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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reflexão também rima com diversão



Filmes do Tarantino são sempre cheios de referências pop, sarcasmo, tiradas geniais, trilha sonora deliciosa, uma aparição do próprio Tarantino e muito, muito diálogo. Papo cabeça na veia, tem que prestar muita atenção pra não se perder (coisa de nerd). Um pouquinho de sono e pronto, perdeu o fio da meada. Ou pior, perdeu a piada. Como na história de Butch (Bruce Willis), em que a gente acompanha um Cristopher Walken tentando explicar para o menino Butch de onde veio o relógio do pai dele.


A vida é cruel e irônica, e ele a retrata da forma mais crua possível. E, claro, o diretor faz questão de usar muito sangue pra pintar esse quadro. Aliás, devo admitir que acho isso divertidíssimo. Quando você começaria a rir ao ver um homem ter a cabeça estourada dentro de um carro se não fosse num filme do Tarantino? Ou ao ver uma tentativa desesperada de salvar a vida de uma mulher quase morta por overdose? O cara é um gênio. A naturalidade com que as personagens falam de coisas absurdas, como o casal que discute como vão assaltar o restaurante onde estão tomando café da manhã enquanto dicutem a relação é algo chocante. É o tipo de coisa que não se vê no cinema, mas pode fazer ao estar sentado numa roda de amigos.


Tarantino é um gênio, consegue captar o que os atores tem de melhor e usar com maestria. Não tem um único ator que "erre" quando ele está atrás das câmeras. Talvez tenha sido por isso que John Travolta aceitou voltar pras pistas de dança depois do sucesso de Grease e Os embalos de sábado à noite 1 e 2. Ainda bem que ele disse "sim", por que nós fomos brindados com a sequência de Vincent (Travolta) dançando com Mia (Uma Thurman), a esposa do chefe, descalça, drogada e desengonçada, dançando como se não houvesse amanhã. Referência cult e modelo de fantasia feminina quase obrigatória em festas a fantasia. E o que falar de Samuel L. Jackson? Pra mim, sua personagem é a melhor do filme - um assassino que recita um trecho da Bíblia antes de matar e que, após não ser atingido por uma saraivada de balas, acredita que presenciou um milagre e resolve abandonar a vida de crimes. Sensacional. Outra personagem bábara é o Mr. Wolf (Harvey Keitel). Com uma elegância que permite até o uso de smoking e gravata borboleta, o especialista chega pra limpar a barra do Jules (Jackson) e Vincent (Travolta). Espetacular. Keitel só precisou de poucos minutos em cena para ser inesquecível.


Pulp Fiction fala de vários tipos de violência: da guerra, das drogas, da forma de se expressar, da busca por dinheiro fácil, dos assassinatos, da violência sexual, no trânsito. Mas essas pessoas não são cruéis. Elas só são violentas em determinadas ocasiões, assim como qualquer um (quem nunca perdeu a cabeça que atire a primeira pedra). Como esperar que um cara que matou outro com as próprias mãos em um ringue de boxe seja tão carinhoso e compreensivo com a mulher que é, digamos, um pouco "lenta"? Ou que dois assassinos profissionais tenham que recorrer a uma ajudinha para que não se metessem em encrenca com a esposa do amigo? São essas sutilezas que os tornam humanos.


Acho que é por isso que esse filme é tão cultuado: fala abertamente de violência em vários níveis de uma maneira inteligente, que nos faz refletir sobre nossa própria vida, mas que não desce indigesto como muitos outros "filmes-cabeça" que a gente ver por aí. Ele é atual, divertido, sagaz, de humor ácido e com atuações espetaculares. Para ver, rever, se divertir e refletir.

1 comentários:

Giselle de Almeida disse...

O personagem do Bruce Willis é ótimo mesmo. Um troglodita todo fofo com a namorada... Quase um Shrek.