficção em uma linha do tempo não-linear, o diretor Christopher Nolan entregou um trabalho primoroso - e que entrou facilmente no meu Top 03 de filmes de guerra.


Fato: cerca de 400 mil soldados ingleses e aliados ficaram encurralados pelas forças alemães na praia de Dunkirk, apoiados por franceses que tomavam conta da retaguarda enquanto os britânicos esperavam apoio marítimo para retornar pra casa. Mas esse apoio era constantemente sabotado pelos bombardeiros aéreos inimigos. Num trabalho conjunto, Exército e Marinha lutavam para resgatar esses homens, mas o esforço não estava surtindo muito efeito: centenas de navios naufragados na beira da praia, de fundo muito raso, dificultavam a aproximação dos poucos navios que conseguiam chegar até o molhe (um píer, duramente mantido de pé pelos soldados). Então a Marinha passou a recrutar pequenas embarcações civis para ajudar na operação.

Tendo isso em mente, saiba que Nolan explicou tudo isso com poesia e maestria. Os pontos de vista de todos os envolvidos na operação são observados: o soldado que só quer voltar vivo pra casa, o que considera uma vergonha ter que voltar assim pra casa, o que já viu demais da guerra, os comandantes e suas difíceis escolhas, os civis com vontade de ajudar. Seres humanos, como eu e você, presos em um conflito tanto interno quanto muito maior que eles - o embate entre dominação e liberdade é pertinente ao ser humano, não é? Envolve a todos, mesmo àqueles que não querem se comprometer com política - e o que é uma guerra senão um duelo de ideias entre pessoas que não se compreendem? Quantos têm que sofrer e morrer (ou sobreviver e lidar com as consequências) antes que a briga recomece?

Um elenco que mistura a experiência de atores premiados como Kenneth Brahgnah e Mark Rylance com jovens e promissores talentos (inclusive o surpreendente desempenho de Harry Styles, cantor da boy band One Direction, de quem - confesso - eu tinha certa resistência), uma fotografia incrível e um ritmo cadenciado, alternando cenas de drama em conflitos internos e tensão ao máximo, só veio abrilhantar essa ótima estória do lado mas sombrio da nossa História.

Com certeza não passará em branco pelas maiores premiações do ano que vem, e cada prêmio será justíssimo. Uma obra belíssima, das melhores que Nolan já apresentou. Simplesmente imperdível (e, no meu caso, inesquecível).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em ritmo de fuga


Em ritmo de fuga (Baby Driver, 2017) me surpreendeu. Não tinha visto nem ouvido muita coisa sobre ele antes de entrar na sala do cinema, mas saí com um leve sorriso no rosto e a certeza de que a vida da gente é muito mais sem-graça por não ter trilha sonora em tempo real. Dois bons filmes em um só: drama e ação, temperados com muita música boa e atuações brilhantes. Edgar Wright, roteirista e diretor do longa,acertou na mosca!

Baby (Elgort): todo esquisito, mas super eficiente quando o "dever" chama
Já no início, um grupo bastante distinto se prepara para assaltar um banco. Baby (Ansel Elgort) é um jovem piloto de fuga, que parece não se encaixar no perfil de bandido experiente - mas a aparência quase inocente do rapaz engana: mesmo mais novo que os outros três integrantes, ele tem quilometragem de sobra (e, aparentemente, tem gelo nas veias também). Com seus fones de ouvido, um par de óculos escuros e sua trilha perfeita, Baby consegue fazer milagres (loucuras?) ao volante e sempre levar o prêmio para casa. Ou seja, apenas mais um dia na vida de Baby.

Darling (González) e Buddy (Hamm): e não é que dá certo esse casal?
No esconderijo/escritório onde encontram com o cabeça da operação, Doc (Kevin Spacey), a gente começa a compreender como tudo funciona. Doc jamais repete uma mesma formação de grupo para evitar possíveis problemas, e Baby é o único que se repete nesses esquemas. Vivendo em seu mundinho de fugas da polícia, música e pouco papo, dividindo um apartamento com seu pai adotivo - um senhor doente e surdo, Baby se encontra em um momento crucial da vida: está prestes a se livrar da dívida que tem com Doc e se apaixona por Debora (Lilly James), uma garçonete sonhadora e tão apaixonada por música quanto ele. Lógico que não podia dar tudo certo, não é?

Debora (James) e Baby: amor puro e inocente como poucos
Diferente da maioria dos filmes do gênero atuais (que se preocupam em basicamente enfileirar sequências de ação mirabolantes e meia dúzia de frases de efeito enquanto o mocinho arrasa-quarteirões - dentro ou fora da lei, não importa - e encontra o amor na musa sexy), aqui temos um bom drama embutido em um filme de ação bem pensado. Tem drama, conflito e romance na jornada na dose certa para Baby se tornar um homem. A trilha sonora, como se pode imaginar, tem papel fundamental no longa: além de cadenciar o ritmo - literalmente - da ação, é ferramenta para Baby  (e, convenhamos, quase todo mundo) sobreviver ao estresse. O equilíbrio entre drama e ação é perfeito, e a atuação inspirada de todo o elenco só complementam a experiência.

Baby e Doc (Spacey): a parte dramática e densa equilibra muito bem com a adrenalina
Por tudo isso, Em ritmo de fuga é um filme que deve agradar e decepcionar muita gente. Explico: para aqueles que estão à procura de um bom filme, divertido, com trilha sonora perfeita e ótimas atuações, vai sair mais do que satisfeito do cinema; mas aqueles que procuram um filme de ação alucinante e ininterrupta podem se sentir um pouco desapontados. Eu me encontro no primeiro grupo, e considero o filme a minha maior surpresa - e um dos meus favoritos - do ano. E ainda arrisco dizer que, daqui a alguns anos, esse vai se tornar um clássico cult queridinho do público e da crítica. É esperar pra ver.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers - O último cavaleiro

Quinto filme da franquia, Transformers - O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight, 2017) é sequência direta de seu antecessor (A Era da Extinção). O protagonista é Cade Yeager, vivido por Mark Wahlberg e ele continua defendendo os autobots - agora perseguidos por um esquadrão militar. Tentando salvar quantos amigos puder, acabará se envolvendo em uma trama muito maior do que imaginava - e que remete às lendas da Távola Redonda. É, você leu direito.



Já no começo descobrimos que a magia de Merlin (Stanley Tucci) é, na verdade, tecnologia alienígena: para ajudar o Rei Arthur (Liam Garrigan), ele recorre à ajuda de um autobot milenar - que lhe confere um cajado com superpoderes e se transforma em um dragão de três cabeças para lutar no campo de batalha. 1600 anos depois, um grupo de crianças consegue invadir uma área protegida pelo governo que é praticamente um cemitério de autobots. Lá encontram alguns ainda vivos, e ativam as defesas. A menina Izabella (Isabela Moner) vivia ali muito antes, e seus únicos amigos eram os robôs alienígenas - e por causa das crianças, ela perde um deles. Cade chega a tempo de salvar a turma dos militares, mas não o suficiente para salvar um dos autobots atingidos. Este lhe entrega uma espécie de medalhão, que será importante mais para a frente na trama.

Izabella (Moner): apesar de fofa, não tem muita função na trama

Enquanto isso, no espaço, Optimus Prime (Peter Cullen) está voltando para seu planeta natal: Cybertron. Lá chegando, ele vê tudo destruído. Quintessa (Gemma Chan), a rainha do planeta em ruínas, o escolhe e domina para conseguir de volta o cajado de Merlin: segundo ela, essa é a única arma capaz de restaurar Cybertron. Todo o planeta, então, se dirige deliberadamente até a Terra, o que aciona o TRF - esquadrão militar de defesa contra Transformers - sendo iminente o ataque ao nosso planeta. Com isso, uma inimaginável aliança desesperada surgirá na tentativa de defender a Terra - mas será que os Decepticons são confiáveis?

Megatron (Welker) e Coronel Lennox (Duhamel): uma aliança improvável

No meio disso tudo, Sir Edmund Burton (Anthony Hopkings) começa a por em prática o plano que guarda há muito tempo. Ao analisar as pistas com Cogman (Jim Carter), descobre que agora é o momento de agir - e só há uma coisa capaz de impedir a destruição do mundo: a união entre magia e ciência, a mesma que salvou a Inglaterra tantos anos atrás. Para isso, ele precisa da ajuda da professora Vivian Wemlbey (Laura Haddock), professora da Universidade de Oxford e especialista em história da Inglaterra.

Vivian (Haddock) e Cade (Wahlberg): romance não convence

Bebendo em várias fontes, mais da aparentemente inesgotável fonte que é a lenda do Rei Arthur, o roteiro (fraco) tenta costurar muitas ideias numa colcha de retalhos enorme e espalhafatosa - e dá muito errado. A gente ri pelos motivos errados, embora o filme seja recheado de alívios cômicos. As sequências de ação mirabolantes e vertiginosas, marca registrada do diretor Michael Bay, são a espinha dorsal do filme - e é justamente isso o que enfraquece o longa. As partes em que a trama deveria se explicar para o público são ora apressadas, ora cheias de jargões militares e tecnológicos, ora piadas um tanto forçadas. Não há tempo para se aprofundar os personagens, e mesmo os maiores Transformers ficam esquecidos.

Quintessa e Optimus Prime: tanta coisa acontece que ninguém se destaca

Ao que parece, não pode haver filme dos Transformers sem a participação de Optimus Prime e Megatron (Frank Welker), mas aqui os dois são meros coadjuvantes. Se não estivessem no longa, nem fariam diferença - qualquer outro Autobot/Decepticon poderiam ter desencadeado as tramas deles. Na ânsia de fazer o fan service, retomam personagens populares da franquia porém sem lhes dar o destaque que merecem e os novos personagens mal tem tempo de se apresentar com uma piada ou tirada genial. No fim, todo mundo soa meio como coadjuvante, sem direito a nenhum destaque pra ninguém em momento algum. Isso reflete na tela: parece que todo mundo está correndo e não sabe bem nem para onde nem porquê. É bem esquisito.  

Cade sobrevive às aventuras, mas a gente se pega perguntando: "como?"

Outra coisa que incomoda são os efeitos especiais. Assistimos ao longa em IMAX, que deveria ser o maior chamariz para qualquer filme dos Transformers, mas não fez muita diferença, não. É carro que se desmonta e nave que se desdobra e submarino (!) que faz curva, e nada disso impressiona - só faz a gente se perguntar como foi que eles (os humanos interagindo com isso tudo) não morreram ali? Para quem não sabe, eu sou dessas que compra qualquer loucura/viagem de autores de ficção (adoro fantasia, e quanto mais louca, melhor), mas há limites para tudo! Fica difícil acreditar que sobrevivemos ao ataque de Cybertron pela forma como foi mostrada nossa defesa - seja só militar, seja com a ajuda dos Transformers. O mais revoltante? O objeto mais importante da história inteira, na verdade, não tem importância nenhuma. 

Sir Barton (Hopkings) e Hot Rod (Sy): tentativas de enredo e alívio cômico do filme

Wahlberg até parece à vontade em cena, e Hopkings entrega um trabalho com excelência - às vezes ele realmente parece estar se divertindo com aquilo - mas o romance mal-ajambrado entre Cade e Vivian é desastroso. A pequena Izabella também não tem muita função, apesar da jovem atriz ser bastante promissora. No fim, o longa é confuso e distraído, deixando muitas pontas soltas para um final aparentemente poético e inspirador que não empolga nem emociona. Diverte pelos motivos errados, e dificilmente vai ficar na memória dos fãs ou agregará novos membros para o time.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Círculo


A sensação ao final de O círculo (The circle, 2017) é de que podia ter sido melhor. Uma premissa ótima, que leva a uma reflexão mais profunda sobre como usamos nossa tecnologia - ou melhor, sobre como não percebemos como a usamos. Voltado para um público mais jovem, é da mesma seara de filmes baseados em livros young adult e que mostram uma verdade cruel para a galera meio desatenta, mas não deixa de ser interessante mesmo para os mais experientes.

Mae Holland (Emma Watson) é uma jovem como qualquer outra: trabalha num emprego ruim enquanto sonha com uma oportunidade de ajudar sua família. Quando sua amiga Annie (Karen Gillan, de Doctor Who e Guardiões das Galáxias) consegue uma entrevista de emprego n'O Círculo, ela sente que essa é a chance da sua vida. A empresa parece ser o sonho de qualquer trabalhador: clima descontraído, muitos outros jovens criativos e empolgados, viagens a lugares descolados, muita tecnologia envolvida. Apesar de assustada com a quantidade de informação e com o volume de trabalho, ela consegue se sair muito bem logo na primeira semana. E quanto maior é a responsabilidade sobre os ombros dela, mais ela quer se dedicar e se provar capaz. Porém Mae não desconfiava do quanto a empresa iria exigir dela - literalmente.
Mae (Watson): mergulhando de cabeça no mundo das redes sociais
Empenhada em se manter no emprego por conta dos ótimos benefícios, especialmente os médicos por conta de seu pai Vinnie (Bill Paxton, em seu último filme), Mae se destaca por sua eficiência. Encantada com as novas possibilidades que a a tecnologia e o pensamento progressista de Bailey (Tom Hanks, excepcional - como sempre), ela sente-se ainda mais responsável pelo programa, principalmente pelas oportunidades de mudança na vida de pessoas como ela. Mas o que ela não percebe é o quanto essa dedicação vai lhe custar. Os efeitos sobre Annie e Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood - da infância à juventude), seus melhores amigos, são o alerta para que ela abra os olhos: nada é tão perfeito quanto parece.

Annie (Gillan) ajuda Mae a entrar para o Círculo: preço alto demais para pagar pelo sucesso
É interessante ver como Mae se dá conta aos poucos do quanto ela se afastou das pessoas mais importantes pra ela e fazer um paralelo com nossas próprias vidas. Quantas vezes nos acostumamos a ter encontros virtuais e isso nos parece tão natural quanto falar ao vivo com alguém - sendo que esse contato não tem nada de natural? Quantas vezes nos dedicamos mais ao trabalho do que às nossas amizades e família? O quanto nos expomos, espontaneamente, sem nem perceber? O quão benéfico e altruísta pode ser um produto comercial? Na era do clicar e aceitar regras sem lê-las, muitas vezes nem pensamos nisso. 

Hanks: carisma e experiência fazem o filme valer a pena
Mas apesar dessa reflexão claramente importante para nós, o longa demora a engrenar - e é o carisma de Tom Hanks que salva tudo. A gente acredita porque a galera topa trabalhar tanto só para ficar mais perto dele - ou ser, um dia, como ele. Ele é aquele chefe inspirador, que é bacana, que ouve os seus funcionários, que recompensa boas ideias - obviamente, tudo até a página 2. E isso é o que é mais fascinante de observar: a sutileza como Hanks trabalha a mensagem subliminar, aquilo que só os olhos conseguem expressar. Aqui vale dizer que os anos de experiência influenciaram e muito no resultado, mas a outra única personagem a apresentar esse extra foi a Annie de Gillan. 

John Boyega teve muito pouco espaço para que seu personagem, Ty, pudesse ter relevância
Emma Watson é boa com dramas, mas a mim faltou um tanto de deslumbramento de Mae ao chegar à nova empresa. John Boyega (o Finn de Star Wars - O despertar da Força) tinha um papel teoricamente importante, mas não houve espaço para essa importância na trama - e eu culpo inteiramente o roteiro, que acabou por valorizar a adaptação de Mae e passou como um rolo compressor pelas nuances dos personagens até chegar ao final apressado. A compreensão do filme não fica prejudicada, mas a experiência de interpretação fica. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Garota ocidental - Entre o coração e a tradição

Baseado em uma história real, A garota ocidental - Entre o coração e a tradição (Noces, 2017) é um olhar mais aproximado de um dilema cotidiano. Um trecho da vida de uma adolescente muçulmana prestes a se casar obrigada reflete muito sobre mais do que apenas a questão da religião. A transição da adolescência, a mulher na sociedade, as escolhas que fazemos, a busca pela verdadeira identidade, as relações humanas, a expectativas versus a realidade. 



A protagonista Zahira (Lina El Arabi) é uma jovem de 18 nos que, como qualquer adolescente, tem inseguranças e incertezas norteando as escolhas mais importantes de sua vida. Em busca de sua verdadeira identidade, acompanhamos os momentos que antecedem a decisão mais importante de sua vida - casar-se e assumir a identidade de sua família paquistanesa ou negar-se a isso e viver a própria vida como qualquer outro jovem?

Zahira (El Arabi): em busca da identidade

Desde o início o filme é tenso: acompanhamos Zahira em uma entrevista, que depois descobrimos ser de uma clínica de aborto. Ali é possível perceber todo o drama que uma decisão desse porte envolve: a sensação de responsabilidade sobre uma outra vida, uma visão do futuro com (ou sem) a nova vida, as pressões externas da família e da sociedade, a falta de apoio do companheiro. Uma síntese brutal em poucos minutos de filme, e logo compreendemos o mundo da jovem.

As irmãs Zahira e Hina (Marion) tem o diálogo mais marcante: "É claro que é injusto. Somos mulheres."
A família é de origem paquistanesa e de religião muçulmana, e apesar de estarem habituados a viver em outro país - que ofereceu melhores oportunidades - os costumes devem ser preservados. Com isso, ela deveria "corrigir o erro" de ter sido apenas uma jovem adolescente e logo casar-se com um dos pretendentes que seus pais escolheram. Quanto antes, melhor. Apegada à família, principalmente aos irmãos Amir (Sébastien Roubani)  e Amara (Rania Mellouli), ela oscila entre sua intensa vontade de viver uma vida normal e o peso que a tradição tem sobre a vida da mulher que segue a tradição. 

Amir (Roubani), o irmão de Zahira: os costumes afetam a todos, porém de forma diferente

A nós, espectadores, fica claro o quanto a jovem gostaria que houvesse uma saída, um meio-termo onde escolher por uma vida para si própria não significaria perder tudo o que mais amava. E nos dói ser apenas testemunhas dos fatos. Dói não haver saída. A forma como o enredo se desenrola deixa claro que o fim será amargo, não importa se terminando bem ou mal para Zahira. O tom melancólico (sem ser melodramático) está no olhar da jovem, e o trabalho da jovem atriz Lina El Arabi foi simplesmente brilhante: construiu Zahira como uma jovem forte, capaz de lidar com intensas emoções e decisões, mas com uma alma jovem, alegre, divertida. Aliás, o elenco inteiro está espetacular, transmitindo muito do que não é dito no olhar - e dou todo o crédito para a sensibilidade do diretor Stephan Streker.

O olhar de Zahira diz o muito mais do que qualquer palavra

As mudanças bruscas de atitude da jovem refletem o que é ser adolescente, mas também influenciam no ritmo e na intensidade das reações desse universo onde ela vive. Há muito pouca margem de liberdade sobre várias questões na vida de Zahira, e a difícil fase da adolescência fica ainda mais complicada com o peso extra com o drama familiar. É um filme bonito com um peso enorme, e o silêncio ao subir dos créditos é reflexo do impacto sobre nós.

Não é um filme fácil de digerir, embora seja fácil se encantar com ele. Um filme que marca pela forma direta com que olha nos olhos do espectador e pede para ser visto, notado, e sobretudo pede compreensão ao invés de julgamento - porque se não existe isso, todos só tem a sofrer. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Múmia


A múmia (The Mummy, 2017) é o filme de estreia do Dark Universe - ou Universo Sombrio, como queiram - da Universal. E, devo dizer, é um bom primeiro passo. O projeto promete reunir os maiores monstros em um único pacote, com o personagem Dr. Jekyll (interpretado por Russel Crowe) de O Médico e O Monstro, capitaneando uma organização secreta que combate os maiores males da Terra - e a múmia foi o primeiro deles.

Logo no início vemos Ahmanet (Sofia Boutella), aquela que seria destinada a ser a faraó, ser “traída por seu pai - que tivera um filho com sua segunda esposa. Tomada pelo ódio, a jovem princesa faz um pacto com Set, o Deus da Morte, para obter poder e controle. Antes que o ritual fosse completado, porém, ela é impedida. Mumificada viva, foi mantida presa pela eternidade em um sarcófago cujo paradeiro se perdeu no tempo.

Nick Morton (Tom Cruise) e seu amigo Vail (Jake Johnson, de New Girl) são dois soldados americanos que se aproveitam de estar no front iraquiano para lucrar com venda de relíquias no mercado negro. Ao roubar o mapa de sua colega de trabalho, a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis) e de acidentalmente deflagrar um conflito com uma célula rebelde, o trio é destinado pelo coronel Forster (Courtney B. Vance) para investigar o que encontraram. Enquanto Jenny tenta compreender aquela estranha descoberta - o que um sarcófago egípcio estaria fazendo tão longe de casa, e sob tanta proteção espiritual? - Nick acaba por desencadear algo maior do que eles poderiam prever: liberando Ahmanet de sua prisão espiritual, ele se torna amaldiçoado - e ela vai precisar de ajuda para cumprir sua vingança.

Basicamente, o roteiro é correto: introduz muito bem a história da múmia, sua maldição e suas terríveis possíveis consequências, além de fazer muito pelo Dark Universe em si: revela o suficiente para deixar o público curioso com a organização e os futuros monstros sem revelar demais. Mas como um filme isolado, A Múmia tem cara de “mais do mesmo” - ou "mais um filme do Tom Cruise". Aliás, quando será que o veremos salvando o mundo sem ter que literalmente fugir correndo (em movimentos de técnica perfeita) de uma destruição poderosa? Fica aí o questionamento. No máximo, conseguiu mesclar melhor terror e comédia do que a maioria. Novamente os efeitos especiais são superestimados e os sustos gratuitos estão lá para satisfazer a plateia que quer pular da cadeira (embora eu realmente não compreenda como a maioria ainda se assusta com os clichês de terror).

A dupla principal tem ótima química, especialmente por conta de Johnson - e o mesmo não pode se dizer do casal Morton-Halsey. Ela, aliás, é a mais fraca do elenco (eu não comprei o romance meia-boca deles dois), e fica muito difícil ter presença perto de um inspirado Crowe fazendo a gente grudar na cadeira com seu Dr. Jekyll/Mr. Hyde. Ele é a melhor coisa do filme, e foi acertadíssima a escolha do ator - e personagens - para ser o elo entre as futuras produções. No fim, o filme é divertido e deve agradar ao público - e eu realmente espero que arraste multidões para o cinema, pois quero muito ver o que vai ser daqui pra frente!

P.S.: assisti ao filme em uma sessão especial na nova sala do UCI New York City Center, na Barra da Tijuca. O motivo? Essa é a primeira sala 4DX do país. Uma experiência única, com certeza: os bancos vibram e se mexem conforme o que se passa na tela, ambientando o público na cena. Então, se tem uma ventania na telona, vai ter vento na sua cara também; se o carro está passando numa estrada esburacada ou fazendo curvas fechadas numa cena de perseguição em alta velocidade, sua cadeira vai sacudir exatamente como se você estivesse dentro do carro. Um barato! E até água eles tem, seja pra gotejar na sua cara quando entra em uma caverna escura e gotejante ou borrifar na sua cara quando algo vier “te atingir” de frente.

Se neste momento você pensou “ai, meu penteado!”, não se preocupe. Há um botãozinho esperto no braço da cadeira para desligar o efeito molhado - embora todos os outros continuem funcionando. E devo dizer que A Múmia ficou muito mais divertido dessa forma. Portanto, recomendo - e muito! - ao menos uma sessão aqui: é muito divertido se sentir parte da cena. Escolha um filme de ação (para fazer valer seu ingresso), traga um pente no bolso, segure-se firme na cadeira e divirta-se!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Mulher Maravilha




Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017) é, finalmente, um longa à altura de uma super-heroína do porte icônico da personagem. Focado na origem da guerreira, mostra a gênesis da defensora da humanidade de forma bela e poderosa - desde a obstinação por fazer o que precisava ser feito até o amadurecimento que só chega com a tragédia, o longa se preocupa em mostrar do que Diana é feita.

A fofíssima Lilly Aspel interpreta a jovem Diana

Diana (Lilly Aspel, fofíssima) é a única criança de Themyscira, a Ilha Paraíso. Filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), sonha em ser guerreira como a ia Antílope (Robin Wright, excelente). Querendo proteger a filha, a rainha a proíbe de ser treinada, mas é convencida pela irmã de que essa é a melhor maneira de protegê-la. A contragosto, a rainha cede. Conta à pequena princesa a história de seu povo e seu destino de proteger a humanidade, sendo que toda amazona deveria estar pronta para combater Ares - o deus da Guerra - quando ele estivesse pronto para voltar. Porém, nem todos os segredos são contados à menina.


Antílope (Wright), a poderosa general das amazonas: guerreiras incríveis
Diana cresce (e agora é vivida por Gal Gadot, como todo mundo já sabe) e torna-se uma excelente e poderosa guerreira, porém ainda não é páreo para sua tia. Ao descobrir um poder que ainda não sabe definir, a guerra encontra as amazonas. Diana se vê resgatando Steve Trevor (Chris Pine, em ótima atuação) de ser afogado em seu avião destroçado. Em seu encalço, um grupo de alemães que o perseguia também cruzam a barreira mágica entre a ilha e o mundo real. Logo as amazonas reagem à invasão, e, embora suas impressionantes e poderosas técnicas de luta sejam muito superiores às dos homens, eles têm algo que elas desconhecem: armas de fogo. A dura realidade da guerra mostra as garras injustas, e Diana agora precisa escolher: obedecer às ordens da mãe e rainha para ficar na ilha e esperar pela volta de Ares ou desobedecê-la e ajudar Trevor a dar fim a uma guerra que já matou milhares de inocentes. Parece óbvia a escolha dela, não é?



Trevor (Pine) em poder das amazonas: seu testemunho vai levar Diana (Gadot) para a guerra

Visualmente muito bonito - em várias sequências, parece que os quadrinhos ganharam vida e foram parar na telona -, com destaque para a produção de arte e figurino, e baseado em um roteiro razoável, a diretora Patty Jenkings (de Monster - Desejo Assassino) teve muito material para trabalhar. Nas entrelinhas, ponteado com muito bom humor e naturalidade, o discurso feminista discorre pelas ações e escolhas de Diana - e isso é um tiro certeiro. As partes de drama são bem entremeadas com as de ação, com peso e importância equilibrados, tornando a heroína ainda mais poderosa nas consequências de suas decisões. Mas, como "não existe um bom sem um porém", vou ser chata e criticar dois detalhes que me incomodaram muito - mas, que fique claro, não tira o mérito do filme.


Essa cena em slow motion é linda. Mas o exagero de efeitos nem sempre fica bacana




Acho que os estúdios um dia vão descobrir que mulheres também curtem cena de ação e luta intensa, especialmente se quem está "mandando bem" é uma mulher. Slow motion em cena de luta é até interessante (como as Wachowski mostraram para o público em Matrix), mas em excesso é um porre (como elas mesmo provaram na segunda temporada de Sense8). Não tem uma cena de luta nesse longa que não tenha sido interrompida por uma ação em câmera lenta; e nem sempre era para valorizar um golpe impactante. Todo mundo sabe que a Gal Gadot é linda e estrela do filme, não precisa ficar dando tanto detalhe no rosto dela no meio das explosões. Ou seja, nem só de homens que vão babar com a beleza da heroína vive a audiência. Grata pela compreensão.
 
Steve Trevor (Pine): mais do que só o par romântico da protagonista


Outro ponto foi o final ligeiramente melodramático. Engraçado pensar que não houve nenhum escorregão brega no relacionamento Diana e Steve durante todo o filme (aliás, uma salva de palmas para isso!), mas no momento mais decisivo, aos 48 do segundo tempo, estava lá: a breguice do amor romântico, a escolha mais importante movida pelo amor. Diana já tinha um senso de dever muito poderoso - tanto que a fez sair da ilha onde estava protegida mesmo contra as ordens da mãe - então achei que forçaram uma barra aqui, no ponto-chave do roteiro. Mas ok, vamos perdoar porque, apesar desses deslizes, não há demérito: o filme foi maravilhoso, com perdão do trocadilho.


Não é fácil engolir que ninguém reparou nessa espada, mas o caminho parece promissor
Com ótima fotografia, sombria na medida certa (sim, isso foi uma alfinetada nos antecessores Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida), uma trama interessante e um elenco afinado, Mulher Maravilha tem tudo para ser um sucesso de público. E, principalmente, provou que a DC/Warner estão aprendendo com seus erros e aproveitando o momento para aparar arestas. Ainda há muito o que se lapidar, mas os augúrios são promissores. Se continuarem no caminho aberto pela amazona (olha só, uma metalinguagem rolando aqui?), o resultado só pode ser benéfico. Agora já posso dizer com ansiedade: que venha o filme da Liga da Justiça!



Z - A cidade perdida






Z - A cidade perdida (The lost city of Z, 2017) é um filme bastante pretensioso: retratando o misterioso desaparecimento de um explorador britânico na Floresta Amazônica após se convencer de que lá havia uma cidade perdida civilizada, muito anterior à Europa. Retratado como um visionário, preocupado ora com a proteção cultural do lugar, ora com a disputa de verdadeiro descobridor de um achado arqueológico, o longa de James Gray - baseado no livro de David Grann - prende a atenção, mas não cativa o espectador.

Percy Fawcett (Charlie Hunnam, de Sons of Anarchy e Rei Arthur - A Lenda da Espada) é um cara que luta contra o destino. Pai de família que nunca obteria honras nem um cargo melhor no exercito por conta da herança paterna (seu pai havia desgraçado o nome da família por perder tudo no jogo), sonhava com a oportunidade de dar uma vida melhor para seus filhos. Quando já estava conformado que não seria possível construir nada melhor para a família que construía com a esposa Nina (Sienna Miller), surge a inesperada chance de ouro: explorar a Floresta Amazônica, mapeando a área para o governo inglês. Se sobrevivesse, seria a chance de recuperar o nome da família e garantir uma vida melhor para sua amada.

Costin (Pattinson): explorador e sensato
Embarcando na perigosa missão, sem nenhuma garantia de que sequer voltaria vivo, conhece Henry Costin (Robert Pattinson) e Arthur Manley (Edward Ashley) - que vão se transformar em seus maiores amigos. Sobrevivendo ao calor e às adversidades, o grupo finalmente dá cabo de sua missão. Ao voltar para a Inglaterra, Fawcett encontra entusiastas e descrentes de sua descoberta. Um apoiador, o também explorador James Murray (Agnus McFayden), resolve financiar e participar de uma nova exploração - que não vai dar muito certo, principalmente por causa dele. Enquanto ele persegue seu sonho, sua mulher fica em casa, cuidando dos filhos, esperando que ele lhe dê a oportunidade de acompanha-lo em suas aventuras. Passando por mais poucas e boas, enfrentando dúvidas e desconfianças, perdas e reveses, ele segue obstinado até as últimas consequências.

Percy (Hunnam) e a tribo indígena: nem tudo foi tão pacífico
Uma história interessante e pouco conhecida por nós, onde o interessse dos europeus sobre terras amazônicas despertam interesse não só pela riquezas materiais, acaba sufocada em meio a soluções apressadas e confusas. A passagem de tempo entre as expedições é sinalizada em legendas com a data, mas a sensação de tempo transcorrido é muito diferente: por exemplo, a primeira expedição parece muito mais longa do que realmente foi, na parte mais importante, parece tudo muito rápido.

Percy (Hunnam) e Jack (Holland): viajando para encontrar seu destino
Salvo o desempenho do elenco - com destaque para Tom Holland, o novo Homem-Aranha, e Robert Pattinson, que defende bem seu personagem taciturno - o longa torna-se pouco cativante. Quem for ao cinema sem saber o que o espera, vai se perguntar qual é o principal foco do filme: é um filme de exploradores/desbravadores? Um filme de guerra? Um drama familiar? Outras incongruências (desde poblemas de continuidade a indefinições estranhas, como a cena do relatório de Fawcett ovacionado e vaiado no conselho) também deixam o público meio em suspenso - principalmente se pensarmos que, com suas 2h30min de exibição, as coisas poderiam ter sido melhor construídas.


Nina (Miller) e o pequeno Jack: vivendo as agruras de ser mulher no início do século XX

A enorme vontade de construir um épico fica evidente, principalmente nas cenas da selva. A crítica internacional parece ter gostado bastante, talvez por causa do fator "exótico", mas cá entre nós, eu não curti muito. Achei interessante, inclusive, ouvir palavras em bom português no longa (a fronteira entre Brasil e Bolívia é a região explorada por Fawcett), mas ainda senti um olhar mais distanciado do que aproximador das duas culturas (a europeia civilizada e a selvagem americana). O final grandioso expressa exatamente isso: é um tanto questionável e pouco emocionante, uma versão romantizada do possível motivo do desaparecimento do explorador que não deve convencer o público da mesma paixão que permeou a vida de Percy. Uma pena.