3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood (2017) se propõe a fazer uma homenagem a um dos maiores ícones nacionais: os Trapalhões. Baseado no longa de 1984, sucesso de público rodado no auge da carreira dos quatro palhaços mais amados do país, a versão de João Daniel Tikhomiroff passeia pelos números musicais clássicos enquanto tenta atualizar a trama e o espetáculo circense para o século 21. Aqui, um espetáculo acrobático e um político corrupto substituem o circo com animais, além de acrescentar um toque atual na crítica à corrupção e ganância já existentes no original.

Didi (Aragão) e Dedé (Santana): matando as saudades da infância
Didi (Renato Aragão) e Dedé (Dedé Santana), os dois cabeças da trupe original, estão aqui para apresentar o circo Sumatra, que luta para se reinventar após a proibição do uso dos animais em espetáculos e voltar a lotar durante as noites de espetáculos. O dono do lugar, Barão (Roberto Guilherme, o eterno Sargento Pincel), só pensa no lucro - e por isso vai cair na armadilha de Assis Satã (Marcos Frota): ele planeja alugar o terreno para o prefeito Aurélio Gavião (Nelson Freitas, impagável) fazer seus comícios enquanto ganha uma grana por fora. Seus planos, porém, podem ir por água abaixo: Didi sente que esse arranjo não vai ser bom, mas só encontra negativas do dono do circo. Ele encontra forças em Karina (Letícia Colin), a filha dele que acabou de retornar da cidade e da faculdade. Juntos, eles conseguem convencer o Barão a dar uma chance para o circo: se conseguirem montar um espetáculo que seja um sucesso absoluto, ele para de alugar o terreno para outros fins.

A chegada de Karina (Colin) pode ser a única coisa a salvar o circo
Impossível não ser nostálgico ao assistir ao filme, principalmente quando Didi e Dedé estão juntos e fazendo piadas fora do roteiro - coisa muito comum à época, e que traz sorrisos genuínos nos saudosistas - mas falta algo realmente encantador na trama para empolgar. Digo isso pensando na audiência que nunca viu Os Saltimbancos Trapalhões (1981) ou que não cresceu assistindo sequer ao último programa do Didi na tv. Os musicais repaginados estão bem executados, mas falta um motivo para eles estarem lá: aí vem a brecha para o clichê “musical é um filme onde, do nada, as pessoas começam a cantar e dançar sem motivo”. Tecnicamente, foram bem feitas, mas a única que realmente me encantou foi a mais lúdica de todas: Didi e Dedé performando “Meu caro Barão” em um número sem muitos malabarismos coreográficos.

Efeitos especiais nem sempre são necessários
Por toda a trama é nítida a sensação de homenagem, porém parece que Rumo a Hollywood não conseguiu decidir-se entre um remake, uma atualização ou uma trama totalmente nova que fizesse homenagem ao original. O subtítulo e a sequência inicial (realmente divertida) me fez acreditar que talvez fossem ocorrer mais homenagens ao cinema e a outros clássicos, como no primeiro, mas a referência a Hollywood ficou só nisso mesmo. Perdido, nesse contexto, o longa traz atualizações necessárias para atrair esse público novo. Circo sempre me lembrou algo lúdico - e até os espetáculos mais modernos do Cirque du Soleil (uma das muitas referências no filme) sabem que isso é importante, e usam da tecnologia para ajudar a encantar. Na maioria das vezes aqui apresentados, poderiam ter sido substituídos por outros recursos. Perdoem-me, mas achei um tanto desnecessário o efeito especial para fazer o cachorro falar. 

Tigrana (Morais): personagem ficou deslocada na trama
Além disso, faltou trama para os outros personagens. Tigrana (Alinne Morais) era uma domadora de leões em 1984, e ficou completamente perdida na adaptação. A participação de Maria Clara Gueiros também ficou reduzida a uma esquete deslocada e uma revitalização de cena de hipnotização que não ficou tão boa quanto a primeira versão. O enfraquecimento de sua personagem carregou com ela o de outros como um efeito dominó: Luísa (Lívian Aragão), a sobrinha da cartomante/maga Zoroastra (Gueiros), não faz mais do que uma participação antes de seu número musical; Rafael Vitti e Emílio Dantas parecem dividir um personagem só e acabam resumidos a par romântico das mocinhas Pedro e Frank. Uma pena.

O espetáculo final: nostalgia bate forte
Os pontos fortes são a participação (pequena porém ótima) de Nelson Freitas, às músicas que ainda tem seu encanto e a química infalível entre Didi e Dedé - espere pelos créditos, várias cenas de erros divertem enquanto os espectadores se recuperam da emoção final. O desfecho, aliás, me lembrou um pouco as celebrações do Criança Esperança, onde sempre rola uma homenagem para o anfitrião. Emociona, é lindo, mas a gente já viu antes. Ao fim, saímos do cinema cantando as canções que tem gosto de infância. Quem sabe a nova geração surpreende e começa a fazer coro com a gente?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Assassin's Creed


Baseado na série de jogos eletrônicos de mesmo nome, Assassin's Creed (Assassin's Creed, 2017) é para iniciados. Digo porque, mesmo não sendo uma jogadora - mas já tendo ouvido falar sobre  o famoso game da Ubisoft e já lido um livro da série de romances inspiradas no game - ainda achei a coisa toda muito confusa. Mas, ao que parece, o filme é bastante fiel ao universo original da Seita dos Assassinos: a luta através dos séculos para evitar que os Pedaços do Éden (relíquias sagradas) caiam nas mãos dos Templários.

Aguilar (Fassbender): o assassino ancestral de Cal Lynch
 Começando com uma linda cena de iniciação ritual na Andaluzia do século XV, vemos o sacrifício a que os Assassinos se comprometiam para usar as suas armas mais características, as lâminas retráteis, e o quão ameaçados estavam com a chegada da Inquisição Espanhola. Logo passamos a explorar a vida de Cal Lynch (Michael Fassbender, também produtor do filme) desde sua infância. Um menino destemido, acaba passando o resto da vida com ódio do pai por este ter matado sua mãe e o obrigado a fugir. Com sérios problemas de comportamento, acaba sendo preso e condenado à morte na cadeira elétrica. Depois do procedimento, ele descobre que fora parar em Abstergo - uma espécie de prisão médica, por assim dizer - e está sob os cuidados da doutora Sofia Rikking (Marion Cotillard, bastante deslocada). Sua pesquisa consiste na procura da cura da agressividade - tida aqui como uma doença causadora de todo o mal do mundo. Mas não é bem isso o que acaba acontecendo.

A execução de Cal Lynch (Fassbender): o começo

Leva um tempo até que Cal compreenda o que realmente querem dele, e também encontra poucos amigos lá dentro. O Animus, um programa de computação capaz de rastrear a memória genética e transformá-lo em uma projeção 3D, é a peça-chave para a obtenção das memórias. Ele está sendo usado pelos doutores Rikking, pai e filha, nos descendentes dos Assassinos para obter informações sobre a Maçã do Éden - artefato procurado por gerações de Templários e que conteria a chave para controlar a humanidade.

Salto de Fé: se você não sabe o que é, não vai ser aqui que vai descobrir
A trama é bastante intrincada e interessante, mas o filme não consegue superar as boas cenas de ação. De fato, essas são lutas bem coreografadas - especialmente nas cenas de batalha no passado de Cal - porém não há boa estrutura dramática no contexto. Em miúdos, o longa não se sustenta sozinho. Se o espectador não conhece previamente algumas passagens típicas do jogo, vai ficar perdido. Há pouca explicação sobre passagens tipo o Salto de Fé (que é uma habilidade do jogador, mas ela fica ali, jogada no ar sem ninguém voltar a ela) ou a memória genética, que não é bem uma reencarnação - embora fique mais fácil para nós entendermos assim. A sensação é de que estamos assistindo àquelas partes introdutórias do jogo que todo bom jogador pula para ir direto ao combate. Acho até que funcionaria, principalmente com o bom elenco escalado, mas as lacunas para os leigos deixa a sensação de incompreensão ao final.

Sofia (Cotillard): pouco à vontade em cena
Há muitas falas piegas e enquadramentos clichês, tornando um filme meio Frankenstein: as ótimas sequências da Espanha em sua clara referência à parte interativa do jogo e a estranha parte do presente-futurista, onde todos parecem perdidos e deslocados. Michael Fassbender ainda convence como um homem atordoado por um passado brutal que descobre em seus genes algo ainda mais sombrio, mas que abraça seu destino, porém a atuação de Marion Cotillard deixa claro a confusão: ela parece não saber se vai se aprofundar no drama ou abraçar a ação, ficando muito aquém do potencial da atriz.

A parte de ação é a mais interessante, mas não sustenta a trama sozinha.
Nos prós e contras, pontos negativos para o roteiro de Michael Leslie, Adam Cooper e Bill Collage que consegue demonstrar a raiz do jogo fielmente, mas deixa aquele espectador comum na mão ao não explorar alguns detalhes importantes, e para o diretor Justin Kurzel, que apesar do bom material, produção e elenco, não foi capaz de produzir um filme memorável para todas as audiências. Pontos positivos para as cenas de ação, intensas e bem coreografadas, e para o mote principal que sugere o início de uma franquia também nos cinemas. Para os fãs, um prato cheio. Resta saber se vai agradar ao público em geral.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Passageiros


Passageiros (Passengers, 2016) tinha uma ótima premissa, mas se perdeu no meio do caminho. A nave-cruzeiro Avalon está a caminho de um novo planeta-colônia, que está pronto para receber os seus 5 mil novos habitantes que estão hibernando tranquilamente a bordo da nave. Essas pessoas são, basicamente, ricaços dispostos a desbravar um novo mundo (literalmente) em busca de uma aventura - mas há também aqueles que serviriam para a instalação/manutenção do novo projeto colonial que embarcaram nessa jornada atrás de um recomeço.

É o caso de James Preston (Chris Pratt), um engenheiro mecânico. Misteriosamente, sua cápsula de hibernação se ativou muito cedo - 90 anos antes do previsto, para ser mais exata. Por mais de um ano, James tentou de tudo: contactar a base da empresa responsável pelo cruzeiro na Terra, conformar-se com o seu destino de morrer antes mesmo de chegar, chegou até a fazer amizade com a única figura minimamente humana a bordo - o interessantíssimo androide Arthur (Michael Sheen), barman do cruzeiro.

Arthhur (Sheen) serve a James (Pratt) e Aurora (Lawrence) no bar: melhor personagem
A ponto de enlouquecer, por um acaso, descobriu a cápsula de uma linda jovem. Procurando saber mais sobre ela, descobriu que ela era Aurora Lane (Jennifer Lawrence), uma escritora de Nova Iorque. Vendo seus vídeos de apresentação, identificou-se com ela - a ponto de se apaixonar. A dúvida o corroía, seria ele capaz de suportar a solidão de tantos anos à frente ou arruinaria a vida de outro ser humano apenas para que ele não tivesse que enfrentar o resto de seus dias sozinho? Bom, já dá pra imaginar a escolha que ele fez, não é? Mas as coisas complicam mesmo quando todo o sistema entra em colapso e eles tem que lutar pela própria vida - sem ter a mínima noção do que fazer.

Olhando assim, o filme parece interessante. Como disse antes, o argumento é maravilhoso. Já imaginou o desespero que seria acordar em uma nave espacial e descobrir que é o único humano acordado - e que este despertar aconteceu muito antes do previsto? O que fazer numa situação dessas, em que não dá para voltar atrás nem fazer qualquer outra coisa? Muito material de reflexão foi desperdiçado aqui para dar lugar a um romance água-com-açúcar (descupe o spoiler, achei que ninguém iria imaginar que um envolvimento amoroso entre um casal tão bonito e atraente fosse acontecer - ironia mode on).

Metáforas lindas e intensas deram lugar a um filme de ação previsível e minimamente emocionante. Uma arca de Noé à deriva, a sensação claustrofóbica de estar preso num destino sem freio e sem volta, a asséptica visão futurista do mundo dominado por máquinas, a questão vital sobre relações humanas- tudo isso dá lugar a soluções apressadas e muito mal ajambradas (quanto mais penso nelas, mais surreais me parecem) que fazem o espectador se questionar depois de subirem os créditos. O final, aliás, me deixou com raiva: piegas até o último frame, recheado de frases de efeito à la novelas mexicanas, poderia ter algum tipo de redenção - mas nem isso.

A gravidade falhou e a piscina tornou-se mais uma ameaça
Nem mesmo os belíssimos efeitos especiais puderam esconder essas graves falhas estruturais. As presenças de astros do calibre de Lawrence e Pratt (e a participação de Lawrence Fishbourne, em um personagem facilmente substituível por um comando eletrônico) não salvam o longa. Ok, existem cenas belíssimas (como a falta de gravidade quando Aurora está na piscina ou a caminhada no convés), mas é só. Havia potencial para ser um filme marco na história do cinema, mas se contentou em ser um blockbuster altamente esquecível. Com tamanhos elenco, orçamento e argumento em mãos, o filme merecia ser melhor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O blog em 2017

Para nossos queridos leitores, decidimos dedicar algumas linhas para explicar o rumo que o Dvd, Sofá e Pipoca está tomando. Calma, isso não é um post de despedida! Entendam mais como um post de balanço de 2016 misturado a um de metas para 2017.


No ano passado, nosso ano sabático, a meta era completar as nossas listas. Ao longo dos anos (linda essa frase!), um ou outro filme acabou ficando sem alguma resenha - de uma ou até de todas as blogueiras - e queremos fechar essa conta. Essa meta não foi cumprida, infelizmente, mas não desistiremos! Em 2017 seguiremos com os planos de completar os furos do passado, além de projetar novas metas e desafios para o futuro. Nos aguardem!

Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu - quem sobreviveu a 2016 sabe bem do que eu estou falando - mas algumas notícias são boas. Nós três resolvemos embarcar em outro projeto: o Roteiro Adaptado. Nesse novo blog temos uma proposta ligeiramente diferente, em que unimos duas de nossas paixões: cinema e viagens.


Resolvemos compartilhar nossas experiências no Brasil e fora dele, com algumas dicas de foto e de como montar suas viagens, mas o principal foco é buscar algum destino onde alguma produção tenha sido feita ou inspirada. Vale de tudo: livro, filme, novela, série, clipe musical... Se a gente foi, vamos contar como paramos lá e o que mais descobrimos - quem sabe você também se anima a ir visitar também?

O blog está engatinhando ainda, tem apenas 3 meses no ar - estreamos na internet em outubro de 2016. Mas o ano inteiro passado foi trabalhando em cima dele: escolher o layout, procurar pausas novas, programar viagens, revirar arquivos... É, dá trabalho, mas a gente gosta!

Então fica aqui o convite para vocês, venham visitar nosso novo projeto. E não deixem de nos acompanhar aqui, pois estamos cada vez mais antenadas com os lançamentos (já perceberam, não é?) e continuaremos nosso caminho para nos tornar cinéfilas melhores.

Feliz 2017!
As Blogueiras

Vivendo e aprendendo


A primeira versão de O jardim secreto que eu vi foi a de 1993 e já tem alguns anos. Lembro de ter ficado acordada de madrugada, lutando contra o sono, só para ver a história. Não lembro como foi que eu soube ou o porquê da minha insistência em querer ver esse filme, mas fiquei e não me arrependi. Lembro desse filme até hoje, e com muito carinho. E ainda tem Maggie Smith no elenco, então... Essa versão está guardada no coração.

Por isso estranhei um pouco a primeira versão. É bem mais sombria que a versão de 1993. De início achei que seria todo em preto e branco, e assim a mansão ficou muito mais sombria, fria e assustadora - um lugar muito mais hostil para a adaptação da pequena Mary. Mas achei ainda mais interessante, e até surpreendente, ver que isso foi um recurso estilístico, usado para causar mais impacto. O longa de 1949 é uma versão mais dura - como eram os antigos contos de fadas. A ambientação e as crianças são mais cruas, os contrastes são mais fortes. Há uma encantamento pela história em si, mas falta um tanto de magia a como estamos acostumados. Por isso é tão interessante comparar as duas versões: a história é exatamente a mesma, e, ainda assim, são filmes bem diferentes.

Em linhas gerais, seria assim: criada na Índia como uma pequena rainha, Mary Lennox fica órfã e é aceita por um tio muito estranho, que mora numa mansão aparentemente sozinho. Recluso, ele sequer vai ver a sobrinha quando ela chega. A mansão é cheia de regras totalmente fora da realidade a que estava acostumada, então a pequena Mary fica completamente deslocada. Até que ela começa uma amizade (um tanto intruncada) com Dickon, um ajudante de serviços, e começa a descobrir como é ser uma criança. Juntos, eles descobrem a entrada do jardim secreto e com ele, um mistério: porque aquele lugar tão bonito estava tão abandonado? Logo ela também descobre que não é a única criança da casa: seu primo, Colin, nunca saía do quarto porque não podia mexer as pernas. Aos trancos e barrancos, os três começam uma amizade compartilhando um segredo: Mary havia decidido reviver o jardim. Mas tudo tinha que ser as escondidas, pois seu tio não podia nem suspeitar que eles sabiam daquele lugar.


E nesse jardim vai florescer algo mais do que somente as lindas flores: a esperança renasce, amizades se fortalecem, a coragem aparece, o amor volta a colorir o mundo. A metáfora é linda e emocionante, embora mostrada de forma ligeiramente diferente nos dois longas. Uma história que fala de superações, descobertas, inocência, família, luta e perseverança para crianças, jovens e adultos. AA versão mais recente é aquele filme de fim de tarde preguiçoso, mas que te deixa com o espírito leve depois de assisti-lo; a mais antiga funciona quase como uma curiosidade - mas também vale uma conferida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One - Uma história Star Wars

Rogue One - Uma história Star Wars (Rogue One, 2016) é um excelente longa. Os acertos vão desde o tom certo de saudosismo e homenagem à trilogia original até a perfeita combinação de efeitos especiais atuais com um roteiro enxuto, que cumpre exatamente o que promete. Pequenos detalhes não me deixaram amar o filme sem ressalvas, mas o resultado final é muito mais que satisfatório.

O longa começa com um recrutamento imperial: Galen Erso (Mads Millkensen) tentou se refugiar em um planeta desabitado com a família, mas fora encontrado. Forçado a ir com os soldados, conseguiu esconder sua filha, a pequena Jyn (Beau Gadsdon/Felicity Jones). Resgatada por Saw Gerrera (Forest Whitaker), ela cresce sob a proteção de um dos maiores líderes rebeldes.

Depois conhecemos Cassian (Diego Luna), um piloto rebelde em busca de informações. Ele descobre que Erso conseguiu enviar uma mensagem sobre uma terrível máquina de guerra (uma tal de Estrela da Morte) através de um piloto de carga imperial a seu grande amigo Gerrera. Sendo este um extremista rebelde, torna-se prioritário encontrar esse informante e levá-lo ao Conselho antes que seja tarde demais.

Jyn, agora adulta, tenta viver sem se envolver com assuntos políticos por causa de seu trauma de infância, mas vai acabar sendo envolvida nos planos rebeldes. Ela é a única forma segura de se chegar a Gerrera e, por isso, Cassian fora instruído a convencê-la a ajudar. Mesmo a contragosto, ela aceita levá-lo até seu antigo tutor; porém não quer se envolver mais do que isso. A mensagem de seu pai, porém, a fará mudar de ideia.

Apesar de um início um tanto confuso (especialmente para não-iniciados em Star Wars), com muitos nomes diferentes e novas relações pessoais e políticas para se acostumar em pouco tempo, ao longo do filme a trama se desenrola suavemente. Passo a passo, acompanhamos a corrida contra o tempo dos rebeldes e dos soldados imperiais para impedir uma catástrofe - que tem significado diferente para os dois lados. Os novos personagens tem carcterísticas únicas e são bastante carismáticos, e alguns personagens conhecidos do público aparecem em participações memoráveis. Mas nem só de fan service vive este longa.

Rogue One é um filme sobre heróis anônimos. Rostos desconhecidos e propósitos diferentes unidos pelo inevitável. Não há Jedis aqui para defendê-los, apenas a coragem de escolher o próprio futuro. E se não houvesse a missão impossível e o improvável esquadrão, não existiria a primeira trilogia (e, consequentemente, todo o universo Star Wars).

Apesar disso tudo, tenho que ser chata em alguns pontos. Como disse antes, detalhes não me fizeram amar incondicionalmente esse filme: os principais, eu cito agora. O elenco afinado brilha em atuações sóbrias, com destaque para Diego Luna e Millkensen (que nos deixam a imensa vontade de descobrir mais sobre o passado de seus personagens), mas a escolha de Felicity Jones me pareceu equivocada. Ela é uma boa atriz, mas sua Jyn Erso não tem o carisma que um bom líder deveria ter - e isso fica bem evidente nos discursos que ela faz. Daí parece meio frouxa a ligação entre Jyn e os outros integrantes, mas não é uma falha crítica. 

Outro detalhe é a forma como as falas de Gerrera são escritas: fica bem evidente que foram pensadas para serem memoráveis, mas a forma de uma fala se tornar épica não é ser construída para sê-lo; ela simplesmente acontece. Ao aparecer na tela assim, soa meio brega - mas a gente perdoa porque, bem, Star Wars é assim e a gente ama do mesmo jeito. Ou vai dizer que os botões de "desligar tudo" que sempre existem nos lugares mais improváveis são plausíveis?! Nós só fingimos que não percebemos e vamos em frente.

No fim, os acertos são muito maiores que os deslizes. Ver a Estrela da Morte em ação e as suas consequências é algo aterrador e belo, e mexe com nosso íntimo. Os personagens principais são carismáticos e o diretor Garret Edwars soube conduzi-los de forma a destacar cada um no momento certo - principalmente o andróide K-2OS (voz de Alan Tudyk). Trabalho de equipe é a palavra de ordem, até na metalinguagem.

Aprendemos, também, que nenhum personagem consegue fazer entradas triunfais como Darth Vader, e que batalhas espaciais com efeitos especiais à la anos 1970 continuam maravilhosas, principalmente porque se misturam perfeitamente com os efeitos digitais atuais. Aliás, a sequência de ação final é de uma beleza ímpar: desde o momento em que o plano começa a dar errado até o momento em que dá tudo certo (isso não é um spoiler), a emoção é garantida. Excelente estreia, um presente de Natal maravilhoso para um ano tão complicado, Rogue One - Uma história Star Wars é diversão garantida. Vale a pipoca e os aplausos ao subir dos créditos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A chegada

 
A chegada (Arrival, 2016) é um filme de ficção científica surpreendente, com muito mais drama do que o habitual, mas ainda não estou muito certa de que isso é um elogio. Uma boa premissa - contada em linhas bem explícitas, inclusive, em um diálogo logo no primeiro terço do longa - e uma narrativa que engana o espectador menos atento, nos deixa o questionamento como seu maior legado. Gostando ou não, é impossível sair do cinema sem refletir sobre o que acabamos de ver.

Louise Banks (Amy Adams) é uma linguista professora de universidade que leva uma vida bastante solitária e deprimente; mas quando 12 naves alienígenas pousam aleatoriamente sobre a Terra, ela é a primeira opção da CIA (serviço de Inteligência americano) para tentar se comunicar com os visitantes que pousaram sobre o estado de Montana - o único em solo americano. Era necessário que algumas perguntas urgentes fossem respondidas o quanto antes, então além dela - para intermediar esse diálogo - o astrofísico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner) também fora convocado.

Ian (Renner): personagem pouco explorado
Apesar da estranheza e de uma certa abertura por parte dos alienígenas, não há como saber se eles  são amigos ou inimigos. Os esforços dos outros países onde as outras naves pousaram em fazer contato também se mostrou pouco frutífero, e os ânimos começavam a se alterar. Cabia à professora e ao físico fazerem as perguntas certas e obterem as respostas que os militares precisavam o mais rápido possível. E, no fundo, só havia uma questão que os interessava: “que armas vocês têm e o que pretendem fazer com elas?”

O medo do desconhecido é o principal vilão nesse contexto. A arma para combatê-lo, logicamente, é a comunicação. Já dizia o Velho Guerreiro, “quem não se comunica, se trumbica!”. E é justamente sobre isso que o filme trata: como nos faz falta uma comunicação melhor. Temos muita informação seletiva - à nossa revelia ou por nossa própria escolha; cada vez mais deixamos passar pormenores e entrelinhas porque temos pressa; o desespero que se transforma em barbárie por pura falta de conhecimento. É uma pauta muito atual e contundente, mas há algo que me incomoda no filme. 

A nave em Montana, US: fotografia belíssima
As passagens de tempo são excessivamente longas em determinado trecho e muito apressadas no momento crucial - quando se explica o plot. O tempo, aliás, é outra parte importante do argumento do filme. A forma como vemos, vivemos, experimentamos e entendemos o tempo é muito particular a terráqueos e, ainda assim, difere para cada ser humano - e ainda há outros zilhões de modos de ver e sentir o tempo que não somos capazes de compreender. Esse é um ponto-chave do longa, e mais não comento para não estragar a experiência do espectador. Mas há duas condições que me impedem de dizer “amei esse filme!”: a personagem Louise e o final agridoce. 

Louise (Adams) e a comunicação: ideia brilhante
A interpretação de Amy Adams é excelente, mas acho que há um tanto de carga dramática extra sobre a personagem Louise que não precisaria estar lá. Ela, como fio condutor dessa nossa imersão na história, nos transmite exatamente as sensações que temos do lado de fora da tela - confusão, percepção, encantamento e, principalmente, tristeza. Me chamem de chata, mas a tristeza da personagem mais do que incomoda a gente - nos infecta. Há beleza no final da história, e a gente compreende todas as escolhas de Louise, mas a gente sofre com ela também. Talvez eu só não estivesse preparada para tamanha emoção em um filme de ficção científica com alienígenas.

O final também foi um tanto decepcionante quando arruma soluções ligeiramente apressadas para solucionar a crise. Fosse um filme de ação, ela teria cortado o fio vermelho e desativado a bomba faltando 5 segundos para a explosão. Apesar de tudo, o fim é coerente e as pontas soltas ficam amarradinhas - algumas meio frouxas, mas vá lá. O ciclo é fechado sem maiores comprometimentos.

O visual é impecável, e a leitura "vemos apenas uma brecha do universo" se prova em cada take
Há elementos interessantes no quesito “nerdice”: a estrutura física dos aliens, as naves, a linguagem (já quero camisetas!), mas não sei se vai agradar aos fãs de pura ficção científica - como também não sei se agradará aos fãs de drama por sua temática tão distinta. A fotografia do filme é intensa, linda, impactante, e dialoga bastante com o tema complexo. A direção delicada e firme de Dennis Villeneuve que conduz com elegância elenco e roteiro e não deixa o filme se perder. Por tudo isso, A Chegada tornou-se um filme imperdível: não dá apara avaliar se gostou ou não gostou pela opinião alheia, tem que ver e experimentar. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Animais fantásticos e onde habitam

No início, somos apresentados a Newt Scamander (Eddie Redmayne, especialmente dedicado à construção do herói), um viajante inglês que chega à Nova Iorque em meio a uma crise: Grindewald (que, já foi anunciado, será vivido por Johnny Depp nas continuações dessa saga) está causando o caos em toda parte do mundo e seus ataques ameaçam expor o mundo bruxo. Muitos não-mágicos - como os americanos chamam os trouxas - já perceberam os indícios de bruxaria e estão revoltados e com medo. Eles tem até razão em temer, de certa forma, mas os bruxos do Ministérios da Magia Americana (chamada MACUSA) estão empenhados em amenizar os impactos das ações de Grindewald e prendê-lo o quanto antes (de preferência, antes que uma guerra civil se instaure entre bruxos e não-mágicos.

Eis um filme que causou muita expectativa nos fãs de Harry Potter e do universo mágico criado por J.K. Rowland: Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)  não é, como muitos podem esperar, uma continuação da saga - é, na verdade, uma história anterior. Passado nos Estados Unidos dos anos 1920 e tendo apenas um ator britânico no elenco, o filme pode causar estranheza por vários motivos. Mas tendo um pouco de paciência, é fácil se encantar novamente com o universo mágico.

Tina (Waterston), Newt (Redmayne), Queenie (Sudol) e Jacob (Fogler) - os novos protagonistas

Percival Graves (Farrel): auror
Newt é tímido e atrapalhado, e acaba sempre envolvido em "acidentes". Não poderia ser de outra forma que ele conseguiria se meter nesse enredo: em sua mala mágica, que ele carrega em suas viagens ao redor do mundo, ele coleciona e abriga animais fantásticos (cuidando para sua conservação, estudando e catalogando espécies e propriedades); mas quando um simpático - e adoravelmente terrível! - pelúcio escapa da mala em meio a um protesto dos Novos Salemeicos (não-mágicos radicais), ele está em apuros. Em meio a tudo isso, há uma criatura invisível destruindo a cidade e causando muita dor de cabeça a Percival Graves (Colin Farrel), um auror que não mede esforços para encontrar a tal besta.

Newt e o pelúcio: o bichinho é tão fofo e hilário quanto é encrenqueiro e sem-vergonha
Tina Goldstein (Katherine Waterston), uma ex-auror, está vigiando o protesto e percebe que algo está errado com Newt. Vigiando-o, vê quando ele - novamente - acaba por acidentalmente introduzir Jacob Kowalski (Dan Fogler), um não-mágico, no mundo bruxo. Ele é apenas um homem que sonha abrir uma padaria - e está buscando recursos para isso - mas que tem o infortúnio de ter uma mala igual a de Newt. Sim, vem muita confusão daí. Mas Tina está obstinada a voltar a seu antigo trabalho e acha que o caso-Newt-Scamander vai lhe garantir o retorno ao Ministério. O que ninguém esperava era que os acontecimentos fossem mudar dramaticamente tão rápido - nem tão cedo.

Tina e Newt com Graves no Ministério: a mala mágica causou muitos problemas
Animais Fantásticos e Onde Habitam é uma espécie de introdução àquela atmosfera de magia que nós nos acostumamos a ver durante a saga Harry Potter, mas não é um filme que se sustente para não-iniciados no mundo bruxo da autora da saga e roteirista deste longa J. K. Rowland. Creio que seja difícil para quem nunca ouviu falar em "trouxas", "Ministério da Magia", "legilimência" e "elfos domésticos", por exemplo; mas há também uma familiaridade em personagens cativantes que pode agradar ao leigos. Para quem já é fã, a temática mais adulta e menos maravilhosa da magia pode causar cera estranheza no início - mas é muito fácil superar e se entregar ao enredo.

Newt Scamander é tão carismático que deve ganhar o coração dos fãs
A comparação com Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) é inevitável, mas é também positiva. Em ambos há uma primeira fase de ambientação e apresentação dos personagens - e, diferente de Hogwarts, a cidade não é um ponto fundamental na história. Enquanto vamos nos habituando aos nomes e rostos, descobrimos o fantástico que habita na mala de Scamander: o universo e as criaturas lindas, divertidas, interessantes e maravilhosas, ao mesmo tempo em que começamos a nos afeiçoar a ele. A dedicação do personagem a essas criaturas é lindamente interpretada por Redmayne, e vai ser difícil não se apegar a ele.

Jacob aprendendo com Newt como cuidar dos animais fantásticos como o simpático Picket, um tronquilho
Outra diferença básica entre A Pedra Filosofal e Animais Fantásticos é que os personagens não estão descobrindo a magia  - a não ser o não-mágico Jacob, mas sim o que eles realmente são. Essa busca pela própria identidade é o que move os quatro personagens principais - Newt, Jacob, Tina e Queenie (Allison Sudol), irmã dela - que são obrigados a enfrentar perigos numa mudança drástica de rotina. Nada jamais será a mesma coisa depois que esses quatro se encontram, e apenas uma prévia dos terríveis acontecimentos que estão por vir foram mostrados.

Picquery (Ejogo): apagada
Pode não haver um castelo mágico empolgante ou o ar infanto-juvenil fantástico que a saga original, mas o carisma do personagem Scamander e a química entre os protagonistas promete fazer dessa nova empreitada cinematográfica um sucesso de público e crítica. A produção primorosa, já velha conhecida dos fãs, é de tirar o fôlego. Todo o elenco está muito bem em cena (uma exceção, talvez, para Carmen Ejogo e sua fraca presença como Seraphina Picquery, presidente da MACUSA). Efeitos especiais elaborados tornam as criaturas ainda mais fantásticas e o 3D realça muito bem os momentos mais impactantes sem ser "demais".

Para aqueles que são fãs e sentiam saudade de esperar um novo lançamento da franquia a cada Natal, Animais Fantásticos e Onde Habitam vai cumprir o papel com louvor - a sensação que fica ao final, no gancho para a sequência, lembra muito a virada de clima que acontece em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) que é, na verdade, quando Harry deixa de começar a entender a magia e precisa enfrentar seus medos para não sucumbir ao mal. A começar a história nesse nível, a expectativa para as sequências só aumentam. E pelo que sabemos, J. K. sabe como nos surpreender.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Doutor Estranho

Juntando as peças para a grande batalha, a Marvel apresenta aos espectadores o filme do Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016). Um personagem diferente dos outros herois a que estamos acostumados a ver nas telonas, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) não tem poderes mutantes ou produto de experimentos científicos, tampouco é um semideus alienígena ou espião ultra habilidoso. Sua historia é mais a de um anti-heroi: um homem que se vê obrigado a aceitar um destino que não quer.  

Kaecilius (Mikkelsen): usando a magia para o mal
O filme começa com um grupo de monges obtendo um feitiço importante de um livro sagrado em uma biblioteca de forma absolutamente cruel: após matar o bibliotecário, Kaecilius (Mads Mikkelsen) leva consigo um feitiço proibido que pode destruir o mundo. A Mestre Anciã (Tilda Swinton) ainda tenta impedir o roubo, usando de magia e habilidades marciais incríveis - tanto que Kaecilius, mesmo com um grupo muito maior, nem tenta confrontá-la: apenas quer fugir, e acaba conseguindo escapar. Então somos apresentados a Stephen Strange (Cumberbatch): um renomado neurocirurgião que se sente plenamente satisfeito com sua vida e seu status. Bem-sucedido, extremamente inteligente, se dá o direito de operar os casos de sucesso - mesmo que o procedimento seja muito arriscado, se há uma boa chance do paciente se recuperar, ele aceita o “caso perdido”. Porém, se não há condições de recuperação perfeita, a arrogância dele o faz desprezar o caso.
Christine (McAdams) e Stephen (Cumberbatch): parceiros de profissão
Mas ele vê sua vida mudar drasticamente quando, em um acidente de carro, perde o controle de suas preciosas mãos. Antes precisas, agora estão arruinadas e nem mesmo os tratamentos mais caros ou mais experimentais puderam recuperar os movimentos perfeitos e precisos. Sua carreira está, para sempre, arruinada - e ele também pensa que sua vida foi para o brejo junto com ela. A doutora Christine Palmer (Rachel McAdams), sua parceira no hospital e ex-namorada, sofre por vê-lo tão obcecado com a perda da precisão, pois acredita que ele está desperdiçando tempo e energia em um caso sem reparação ao invés de aproveitar a segunda chance que teve de viver. Mas Strange não dá ouvidos à ela, e tenta sozinho um último recurso: desesperado, procura informações sobre um lugar misterioso que já havia conseguido reparar um caso médico considerado impossível.

Strange encontra Pangborn (Benjamin Bratt) e dele recebe as informações que precisa: gastando seus últimos recursos, viaja até Kathmandu atrás do Kamar-Taj. Ao encontrar o lugar, decepciona-se: acreditando ser uma espécie de seita que renega a ciência, se vê obrigado a aceitar algo que existe alguma coisa além dos seus conhecimentos quando a Anciã o confronta com uma projeção astral. Desesperado por uma chance de cura, ele acredita que pode aprender a usar a magia a seu favor - exatamente como Pangborn. Mas o destino tem outra função para o doutor.

Mordo (Ejielfor) e Strange (Cumberbathc): treinamento em Kamar-Taj

Doutor Estranho é um filme, com perdão do trocadilho, estranho. Apostando em uma carga dramática maior que nos outros filmes da Marvel, mas ainda sem querer perder o tom de bom humor que permeou os outros longas (e que cativou muitos fãs que não conheciam os quadrinhos antes das estreias em cinema), a obra fica ligeiramente confusa entre ser drama ou diversão. Por isso fica um gostinho de que erraram a mão na hora das piadas: não que eu não curta as gracinhas em cena, mas é que, às vezes, não precisava. Strange é um homem que deveria ser muito desagradável e que, aos poucos, vai percebendo que a vida não gira em torno do próprio umbigo. Essa queda na realidade está subentendida em diversas metáforas e não há porque não deixar essa ser a marca do personagem: a tomada de consciência de que somos nada no universo é muito mais impactante do que uma piada pastelão para nos fazer rir em meio a uma batalha de vida ou morte. Esse foi apenas um detalhe na trama, mas contagiou todo o enredo. Por isso é uma falta grave.

Mas, para além disso, o filme funciona muito bem. Introduz personagens importantes e uma mística diferente aos superherois que o público não está acostumado a ver. O Doutor Estranho não tem superforça, não voa sozinho, não sabe lutar com armas - sua única chance, seu poder, vem de acreditar em si mesmo. A forma como a jornada do herói foi construída é bastante linear, talvez para compensar os malabarismos visuais e a complexidade da trama maior em que o Doutor se envolve. Aliás, fica bem claro desde o início que o heroi foi apresentado neste exato momento por conta disso: se você não viu Thor - O mundo sombrio (2013), Os Guardiões da Galáxia (2014) nem Os Vingadores - A guerra de Ultron (2015), vai ficar meio perdido quanto a esse enredo aí.

Anciã (Swinton) demonstrando o poder de sua magia

No fim, o filme flui bem. Com um elenco estelar, seria muito difícil errar na composição dos personagens. Cumberbatch acerta no tom arrogante e divertido do heroi (diferente do quase robótico vilão Kahn de Star Trek - Além da escuridão); McAdams aparece pouco, mas tem participação decisiva - e divertida - durante a construção de Strange; e Swinton esbanja talento ao reunir força e sutileza em mais um papel ambíguo: ok, puristas, sabemos que na HQ o Ancião é um homem; mas se você puder deixar isso de lado, vai aproveitar muito mais a inteligente composição da atriz para um personagem tão complicado e importante. Destaco a participação de Benedict Wong como Wong, o novo bibliotecário, que rende algumas das melhores piadas do filme.

Efeitos especiais são um grande atrativo do filme: vale a pena uma sessão em 3D
Elenco em sintonia, efeitos especiais bastante mirabolantes (mesmo tendo aquele efeito de “já vi isso em outro filme...”) que realmente funcionam no 3D. Uma boa pipoca de fim de ano, e um ótimo ensaio para um tom mais pesado nos filmes: basta entenderem que nem sempre precisa de uma piada para salvar o dia. Mais uma peça para o quebra-cabeças que culminará na Guerra Infinita. Ah! Não saia do cinema antes da segunda cena pós-créditos, ok? “Ah, mas todo mundo sabe que tem que esperar até o fim...” Bem, se mesmo com aviso o pessoal sai da sala antes de acenderem as luzes... Não custa nada reforçar, não é?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Garota no Trem


A Garota no Trem (The Girl on the Train, 2016) é, para dizer o mínimo, interessante. A princípio, parece que acompanharemos apenas a suspeita de Rachel (Emily Blunt, em boa atuação) sobre a vida de um jovem que ela admira ao passar todo dia em frente à casa dela. Pela janela do trem ela vê a garota quase todo dia, acompanha sua rotina e fantasia sobre a vida perfeita que ela tem - e, principalmente, uma que ela própria não teve.

Aos poucos vamos conhecendo melhor como funciona a cabeça de Rachel. Alcoólatra, divorciada, vivendo em um apartamento compartilhado. Tudo está dando errado para ela. E, como se não bastasse, tudo parece ir bem para seu ex, Tom (Justin Theroux), e a nova esposa dele, Anna (Rebecca Ferguson). Ela, aliás, havia sido amante dele enquanto Rachel e Tom ainda eram casados. Tudo parece tão humilhante para ela, que se afunda cada vez mais em seu vício. O que Rachel não sabe é que a vida que ela inveja não é exatamente o mar de rosas que ela fantasia. Megan (Haley Bennet, surpreendente) é uma jovem com muitos problemas. Mesmo tendo um marido lindo, que a ama, e tendo uma vida de comercial de margarina, ela se sente sufocada naquela rotina. Muito de seus problemas tem uma raiz muito mais profunda, que ela não compartilhava nem com seu marido.

Tom (Theroux) e Rachel (Blunt): relação de ex-casal complicada
Tudo começa a ir mal quando, um dia, Rachel vê, pela janela do trem, Megan beijando outro homem. Obcecada em descobrir quem é aquele cara, e irritada com a jovem por supostamente estar estragando sua felicidade, Rachel começa a surtar. De novo. O ex-marido e a nova esposa voltam a temer que ela tente alguma coisa contra sua bebê, Evie. O fundo do poço chega quando Megan é dada como desaparecida, e Rachel resolve interferir no caso. Acreditando que aquele homem misterioso está envolvido no desaparecimento, Rachel procura Scott (Luke Evans), marido de Megan, e se passa por amiga dela para lhe revelar as suas suspeitas.

Scott (Evans) e Megan (Bennet): teriam mesmo uma vida perfeita?
O longa tem trama intrincada e pesada. Por mais que já se tenha visto algo parecido (não há nada de revolucionário na forma como foi filmado ou editado), o filme prende a a atenção do início ao fim. Algumas cenas são impactantes, e a temática da violência permeia todo o enredo: interna, doméstica, a causada pelo excesso de álcool, a inconsciente permissão da violência, o prazer das pequenas vilanias, rompantes de fúria a que todos estamos sujeitos. É um soco na cara, uma estória que te faz abrir os olhos para o sofrimento velado. Julgar é fácil, mas enfrentar os próprios medos é algo que só os fortes são capazes.

Anna (Ferguson): a amante que virou esposa agora teme a ex do marido
A direção de Tate Taylor é especial no sentido de extrair o melhor dos atores, que também se esforçaram para compor personagens tão fortes, e por manter o clima tenso do início ao fim. Destaques para Bennet e Theroux, que eu pouco conhecia o trabalho anterior e que impressionam. Uma estória forte e impactante, que te faz refletir ao sair do cinema. Mais do que apenas uma adaptação de livro, um bom filme no momento certo da História.