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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A chegada

 
A chegada (Arrival, 2016) é um filme de ficção científica surpreendente, com muito mais drama do que o habitual, mas ainda não estou muito certa de que isso é um elogio. Uma boa premissa - contada em linhas bem explícitas, inclusive, em um diálogo logo no primeiro terço do longa - e uma narrativa que engana o espectador menos atento, nos deixa o questionamento como seu maior legado. Gostando ou não, é impossível sair do cinema sem refletir sobre o que acabamos de ver.

Louise Banks (Amy Adams) é uma linguista professora de universidade que leva uma vida bastante solitária e deprimente; mas quando 12 naves alienígenas pousam aleatoriamente sobre a Terra, ela é a primeira opção da CIA (serviço de Inteligência americano) para tentar se comunicar com os visitantes que pousaram sobre o estado de Montana - o único em solo americano. Era necessário que algumas perguntas urgentes fossem respondidas o quanto antes, então além dela - para intermediar esse diálogo - o astrofísico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner) também fora convocado.

Ian (Renner): personagem pouco explorado
Apesar da estranheza e de uma certa abertura por parte dos alienígenas, não há como saber se eles  são amigos ou inimigos. Os esforços dos outros países onde as outras naves pousaram em fazer contato também se mostrou pouco frutífero, e os ânimos começavam a se alterar. Cabia à professora e ao físico fazerem as perguntas certas e obterem as respostas que os militares precisavam o mais rápido possível. E, no fundo, só havia uma questão que os interessava: “que armas vocês têm e o que pretendem fazer com elas?”

O medo do desconhecido é o principal vilão nesse contexto. A arma para combatê-lo, logicamente, é a comunicação. Já dizia o Velho Guerreiro, “quem não se comunica, se trumbica!”. E é justamente sobre isso que o filme trata: como nos faz falta uma comunicação melhor. Temos muita informação seletiva - à nossa revelia ou por nossa própria escolha; cada vez mais deixamos passar pormenores e entrelinhas porque temos pressa; o desespero que se transforma em barbárie por pura falta de conhecimento. É uma pauta muito atual e contundente, mas há algo que me incomoda no filme. 

A nave em Montana, US: fotografia belíssima
As passagens de tempo são excessivamente longas em determinado trecho e muito apressadas no momento crucial - quando se explica o plot. O tempo, aliás, é outra parte importante do argumento do filme. A forma como vemos, vivemos, experimentamos e entendemos o tempo é muito particular a terráqueos e, ainda assim, difere para cada ser humano - e ainda há outros zilhões de modos de ver e sentir o tempo que não somos capazes de compreender. Esse é um ponto-chave do longa, e mais não comento para não estragar a experiência do espectador. Mas há duas condições que me impedem de dizer “amei esse filme!”: a personagem Louise e o final agridoce. 

Louise (Adams) e a comunicação: ideia brilhante
A interpretação de Amy Adams é excelente, mas acho que há um tanto de carga dramática extra sobre a personagem Louise que não precisaria estar lá. Ela, como fio condutor dessa nossa imersão na história, nos transmite exatamente as sensações que temos do lado de fora da tela - confusão, percepção, encantamento e, principalmente, tristeza. Me chamem de chata, mas a tristeza da personagem mais do que incomoda a gente - nos infecta. Há beleza no final da história, e a gente compreende todas as escolhas de Louise, mas a gente sofre com ela também. Talvez eu só não estivesse preparada para tamanha emoção em um filme de ficção científica com alienígenas.

O final também foi um tanto decepcionante quando arruma soluções ligeiramente apressadas para solucionar a crise. Fosse um filme de ação, ela teria cortado o fio vermelho e desativado a bomba faltando 5 segundos para a explosão. Apesar de tudo, o fim é coerente e as pontas soltas ficam amarradinhas - algumas meio frouxas, mas vá lá. O ciclo é fechado sem maiores comprometimentos.

O visual é impecável, e a leitura "vemos apenas uma brecha do universo" se prova em cada take
Há elementos interessantes no quesito “nerdice”: a estrutura física dos aliens, as naves, a linguagem (já quero camisetas!), mas não sei se vai agradar aos fãs de pura ficção científica - como também não sei se agradará aos fãs de drama por sua temática tão distinta. A fotografia do filme é intensa, linda, impactante, e dialoga bastante com o tema complexo. A direção delicada e firme de Dennis Villeneuve que conduz com elegância elenco e roteiro e não deixa o filme se perder. Por tudo isso, A Chegada tornou-se um filme imperdível: não dá apara avaliar se gostou ou não gostou pela opinião alheia, tem que ver e experimentar. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Animais fantásticos e onde habitam

No início, somos apresentados a Newt Scamander (Eddie Redmayne, especialmente dedicado à construção do herói), um viajante inglês que chega à Nova Iorque em meio a uma crise: Grindewald (que, já foi anunciado, será vivido por Johnny Depp nas continuações dessa saga) está causando o caos em toda parte do mundo e seus ataques ameaçam expor o mundo bruxo. Muitos não-mágicos - como os americanos chamam os trouxas - já perceberam os indícios de bruxaria e estão revoltados e com medo. Eles tem até razão em temer, de certa forma, mas os bruxos do Ministérios da Magia Americana (chamada MACUSA) estão empenhados em amenizar os impactos das ações de Grindewald e prendê-lo o quanto antes (de preferência, antes que uma guerra civil se instaure entre bruxos e não-mágicos.

Eis um filme que causou muita expectativa nos fãs de Harry Potter e do universo mágico criado por J.K. Rowland: Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)  não é, como muitos podem esperar, uma continuação da saga - é, na verdade, uma história anterior. Passado nos Estados Unidos dos anos 1920 e tendo apenas um ator britânico no elenco, o filme pode causar estranheza por vários motivos. Mas tendo um pouco de paciência, é fácil se encantar novamente com o universo mágico.

Tina (Waterston), Newt (Redmayne), Queenie (Sudol) e Jacob (Fogler) - os novos protagonistas

Percival Graves (Farrel): auror
Newt é tímido e atrapalhado, e acaba sempre envolvido em "acidentes". Não poderia ser de outra forma que ele conseguiria se meter nesse enredo: em sua mala mágica, que ele carrega em suas viagens ao redor do mundo, ele coleciona e abriga animais fantásticos (cuidando para sua conservação, estudando e catalogando espécies e propriedades); mas quando um simpático - e adoravelmente terrível! - pelúcio escapa da mala em meio a um protesto dos Novos Salemeicos (não-mágicos radicais), ele está em apuros. Em meio a tudo isso, há uma criatura invisível destruindo a cidade e causando muita dor de cabeça a Percival Graves (Colin Farrel), um auror que não mede esforços para encontrar a tal besta.

Newt e o pelúcio: o bichinho é tão fofo e hilário quanto é encrenqueiro e sem-vergonha
Tina Goldstein (Katherine Waterston), uma ex-auror, está vigiando o protesto e percebe que algo está errado com Newt. Vigiando-o, vê quando ele - novamente - acaba por acidentalmente introduzir Jacob Kowalski (Dan Fogler), um não-mágico, no mundo bruxo. Ele é apenas um homem que sonha abrir uma padaria - e está buscando recursos para isso - mas que tem o infortúnio de ter uma mala igual a de Newt. Sim, vem muita confusão daí. Mas Tina está obstinada a voltar a seu antigo trabalho e acha que o caso-Newt-Scamander vai lhe garantir o retorno ao Ministério. O que ninguém esperava era que os acontecimentos fossem mudar dramaticamente tão rápido - nem tão cedo.

Tina e Newt com Graves no Ministério: a mala mágica causou muitos problemas
Animais Fantásticos e Onde Habitam é uma espécie de introdução àquela atmosfera de magia que nós nos acostumamos a ver durante a saga Harry Potter, mas não é um filme que se sustente para não-iniciados no mundo bruxo da autora da saga e roteirista deste longa J. K. Rowland. Creio que seja difícil para quem nunca ouviu falar em "trouxas", "Ministério da Magia", "legilimência" e "elfos domésticos", por exemplo; mas há também uma familiaridade em personagens cativantes que pode agradar ao leigos. Para quem já é fã, a temática mais adulta e menos maravilhosa da magia pode causar cera estranheza no início - mas é muito fácil superar e se entregar ao enredo.

Newt Scamander é tão carismático que deve ganhar o coração dos fãs
A comparação com Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) é inevitável, mas é também positiva. Em ambos há uma primeira fase de ambientação e apresentação dos personagens - e, diferente de Hogwarts, a cidade não é um ponto fundamental na história. Enquanto vamos nos habituando aos nomes e rostos, descobrimos o fantástico que habita na mala de Scamander: o universo e as criaturas lindas, divertidas, interessantes e maravilhosas, ao mesmo tempo em que começamos a nos afeiçoar a ele. A dedicação do personagem a essas criaturas é lindamente interpretada por Redmayne, e vai ser difícil não se apegar a ele.

Jacob aprendendo com Newt como cuidar dos animais fantásticos como o simpático Picket, um tronquilho
Outra diferença básica entre A Pedra Filosofal e Animais Fantásticos é que os personagens não estão descobrindo a magia  - a não ser o não-mágico Jacob, mas sim o que eles realmente são. Essa busca pela própria identidade é o que move os quatro personagens principais - Newt, Jacob, Tina e Queenie (Allison Sudol), irmã dela - que são obrigados a enfrentar perigos numa mudança drástica de rotina. Nada jamais será a mesma coisa depois que esses quatro se encontram, e apenas uma prévia dos terríveis acontecimentos que estão por vir foram mostrados.

Picquery (Ejogo): apagada
Pode não haver um castelo mágico empolgante ou o ar infanto-juvenil fantástico que a saga original, mas o carisma do personagem Scamander e a química entre os protagonistas promete fazer dessa nova empreitada cinematográfica um sucesso de público e crítica. A produção primorosa, já velha conhecida dos fãs, é de tirar o fôlego. Todo o elenco está muito bem em cena (uma exceção, talvez, para Carmen Ejogo e sua fraca presença como Seraphina Picquery, presidente da MACUSA). Efeitos especiais elaborados tornam as criaturas ainda mais fantásticas e o 3D realça muito bem os momentos mais impactantes sem ser "demais".

Para aqueles que são fãs e sentiam saudade de esperar um novo lançamento da franquia a cada Natal, Animais Fantásticos e Onde Habitam vai cumprir o papel com louvor - a sensação que fica ao final, no gancho para a sequência, lembra muito a virada de clima que acontece em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) que é, na verdade, quando Harry deixa de começar a entender a magia e precisa enfrentar seus medos para não sucumbir ao mal. A começar a história nesse nível, a expectativa para as sequências só aumentam. E pelo que sabemos, J. K. sabe como nos surpreender.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Doutor Estranho

Juntando as peças para a grande batalha, a Marvel apresenta aos espectadores o filme do Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016). Um personagem diferente dos outros herois a que estamos acostumados a ver nas telonas, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) não tem poderes mutantes ou produto de experimentos científicos, tampouco é um semideus alienígena ou espião ultra habilidoso. Sua historia é mais a de um anti-heroi: um homem que se vê obrigado a aceitar um destino que não quer.  

Kaecilius (Mikkelsen): usando a magia para o mal
O filme começa com um grupo de monges obtendo um feitiço importante de um livro sagrado em uma biblioteca de forma absolutamente cruel: após matar o bibliotecário, Kaecilius (Mads Mikkelsen) leva consigo um feitiço proibido que pode destruir o mundo. A Mestre Anciã (Tilda Swinton) ainda tenta impedir o roubo, usando de magia e habilidades marciais incríveis - tanto que Kaecilius, mesmo com um grupo muito maior, nem tenta confrontá-la: apenas quer fugir, e acaba conseguindo escapar. Então somos apresentados a Stephen Strange (Cumberbatch): um renomado neurocirurgião que se sente plenamente satisfeito com sua vida e seu status. Bem-sucedido, extremamente inteligente, se dá o direito de operar os casos de sucesso - mesmo que o procedimento seja muito arriscado, se há uma boa chance do paciente se recuperar, ele aceita o “caso perdido”. Porém, se não há condições de recuperação perfeita, a arrogância dele o faz desprezar o caso.
Christine (McAdams) e Stephen (Cumberbatch): parceiros de profissão
Mas ele vê sua vida mudar drasticamente quando, em um acidente de carro, perde o controle de suas preciosas mãos. Antes precisas, agora estão arruinadas e nem mesmo os tratamentos mais caros ou mais experimentais puderam recuperar os movimentos perfeitos e precisos. Sua carreira está, para sempre, arruinada - e ele também pensa que sua vida foi para o brejo junto com ela. A doutora Christine Palmer (Rachel McAdams), sua parceira no hospital e ex-namorada, sofre por vê-lo tão obcecado com a perda da precisão, pois acredita que ele está desperdiçando tempo e energia em um caso sem reparação ao invés de aproveitar a segunda chance que teve de viver. Mas Strange não dá ouvidos à ela, e tenta sozinho um último recurso: desesperado, procura informações sobre um lugar misterioso que já havia conseguido reparar um caso médico considerado impossível.

Strange encontra Pangborn (Benjamin Bratt) e dele recebe as informações que precisa: gastando seus últimos recursos, viaja até Kathmandu atrás do Kamar-Taj. Ao encontrar o lugar, decepciona-se: acreditando ser uma espécie de seita que renega a ciência, se vê obrigado a aceitar algo que existe alguma coisa além dos seus conhecimentos quando a Anciã o confronta com uma projeção astral. Desesperado por uma chance de cura, ele acredita que pode aprender a usar a magia a seu favor - exatamente como Pangborn. Mas o destino tem outra função para o doutor.

Mordo (Ejielfor) e Strange (Cumberbathc): treinamento em Kamar-Taj

Doutor Estranho é um filme, com perdão do trocadilho, estranho. Apostando em uma carga dramática maior que nos outros filmes da Marvel, mas ainda sem querer perder o tom de bom humor que permeou os outros longas (e que cativou muitos fãs que não conheciam os quadrinhos antes das estreias em cinema), a obra fica ligeiramente confusa entre ser drama ou diversão. Por isso fica um gostinho de que erraram a mão na hora das piadas: não que eu não curta as gracinhas em cena, mas é que, às vezes, não precisava. Strange é um homem que deveria ser muito desagradável e que, aos poucos, vai percebendo que a vida não gira em torno do próprio umbigo. Essa queda na realidade está subentendida em diversas metáforas e não há porque não deixar essa ser a marca do personagem: a tomada de consciência de que somos nada no universo é muito mais impactante do que uma piada pastelão para nos fazer rir em meio a uma batalha de vida ou morte. Esse foi apenas um detalhe na trama, mas contagiou todo o enredo. Por isso é uma falta grave.

Mas, para além disso, o filme funciona muito bem. Introduz personagens importantes e uma mística diferente aos superherois que o público não está acostumado a ver. O Doutor Estranho não tem superforça, não voa sozinho, não sabe lutar com armas - sua única chance, seu poder, vem de acreditar em si mesmo. A forma como a jornada do herói foi construída é bastante linear, talvez para compensar os malabarismos visuais e a complexidade da trama maior em que o Doutor se envolve. Aliás, fica bem claro desde o início que o heroi foi apresentado neste exato momento por conta disso: se você não viu Thor - O mundo sombrio (2013), Os Guardiões da Galáxia (2014) nem Os Vingadores - A guerra de Ultron (2015), vai ficar meio perdido quanto a esse enredo aí.

Anciã (Swinton) demonstrando o poder de sua magia

No fim, o filme flui bem. Com um elenco estelar, seria muito difícil errar na composição dos personagens. Cumberbatch acerta no tom arrogante e divertido do heroi (diferente do quase robótico vilão Kahn de Star Trek - Além da escuridão); McAdams aparece pouco, mas tem participação decisiva - e divertida - durante a construção de Strange; e Swinton esbanja talento ao reunir força e sutileza em mais um papel ambíguo: ok, puristas, sabemos que na HQ o Ancião é um homem; mas se você puder deixar isso de lado, vai aproveitar muito mais a inteligente composição da atriz para um personagem tão complicado e importante. Destaco a participação de Benedict Wong como Wong, o novo bibliotecário, que rende algumas das melhores piadas do filme.

Efeitos especiais são um grande atrativo do filme: vale a pena uma sessão em 3D
Elenco em sintonia, efeitos especiais bastante mirabolantes (mesmo tendo aquele efeito de “já vi isso em outro filme...”) que realmente funcionam no 3D. Uma boa pipoca de fim de ano, e um ótimo ensaio para um tom mais pesado nos filmes: basta entenderem que nem sempre precisa de uma piada para salvar o dia. Mais uma peça para o quebra-cabeças que culminará na Guerra Infinita. Ah! Não saia do cinema antes da segunda cena pós-créditos, ok? “Ah, mas todo mundo sabe que tem que esperar até o fim...” Bem, se mesmo com aviso o pessoal sai da sala antes de acenderem as luzes... Não custa nada reforçar, não é?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Garota no Trem


A Garota no Trem (The Girl on the Train, 2016) é, para dizer o mínimo, interessante. A princípio, parece que acompanharemos apenas a suspeita de Rachel (Emily Blunt, em boa atuação) sobre a vida de um jovem que ela admira ao passar todo dia em frente à casa dela. Pela janela do trem ela vê a garota quase todo dia, acompanha sua rotina e fantasia sobre a vida perfeita que ela tem - e, principalmente, uma que ela própria não teve.

Aos poucos vamos conhecendo melhor como funciona a cabeça de Rachel. Alcoólatra, divorciada, vivendo em um apartamento compartilhado. Tudo está dando errado para ela. E, como se não bastasse, tudo parece ir bem para seu ex, Tom (Justin Theroux), e a nova esposa dele, Anna (Rebecca Ferguson). Ela, aliás, havia sido amante dele enquanto Rachel e Tom ainda eram casados. Tudo parece tão humilhante para ela, que se afunda cada vez mais em seu vício. O que Rachel não sabe é que a vida que ela inveja não é exatamente o mar de rosas que ela fantasia. Megan (Haley Bennet, surpreendente) é uma jovem com muitos problemas. Mesmo tendo um marido lindo, que a ama, e tendo uma vida de comercial de margarina, ela se sente sufocada naquela rotina. Muito de seus problemas tem uma raiz muito mais profunda, que ela não compartilhava nem com seu marido.

Tom (Theroux) e Rachel (Blunt): relação de ex-casal complicada
Tudo começa a ir mal quando, um dia, Rachel vê, pela janela do trem, Megan beijando outro homem. Obcecada em descobrir quem é aquele cara, e irritada com a jovem por supostamente estar estragando sua felicidade, Rachel começa a surtar. De novo. O ex-marido e a nova esposa voltam a temer que ela tente alguma coisa contra sua bebê, Evie. O fundo do poço chega quando Megan é dada como desaparecida, e Rachel resolve interferir no caso. Acreditando que aquele homem misterioso está envolvido no desaparecimento, Rachel procura Scott (Luke Evans), marido de Megan, e se passa por amiga dela para lhe revelar as suas suspeitas.

Scott (Evans) e Megan (Bennet): teriam mesmo uma vida perfeita?
O longa tem trama intrincada e pesada. Por mais que já se tenha visto algo parecido (não há nada de revolucionário na forma como foi filmado ou editado), o filme prende a a atenção do início ao fim. Algumas cenas são impactantes, e a temática da violência permeia todo o enredo: interna, doméstica, a causada pelo excesso de álcool, a inconsciente permissão da violência, o prazer das pequenas vilanias, rompantes de fúria a que todos estamos sujeitos. É um soco na cara, uma estória que te faz abrir os olhos para o sofrimento velado. Julgar é fácil, mas enfrentar os próprios medos é algo que só os fortes são capazes.

Anna (Ferguson): a amante que virou esposa agora teme a ex do marido
A direção de Tate Taylor é especial no sentido de extrair o melhor dos atores, que também se esforçaram para compor personagens tão fortes, e por manter o clima tenso do início ao fim. Destaques para Bennet e Theroux, que eu pouco conhecia o trabalho anterior e que impressionam. Uma estória forte e impactante, que te faz refletir ao sair do cinema. Mais do que apenas uma adaptação de livro, um bom filme no momento certo da História.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Inferno


Inferno (Inferno, 2016) é o novo filme de Ron Howard, também diretor dos longas anteriores da franquia (O código DaVinci, Anjos e demônios), e traz de volta Tom Hanks no papel de Robert Langdon - um especialista em simbologia que acaba sempre arrastado para resolver algum enigma indecifrável para salvar o mundo. Dessa vez, o desastre pode atingir proporções inimagináveis: o vírus da peste negra está prestes a ser liberado e tem capacidade de extinguir até 95% da população mundial. 

Langdon (Hanks) começa o filme muito mal: internado em um hospital, com um grave ferimento na cabeça, tenta se lembrar como ele foi parar ali. Por conta da lesão, ele não lembra do que aconteceu com ele nas últimas 48h - então não sabe porque ou quem o está perseguindo. Ele está claramente envolvido em algum tipo de enigma, mas as alucinações que sofre sobre o inferno descrito por Dante o confundem ainda mais. A doutora Siena Brooks (Felicity Jones) acaba sendo obrigada a ajudá-lo quando ele sofre um novo atentado no hospital, e as coisas começam a ficar mais preocupantes.

Langdon (Hanks) e dra. Brooks (Jones): decifrando o enigma
Está claro que Langdon sabe de alguma coisa e essa informação é vital, porém ele ainda sofre dos efeitos colaterais de seu ataque. Ele descobre um micro projetor em seu bolso que contém a imagem clássica do desenho do inferno como concebido pelo autor italiano Dante - porém há algo de errado. O desenho fora alterado e as pistas levam Langdon e a dra. Brooks a ter que fugir pela cidade de Florença sem saber quem é amigo ou inimigo. Eles descobrem quem fez a alteração, e é o bilionário Bertrand Zobrick (Ben Foster) o responsável pelo problema: suas ideias radicais sobre as mazelas que a superpopulação humana e seu comportamento nocivo ao planeta o levaram a usar seus recursos ilimitados para recriar o vírus da peste negra. Ao ser perseguido por agentes da OMS (Organização Mundial de Saúde), ele prefere se matar antes de revelar onde pretende lançar o vírus - porém deixou pistas escondidas para que qualquer um de seus inúmeros seguidores pudessem descobrir e liberá-lo, terminando, assim, sua macabra obra.

Percebendo que estava na pista desse vírus, ainda sem saber em quem confiar - pois até a polícia parecia estar no encalço dos dois, Langdon e Siena correm contra o tempo enquanto coletam e decifram informações sobre o escritor Dante, suas referências ao inferno e viajam para diversas cidades tentando evitar o apocalipse.

Alucinações de Langdon: muito efeito especial macabro
Baseado em obra de sucesso de Dan Brown, o filme se mostra um bom entretenimento. Não apresenta nada muito original ou diferente dos outros dois primeiros longas, embora o ritmo de ação deste seja bem mais ágil que o dos antecessores. Com o ganho em ação, perde-se em detalhes. A missão do bilionário soa como um capricho de “menino rico” em seu propósito quando não se explora o suficiente o porquê dele ser tão obcecado com o suposto “bem-estar” do planeta. Diferente do primeiro longa, onde as pessoas podiam também aproveitar um pouco das obras enquanto o protagonista analisava e tentava decifrar os mistérios, nesse ritmo acelerado a gente mal consegue ver ou se localizar. Outro detalhe que me incomodou particularmente foi excesso de efeitos especiais na sequência inicial: além de pouco impressionar, fiquei na dúvida se foi para parecer real ou propositadamente falso. Um destaque positivo vai para a deliciosa participação de Irrfan Khan como o chefe de uma empresa de segurança privada que está envolvida com os segredos do bilionário Zorbrist - em atuação inspirada, rouba a cena nas poucas vezes que aparece na tela.

Irrfan Khan como Harry Sims: uma das melhores surpresas do filme
No fim das contas, o longa pode agradar a quem procura um filme sem maiores pretensões do que somente uma boa pipoca, Inferno está valendo. Consegue prender a atenção até o fim, mesmo que não seja um resultado final brilhante. Uma boa pedida para o feriado, deve agradar aos fãs da franquia no cinema.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Lar das Crianças Peculiares


Uma realização peculiar para uma fábula peculiar - creio que essa seja a melhor forma de definir este O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's home for peculiar children, 2016). O longa de Tim Burton cumpre a função de apresentar um mundo diferente, mas deixa a desejar aos fãs que esperavam voltar a vê-lo em sua fase mais fantástica ou sombria.

Jake Portman (Asa Butterfield, que tá enorme) é um adolescente comum que vê sua vida virar de ponta-cabeça quando seu avô, Abe Portman (Terrence Stamp), sofre um ataque: ele sofria de demência, e acreditava estar sendo perseguido por monstros. Jake acaba descobrindo que os monstros que o avô lhe contava estórias realmente existem da pior maneira.

Crianças peculiares na sessão diária de filme: momento divertido
Com dificuldades de acreditar no que viu, ele precisa de ajuda médica para se equilibrar e voltar à vida normal. Mas um presente de aniversário deixado por seu avô antes de sua morte o faz querer confrontar de vez a fantasia que o avô fizera tanta questão de manter incutida em sua cabeça: as pistas encontradas no livro e no cartão postal, recebido de há pouco tempo, comprovavam a ligação entre as antigas estórias pra dormir que ele lhe contava e a realidade de seu passado no exército e as viagens pelo mundo que o afastavam de sua família.

Sra. Peregrine (Green): protegendo e ensinando as crianças
 Jake acaba viajando com seu pai até o País de Gales com o filho atrás do endereço do orfanato onde seu avô morou quando criança. O rapaz está animado por finalmente ter uma chance de descobrir a verdade. Ao chegar ao local, ele descobre que o prédio está totalmente destruído desde 1943, quando foi alvo de uma bomba nazista. Chateado por ter pensado que o fantástico realmente não existia (e que era apenas uma fuga do passado traumático de seu avô), Jake é surpreendido pelas crianças peculiares quando volta a visitar o lugar com mais calma.

Familiares a ele, pois os conhecia pelas fotos que Abe guardara, ele as segue até o período de tempo onde eles estão escondidos. É assim que ele descobre que todo dia é dia 03 de outubro de 1943 para eles, e como isso acontece. Recebido alegremente pela própria Sra. Peregrine (Eva Green) e pela maioria das crianças, Jake só não compreende porque nenhum deles quer lhe contar mais sobre seu avô. Mas acontecimentos estranhos começam a acontecer na ilha onde eles se encontram, e Jake é um dos principais suspeitos: preocupado que o filho estivesse em um acesso de loucura, seu pai decide ficar mais presente. Mas uma informação confidencial à sra. Peregrine, enviada por seu avô, se faz urgente: um ataque recente a um porto seguro semelhante ao orfanato pode por as crianças em perigo - e Jake pode ser a única pessoa capaz de evitar o desastre.

Jake (Butterfield) em ação: só precisa aprender a mirar melhor
O filme entretém do começo até o fim, mas não permanece na memória por muito tempo depois que saímos da sala de cinema. As personagens são divertidas, mas as peculiaridades acabam sendo mal aproveitadas - em algumas sequências é bem óbvio que elas poderiam ter feito muito mais do que fizeram. A direção de arte é impecável, mas a fotografia (por incrível que pareça) deixa a desejar: o efeito azulado e frio da noite americana não funcionou como deveria, e deixou saudades de uma paleta de cores mais impactante como em outras obras do diretor.

Asa Butterfield se dedicou à construção de Jake e o faz parecer realmente verossímil - infelizmente, as outras crianças passaram longe de atingir o mesmo resultado. Com o elenco de adultos, os nomes mais importantes também não se sobressaem. Ao passo que Samuel L. Jackson interpreta vilão Barron de forma caricata "no limite" - ele parecia realmente estar se divertindo no set, dame Judi Dench mal aparece em cena. Eva Green fez de sua Peregrine uma mistura de Nanny McPhee e a bruxa Angelique, de Sombras da Noite (também de Tim Burton). Às vezes os trejeitos meio robóticos chegavam a incomodar. E ainda há um agravante: conversando com leitores da obra de Ranson Riggs, descobri que foram feitas mudanças significativas em personagens e funções na estória, o que pode levar a algumas reações bastante negativas por parte dos fãs da trilogia. Para quem não leu, a mudança funciona - o roteiro, apesar de uma falha aqui e outra ali, é bem amarradinho.

Emma (Purnell): efeitos bacanas em cena impactante
Mas apesar de todos essas dificuldades, o filme consegue agradar. "Satisfatório" seria a melhor definição para o resultado do longa, que manteve o ritmo constante de ação, distribuiu as doses de drama e comicidade em partes iguais, e ainda trouxe algumas imagens realmente belas (a sequência no salão do navio afundado é interessantíssima). Comparando aos outros blockbusters desse ano, o filme se mantém no saldo positivo - mas se comparado aos outros trabalhos do diretor, O orfanato da Sra. Peregrine deixa muito a desejar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O bebê de Bridget Jones

O bebê de Bridget Jones (Bridget Jones' baby, 2016) é uma agradável surpresa para os fãs do primeiro filme que não ficaram tão fãs assim da continuação. Em tempo, mesmo aqueles que curtiram o segundo longa da solteirona mais amada (e disputada) do mundo, também irão se divertir com a sequência, que recuperou o tom despretensioso do início e conseguiu juntar um bom elenco em um roteiro bem ajeitado.

Bridget (Reneé Zelwellger, quase irreconhecível) está sozinha e abandonada de novo em seu apartamento em pleno aniversário. Em flashback, descobrimos como isso aconteceu. Todos os seus amigos mais antigos tem filhos e/ou algo mais importante para fazer, os novos do trabalho estão cada um curtindo sua solteirice e Bridget parece que não se recuperou ainda do término com Mark Darcy (Colin Firth, maravilhoso).

Para completar, ela ainda vai ao enterro de Daniel Cleaver (Hugh Grant, que não aparece no longa) e faz mais um dos seus tenebrosos discursos em público. Com a nova chefe no trabalho, mais nova e cheia de pose, ameaçando a estabilidade de todo mundo, abalada com a realidade de estar novamente solteirona aos 40, Bridget finalmente resolve arriscar.

Junto com a amiga Miranda (Sarah Solemani), apresentadora do programa que ela supervisiona, Bridget vai ao seu primeiro festival de música. Obviamente, ela não estava nem um pouco preparada. O desafio que sua amiga lhe propõe: transar com o primeiro cara que a abordar. Esse cara é Jack Qwant (Patrick Dempsey), e de cara eles se dão bem. Ainda relutante em aceitar o desafio da amiga, ela deixa a oportunidade passar e vai curtir o festival. Mas o destino parecia querer dar uma forcinha para Bridget e Jack.

Pouco depois, foi a vez de Bridget reencontrar Darcy. Durante o batizado de seu afilhado, eles, como padrinhos, acabam se reconectando. Mas para Bridget fica claro porque eles não deram certo, e antes que pudesse se magoar, ela vai embora. Depois dessa maratona emocional, ainda havia a pressão no trabalho. E tudo o que ela menos esperava era ficar grávida àquela altura do campeonato.

Ao descobrir o que acontecera, veio a dúvida: quem seria o pai? Quem era aquele Jack, que ela só vira uma noite? Será que, com um bebê na equação, as coisas poderiam se acertar com Mark? E no emprego? Como ficariam as coisas? Bridget não sabe, mas vai resolver tudo isso do jeito dela.

O bebê de Bridget Jones lembra bastante o primeiro longa da franquia, em que se propunha a ser uma comédia leve e até um tanto previsível, porém bem executado e resultando num filme acertado em que se propõe. O fato é que todos adoram as trapalhadas de Jones e como ela acaba sendo ferrenhamente disputada por dois homens maravilhosos (cada qual a seu jeito) e improváveis pares românticos. Com a idade dos personagens, surgem novos desafios e inseguranças - e essa nuance é bastante interessante, o que diferencia este filme dos outros do mesmo gênero.

Mas apesar de algumas situações realmente hilárias e participações especialíssimas de Emma Thompson e Ed Sheeran (que rendeu uma das melhores piadas do filme), o longa não supera algumas falhas importantes. O roteiro, apesar de enxuto, não surpreende de forma alguma. Há problemas sérios de continuação e maquiagem (os cabelos e rugas de Darcy podem mudar inclusive na mesma cena) e muitas situações acabam sendo variações do que deu certo antes.


Todo o elenco de apoio reaparece em algum momento, o que é fofo, mas ele não são tão relevantes na vida de Bridget quanto eram antes - e também não há destaque para os novos personagens. Algumas soluções são um tanto óbvias e até forçadas, além de o novo par romântico de Jones, Jack, não ser tão charmoso e irresistível quanto o anterior, Daniel.

Ironicamente, mesmo com vários fatores contra, o filme resulta em algo mais que satisfatório. Parece mesmo com a vida da personagem, que faz tudo errado e, no fim, acaba dando tudo certo. Vale pela nostalgia, pelas gargalhadas genuínas e pelo desfecho (um tanto previsível, admito) feliz. Mas, sabe como é... Nada dura para sempre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sete homens e um destino

Um faroeste moderno à moda antiga. Acho que é assim que posso definir essa ótima surpresa que é Sete homens e um destino (The magnificent seven, 2016). A estória clássica do mocinho versus bandido, onde o gatilho mais rápido vence, ganha bons ingredientes sem perder o charme clássico do gênero.

A cidadezinha de Rose Creek é formada por homens e mulheres camponeses, em sua maioria. Mas a ambição sem limites de Baetholomeu Bogue (Peter Saarsgard), que deseja explorar todo o ouro da região. Revoltados com a forma coo são explorados, alguns moradores resolvem se reunir em um comitê e decidir o que fazer: uns querem paz, outros querem luta, outros quer fugir, outros ainda preferem negociar. Mas Bogue decide por eles: decidido a dar uma lição contra quem quiser se opor a ele, deflagra um massacre na cidade.

Pouco tempo depois, em outra cidade perto dali, o justiceiro Chisolm (Denzel Washington) chega em seu cavalo e logo a cidade sabe que vem encrenca por aí. Buscando por um fugitivo, encontra Joshua Faraday (Chris Pratt, também conhecido como Starlord) ganhando a vida como sabe -roubando no jogo. Este fica impressionado com a forma como Chisolm age e como é respeitado, embora ele próprio também seja tão perigoso quanto. Depois de se apresentarem, cada um segue seu rumo. O que eles não esperavam era que teriam um destino a cumprir.

Emma Cullen (Hayley Bennet, uma grata surpresa) é viúva de um dos homens assassinados em Rose Creek. Ela e seu amigo Teddy Q. (Luke Grimes)resolveram buscar ajuda para vingar sua cidade. A princípio pouco interessado, ele viu o desespero dos dois e a determinação de Emma. Ao ouvir quem havia tomado a cidade, ele decide que irá ajudar. Mas, para isso, precisará de ajuda.

Assim, Faraday é o primeiro a ser recrutado. Indo com o grupo mais por gosto pelo perigo do que pelo dinheiro, acaba sendo enviado por Chisolm para recrutar o lendário Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke, excelente) e acaba por convence-lo a fazer negócio. No pacote, fora incluso Billy Rock (Byung-hun Lee, em ótima parceria com Hawke), imigrante chinês mais que habilidoso e novo braço direito de Goodnight.

Chisolm consegue recrutar Vásquez (Manuel García-Rulfo), outro procurado de sua lista, e juntos eles partem para mais um último recrutamento: Jack Horne (Vincent D'Onofrio, maravilhoso). Renimado caçador de índios, já estava velho e sem trabalho. Mesmo ele não sendo mais o mesmo homem que era, eles precisavam seguir adiante. Havia pouco tempo antes que Bigue retornasse de sua viagem de negócios, e aquela era a janela de tempo mais preciosa e curta para agir.

Sendo assim falta apenas o sétimo e último homem mais perigoso da região para termos o nosso magnífico grupo, certo? Bem, essa é uma parte que eu não gostaria de estragar.
O filme tem vários acertos, a começar pela escalação do elenco. Todos parecem bastante confortáveis com os papéis a que foram designados, e o grupo agindo na tela tem bastante química. Fotografia, direção de arte e edição são acertadas, enfatizando a beleza das cenas de ação sem jamais roubar a cena. Apesar do ritmo mais ágil, típico dos roteiros modernos, há espaço para várias tomadas lentas como nos velhos clássicos de faroeste. É bastante interessante ver como os elementos novos e antigos se misturam harmonicamente no longa, e o resultado é bastante agradável.

O longa tem boas chances de fazer sucesso nas bilheterias brasileiras, pois o bom humor bem pontuado e as explosivas e rápidas cenas de ação devem agradar ao público mais jovem e o clima nostálgico embala até os que não são muito fãs dos faroestes tradicionais - mesmo àqueles que, assim como eu, não assistiram ao clássico original. Ótima pedida para o fim de semana.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ok, escolha não escolher, mas sustente isso!

Escolha vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma merda de uma televisão grande, escolha máquinas de lavar, carros, CD players e abridores de lata elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo, e plano dentário. Escolha prestações fixas para pagar. Escolha uma casa para morar. Escolha seus amigos. Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine. Escolha um terno feito do melhor tecido. Escolha se masturbar e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo. Escolha sentar no sofá assistindo programas que nada te acrescentam, game shows, estufar-se comendo um monte de porcarias. Escolha apodrecer no fim de tudo, numa casa miserável, envergonhando os pirralhos egoístas que você gerou para te substituírem. Escolha seu futuro. Escolha sua vida. Mas por que eu iria querer me preocupar em fazer coisas como essas? Eu escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa. E a razão? Não há razões. Quem precisa de motivos quando se tem heroína?
Ah.... esse monólogo despejado sobre o expectador em um ritmo frenético, durante uma fuga com o sotaque charmoso de Ewan McGregor parecia tão promisso inicialmente não é? Até que ele chega à parte dos motivos e eles se resumem à heroina. Aí não demora muito para você perceber, que o discurso de "escolher, não escolher" é vazio e um disfarce para as verdadeiras escolhas que aqui são as mais idiotas possíveis. Como poderia ser diferente? Os personagens estão chapados.


Os amigos Mark Renton (Ewan McGregor), Sic Boy (John Lee Miller), Spud (Ewen Bremmer), Tommy (Kevin McKidd) e Begbie (Robert Carlyle), são jovens, educados e com boas condições de vida, e como muitos escolhem a vida louca das drogas. Cada um com seu narcótico, estilo e falsas tentativas de ficar sóbrios. Acompanhamos suas desventuras pela cidade de Edimburgo, e os extremos de seus vícios, atitudes impensadas e relacionamento nada construtivo. Nem mesmo problemas com a justiça colocam um freio no grupo.

Super elogiado na ocasião de seu lançamento (1996), o filme abordaro extremo da desilusão em uma geração regida pela sociedade de consumo. Estes adotam a marginalidade como protesto, o que não é uma boa escolha afinal. O retrato de uma época

Trainspotting - sem limites, é uma excelente adaptação. Uma produção bem dirigida, com ritmo frenético e um elenco de "futuras" estrelas, em um eficiente primeiro trabalho de peso. Entretanto é 2016, o mundo mudou, filmes inspirados nestes foram feitos à exaustão e agora. O resultado: se você, assim como eu, só o viu agora este longa soa apenas como mais um deles.

Um pensamento fica com certeza: não importa quais sejam minhas escolhas, estou feliz por não precisar ver a supra-mencionada cena do banheiro, ou um bebê mecatrônico no teto, para não escolher o mesmo caminho de Renton e cia.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Star Trek - Sem fronteiras

Star Trek - Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016) tem tudo para agradar a fãs da série - dos mais novos aos mais antigos - e para ser uma das maiores bilheterias do ano. Efeitos especiais incríveis, trilha sonora excelente, elenco afinado e um roteiro convincente fazem de Star Trek - Sem fronteiras um filme emocionante (por vários motivos) e empolgante. Começando pouco depois do último filme (Star Trek - Além da escuridão, 2013 - o filme mais fraco dessa trilogia, até agora), o longa demonstra que a nova franquia ainda tem muito fôlego para continuar.


A missão de reconhecimento da Enterprise já está em seu segundo ano da missão de cinco, e, com poucas pausas para descanso, todos os tripulantes começam a sofrer. Capitão Kirk (Chris Pine) percebe os efeitos em si e em seus amigos, e começa a planejar sua saída do comando da nave em breve. Spock (Zachary Quinto) e a tenente Uhura (Zoe Saldanha) também sentem os efeitos de passarem tanto tempo juntos, assim como Hikaru Sulu (John Cho) percebe o sacrifício que é estar longe de sua família. Com tantas insatisfações juntas, os tripulantes não perceberam que tinham em mãos algo muito precioso.

Em sua última visita a um planeta recém-mapeado, Kirk obteve um objeto raro e tentou conciliar a paz entre duas espécies. A negociação não deu muito certo, e o objeto fora armazenado. Durante a pausa para reabastecimento e breve descanso, um chamado urgente de socorro leva Kirk a recrutar todos de volta à Enterprise: uma nave fora atacada em uma nebulosa não-mapeada e a capitã precisa de ajuda para resgatar os sobreviventes do ataque.

Sem demora, eles resolvem ajudar. Só não esperavam ser atacados com tamanha violência e eficácia. Com a nave seriamente danificada, eles descobrem ter sido pegos em uma emboscada: o objeto inofensivo que Kirk tentou negociar era exatamente o que Krall (Idris Elba) precisava para completar seu plano.

Sem ter como impedir o roubo do objeto, mal conseguindo salvar a própria pele, Kirk vê a sua amada nave cair por terra completamente destruída e sua tripulação ser capturada. Com alguns poucos membros ainda livres, como os engenheiros Scotty (Simon Pegg, que também assina o roteiro) e Checov (Anton Yelchin, morto esse ano em um bizarro acidente), Spock e Magro (Karl Urban), Kirk tenta encontrar um jeito de reunir o grupo e pedir reforços da Federação. Contando com a ajuda de Jaylah (Sofia Boutela), outra alienígena que também tenta desesperadamente fugir daquele planeta e do vilão Krall, Kirk e companhia descobrirão que os planos para o uso do artefato são ainda mais sombrios do que eles poderiam imaginavar.

O que mais gostei nesse novo Star Trek foi perceber como esse filme foi pensado e produzido com carinho. Fica evidente que roteiristas, atores, produtores, todos trabalharam em conjunto para fazer esse filme dar certo (uma coisa rara de se ver, como ficou evidente em alguns dos filmes de heróis mais recentes). Com um roteiro coeso, cheio de referências emocionantes ao passado da série original e com links para o futuro da saga nos cinemas, o longa acerta em cheio ao confirmar a boa química do trio principal (Kirk-Pine, Spock-Quinto e Magro-Urban) e combinar ação e emoção em doses iguais.

O que vemos na tela é algo bastante atual, com o apelo visual que só as modernas técnicas de efeitos são capazes de criar, com bastante ritmo e respiros cômicos realmente divertidos e muito bem pontuados. Novos personagens são introduzidos e homenagens são prestadas aos membros da tripulação que partiram dessa vida aqui, do lado de fora das telonas. A polêmica em torno do personagem Sulu ser gay cai por terra: a breve menção ao assunto é sutil, delicada, cuidadosa e, ao mesmo tempo, impactante - justamente por não interferir em absolutamente nada no produto final.

O filme agrada a quem curte o gênero sci-fi, mas também entretém quem está afim de um bom passatempo. Existem questões mais profundas a serem comentadas depois do filme acabar, o que também é uma boa sacada (afinal, quem nunca se sentiu esgotado com o ritmo de trabalho, mesmo fazendo o que ama, ou se perguntou se estava fazendo a escolha certa?). A sensação que eu tive ao subirem os créditos foi a de que eu passei o tempo todo com um sorriso no rosto, uma nostalgia gostosa de ver e compreender o carinho com que fizeram esse filme - e olha que conheço bem pouco do universo trekker! O longa tem um "jeitão" saudosista, como se buscasse voltar às raízes, mas o resultado final é superior: moderno, ousado, divertido.

Se a série começou com certas dúvidas se agradaria ao público e aos fãs mais ferrenhos (e talvez tenha precisado de um vilão de peso no segundo longa para se estabilizar), a partir deste Sem fronteiras se prova como uma franquia vitoriosa: seguindo pelo caminho trilhado, da delicadeza em abordar temas polêmicos, do respeito à saga original e aos fãs, do roteiro bem estruturado, dos efeitos especiais magníficos e sem excessos, não há fronteiras para o futuro e o sucesso.