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terça-feira, 19 de junho de 2018

Hereditário


Hereditário (Hereditary, 2018) é uma bela homenagem aos antigos filmes de terror clássico: a trama envolve rituais de magia negra e uma família tragada para dentro do horror, com direito a segredos antigos, tensão crescente e atuações memoráveis. Sem apelar para os sustos gratuitos, excesso de sangue ou fotografia extremamente escura o tempo todo, o longa consegue prender a atenção do espectador durante as mais de 2h de exibição.

Annie (Toni Collette) volta do enterro da mãe com a estranha sensação de não estar sentindo verdadeiramente o luto. Ela tenta retornar à rotina normalmente, mas algo a perturba profundamente - e ela não consegue identificar o quê. Enquanto tenta terminar seus projetos de miniatura para a exposição na galeria, ela tenta encontrar algum conforto em sessões de um grupo de terapia comunitário. 

Annie (Collette): trabalhos de miniatura aos poucos revelam sua obsessão
A família vai, aos poucos, desmoronando. Peter (Alex Wolff), o filho adolescente, parece anestesiado quanto ao fato recente - assim como a mãe - e mais interessado em virtualmente se desligar da realidade; mas Charlie (Milly Shapiro), a mais nova, sente demais a falta da avó e parece mais deslocada do que nunca. Quando uma fatalidade (ou não?) acontece, Steve (Gabriel Byrne), marido de Annie, sente que precisa tomar as rédeas da família, além de ter que lidar com a possibilidade de Annie estar enlouquecendo. 

Steve (Byrne ): preocupação com a saúde mental de Annie
Aliando um suspense crescente a inteligentes brincadeiras de luz e sombra, o diretor e roteirista Ari Aster mexe com os sentidos do espectador. Várias são as cenas em que somos deixados na dúvida se vimos mesmo aquilo ou se foi só nossa imaginação - o que nos imerge diretamente no dilema de Annie - sem que o recurso se esgote. É como se o "sensor-aranha" ficasse ligado o tempo todo, e o sentimento de inevitabilidade não nos impede de querer testemunhar o terrível desenrolar da trama. 

Há algumas semelhanças com o clássico O Bebê de Rosemary (que nós já vimos aqui) e por isso acredito que este longa seja uma ótima homenagem ao filme de Roman Polanski (apesar de as cenas finais deste serem bem mais memoráveis, mesmo depois de mais de 50 anos após o lançamento). As atuações incríveis de Toni Collette e da estreante Milly Shapiro também são pontos altos: enquanto Collette esbanja controle na montanha-russa emocional de Annie, a novata causa sentimentos conflitantes e angustiantes de proteção e medo de sua jovem Charlie. 

Milly Shapiro faz ótima estreia com a sua inocente (e sinistra) Charlie
Hereditário merece ser visto no cinema, apesar de que uma audiência que espere assistir a um banho de sangue ou pular da cadeira a todo instante possa se decepcionar um pouco. O Terror propriamente dito só vai aparecer no final, porém o Suspense sustenta bem a estrutura do início ao fim. Uma ótima pedida para quem curte um bom filme.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vingança


A premissa de Vingança (Revenge, 2017) é muito boa: uma jovem busca vingança contra os homens que a brutalizaram e deixaram para morrer no deserto. A vingança acontece, mas de forma mais violenta do que a imaginada. Tecnicamente bem trabalhado (com destaque para a Fotografia, que brinca com ângulos e cores vibrantes), o filme da diretora Coralie Fargeat - e também roteirista deste longa - se destaca pelo tom empoderado da protagonista (que na maioria dos filmes desse estilo são meramente a vítima que desencadeia a vingança) e por ser falado quase em sua totalidade em francês, além das grandes atuações do pequeno elenco. Porém, como um filme Trash - mesmo disfarçado de Thriller de Ação e Suspense - ele foi pensado para agradar aos fãs de seu nicho. Então, prepare-se para muito sangue (mesmo) e altas doses de sensualidade. 

Richard (Janssens) e Jen (Lutz): casal chega para o exclusivo fim de semana romântico
Jennifer (Matilda Lutz) é uma jovem que sonha ser atriz em Hollywood e que acaba se envolvendo com um homem rico e poderoso. Casado, Richard (Kevin Janssens) usa de brechas na agenda para namorar sua amante. Em um fim-de-semana no deserto, onde apenas o casal desfrutaria de uma mansão e da bela paisagem, os dois são surpreendidos por uma dupla de amigos de Richard. Stan (Vincent Colombe, espetacular) e Dimitri (Guillaume Bouchède) chegaram mais cedo para a temporada de caça, acabando com o clima romântico. E o que era para ser um sonho acaba se transformando em um pesadelo.

O invejoso Stan (Colombe) não hesita em cometer um crime apenas para satisfazer seu ego
Stan a deseja também, e, aproveitando um momento em que Richard não está em casa, ela a estupra - com a conivência de Dimitri, que nada faz para impedir o abuso. Quando o namorado retorna, a situação piora para Jen: ao invés de protegê-la, ele tenta suborná-la para que nada daquilo venha à tona. Ao ameaçar contar para a esposa dele sobre o romance caso ele não fizesse nada, Richard torna-se violento. Acuada e sozinha, Jen tenta fugir a pé pelo deserto, mas é encurralada pelos três homens e jogada de um penhasco. Enquanto eles pensam em álibis e estratégias para se livrar do crime e do corpo de Jen, ela sobrevive e busca forças para se vingar dos seus malfeitores. E é aqui que começam os problemas.

Jen depois da queda: prepare-se para um literal banho de sangue
Há muitos furos no contexto da queda e “ressurreição” de Jen. É bastante improvável que tivesse conseguido sobreviver àquela queda, quanto mais ter forças para conseguir planejar uma vingança contra os homens que a perseguem. Vale lembrar que, na queda, ela atingiu uma árvore e foi trespassada na barriga por um de seus galhos. É bem provável que tenha partido a coluna também, mas tudo isso é ignorado: Jen tem um jeito engenhoso (à la MacGuyver) de sair daquela situação - e mesmo com um pedaço do tronco ainda em seu corpo e sangrando em profusão, emenda uma bem-sucedida fuga à pé dos assassinos motorizados. Difícil de acreditar? As coisas vão ficar ainda mais estranhas. Extremamente debilitada, ela se torna uma caçadora implacável e extremamente habilidosa, capaz de usar armamento pesado contra os seus caçadores (que são muito mais experientes que ela no assunto). Eu mencionei que ela estava descalça o tempo todo durante essa perseguição? E que sua única fonte de energia depois da violência dentro da casa foi meia lata de cerveja quente? Pois é.

De caça à caçadora: difícil acreditar que é a mesma mulher que caiu do penhasco

Os fãs de trash, porém, podem estar acostumados a relevar essas incongruências se as cenas com sangue forem impactantes - e, nesse ponto, eles não vão se decepcionar. Há espaço para muita violência, com direito a entranhas expostas, miolos voando, pessoas banhadas no próprio sangue e no de outros também. O efeito é ainda mais forte porque, em boa parte da cenas, a situação não é absurda, do tipo inacreditável - apesar da quantidade de sangue ser extremamente exagerada. Para quem não está acostumado, porém, pode ser de embrulhar o estômago - algumas cenas são quase intragáveis. Mas aqui entram os méritos do filme: apesar de tudo, o clima de tensão impresso por Fargeat se mantém do início ao fim. Desde a parte inicial, com os homens cercando Jen em um ambiente apenas aparentemente amigável, até a parte final - com um plano-sequência de perseguição de prender a respiração - a sensação de que aquilo não vai acabar bem faz o espectador ficar atento o tempo todo. E é exatamente isso o que faz com que o espectador geral aguente a tanto horror na tela.

Stan e Dimitri (Bouchède): cúmplices
Outra grande sacada foi ver que os três homens representam os tipos de agressor que uma mulher pode encontrar na vida: Richard é o cara que finge estar apaixonado, mas só quer uma distração do casamento e cuidar de sua reputação; Stan é o machista que trata mulher como objeto; e Dimitri é o omisso, que finge não ver o abuso e que, na hora de agir, se junta aos agressores ao invés de defender alguém em clara situação de desvantagem. Tudo isso seria uma ótima forma de analtecer a coragem e a força de Jen, mas a personagem perde força ao ser explorada como um fetiche. A intenção é ótima e super-válida a tentativa de criar uma obra diferente, ainda mais quando se tem uma mulher atrás das câmeras em um gênero dominado por produções feitas por e para homens. No fim, ela acaba resumida à uma justiceira sensual, cheia de cicatrizes, que corre um deserto descalça e armada até os dentes para matar sua sede de vingança. Ainda assim, assistir a Vingança é uma boa oportunidade de experimentar uma ótica diferente sobre um gênero que apresenta poucas variações de tema.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Deadpool 2


Se o primeiro longa de Deadpool (2016) precisou escrachar nas piadas e no banho de sangue para desfazer a primeira aparição desastrosa do anti-herói, Deadpool 2 (2018) veio humanizá-lo sem descaracterizá-lo - e foi um tiro certeiro. Conhecido nos quadrinhos como um mercenário desbocado , falastrão e ultra-violento, Deadpool agora busca se reencontrar depois de mais uma tragédia pessoal.  Encontrando o equilíbrio entre as piadas grosseiras (sem serem ofensivas) e a violência e um bom arco desenhado para delimitar que ele, apesar de tudo, é um dos mocinhos, o filme de David Leitch diverte desde o início.

Vanessa (Baccarin): peça-chave na mudança do mercenário - para o bem e para o mal
O mercenário Deadpool agora é um sucesso internacional: contratado para matar os piores bandidos, tem cumprido sua missão e ganhado muito dinheiro. Ainda assim, ele encontra tempo para viver o romance com Vanessa (Morena Baccarin) em sua plenitude. Tudo muda quando um dos homens que ele não conseguiu matar acaba voltando para se vingar - e quem leva a pior é Vanessa. Completamente desacreditado na vida, ele vai receber ajuda novamente do X-man “de segundo escalão” Colossus (Stefan Kapicic). Ele o leva de volta para a mansão X e tenta integrá-lo à equipe. Mas as coisas não saem muito bem como planejadas pelo grandalhão de metal.

Cable (Brolin): vindo do futuro para vingar a família
No futuro, um homem vê sua casa destruída e sua família arruinada. Mas ele não é um homem comum: ele é Cable (Josh Brolin, em mais uma atuação espetacular), um soldado mutante que tem metade do corpo mesclada a uma estrutura de metal. Com cara e jeito de poucos amigos, Cable não perde tempo ao decidir o que fazer para se vingar. Usando um dispositivo de viagem no tempo, ele retorna até o presente atrás do causador daquela destruição. O que ele não esperava era que Deadpool se meteria, sem querer, no seu caminho. E, pior, que ele não estaria sozinho.

Deadpool (Reynolds) e Colossus (Kapicic): X-man estagiário
A introdução de novos personagens servem para entreter, mas também humanizar o violento anti-herói - destaque para o próprio Cable, pintado como vilão nesse filme.  Nos quadrinhos dos anos 1990, ele era um grande personagem e chefiava a X-Force (um esquadrão de elite formado por mutantes) e um conhecido rival de Deadpool - porém pouco conhecido do grande público. Com sua aparição e a menção do grupo neste longa, pode-se acreditar que um possível sucesso de bilheteria desta sequência possa render planos mais audaciosos para o futuro. Mas, mesmo que nada disso ocorra, Deadpool 2 tem alguns méritos que o primeiro longa deixou a desejar.

Ah, é. Essa cena acontece.
As novas participações de Dopinder (Karan Soni), Al (Leslie Uggams) e Weasel (T. J. Miller), além da chegada de Domino (Zazie Beetz), Zeitgeist (Bill Skarsgard), Bedlam (Terry Crew) - outros futuros integrantes da X-Force - só comprovam que ele não é tão desconectado dos outros quanto gostaria de ser. Aliás, os personagens secundários aqui tem um espaço maior para brilhar - diferente do primeiro, onde apenas Vanessa tinha um certo destaque. Tanto vilão quanto associados de Deadpool tem direito a um espaço maior e maior importância no desenrolar da trama, que apesar de toda brincadeira, não deixa de falar de temas importantes como perdas, bullying, abuso infantil, escolhas difíceis e o re-significado de família.  

E essa aqui também
Tirando sarro de todo mundo, desde James Bond e outros filmes dos X-men - incluindo o aclamado Logan, sucesso de público e crítica - até o próprio ator protagonista (Ryan Reynolds assina o roteiro do longa junto com Paul Wernick e Rhett Reese, dupla da primeira incursão do mercenário nas telonas - e eu acredito que todas as piadas envolvendo o Canadá e sua própria carreira tenham sido obra dele), Deadpool 2 acerta no tom ridículo e dramático. Há aparições surpresas bastante interessantes, uma chuva de referências divertidas, muita ação e, por que não?, alguma reflexão. Como o próprio diz, é “um filme família” - mas não recomendado para menores de 16 anos. E, como de costume, não esqueça de ficar para assistir à divertida sequência pós-créditos!

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Acertando o Passo


Acertando o passo (Finding your feet, 2017) é uma comédia romântica tipicamente britânica, com pitadas de humor ácido e reflexões sobre a vida. Mas o que poderia se afundar num clichê doloroso e esquecível é transformado em uma experiência única ao se mudar um simples detalhe: a idade dos protagonistas. Fosse "Lady" Abbott uma mulher na casa dos seus 30 anos, a dinâmica seria outra. Mas quando a personagem tem que encarar uma grande reviravolta na vida às vésperas do que seria o início da "última etapa" de uma tranquila e bem-sucedida jornada de vida, as perspectivas são muito diferentes. 

Sandra (Staunton) e Bif (Imrie): cena hilária de uma discussão pesada no restaurante
Sandra Abbott (Imelda Staunton) vive em uma linda casa e prepara a festa de aposentadoria do marido, Mike (John Sessions), que acaba de receber um título real. Durante a festa, porém, ela descobre que ele tem um caso com sua melhor amiga, Pamela (Josie Lawrence), há cinco anos. Transtornada, ela resolve buscar abrigo com a irmã Bif (Celia Imrie) até que a poeira baixe. Mas as duas irmãs não podiam ser mais diferentes: enquanto Sandra é organizada, rígida e extremamente ligada aos padrões, Bif é desorganizada e mais leve de espírito. Depois de anos afastadas, as duas vão redescobrir como se ajustar.

Sandra vai ter que rebolar (com trocadilho) para se adaptar à nova vida
O elemento chave nessa reconexão é a dança. Bif faz parte de um animado grupo de dança de salão para a terceira idade, onde fez grandes amigos como o faz-tudo Charlie (Timothy Spall), o recém-viúvo Ted (David Hayman) e a advogada Jackie (Joanna Lumley). Sandra começa relutante a acompanhar a irmã nas aulas, mas aos poucos vai se permitir conhecê-los - e também a si mesma. Agora é hora de acomodar-se na poltrona e acompanhar a divertida montanha-russa emocional que Sandra enfrenta. 

A mensagem de "nunca é tarde para recomeçar" é explicada de forma simples e divertida. Há momentos realmente emocionantes, onde é quase impossível segurar as lágrimas, mas a mensagem final é sempre positiva. O trio principal, formado por Staunton, Imrie e Spall é fenomenal e inspirador. As nuances tão sutis de seus personagens ganham força e brilho com atuações precisas, tornando Sandra, Bif e Charlie pessoas - quase tão reais quanto qualquer conhecido ou familiar nosso. Méritos também para o diretor Richard Loncraine, que soube extrair o melhor dos atores - até mesmo os personagens secundários tem seus momentos de brilho - e do roteiro.

Sandra e Charlie (Spall): muitos contratempos até pararem de se estranhar
Se tenho uma ressalva para esse filme, é para a parte técnica - principalmente a caracterização. O figurino, de Jill Taylor, em geral parece um pouco datado e beira o clichê (idosos se vestem como "velhos", cheios de camadas de roupas que não combinam entre si), e o cabelo da personagem Sandra ficou estranho nas duas caracterizações que marcam sua mudança. Vaidade é uma das características importantes dela, não poderia jamais ser mau caracterizado. Esse, porém, não é um detalhe que chega a comprometer o filme. O roteiro de Nick Moorcroft e Meg Leonard é um bom exemplo de como transformar clichês de gênero em uma experiência agradável e até surpreendente: mesclando pesados dramas pessoais das personagens com situações-comuns de comédias românticas, ganhamos um filme leve, emocionante, inspirador e deliciosamente divertido.

Acertando o Passo é uma grata surpresa. A mensagem positiva é universal, e, com emoção e diversão na dose certa, o filme é uma ótima pedida para toda a família.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Tudo Que Quero

Tudo que quero (Please stand by, 2017) é um filme que surpreende por tratar de forma delicada e até bem-humorada um tema delicado: até que ponto as pessoas que estão em um espectro do autismo são consideradas aptas para viver independentes? E é pelo olhar de um deles que o público é levado a pensar: pensar que eles tem tanta consciência quanto nós de suas responsabilidades, perigos e possibilidades é algo raro no cinema, uma vez que os pacientes tem uma representação bastante estereotipada no cinema.


Wendy Welcott (Dakota Fanning) é uma jovem que está internada em uma clínica por conta do seu difícil relacionamento com a irmã mais velha, Audrey (Alice Eve, de Star Trek - Além da Escuridão). Suas crises de raiva tornaram-se um empecilho para a convivência quando Ruby, a filha de Audrey, nasceu. Wendy, porém, mostra avanços extraordinários - e a próxima visita da irmã pode significar uma volta para casa. Apreensiva, ela tem consciência que pode voltar a se tornar um problema - e quer provar para todos que tem condições de se controlar.

Scottie (Collette) e Wendy (Fanning): rotina precisa para aumentar a independência da jovem
Uma oportunidade importante surge no horizonte de Wendy: fascinada por Star Trek, ela decide participar de uma competição para fãs. Todos deveriam enviar um roteiro de filme para avaliação, e o vencedor receberia um prêmio de 100 mil dólares. Obstinada, a jovem acredita que pode vencer o concurso e aposta suas fichas em seu talento - mesmo quando ninguém parece querer acreditar nela mesma. Assim, ela não vai medir esforços até conseguir entregar seu roteiro.

Algumas sequências divertidas acontecem no trabalho (nem tão legal assim) de Wendy
Conforme a trama se desenrola, percebemos que Wendy é mais desenvolta do que se poderia esperar de uma jovem com sua condição. Mais do que isso, o que poderia ser um obstáculo para ela, torna-se a peça fundamental para sua sobrevivência: a concentração e a facilidade de absorver e reter informações sobre seu objeto de interesse (no caso, a série Star Trek) a faz conhecer os personagens como ninguém. Há uma interessante comparação entre a jovem e o capitão Spock: cada um à sua maneira, eles tem dificuldades em processar emoções - porém encontram um jeito de compreendê-las e, por fim, expressá-las.

A imaginação de Wendy é povoada por Star Trek: homenagem à saga é divertida e emocionante
Uma das maiores sacadas do filme, porém, se perdeu na tradução. O título em inglês, "please, stand by", a frase que a psicóloga Scottie (Toni Collette, em excelente trabalho) usa para acalmar Wendy, domando sua ansiedade e descontrole. Sua tradução é "por favor, acalme-se", o que ficaria estranho como um título de filme - e justifica a mudança para outra expressão. Mas ao mudar para "tudo o que quero", insinuando um forte desejo de Wendy, ele não tem o mesmo efeito inconsciente de uma "pequena transgressão" que ela fará ao sair de sua zona de conforto e ir atrás do que deseja. E esse é exatamente o ponto central deste delicioso drama.

Wendy e o fofíssimo chiuaua Pete: seguindo em frente
É interessante notar o comportamento das três personagens principais quando tem que enfrentar essa mudança. Audrey, a irmã mais velha, fica responsável pela irmã mais nova com autismo desde que a mãe de ambas faleceu; tenta priorizar o que seria melhor para todos, e tem o comportamento que a maioria teria em uma situação parecida. Scottie se dedica tanto aos seus pacientes, que precisam tanto de sua atenção e cuidados, que acaba deixando o próprio filho mais livre. Não é que ela seja negligente, mas ela acredita que o filho pode ser independente - mas, como todo filho adolescente, ele ainda precisa da atenção da mãe. Wendy é paradoxalmente a mais frágil e a mais forte delas, pois conhece suas limitações, reconhece suas dificuldades e, ainda assim, tem consciência de seus atos (mesmo que sua avaliação das consequências seja bastante prejudicada).

Quando Wendy precisa da ajuda de um policial, é a paixão por Star Trek que permite a comunicação entre eles
O roteiro de Michael Golamco é uma ampliação do curta que ele mesmo escreveu, e onde pôde incluir novas nuances e perspectivas para a história de Wendy. Uma personagem cativante como ela precisa mesmo de um olhar mais atento, algo que vá além de sua condição de autista. Há espaço para humor, referências apaixonadas de Star Trek, compaixão e reflexão enquanto acompanhamos a jovem lutar pelos seus sonhos - como qualquer outra protagonista que não tivesse o mesmo diagnóstico psicológico que ela. E esse é o grande acerto desse filme: Wendy nunca é retratada como uma coitada, mas como uma jovem cheia de energia e esperança; que sofre como qualquer outra pessoa, porém é capaz de reagir e correr atrás do que quer.

"Só existe uma direção lógica para seguir: em frente"
A direção de Ben Lewin é suave, deixando que as personagens falem com suas próprias vozes através da ótima interpretação de seu elenco. A escolha por uma fotografia clara e natural, a opção pelo uso de cores vibrantes no figurino e nos detalhes da  produção de arte, refletem o espírito da estória: mostrar que os desafios são os mesmos para todos e basta coragem para mudar seu destino. Uma sessão agradável para a família, que traz alguns bons assuntos para a mesa (como preconceito, honestidade, família, perseverança) e uma ótima pedida para quem adora se encantar com estórias de sonhadores.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais


Baseado em Fatos Reais (D'après une histoire vraie, 2017) já tinha estreado no país no Festival do Rio - mas agora chega às telonas em circuito nacional. O novo longa do polêmico diretor Roman Polanski (O Bebê de Rosemary, Chinatown, O Pianista) promete mais do que cumpre - principalmente quando a "grife" de um nome tão consagrado está no comando. Baseado no romance de Delphine de Vigan, o thriller psicológico - apesar de bastante engenhoso - não traz nenhuma novidade ao gênero.

Délphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner) é uma escritora de sucesso que recentemente alcançou o estrelato com uma publicação polêmica: acusada por sua família de se apropriar da verdade para fazer sucesso comercial, ela tenta não se afogar na fama. Uma fã, porém acaba chamando a sua atenção em uma sessão de autógrafos: Elle (Eva Green) é uma mulher bonita e enigmática, que parece querer mais do que uma dedicatória da sua autora favorita - ela demonstra um interesse maior pelo modo de trabalho de Délphine. Fragilizada com as pressões dos compromissos e a ânsia em voltar à paz do seu trabalho, Délphine vê em Elle uma figura capaz de lhe ajudar com a parte burocrática da vida e, ao mesmo tempo, uma intrigante provocadora de ideias.

Délphine (Seigner): autora de sucesso luta para começar um novo livro após seu grande sucesso
A amizade de Elle e Délphine, porém, logo se transforma em algo mais forte. Elle passa a demonstrar uma obsessão doentia com o novo livro que Délphine está escrevendo, e a presença que antes a ajudava a se equilibrar agora passava a ser mais controladora - e é em meio a essa confusão que ela tem que decidir se é melhor mantê-la perto de si (afinal, é inegável a ajuda que ela lhe oferece) ou afastá-la (quando um surpreendente lado mais agressivo da amiga aflora).

Em linhas gerais, a trama tem tudo para ser um ótimo filme, mas a ideia foi muito mal aproveitada: é surpreendente a falta sutileza desde a primeira cena. A graça de um thriller psicológico é manter o espectador na dúvida, mas, para os mais atentos, o final já se revela nas primeiras cenas do longa - transformando toda a narrativa em óbvias e mornas sequências de um falso suspense. O roteiro de Olivier Assayas e do próprio Polanski não esconde seus trunfos nem disfarça as intenções das personagens, o que torna tudo muito escancarado e frustrante. Em muitos momentos o público já desconfiava do que viria depois - e em momento algum ele foi surpreendido com alguma reviravolta (nem mesmo uma ruim). Há um festival de soluções ruins para tentar criar um clima que nunca se concretiza: um despropositado romance lésbico insinuado (nunca levado a cabo), ameaças anônimas, sonhos premonitórios (com efeitos especiais duvidosos), todos os clichês possíveis, acidentes mal executados, desculpas esfarrapadas.

Elle (Green) vai tomando o controle da vida de Délphine (Seigner) aos poucos
Muitas dessas soluções tornam-se quase inverossímeis: a forma como Elle se intromete na vida de Délphine é forçada demais, e deixa quem está assistindo incomodado com a falta de reação da personagem. Esse, talvez, tenha sido o maior erro: diminuir a força da protagonista ao confundir a passividade letárgica de uma pessoa em conflito interno com apatia total. Fica claro que a estranha vai tentar passar a perna nela em algum momento do filme, mas a forma com que a mulher (não) reage é quase ridícula. Há apenas um momento em que ela se incomoda com a intromissão da outra, mas logo em seguida Délphine volta atrás. Assim não dá para criar empatia com a protagonista - algo fundamental para uma estória dar certo. Os muitos furos não passam despercebidos, e não há nenhum momento de real tensão - apenas algumas poucas cenas para o fim do filme criam um receio de que algo mais grave possa acontecer, mas a gente já está esperando essa "coisa grave" desde o início (e, ao invés de instigar nossa apreensão, toda a adrenalina já se perdeu no caminho). 

Apesar das muitas falhas, preciso ressaltar o excelente trabalho de Emmanuelle Seigner: sua personagem só se destaca por conta de sua incrível capacidade de explorar as nuances dela - mesmo que boa parte do potencial tenha sido limado pelas decisões feitas no roteiro. Principalmente na reta final, onde sua personagem está mais fisicamente prejudicada e seu espírito mais fortalecido, é quando o talento de Seigner brilha mais forte. Dividindo boa parte do tempo de tela com Eva Green, fica ainda mais evidente como a mão da direção foi pesada: o contraste entre as performances das duas é gritante. Green não demonstra nenhum momento de suavidade na personagem, o que a torna extremamente explícita em uma psicopatia que deveria ser revelada gradativamente.

Baseado em Fatos Reais pode até cumprir seu papel de entreter, mas para o público mais atento e fã de Thiller Psicológico/Suspense, ele é, na verdade, um engodo. Confesso que, pessoalmente, esperava bem mais do diretor de um dos maiores clássicos do gênero, O Bebê de Rosemary (onde o público se sente tão refém e indefeso quanto a protagonista, que vive sem saber rodeada pelo mal).  

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Submersão

Submersão (Submergence, 2017) é o novo longa de Wim Wenders, e traz Alicia Vikander e James McAvoy como os protagonistas dessa trama que, como o nome sugere, busca mergulhar no âmago de seus personagens – aquele tipo de busca tão profunda que muitos tem medo de fazer por não saber o que vão encontrar.


Danielle Flinders (Vikander) é uma pesquisadora que usa da Matemática para compreender a vida marinha: uma teoria desenvolvida por ela e que deseja comprovar é que os seres vivos não precisam de luz ou oxigênio para existir; e se conseguir tal comprovação na expedição científica no fundo do oceano ártico em que participará, ela seria a primeira pessoa a comprovar que é possível que exista vida em outros planetas sem a existência de água.

James More (McAvoy) é um espião britânico e tem um plano ousado: usando seu disfarce de engenheiro hidráulico, ele pretende chegar até os chefões da resistência jihadista ofertando um plano de saneamento e distribuição de água. Seus superiores, no entanto, acham o plano arriscado demais e muita coisa pode dar errado. Pouco antes de embarcar nesta missão quase suicida, ele acaba por se hospedar no mesmo hotel de luxo que Danny, e um breve, porém intenso, romance entre eles irá mudar por completo as visões que ambos têm do mundo.

É interessante ver como o diretor explora o tema “submersão”: de forma literal, há a expedição científica; mas as metáforas são muito mais interessantes. O medo do inseguro, do desconhecido e, ao mesmo tempo, o fascínio que ele exerce sobre nós está espalhado em vários questionamentos que as personagens têm que enfrentar. Nenhum dos dois, a princípio, esperava se apaixonar pouco antes de cumprir suas missões na vida, mas mergulhar de cabeça nessa paixão foi inevitável, impossível – e as conseqüências não foram necessariamente tão românticas e pacíficas quanto se espera ao se encontrar o amor romântico.

James (McAvoy) e Danny (Vikander): dois opostos, duas metades
A narrativa mostra em paralelo como os dois, que são essencialmente diferentes um do outro (e, talvez por isso, complementares), passam a lidar com suas vidas e objetivos depois do encontro. Mesclando similaridades e mudanças de comportamento, situações onde ambos reagiriam de forma diversa ao que realmente fizeram, Wenders nos mostra que olhar tão para dentro pode ser assustador, mas também é necessário. Só há crescimento e verdadeira evolução se ousarmos vasculhar os locais onde temos mais medo e procurar as respostas. Ter sucesso ou não na missão já se torna irrelevante se o foco muda, e mesmo quando se encontrar exatamente o que se espera, não há garantias do que irá acontecer depois.

A bela Fotografia de Benoît Debie e a emocionante Trilha Sonora de Fernando Velázquez embalam com perfeição as ótimas performances de Vikander e McAvoy. Em ritmo cadenciado e contemplativo, somos levados a observar essas mudanças dentro e fora dos personagens. Destaco ainda a pequena, porém importante, participação de Alexander Siddig como o dr. Shadid, um personagem interessantíssimo e de participação crucial na estória de James. Submersão é uma ótima pedida para quem busca algo mais do que mero entretenimento.