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quinta-feira, 23 de março de 2017

Fragmentado



Fragmentado (Split, 2017) tinha tudo para ser a volta por cima do diretor M. Night Shyamalan, mas ficou de recuperação por um décimo. O tema é bastante intrigante: no corpo de um homem habitam 23 personalidades, totalmente distintas em várias formas. Elas parecem sob controle, mas o que aconteceria se uma resolvesse tomar o controle? Esse é o mote principal, mas alguns detalhes bobos impediram esse bom filme de ser ótimo.

Dennis (McAvoy): uma das muitas - e mais sombrias - personalidades de Kevin
Casey (Anya Taylor-Joy) é uma menina problemática, vive isolada dos colegas de escola, mas acabou sendo convidada para a festa de aniversário de Claire (Haley Lu Richardson) - o que causou estranhamento até em Marcia (Jessica Sula), melhor amiga de Claire. Quando o pai da garota oferece carona para levá-las até em casa, algo estranho acontece. Um homem totalmente desconhecido sequestra as garotas e as leva para um porão super bem cuidado. Temendo pelo pior, as melhores amigas entram em desespero - Casey, porém, usa seus conhecimentos de caça que aprendeu com o pai e o tio para se manter viva. Elas logo descobrirão que Dennis, o sequestrador, é só uma pequena parte do problema.

Paralelo a isso, temos a história do próprio sequestrador e suas múltiplas personalidades. A doutora Karen Fletcher (Betty Buckley, excelente) atende a seu paciente Barry (James McAvoy), uma das muitas personas que vivem em Kevin. Ela parece fascinada com o rapaz, tanto que procura usá-lo como exemplo para suas palestras de Transtorno de Identidade Dissociativo. Por estar ajudando-o há muitos anos, ela percebe que algo não está indo bem. Ela calmamente tenta descobrir o que está acontecendo, tentando evitar o pior - mas talvez já seja tarde demais.

Barry (McAvoy) em consulta com a dra. Fletcher (Buckley): os melhores em cena
É interessante acompanhar o desenrolar da trama, embora o espectador mais atento já saiba o que vai acontecer. Há muitos pontos frágeis nessa produção, embora dois pontos fortes sejam o suficiente para sustentar o longa até o fim. As interpretações inspiradas de Betty Buckley, que fez da doutora uma personagem memorável (uma mistura de deslumbramento e profissionalismo que vai se provar desastrosa) e de James McAvoy, que está espetacular na construção dos personagens - especialmente na transição entre eles - são, com certeza, o ponto alto do longa. As jovens atrizes que formam as vítimas de Kevin são, no máximo, medianas - e isso enfraquece demais. Chega uma hora que a gente até para de torcer para elas se salvarem. Taylor-Joy, que interpreta Casey, é a melhor das três porém fica apenas na média num filme onde as atuações de peso contrastam gritantemente com as mais fracas. 

Casey (Taylo-Joy): atriz tem potencial
O próprio McAvoy acaba exagerando em algumas cenas, mas aí eu culpo diretamente o diretor: é típico dele arrastar a trama para colocar toda a ação no momento de clímax, porém a opção pelo susto gratuito e os clichês de terror não foi a melhor escolha. Há formas mais criativas e emocionantes de se trabalhar o jogo de gato e rato do que fazer o predador correr de um lado para outro de um corredor estilo os desenhos do Scooby-Doo. Até o tema latente do “quem é o verdadeiro monstro?” que chegou a ser rascunhado nas entrelinhas do roteiro pareceu meio banal depois dessa cena. Outro ponto frustrante foram as tão faladas 23 personalidades, mas que nós só conhecemos uma meia dúzia. Ao que tudo indicava, havia ainda mais escondidas - e pelo ator escolhido, a gente tem certeza que daria para os outros aparecerem sem problemas. Aliás, seria esse o motivo delas não aparecerem?

A cena exagerada: não precisava disso pra ser aterrorizante
Para os fãs, há uma aparição surpresa, um easter egg e aquela pegadinha no final - parece até uma cena pós-créditos, só que faz parte do fim do filme - e deixa uma pulga atrás da orelha. Mas ainda assim, o filme será memorável apenas pela atuação de McAvoy. De qualquer forma, é bom ver que o mesmo espírito de suspense de O Sexto Sentido e Sinais está de volta. Quem sabe no próximo ele consiga acertar em cheio.

terça-feira, 14 de março de 2017

A Bela e a Fera


Chegou o esperado dia! A ansiedade corroeu os corações dos aficionados por Disney e fãs de Emma Watson, mas, enfim, a espera acabou. Essa semana estreia nos cinemas a versão live action da animação primorosa dos estúdios Disney (que, aliás, foi a primeira da História a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme - e não de Animação). E o que tenho a dizer sobre o longa? Bem. Apesar de já ter passado alguns dias desde a exibição para a imprensa, eu ainda não sei dizer se gostei do filme ou não. Nem sei dizer se isso é só implicância minha. Portanto, hoje eu resolvi fazer uma resenha diferente: vou analisar caso a caso e ver se descubro o que, de fato, eu senti pelo longa de Bill Condon.

ATENÇÃO: esta análise pode conter alguns spoilers. Se pretende descobrir quais são as mudanças em relação à trama da animação no cinema, esta resenha pode estragar algumas surpresas. ;)


Trama

Esse é um ponto superpositivo do filme. Apesar de ter feito questão de reprisar cenas encantadoras do filme de 1991, não se ateve a isso. O argumento de Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos abre espaço para homenagear outras versões da história, como a versão de 1947 e o musical da Brodway, além de preencher lacunas que não foram resolvidas anteriormente.

Produção

Bela e funcional, é outro dos maiores trunfos desta versão. Os efeitos visuais beiram a magia, principalmente nos habitantes do castelo da Fera. Figurino, maquiagem, produção de arte estão "padrão Disney" - mas abro exceções. De alguma forma, o vestido de baile da Bela não causa o mesmo impacto que deveria (o efeito oposto ao que aconteceu na versão de Cinderela) e a caracterização do Príncipe Adam (também conhecido por Fera) é estranha. Não causa o encantamento que deveria - ou isso é apenas a minha alta expectativa frustrada falando mais alto.


Música

A clássica "Beauty and the Beast" não poderia jamais deixar de estar presente - mesmo que na versão com Ariana Grande e John Legend. Céline Dion, que interpretou a versão original da música que ganhou o Oscar de Melhor Canção foi homenageada, com outra música inédita (que toca ao fim dos créditos). Várias canções da animação também aparecem, mas de certa forma as músicas novas soam como se funcionassem melhor no palco do que no longa. A nova canção da Fera é linda, mas tem um quê de Les Miserábles que é impossível de ignorar.

Personagens e elenco

Aí a gente tem ir com calma. O elenco estelar conta com nomes de peso como Sir Ian McKellen e Emma Thompson, além de introduzir ao grande público as figuras de Dan Stevens (que fez a série Downtown Abbey e atualmente está em Legion) e Josh Gad (que deu voz ao Olaf, de Frozen - Uma Aventura Congelante). Aqui temos altos e baixos. Vamos aos destaques.

* Bela (Emma Watson)


Eu não quero parecer aquelas pessoas implicantes, mas... Acho que não funcionou tão bem quanto eu esperava. A Bela sempre me pareceu uma moça jovem, com espírito livre, com ânsia de viver mais do que aquela vida camponesa. Emma cria a Bela mais altiva, mais empoderada (100 pontos pra Grifinória!) porém é mais fechada, menos delicada. E era exatamente isso o que me encantava na princesa: ela era a prova viva de que você pode ser delicada, alegre, atenciosa e saber quem você é, o que você merece, quais as suas responsabilidades e o que quer para o seu futuro. Infelizmente, essa Bela ficou a desejar nesse quesito. Outra coisa que me irritou bastante: o auto-tune usado em Emma Watson. Fica bem evidente que houve modificação na voz da atriz, embora eu ache que ela podia ter cantado sem uma afinação perfeita que teria sido lindo do mesmo jeito.

* Fera (Dan Stevens)


Meus problemas com a Fera já começam na maquiagem. Fosse uma maquiagem real, como pelos aplicados diretamente no rosto do ator, então eu entenderia porquê não procuraram criar um visual mais animalesco - há uma limitação física. Mas se é digital, acho que poderiam ter ousado mais. A Fera é para assustar mesmo, é para causar estranheza, fazer a gente questionar a sanidade da Bela por se apaixonar por ele. Mais importante, é para que a única característica humana dele sejam os olhos - é neles que a Bela reconhece o amor que ele sente por ela e então tem certeza de que o príncipe é mesmo a Fera. Mas, dessa vez, eu tenho certeza que é pura implicância minha! Stevens faz um ótimo Fera, bastante intratável e, ao mesmo tempo, delicado - além de arrasar na belíssima nova canção do personagem. O trecho inicial, que conta a história da Fera até receber a maldição, também é bem empolgante. Mas, como par romântico, eu acho que teve o mesmo problema do Evans ao ser escalado como Gaston: ele parece velho demais para Emma Watson.

* Gaston (Luke Evans)


Apesar de eu ter ficado empolgadíssima com a caraterização dele - faltaram apenas os olhos azuis para ele ser idêntico à versão original - Evans ficou caricato (e, cá entre nós, um tanto velho demais para a Bela tão jovem). Uma pena! Mas devo ressaltar que na parte musical, Evans deu um show à parte. A química entre Gaston e LeFou também funcionou, e o personagem realmente mostra as garras (com perdão do trocadilho) nessa versão.

* LeFou (Josh Gad)


Esqueça a polêmica em torno da homossexualidade de LeFou: se você viu a animação antes, você já sabia disso. O que esta versão fez foi explicitar isso, mas não acontece nada de escandaloso que possa alarmar os pais mais conservadores. Valendo-se da hilaridade do personagem, a subtrama passa leve e não altera em nada os acontecimentos. O personagem, aliás, ganha ainda mais camadas: se antes ele só massageava o ego de Gaston; agora ele tem consciência dos seus atos e ganha um final explicado (anteriormente, ele apenas sumia de cena).

* Maurice (Kevin Kline)


Uma grata surpresa. Maurice não é o fofo e atrapalhado inventor de geringonças, mas é um homem doce e adorável, um viúvo que carrega um amor incondicional pela esposa e pela única filha. Essa delicada combinação é lindamente por Kline, que encontra o tom certo entre drama e comédia. A história do pai da Bela se aproxima mais das outras versões, onde ele causa a fúria da Fera por roubar uma rosa de seu jardim. Essa versão da história dele me agrada mais, devo admitir.

* Lumiére (Ewan McGregor)


Simplesmente hilário, mesmo que McGregor tenha penado um bocado para fazer sotaque francês - mas o fez com maestria. As implicâncias com Horloge (McKellen) e sua paixão por Plumete (Gugu Mbatha-Raw) são divertidíssimas, mas ele arrasa mesmo quando canta. Acho que todos lembram de Moulin Rouge e o quanto ele é bom em musicais, não é? Pois o sucesso é garantido aqui também.

Por tudo isso que descrevi, das emoções que tive ao ver esse longa e ter revivido as outras experiências que já tive com o clássico conto infantil, A Bela e a Fera é um bom longa: emocionante e divertido, profundo. Só o tempo dirá se vou amá-la tanto quanto a animação original - quem sabe eu só precise deixar de reparar na aparência e descobrir o que há de bom na alma desse filme? ;)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira


Posso dizer que Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, 2017) é surpreendente: apesar de algumas falhas e uma certa previsibilidade, a história veio bem amarradinha num roteiro enxuto; e toda a ação foi bem azeitada com a ajuda de uma fotografia excelente e um elenco estelar que deu conta do recado. A sequência inicial, situando a gente no tempo e no clima pós-guerra, já dá o tom do que virá a seguir. Com boas cenas de ação (principalmente quando o Kong se apresenta para o público), o longa de Jordan Vogt-Roberts tem tudo para ser um sucesso como reboot da franquia King Kong.

Tenente Packard (Jackson): o retrato do orgulho ferido
Logo que anunciam a retirada dos EUA na Guerra do Vietnã, o cientista Bill Randa (John Goodman) e seu assistente Houston Brooks (Corey Hawkings), ambos membros da pouco explorada agência governamental Monarch, correm contra o tempo afim de obter aprovação para uma expedição inusitada. A Ilha da Caveira é um território não mapeado que eles pretendem investigar, mas não o podem fazer sem a ajuda do governo. Obtida a autorização e apoio militar, eles partem para a expedição. Para tanto, vão precisar da ajuda de James Conrad (Tom Hiddlestone), um ex-capitão do exército britânico que tem bastante experiência em combate. A fotojornalista Mason Weaver (Brie Larson) consegue uma autorização para acompanhar a equipe, que ainda conta com a bióloga San Lin (Jing Tian) e um grupo de soldados - liderados pelo Tenente Packard (Samuel L. Jackson) - prestes a abandonar o Vietnã e voltar para casa.

A Ilha da Caveira não é para os fracos
Um grupo heterogêneo e com diversas motivações distintas acaba por conseguir entrar na quase impenetrável Ilha da Caveira, e lá descobrem mais do que estavam preparados para ver. Bom, pelo menos alguns deles. Ao se depararem com Kong - na verdade, serem quase dizimados por ele - o grupo acaba se separando. Com um prazo de apenas três dias para conseguir se reunirem novamente e chegarem ao ponto de resgate combinado, vão enfrentar perigos inesperados.

Kong está ainda mais impressionante

Esta é uma nova história do Kong, que busca explicar a mitologia dele e ampliar o universo (como sugere a cena pós-créditos). Não é absolutamente original em seu argumento, mas é bastante plausível: encaixa no espaço e no tempo onde surgiu o Kong, e mesmo com alguns exageros de CGI (às vezes imagino os produtores e criadores feito crianças com um brinquedo novo, viajando com as possibilidades mirabolantes que agora podem fazer), traz um resultado empolgante e bacana. Maior, mais jovem e mais forte, Kong nunca pareceu tão humano - mais humano até que alguns homens que foram invadir seu território. Esse questionamento de “quem é o verdadeiro monstro” é o cerne do mito Kong, e veio atualizado nesse roteiro - mesmo que toda a ação ainda se passe na década de 1970.

Reilly rouba a cena como Hank Marlow
Falando do mito, há muita homenagem ao rei da selva. A mocinha vivida por Larson não é a musa típica do Kong, embora não tenha tanta função na equipe de expedição - principalmente porque o discurso para colocá-la no navio junto com o grupo foi bastante contundente, mas a personagem perde a força durante o longa. Ainda estão lá o explorador obcecado pela fera e o aventureiro que compreende tarde demais que não era para mexer com quem estava quieto. Costurando homenagem e dando início a uma nova era Kong, A Ilha da Caveira se firma como um bom entretenimento. Credito o mérito maior ao elenco - com destaque para o paranoico Packard interpretado por Samuel L. Jackson e o sobrevivente de guerra Hank Marlow, pequena e maravilhosa participação de John C. Reilly. Vale a pipoca e a continuação.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Logan

Logan (Logan, 2017) é um filme ótimo que encerra com perfeição - e justiça - a trajetória cinematográfica de uma lenda: Hugh Jackman como Wolverine. Um dos mais amados (se não o mais amado) mutantes teve um representante de peso desde o início, mas a saga inicial dos X-Men e a trilogia solo do personagem ficaram muito aquém do personagem. Com este Logan, os fãs podem descansar em paz.

Num futuro próximo, a raça mutante já foi exposta e está quase extinta. Wolverine (Jackman) sobrevive como um motorista de limusine sem muitas perspectivas - apenas fazendo o que tem que fazer e protegendo o maior mutante ainda vivo:Xavier (Sir Patrick Stewart). O Professor X já não é mais o mesmo, com a saúde bastante debilitada e ataques epiléticos que podem causar danos terríveis, vive isolado e protegido por Logan e Caliban (Stephen Merchant) num lugar afastado de tudo.

Tudo muda quando uma mulher procura desesperadamente por Logan em busca de ajuda. Ela tem consigo uma criança, que ela jura estar sendo procurada. Tudo o que ela precisa é que ele as leve até o ponto de referência, e ela está disposta a pagar uma grande quantia de dinheiro pelo trabalho - o que seria suficiente para ele poder largar o subemprego e fugir com seus amigos. Mas os agentes que procuravam a criança acabam por interferir nos planos de paz do mutante.

Este não é um típico filme de herói, e exatamente por isso é excelente. Há uma preocupação enorme com o personagem, um carinho explícito na forma como se mostra a decadência dele. Sim, ele pode se regenerar - mas o tempo é cruel com todos. A química entre Jackman e a pequena Laura , que interpreta Laura, é perfeita. É o paradoxo perfeito da esperança e energia da juventude contra a resignação e resiliência da experiência. A interpretação de Stewart é emocionante: a fragilidade de Xavier e sua eterna confiança no melhor das pessoas arranca lágrimas até dos mais durões.

Mas não pense que o filme se deixa levar para o drama barato! Tem muito mais sangue e violência do que já se viu em qualquer filme dos mutantes (ou de qualquer heroi) antes - e a pequena Laura/X-23 (Dafne Keen) não é nem um pouco inofensiva. Ela, aliás,é uma pérola: calada pela primeira boa metade do filme (onde é apresentada como a arma em que foi transformada), mostra que ainda é apenas uma criança no momento mais importante. Uma criança especial, que aprendeu com os melhores, da pior forma possível.

Logan é absolutamente imperdível - mesmo para aqueles que nunca viram um filme sequer dos X-Men. Os detalhes técnicos são magistralmente conduzidos por James Mangold e criam uma obra empolgante,  divertida e emocionante. No mínimo, inesquecível.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Grande Muralha

Vou ser direta: eu já achava que o filme seria meio louco, meio ruim, por ter um americano e um espanhol lutando na muralha da China, mas eu não imaginava o que estava por vir. Como sabem, gosto de dar segundas chances a filmes que eu acho que não serão assim tão maravilhosos, mas A Grande Muralha (The great wall, 2017) se superou. O pior foi ter esperado ao menos algo melhor por conta de um nome querido nos créditos: Zhang Yimou, o diretor, já nos entregou verdadeiras joias como Heroi (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004). Mas neste longa, ele passou longe do seu melhor.

O longa começa com William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal) fazem parte de um grupo de mercenários no deserto chinês: andando em bando, roubando cargas e fugindo dos mongóis. Até que um dia o grupo deles é atacado por algo sinistro e misterioso, uma criatura que nenhum deles tinha visto antes. Ainda impressionados, resolvem continuar por sua busca pelo produto que eles realmente queriam buscar: pólvora (ou, como eles chama o filme inteiro, o pó negro). O que eles não contavam era ser emboscados aos pés da Grande Muralha, onde um exército inteiro estava de prontidão para um iminente ataque.

Tovar (Pascal) e William (Damon) lutando contra os montros: nem tão empolgante quanto parece
Sem saber falar chinês, os dois tem que se virar. Sua única chance é procurar um inimigo em comum - talvez aquela criatura estranha que ele matou no deserto. A comandante Lin Mae (Tian Jing) é das poucas no exército que sabe falar inglês e é ela quem traduz o relato dos dois para o general Shao (Hanyu Zhang). E quando o estrategista Wang (Andy Lau) explica para eles sobre as criaturas contra as quais eles estão se preparando para lutar, William e Tovar descobrem que a coisa é muito mais séria do que se imaginava: alienígenas devoradores de qualquer forma de vida terráquea saem da hibernação a cada 60 anos e voltam ainda mais fortes, e em maior número, depois de devastarem a área onde atacam. Separando os monstros de uma cidade superpopulosa (a capital chinesa sempre foi, historicamente, muito populosa) que, se atacada, seria uma catástrofe, estava a muralha e o exército.

Lin Mae (Jiang): seu destacamento é bonito, mas pouco funcional
Além disso, havia também a pólvora. E William e Tovar, assim como o misterioso Ballard (William Dafoe), não haviam se esquecido dela. Para os três, a oportunidade de ter um exército inteiro preocupado com outra coisa que não eles tentando roubar todo o carregamento de pó negro que eles pudessem carregar era mais que perfeita - e eles não estavam dispostos a desperdiçar a chance.

Ballard (Dafoe): personagem previsível e escolha óbvia de elenco
Apesar de parecer interessante, a premissa é tão fraca que chega a ser risível. Chineses lutando contra alienígenas no deserto nem seria tão esquisito se o filme abraçasse a magia, mas ele tenta ser um drama com ação épica quase ininterrupta. A tentativa de juntar coisas interessantes de outros gêneros e misturar em um único longa criou um samba do crioulo doido cheio de falhas cruciais. Para ficar com uma dentre as mais bizarras: ouvir o personagem de Damon citando que lutou como mercenário para libertar a Espanha dos franquistas quando a China ainda descobria o  poder destrutivo da pólvora só é aceitável se houver algum tipo de viagem no tempo - e não, não tem  nada disso no longa. Falhas históricas e estratégicas, clichês de heroísmo e vilania, falta de química entre protagonistas, nem um pouco de suspense ou emoção verdadeira. Não há surpresas, não há apego aos personagens, cenas descartáveis apenas para satisfazer uma necessidade de 3D: é nítida a investida de produtores chineses e americanos na tentativa de fazer um produto que mostre o melhor de seus egos mercados.

Quem imaginaria que um esgoto seria assim tão elegante, não?
Acredito piamente que Yimou foi chamado por ser um renomado e multipremiado diretor chinês, e com uma produção desse porte era preciso nomes de peso. A possibilidade de trabalhar novamente com cenas grandiosas de batalha, muitas com toques poéticos (como o duvidoso destacamento das Garças e a estranha beleza dos esgotos da capital) provavelmente são a tentativa do diretor de tornar o produto melhor - ou assim eu penso. O fato é que o filme é inconsistente, fraco, mal estruturado e clichê - em suma, ruim. Talvez eu esteja sendo muito cruel, mas é eu não posso ignorar que esse longa é do mesmo diretor de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Heroi. É bem possível que minha impressão tenha ficado um pouco (ok, muito!) contaminada por essa expectativa, mas o resultado final é apenas involuntariamente divertido e decepcionante.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A cura

A cura (A cure for wellness, 2017) é o novo filme de suspense de Gore Verbinski, o mesmo diretor de O chamado (2003) e dos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe. A trama conta a história de um jovem ambicioso capaz de tudo para conseguir sucesso na carreira - mas uma parte de seu passado, que ele prefere esquecer, pode atrapalhar seus planos e o maravilhoso spa nas montanhas pode não ser o que parece. 


Lockhart (Dane DeHaan) é promovido na empresa graças à morte súbita de um funcionário, e logo ele é selecionado pela diretoria para recrutar um CEO que decidiu se internar num spa nos Alpes suíços. Sob várias implicações (e possíveis benefícios) nessa jogada, ele aceita a proposta. Chegando lá, ele descobre que o local é especializado em tratamento de desintoxicação por meio da água: o castelo, construído sobre um aquífero cujas águas tem propriedades medicinais, atrai ricos de idade avançada para longas temporadas. Pembroke (Harry Groener), o chefe de Lockhart, é um desses pacientes - e encontra-se relutante em voltar para Nova Iorque e todo o estresse da sua vida fora do relaxante lugar.

Hannah (Goth) e Lockhart (DeHaan): cenário deslumbrante
Incomodado com a situação, Lockhart acaba sofrendo um acidente de carro e é obrigado a ficar por mais alguns dias até que se recupere. Nesse período, ele conhece outros pacientes, como a sra. Watkins (Celia Imrie) que também suspeita de algo estranho no lugar, e Hannah (Mia Goth) - a única outra paciente jovem no castelo. Intrigado com os boatos que ouvira sobre um incêndio que ocorrera no local há 200 anos e atraído por Hannah, Lockhart decide investigar mais sobre o castelo enquanto tenta convencer Pembroke a abandonar o tratamento. Mas o doutor Volmer (Jason Isaacs, o Lucius Malfoy da saga Harry Potter) não parece muito satisfeito com as sondagens e o comportamento de Lockhart.

Lockhart (DeHaan): tratamento forçado
O longa padece do mesmo mal que a maioria dos filmes de terror: previsibilidade. Apesar da belíssima fotografia, que brinca o tempo todo com luz e sombra e enquadramentos simétricos, não espere muito mais do que isso. Para mim, que não sou muito fã de filmes de terror, eu salvaria 75% do filme pela fotografia, pelo clima de tensão, por ter fugido do susto gratuito e pela atuação de Mia Goth como a ingênua Hannah. Os outros 25% que detonaram o filme inteiro são fáceis de listar:  demora a engatar na trama principal; todas os medos clichês são explorados em cena (até dentista e a maquininha insuportável estão ali); nudez gratuita em cenas deslocadas; solução totalmente apressada; cenas nojentas desnecessárias.

Mia Goth convence como a frágil Hannah
Mas o que mais incomoda é o tempo de duração: são quase 2h30 no cinema para ver apenas mais do mesmo, um mistério que se descobre desde as primeiras cenas (que já jogou Detetive ou qualquer outra brincadeira de "siga pistas" já mata a charada assim que ele põe os pés no spa assombrado). Altamente esquecível, pode ser um tanto indigesto pelas cenas mais nojentas na água para aqueles que tem estômago fraco como eu - porém não vai ser nada demais para quem está acostumado com filmes mais hardcore.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cinquenta tons mais escuros

Cinquenta tons mais escuros (Fifty shades darker, 2017) é a continuação da adaptação da saga literária de E. L. James, iniciada com 50 tons de cinza. Depois de um início de relacionamento conturbado - a paixão avassaladora entre Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson) teve que ceder ao estranhamento dela aos gostos "peculiares" dele - o casal tenta dar uma segunda chance ao amor.

Depois de algum tempo separados, Christian volta a procurar por Ana pedindo uma segunda chance. A mudança no comportamento dos dois é nítida: ele se esforça para tê-la de volta, ela resolve dar as cartas no namoro - algo inédito. Porém, mesmo estando felizes com a volta, Steele e Grey vão ter que enfrentar algumas situações inusitadas (e até perigosas) por conta do passado sombrio de Christian Grey.

Anastasia (Johnson) e Grey (Dornan) na cena do elevador: mais erotismo
 Seria até um bom filme se o foco fosse justamente esse: os problemas de Christian Grey. Há vários indícios de que seu sadismo é fruto de uma infância violenta, e vários fantasmas resolvem atormentá-lo agora que ele decide, finalmente, ser feliz com Ana. Mas quem ganha destaque é a insossa Anastasia e o romance do casal ainda é o ponto mais valorizado, tendo inclusive mais ênfase no erotismo - e esse é o maior erro do roteiro. Balanceando melhor o romance água-com-açúcar e cenas mais ousadas se sexo (nada muito alarmante, diga-se) com um esboço de thriller de suspense, 50 tons mais escuros não consegue disfarçar as falhas estruturais da trama porém funciona como uma peça mais coesa - mesmo que nem sempre coerente. O suspense criado e a possibilidade de um vilão na sequência (confirmada na cena pós-créditos do longa) garantem um bom gancho e um certo interesse na história.

Grey (Dornan): passado misterioso é pouco explorado
Há um contexto pesado nas entrelinhas que não é explorado, deixando personagens complexo muitos rasos e debates interessantes relegados à especulação. As queimaduras e o trauma de Grey em ser tocado podem ter várias explicações, mas tudo fica em segundo plano quando ele e Anastasia estão juntos. Talvez para atender a um pedido dos fãs, há mais cenas eróticas (ainda que com bom gosto), porém elas também são confusas. Estou errada ou Anastasia fugiu de Grey no primeiro filme por não concordar com os métodos dele sentir prazer? Então, porque cargas d'água ela pede para ele castiga-la e leva-la para o Quarto Vermelho? E ele, não estava se esforçando para fazer as coisas do jeito dela? Então porque continua controlando cada passo e não aceitando "não" como resposta? Fica bem mal resolvida essa parte.

Leila (Heathcote): atuação fraca em momento crucial
Outro fator complicador: as interpretações fracas - especialmente dos protagonistas e de Bella Heathcote como Leila (ex-submissa de Christian) - tiram todo o impacto do momento decisivo. Uma pena. Kim Bassinger (quase irreconhecível) também tem uma participação pequena como Elena Lincoln, ex-namorada de Christian, e promete vir com mais veneno na continuação - situação interessante, tomara que aproveitem melhor a personagem. Quanto ao resto do elenco, a maioria faz o que pode nas poucas chances que tem para aparecer. Marcia Gay-Harden rouba a cena toda vez que aparece, mesmo sendo tão pouco.

Continuação promete mais suspense e menos romance
Se o saldo é positivo? Acho que sim. Nesse longa, ao menos há uma história, um enredo mais denso do que só o encontro do casal e as fantasias dos dois. A trilha sonora de Danny Elfman também está ótima (mas já vimos isso acontecer em Esquadrão Suicida...), além da bela fotografia de John Schwartzman. Para ser honesta, eu achei que o diretor James Foley conseguiu fazer uma bela laranjada com os limões que deixaram pra ele.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lego Batman: O filme


Atenção, fãs do super-heroi mais sombrio da DC: esse filme não tem nada de sombrio! Diversão garantida para toda a família (e todos os públicos), Lego Batman: O Filme (The Lego Batman Movie, 2017) é para fãs e não-fãs do Homem-Morcego. Explorando com muito bom humor o mito do heroi solitário, que luta contra o crime e faz justiça com as próprias mãos, e abusando do sarcasmo e das referências nerds, o longa já se destaca como um dos melhores filme e roteiro do ano.

Os vilões: a coisa fica ainda mais feia depois
O filme começa com ação alucinante: Batman (Will Arnett/Duda Ribeiro) precisa salvar Gotham mais uma vez do plano mirabolante do Coringa (Zach Galiafinakis/Márcio Simões) para destruí-la. E ele, sendo Batman, faz isso com o pé nas costas. Porém, como sempre, Coringa consegue fugir e Gotham está livre para sofrer mais um novo ataque dos vilões mais loucos - o seu super-heroi mais famoso (e bonito, e gostoso) estará lá para salvá-la. Mas quando ele está de volta à bat-caverna, a solidão o encontra. Não que isso seja um problema, o Batman não precisa de amigos. Não é?

Quem precisa de amigos?
O conflito interno é acionado pela presença de Bárbara Gordon (Rosario Dawson/Guilene Conte) como a nova justiceira de Gotham - dentro da lei, coisa que ele tecnicamente não é, o órfão deslumbrado Dick Grayson (Michael Cera/Andreas Avancini), os sábios conselhos de Alfred (Ralph Phienes/Júlio Chaves) e o plano maléfico final do próprio Coringa. Ele sabe da relação de interdependência entre ele o morcego, e vai arrumar um jeito insanamente mirabolante (e hilário) de provar que está certo. Bem a cara dele.

O Batman fez isso com o Coringa. É óbvio que ele não vai deixar barato
É em cima dessa brincadeira, de imaginar como seria o super-heroi mais durão enfrentando a solidão e seus maiores medos, que o longa se desenvolve. Com piadas rolando antes mesmo dos créditos iniciais começarem, o filme prende a atenção desde o início. Há muitas referências a todas as fases do Batman, à Liga da Justiça, a outros filmes da DC (sim, estamos falando de Esquadrão Suicida) e muitos vilões de outras sagas. O roteiro caprichado é incrivelmente divertido, especialmente se você capta todas as referências, e bem executado. Mesmo que não compreenda as piadas nerds, nem por isso alguém vai sair da sala sem entender ou se divertir. 

Robin quase rouba a cena com sua "fabulosidade", mas o Batman é soturnamente mais maravilhoso. Sempre.
Assistimos a versão dublada, e o elenco brasileiro deu show de interpretação. Há inclusive toques brasileiríssimos, sutis demais, mas que fazem a plateia gargalhar (duvido que a piada dos cds de forró tenha sido mais divertida no original!). Pela reação dos presentes, adultos e crianças, o filme mais do que agradou - há até aqueles que afirmaram que este é o melhor Batman de todos os tempos. Se é, eu não sei, mas garanto que foi o mais divertido! Portanto, não importa o que você fizer: não deixe de assistir essa loucura, digo, essa pérola no cinema. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um dia em Nova Iorque

Gabey (Kelly), Chip (Sinatra) e Ozzie (Munshin): os três marinheiros
E depois de mais um filme estrelado pelo ator e bailarino Gene Kelly, eu acredito que me tornei fã incondicional do artista. Um dia em Nova Iorque (On the town, 1949) é uma comédia musical com números interessantes, mas é Kelly quem brilha. Nem mesmo a presença de Frank Sinatra e sua voz de veludo conseguem ofuscá-lo.


O inocente chip (Sinatra) e a agitada Hildy (Garret): um casal divertido
Três marinheiros aportam em Nova Iorque e tem apenas 24h para curtir a cidade. Chip (Sinatra) quer conhecer os muitos pontos turísticos, Ozzie (Jules Munshin) quer se divertir e Gabey (Kelly) quer arrumar um amor para passar o tempo. No metrô, ao esbarrar em uma moça que vira num anúncio, Gabey crê que está apaixonado por uma grande estrela. Totalmente fissurado na bela bailarina, decide gastar seu tempo procurando-a pela cidade. Seus amigos resolvem ajudar. Hildy (Betty Garret) é uma taxista bem "saidinha" que se encanta por Chip e não vai medir esforços para ajudar aos rapazes - qualquer coisa para ficar mais tempo com seu belo marinheiro. Já Ozzie parece que conseguiu uma bela companhia: Claire (Ann Miller) é a animadíssima antropóloga do museu e se apaixona por ele ao perceber a estranha semelhança física entre Ozzie e uma estátua de um homem das cavernas (!). Ao finalmente encontrar uma pista de Ivy (Vera-Ellen), a misteriosa garota do poster, as coisas não saem como o esperado.
Dançando no topo do mundo: loucuras por amor
O filme é um divertido passatempo, mas assisti-lo agora (em pleno século 21) traz algumas conclusões que, à época, seriam despercebidas. É muito estranho o número musical em que Claire canta que adoraria ter um homem à moda antiga - literalmente sendo puxada pelos cabelos - e as moças sendo, ao mesmo tempo, bastante modernas e independentes (principalmente para a época, sendo mais espertas que os rapazes e até pagando as próprias contas), além da paixão instantânea que o pessoal tinha naquele tempo. Mas é tudo compreensível se nos lembrarmos da época em que a obra foi realizada - e tudo é perdoado pela presença de Gene Kelly. A genialidade dele fica mais evidente quando se compara o desempenho dele com os outros dois atores em cena: é nítido ver como ele se destaca na dança e que ele nada deixa a desejar ao maior cantor americano. Aliás é fácil perceber a diferença entre o cantor que sabe dançar e atuar e o dançarino que sabe atuar e cantar. Simplesmente fascinante.

Ivy (Ellen) e Gabey (Kelly): a coreografia mais bonita do musical
Dentre os musicais, o filme fica marcado para mim como uma curiosidade. Ver Sinatra na flor da idade e dançando é pura diversão! O roteiro é simples, porém cumpre sua função de mostrar todos os talentos de Kelly e amarrar todos as pontas soltas - porém a comparação com Cantando na Chuva, outro filme com Kelly, é inevitável. Lembro até da fala da doce Cathy (Debbie Reynolds) tirando sarro de Hollywood: "se você viu um filme, já viu todos!". Como esse longa foi rodado anos antes da obra-prima musical, dá para perceber uma espécie de ensaio para o clássico - ou ainda como o clássico de 1952 é fantástico em seu sarcasmo - mas nada que impeça a gente de curtir esse longa: dá pra se divertir bastante com as trapalhadas amorosas dos marinheiros. Um dia em Nova Iorque é uma ótima pedida para uma tarde preguiçosa e uma deliciosa experiência para fãs de musicais.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood (2017) se propõe a fazer uma homenagem a um dos maiores ícones nacionais: os Trapalhões. Baseado no longa de 1981, sucesso de público rodado no auge da carreira dos quatro palhaços mais amados do país, a versão de João Daniel Tikhomiroff passeia pelos números musicais clássicos enquanto tenta atualizar a trama e o espetáculo circense para o século 21. Aqui, um espetáculo acrobático e um político corrupto substituem o circo com animais, além de acrescentar um toque atual na crítica à corrupção e ganância já existentes no original.

Didi (Aragão) e Dedé (Santana): matando as saudades da infância
Didi (Renato Aragão) e Dedé (Dedé Santana), os dois cabeças da trupe original, estão aqui para apresentar o circo Sumatra, que luta para se reinventar após a proibição do uso dos animais em espetáculos e voltar a lotar durante as noites de espetáculos. O dono do lugar, Barão (Roberto Guilherme, o eterno Sargento Pincel), só pensa no lucro - e por isso vai cair na armadilha de Assis Satã (Marcos Frota): ele planeja alugar o terreno para o prefeito Aurélio Gavião (Nelson Freitas, impagável) fazer seus comícios enquanto ganha uma grana por fora. Seus planos, porém, podem ir por água abaixo: Didi sente que esse arranjo não vai ser bom, mas só encontra negativas do dono do circo. Ele encontra forças em Karina (Letícia Colin), a filha dele que acabou de retornar da cidade e da faculdade. Juntos, eles conseguem convencer o Barão a dar uma chance para o circo: se conseguirem montar um espetáculo que seja um sucesso absoluto, ele para de alugar o terreno para outros fins.

A chegada de Karina (Colin) pode ser a única coisa a salvar o circo
Impossível não ser nostálgico ao assistir ao filme, principalmente quando Didi e Dedé estão juntos e fazendo piadas fora do roteiro - coisa muito comum à época, e que traz sorrisos genuínos nos saudosistas - mas falta algo realmente encantador na trama para empolgar. Digo isso pensando na audiência que nunca viu Os Saltimbancos Trapalhões (1981) ou que não cresceu assistindo sequer ao último programa do Didi na tv. Os musicais repaginados estão bem executados, mas falta um motivo para eles estarem lá: aí vem a brecha para o clichê “musical é um filme onde, do nada, as pessoas começam a cantar e dançar sem motivo”. Tecnicamente, foram bem feitas, mas a única que realmente me encantou foi a mais lúdica de todas: Didi e Dedé performando “Meu caro Barão” em um número sem muitos malabarismos coreográficos.

Efeitos especiais nem sempre são necessários
Por toda a trama é nítida a sensação de homenagem, porém parece que Rumo a Hollywood não conseguiu decidir-se entre um remake, uma atualização ou uma trama totalmente nova que fizesse homenagem ao original. O subtítulo e a sequência inicial (realmente divertida) me fez acreditar que talvez fossem ocorrer mais homenagens ao cinema e a outros clássicos, como no primeiro, mas a referência a Hollywood ficou só nisso mesmo. Perdido, nesse contexto, o longa traz atualizações necessárias para atrair esse público novo. Circo sempre me lembrou algo lúdico - e até os espetáculos mais modernos do Cirque du Soleil (uma das muitas referências no filme) sabem que isso é importante, e usam da tecnologia para ajudar a encantar. Na maioria das vezes aqui apresentados, poderiam ter sido substituídos por outros recursos. Perdoem-me, mas achei um tanto desnecessário o efeito especial para fazer o cachorro falar. 

Tigrana (Morais): personagem ficou deslocada na trama
Além disso, faltou trama para os outros personagens. Tigrana (Alinne Morais) era uma domadora de leões em 1981, e ficou completamente perdida na adaptação. A participação de Maria Clara Gueiros também ficou reduzida a uma esquete deslocada e uma revitalização de cena de hipnotização que não ficou tão boa quanto a primeira versão. O enfraquecimento de sua personagem carregou com ela o de outros como um efeito dominó: Luísa (Lívian Aragão), a sobrinha da cartomante/maga Zoroastra (Gueiros), não faz mais do que uma participação antes de seu número musical; Rafael Vitti e Emílio Dantas parecem dividir um personagem só e Pedro e Frank acabam resumidos a par romântico das mocinhas. Uma pena.

O espetáculo final: nostalgia bate forte
Os pontos fortes são a participação (pequena porém ótima) de Nelson Freitas, às músicas que ainda tem seu encanto e a química infalível entre Didi e Dedé - espere pelos créditos, várias cenas de erros divertem enquanto os espectadores se recuperam da emoção final. O desfecho, aliás, me lembrou um pouco as celebrações do Criança Esperança, onde sempre rola uma homenagem para o anfitrião. Emociona, é lindo, mas a gente já viu antes. Ao fim, saímos do cinema cantando as canções que tem gosto de infância. Quem sabe a nova geração surpreende e começa a fazer coro com a gente?