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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Piratas do Caribe - A maldição de Salazar


Piratas do Caribe - A Maldição de Salazar (Pirates of the Caribbean - Dead men tell no tales, 2017) veio provar que o tema ainda não se esgotou. Para sempre capitaneados por Jack Sparrow (criação inspiradíssima de Johnny Depp), a saga tem grandes chances de continuar nas telonas após a chegada de novos personagens.

Baseando-se na história desenvolvida nos três primeiros longas - em sua maior parte - o roteiro amplia a mitologia envolvida: agora o objeto de desejo de Henry Turner (Brenton Thwaine, de Deuses do Egito), filho de Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swan (Keira Knightley), é o tridente de Poseidon. Não, você não leu errado. Mitologia grega em Piratas do Caribe?! Dá samba, sim.


Na busca pelo artefato, que teria o poder de acabar com todas as maldições - e libertaria seu pai para sempre do Holandês Voador - Henry vai encontrar ajuda onde menos espera: depois de sobreviver ao encontro com o amaldiçoado Capitão Salazar (Javier Bardem, todo trabalhado no CGI), ele precisa encontrar Jack Sparrow para, com sua bússola mágica, encontrar o que mais deseja.

Obviamente, Jack está em apuros. A sequência inicial, aliás, que mostra como ele foi parar na cadeia (de novo!) é bastante divertida e grandiosa - embora "meio pastelão" e "megalomaníaca" sejam melhores adjetivos. Condenado à morte junto com Carina Smyth (Kaya Scodellario, de Maze Runner), uma moça estudiosa de ciências e justamente por isso considerada bruxa, é salvo no último minuto por Henry e sua antiga tripulação. Com a promessa dela de que sabe encontrar qualquer lugar no "mapa que nenhum homem pode ler" e com o perigoso Salazar em busca de vingança, o capitão Jack Sparrow vai  - com perdão do trocadilho - mergulhar de cabeça em uma nova aventura.


Mais empolgante que as sequências anteriores (os longas da franquia não conseguiram chegar nem perto do brilhantismo e divertimento do primeiro, A Maldição do Pérola Negra), o longa peca pelo excesso: que a Disney sabe usar CGI (efeitos especiais digitais), todo mundo já sabe - eles só precisam aprender quando não usar. Rejuvenescimento de atores consagrados parece ser a onda do momento (desculpem, não consigo evitar os trocadilhos), mas nem precisava. O visual do fundo do mar é lindo e assustador como deve ser, mas a cena se arrasta por clichês intermináveis. Menos é mais, gente.

Outro tiro no pé é o novo par romântico, que tenta refazer a química de Will e Elizabeth, porém sem sucesso. Mas os fãs ansiosos por ver as novas estripulias de Sparrow não ficarão decepcionados: o desfecho da trama e a sequente cena pós-créditos deixam ótimas "pulgas atrás da orelha" - que coelhos eles vão tirar da cartola se houver uma nova sequência?

O mérito de A vingaça de Salazar foi resgatar a esperança de que a franquia estava fadada ao fim. Apesar do desempenho irregular, voltei a querer esperar um novo filme dos piratas - e vamos ver até onde esse novo fôlego vai durar.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Rei Arthur - A lenda da espada


Esqueça tudo o que você sabe sobre o lendário rei bretão que tirou uma espada de uma pedra e tornou-se o rei mais famoso da História (embora seja bem provável que ele nem tenha sido rei, se realmente existiu). Rei Arhtur - A lenda da Espada (King Arthur, 2017) resolveu brincar com a lenda e criar uma nova gênese para o mito.

Com o reino sendo invadido por um grande feiticeiro maligno (e criaturas sinistras magicamente dominadas por ele) e que já havia destruído todos os outros reinos por onde passara, o rei * (Eric Bana) precisa ir a extremos para defender seu povo e sua família. Arriscando a própria vida, usa apenas a coragem e a mágica espada Excalibur para eliminar a ameaça. Tendo derrotado o inimigo, ele achava que conseguiria trazer paz a seu povo. Mas não foi bem isso o que aconteceu depois.

O irmão do rei, Mordred (Jude Law), parece insatiafeito com o desejo de paz do irmão. Acaba tramando contra o rei - que ainda tenta fugir, mas pouco pôde fazer contra um inimigo ainda mais poderoso que o feiticeiro. O bebê é o único que sobrevive, e acaba sendo criado por prostitutas na parte pobre do reino. E é lá que Arthur (Charlie Hunam) cresce e aprende tudo sobre sobrevivência. 

Alheio aos mandos e desmandos do rei, só quer saber de manter suas meninas a salvo. Porém, quando a maré baixa milagrosamente e deixa a espada encravada na pedra exposta, os dados do destino começam a rolar. O rei Mordred sabe do poder da espada, e que o herdeiro dela pode ser o único a impedir suas ambições. Todos os homens agora serão testados até que seu sobrinho se revele - e ele possa finalmente se livrar da competição. Mas Arthur não está sozinho contra a fúria do rei: seus amigos e outras ajudas inesperadas vão levá-lo a um encontro com a verdade e a magia.

A produção caprichada e repleta de efeitos especiais tem defeitos muito gritantes, mas uma coisa se sobressaiu dessa confusão de ideias equivocadas: desde o início fica claro para o espectador que o longa é uma grande brincadeira com a lenda. Portanto, se você não estiver esperando uma versão fiel da lenda vai conseguir se divertir. O diretor Guy Ritchie já provou que gosta do estilo ação ininterrupta e cenas épicas de batalha em slow motion (basta ver seus filmes de Sherlock Holmes com Robert Downey Jr. e Jude Law nos papeis principais pra ter uma noção), então abrace a loucura e divirta-se com elas. Sério, não tente levar o filme a sério.

Fahas graves no roteiro deixam muitos pontos sem nó, e o uso da magia fica barbaramente comprometido: sabe aquele "mas se podia fazer isso tudo, por quê não fez antes?!" que irrita a gente? Tem aos montes. Isso sem falar que a maga (que nem nome tem, coitada) é uma mistura de Merlin e Morgana que não deu certo, mas tá lá porque... Bem, ainda não sei. Achei que seria o par romântico do Arthur, mas nem isso ficou resolvido. Aliás, as mulheres nesse filme mal servem para os papeis de intrigueiras e beldades que geralmente filmes de guerra reservam para personagens femininas. Simplesmente parece que não sabem o que fazer com a mulheres. Muito estranho.

Soluções previsíveis acabam arruinando algumas imagens muito bonitas produzidas, além do excesso de efeitos especiais: às vezes a confusão é tanta, com fumaça e poeira, que nem dá pra ver os golpes em slow motion. O elenco também deixa muito a desejar - o único que eu gostei atuando foi Bana, em sua micro (e esquisita) participação. 

Como disse, procure esquecer isso e se divertir - até porque tem coisa à beça pra isso. Desde piadinhas bem colocadas ao tom de novela mexicana que a produção toma de vez em quando, é bem divertido - e creio que tenha sido intencional. Pessoalmente, adorei reconhecer Aidan Gillen (de Game of Thrones) no elenco e brincar de ficar de olho nele esperando o momento em que ele trairá o rei - uma vez Mindinho, sempre Mindinho, né?. No fim, Rei Arthur - A lenda da espada é uma diversão esquecível que pode irritar aos mais fervorosos fãs da lenda original. Eu escolhi me divertir e tomar um sorvete depois.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Rastro


Filme brasileiro de terror, a gente logo associa a Zé do Caixão, ícone-mor do gênero no país. Então, todos os outros filmes nacionais deveriam ser do mesmo estilo, certo? Errado. O Rastro (2017) é uma ótima tentativa de fazer algo diferente pelo terror nacional. Buscando uma estética mais parecida com o terror japonês e investindo numa trama que mescla suspense e sobrenatural, o longa de J. C Feyer não decepciona - porém, tampouco surpreende.

Na trama, João Rocha (Rafael Cardoso) é um jovem médico, casado com Leila (Leandra Leal) e prestes a ser pai. Seu trabalho agora é mais burocrático, trabalhando diretamente com a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. O hospital onde ele fez residência e onde seu amigo, Heitor (Jonas Bloch) trabalha, está prestes a ser fechado por conta da decadência: praticamente insalubre, funciona ainda graças à compaixão do doutor - que não quer deixar de atender à população.

Leila (Leal): grávida, pouco pode fazer para ajudar o marido João (Cardoso)

Com a decisão do secretário geral, e amigo de João, Ricardo (Felipe Camargo) em não aceitar mais nenhum paciente e fechar a unidade, João tem que lidar com um dilema: Júlia de Sousa (Natália Guedes) fora internada sem autorização por Heitor, como uma medida de impedir o fechamento do hospital. Apesar de aceitar a nova paciente, o mandato para as transferências de pacientes ocorre em meio a muita confusão. É quando João percebe não há registros de que a menina fora transferida que a ação começa.

O corredor guarda mais segredos do que João (Cardoso) consegue lidar
O espectador acompanha o desespero de João para obter informações, e descobre que a trama é muito maior que só o desaparecimento da pequena Júlia. Política, briga de egos, alucinações sobrenaturais, mortes - a espiral de desgraças só aumenta. Tudo está misturado, e a carga é forte demais para o jovem médico. Nesse ponto, o filme acerta em cheio: focar na visão parcial e confusa do personagem ajuda no processo de duvidar do que se vê - e, consequentemente, no impacto do desfecho.


Fantasmas e hospitais abandonados, receita certa para sustos

Porém quem estiver mais atento (ou for muito fã de filmes do gênero) já vai ter sacado o “pulo do gato” lá no início. E, para piorar, o argumento usado para justificar uma morte importante é plausível, mas improvável - e a gente sai com a impressão de que não funcionou bem essa “licença poética”, apesar de ter boa intenção e ser uma justificativa para a última cena. Mas o que mais incomodou mesmo foi o som: a gente já espera que venha aquele barulho alto no momento de susto para nos fazer pular da cadeira, mas ele estava extremamente alto (ao ponto de incomodar ao invés de assustar) e usado em algumas cenas despropositadas. Ou seja, menos seria muito mais nesse caso.

Ainda assim, não tiro o mérito desse filme: um esforço coletivo de produção, direção e elenco em fazer uma obra de um gênero muito pouco explorado no Brasil, e com um pano de fundo tão atual quanto o que vivemos atualmente no Estado, vale e muito o ingresso do cinema. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien - Covenant


Um meio termo entre Alien - O oitavo passageiro (1979) e Prometheus (2012), a sequência desse último é um bom híbrido - o que é até irônico, diga-se. Mantendo o mesmo clima de suspense do primeiro - e maravilhoso - longa, comete alguns tropeços bobos no caminho (como o seu predecessor), mas o resultado final é positivo. 

Criador e criatura: como "nasceu" David (Fassbender)

O filme começa com uma interessante sequência, onde criador (Guy Pearce) e criatura (o androide David, interpretado por Michael Fassbender) dialogam sobre a criação, a vida e tudo mais. Depois o filme começa de verdade. E aqui temos a nave colonizadora Covenant a caminho de um planeta com grande potencial para ser uma nova Terra. A bordo, sob os cuidados de Walter (Fassbender) - uma versão aprimorada de David - estão a tripulação da nave e 20 mil colonos, todos em hibernação. 




Ao chegarem ao misterioso novo planeta, com uma composição bem parecida com a da Terra, eles partem para explorar o lugar. Logo encontram a nave de onde partira o sinal, e descobrem se tratar da Prometheus, a nave em que a dra. Elisabeth Shaw (Noomi Rapace) havia partido para explorar o espaço. Porém alguns membros da equipe exploradora começaram e demonstrar os primeiros sinais de infecção por alguma coisa. Decidido a fugir do planeta o quanto antes, eles partem para o módulo de escape, mas o estrago já está feito. Enquanto esperam pela ajuda da Covenant no resgate dos sobreviventes, o grupo é novamente atacado por aliens - e seriam dizimados não fosse uma ajuda misteriosa.

Ainda sem saber se podiam confiar naquele salvador, precisam segui-lo. Ao chegarem na casa dele, descobrem sua identidade: ele é David, que havia sobrevivido ao desembarque naquele planeta - diferente da dra. Shaw. O misterioso David não parece nada confiável, e a equipe tem pressa em sair dali. E eles estão cobertos de razão.

Daniels (Waterston) e Oram (Crudp): duelo de liderança

Alien - Covenant tem em seu ponto forte manter o espírito intrigante do primeiro longa da série, e claro, no elenco principal. A escolha de Katherine Waterston (a Tina Goldenstein, de Animais Fantásticos e Onde Habitam) para o papel de Daniels é acertadíssima: a heroína improvável é forte e corajosa, embora não pareça; Fassbender dá o tom certo de personalidade robótica a dois diferentes androides (e a gente consegue distinguir quem é quem na tela), Crudup cria um capitão oscilante entre a responsabilidade e a fé bastante interessante. O alien em si está ainda mais interessante: quase humano e completamente bestial, supernojento e esperto até demais. Os fãs não devem se decepcionar. O que me irrita são os clichês.

Daniels (Waterston): ótima escolha para protagonista
A gente já sabe que a tripulação é grande para ir morrendo e deixar só os verdadeiros protagonistas vivos, mas né? Bem que podia haver uma variação na forma como eles são eliminados. Se o cara sai de perto do grupo, já sabemos que não vai sobreviver. Outra coisa que achei meio improvável é a equipe inteira ter ido explorar o planeta sem roupas especiais de proteção. Parecia que estavam indo, sei lá, pra um safári ao invés de irem explorar um planeta desconhecido. Mas ok, a gente deixa passar. 

O nascimento do alien: angustiante, como no primeiro longa

Há bons momentos de alívio cômico e muita homenagem ao longa original, o que torna o filme muito agradável - apesar de que, convenhamos, o tema não possa ser definido como relaxante. No fim, o resultado é megapositivo: Covenant fez juz à franquia a qual pertence, e deixa um intrigante gancho para sua sequência. Só nos resta esperar impacientes para ver o que vai acontecer.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Guardiões das Galáxias - Vol. 2


Guardiões das Galáxias - Vol. 2 (The Guardians of The Galaxy Vol. 2, 2017) tem um estilo diferente do primeiro, mas mantém as mesmas boas características que garantiram o sucesso do primeiro longa: visual estonteante, milhares de referências, elenco afinado e personagens cativantes - tudo isso temperado com muito bom humor e uma carga extra de emoção e sentimentos.

Drax (Bautista) enfrentando o monstro: sequência inicial alucinante
O longa começa já com bastante adrenalina, numa sequência alucinante (divertida, e fofa também) do grupo combatendo um alienígena asqueroso enquanto protegem Groot (voz de Vin Diesel) - isso durante os créditos de abertura! Depois compreendemos que eles estão, na verdade, trabalhando: defendem a fonte de energia dos Soberanos em troca de recompensas. No caso, o pagamento tem a ver com Gamora (Zoe Saldanha): ela decide resgatar Nebulosa (Karen Gillan) para prendê-la por ter ajudado o vilão Ronan (Lee Pace) a quase destruir Xandar no primeiro longa. Mas as coisas começam a dar errado quando Rocket (voz de Bradley Coooper) decide roubar algumas dessas baterias - o que é considerado uma ofensa gravíssima por Ayesha (Elizabeth Debicki), a Sacerdotisa e líder do povo Soberano.
Os Guardiões com Nebulosa (Gillan) refém e a Milano destruída
Ela agora deseja a punição dos traidores, e ordena a perseguição e morte dos Guardiões - porém eles receberão uma ajuda inesperada. Uma nave espacial estranha os ajuda a fugir da perseguição implacável, e logo descobrimos quem os salvou: o homem se identifica como Ego (Kurt Russel), e revela ser o pai de Peter Quill (Chris Pratt). Com a nave completamente destruída, não resta alternativa aos Guardiões: enquanto Rocket fica para reparar a Milano e cuidar de Nebulosa e Groot, Gamora e Drax (Dave Bautista) seguem com Ego e a estranha Mantis (Pom Klementieff) até o planeta de origem dele.

Rocket (Cooper) e Yondu (Rooker) andando juntos?
A paz temporária, porém, durará pouco. Yondu (Michael Rooker), o saqueador que sequestrou Peter da Terra, está de volta ao jogo - procurado pela Soberana para acabar com os Guardiões, ele busca também recuperar seu prestígio perante seus homens e a classe saqueadora. Ele já não é mais o mesmo, e essa pode ser sua única chance de recuperar seu prestígio e sua  reputação - e ele parece estar disposto a tudo para ser bem sucedido. Além disso, apesar de Peter estar encantado com as descobertas sobre seu pai e as maravilhas que ele lhe mostra, Gamora sente que há algo de errado no ar - mas quando descobrir o que é, pode ser tarde demais.

Peter (Pratt) e Ego (Russel): quando a esmola é demais...
Mais do que um filme de super-herois, Guardiões das Galáxias - Vol. 2 é um filme que fala sobre relações familiares em todos os níveis. Diferente dos outros de seu gênero, a ação e a trama do arco maior da Marvel (todos sabem que os filmes lançados até agora são peças de um quebra-cabeças gigante, partes de uma grande e única estória, né?) ficam em segundo plano. O fato deles serem seres desgarrados, um bando de excluídos (um tradução bem rasa de outcasts) que se tornam mais do que um grupo de defensores do universo é o foco principal - assim como em uma verdadeira família, todos estão o tempo todo preocupados com o bem-estar do outro, mesmo que não saibam demonstrar isso.

Mantis (Kermentieff) e seu curioso poder empático rendem boas risadas
O diretor James Gunn abusa do bom humor quase infantil (aliás, quase todos os personagens tem algo que nos lembra os humores infantis: a teimosia, a inocência, a irresponsabilidade, o medo do abandono) que nos leva a refletir sobre temas bastante pesados, como a definição de família e suas intrincadas relações, com mais leveza. O destaque é fica no ótimo desenrolar da subtrama entre as irmãs Nebulosa e Gamora e no emocionante (e até surpreendente) peso que Yondu ganha nesta sequência. O roteiro, no entanto, poderia ser mais enxuto justamente nesse ponto: em alguns momentos, especialmente na trama principal de Peter e seu pai, nós já sabemos o que vai acontecer e esperamos a ação acontecer. De forma alguma isso arruína o filme; pode ser que alguns momentos soem meio piegas - mas a gente releva porque, veja só!, é isso o que uma família faz.

Nebulosa (Gillan): destaque para a relação turbulenta entre as irmãs alienígenas
Com mais drama e menos ação alucinante que o primeiro, Guardiões das Galáxias - Vol. 2 promete agradar a todos os públicos: tem humor e aventura nas doses certas, e o personagens que amamos estão ainda mais cativantes e divertidos. Se você já adorava o Baby Groot ao fim do primeiro longa, prepare-se para morrer com as fofuras (e trapalhadas) dele aqui! Ah, e não saia do cinema tão cedo: são 5 (cinco!) cenas pós-créditos, e elas trazem informações divertidas relativas às consequências desse longa e prometem muitas novidades para o futuro - tem mais alguém aí sofrendo de ansiedade para o novo filme d'Os Vingadores?.

sábado, 8 de abril de 2017

Além das palavras



Eu precisei de alguns dias refletindo sobre Além das palavras (A quiet passion, 2016), filme de Terence Davies sobre a vida da poetisa americana Emily Dickinson. Eu pouco conhecia de sua história e obra, e uma pesquisa após a sessão me disse que alguns fatos sofreram pequenas alterações na versão para o cinema. Mas nem por isso o longa perde seu impacto.

A jovem Emily (Emma Bell) estuda em uma escola religiosa e se nega a seguir uma doutrina de fé. Uma rebeldia sem tamanho para uma moça do interior dos Estados Unidos no século 19, ferozmente contrastante com sua figura miúda e pálida. Aceita novamente em casa, entende-se o porquê: a educação refinada a que o pai, advogado e político, fazia questão de dar aos três filhos, dava liberdade questionadora e base sólida para uma fé cristã nada fanática.

Emily (Bell): rebeldia controlada

Vinnie (Rose Williams/Jennifer Ehle) e Austin (Benjamin Wainwright/Duncan Duff), irmãos de Emily, são tão inteligentes e obedientes a Deus e a seus pais quanto a jovem. Uma família onde as mentes eram tão afiadas quanto as maneiras eram polidas. Todo esse ambiente, somados à extrema opressão feminina típica da época, fizeram de Emily uma figura única. A alma vivaz em um corpo frágil, a opressão fortemente combatida - embora ela raramente perdesse a compostura, a reclusão voluntária para se proteger contra o mundo tão brutal. Compreender esse ambiente é vital para acessá-la.

A bela fotografia nos imerge nesse universo: o acolhimento e segurança da grande casa, a melancolia quase palpável do entardecer, a solidão criativa das madrugadas, o passar do tempo e o lento sufocamento daquele espírito livre. A direção delicada de Davies trata com carinho e respeito a figura de Emily, mesmo quando expõe a dor e desespero que ela, reservada, guardava para si. Meu único porém é que o tom ligeiramente teatral imposto aos atores me incomodou um pouco, mas isso de forma alguma atrapalha a narrativa.

Cynthia Nixon faz um grande trabalho interpretando a escritora

A poesia tocante de Emily permeia todo o longa, ora em sua narrativa, ora em sua fala - principalmente para nos fazer entender que ela retratou sua alma naqueles pequenos pedaços de papel que costurava em silêncio. A passagem do tempo também é importante pois mudanças significativas ocorrem nos personagens que a rodeiam e a sensível Emily (agora interpretada por Cynthia Nixon) reage a essa nova dinâmica. O lento espiral de dor e desespero que a envolve até seus últimos dias é belo e triste. Mais do que apenas uma biografia, o filme é um homenagem à poetisa que quase não conhecemos.

Por pouco seu verdadeiro trabalho nunca chegou ao grande público, e agora há uma boa oportunidade para que mais pessoas se interessem pela escritora. Da dor e da vida simples, da solidão e da análise consciente de sua condição de mulher na sociedade em que se emcontrava, do desespero e do medo da morte, do desamor, nasceu uma das mais belas e puras almas - e que bom que ela pode transbordar isso até nós.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A Vigilante do Amanhã


A vigilante do amanhã (Ghost in the shell, 2017) é um deleite para os olhos e amantes de ficção científica. Baseado na animação japonesa de Mamoru Oshii de 1995 (que por sua vez foi inspirado no mangá de Masamune Shirow), esta vesão precisou ajustar alguns detalhes para justificar a presença de Scarlett Johansson como a protagonista Major - mas no fim, tudo fez sentido. O visual extravagante do filme futurista é de encher os olhos, e um dos pontos altos do longa.

Já no começo do filme vemos a construção de um corpo humanoide que recebe um cérebro humano recém retirado de uma jovem aparentemente resgatada de um acidente (não fica claro como ela foi parar na mesa de cirurgia). Logo percebemos que a atitude de devolvê-la à vida não é nada nobre: Cutter (Peter Ferdinando), responsável pelo projeto da Hanka Robotic, tem uma conversa nada amigável com a dra. Oulet (Juliette Binoche) e afirma que a jovem deverá ser transformada em uma arma. Após três anos desse procedimento, Mira Killian (Johansson) já é a Major, a primeira híbrida bem sucedida de máquina e humanos (mesmo em um futuro onde é comum que humanos se aperfeiçoem com enxertos mecânicos), a chefe de uma força policial que combate o ciberterrorismo. 

Major (Johansson): uma ciborgue contra o ciberterrorismo
Monitorando a cidade, ela percebe o ataque iminente ao presidente da corporação Hanka (a empresa que criou seu corpo robótico) e aciona sua equipe tática - a Seção 9. Como eles estão longe do local e não chegarão a tempo de impedir o crime, ela decide passar por cima da ordem direta do seu chefe, o senhor Aramaki (Takeshi Kitano, excelente), e agir. Apesar de ter minimizado os danos, Major não conseguiu impedir que o hacker chamado Kuze consiga informações cruciais sobre a Hanka Robotic. Intrigada com a tática brutal e sem saber quais os propósitos nem a identidade real de Kuze, Major e a equipe correm contra o tempo para rastreá-lo e impedir que ele cometa mais crimes. Porém, no intuito de resolver o crime rapidamente, Major age impulsivamente de novo - dessa vez se expondo à Kuze. Após o contato virtual, ela experimenta algumas falhas de comando. O que vem a descobrir depois mudará para sempre sua realidade.

Visual intrigante e bizarro é fascinante
Para além do visual intrigante, o roteiro de Johnathan Herman e Jamie Moss explora a humanidade dos personagens e o dilema moral da tecnologia: até que ponto podemos ir adiante com os avanços tecnológicos sem que isso nos destrua? O dilema interno de Mira, que até aceita o novo corpo com o tempo porém sem nunca conseguir se encaixar em nenhum grupo leva a uma reflexão profunda: seria inevitável que um dia nos tornaremos meio máquina (mesmo que isso não signifique ter partes do corpo mecanizadas)? O diretor Rupert Sanders acerta em cheio ao dar equilibrar drama e ação quase ininterruptas, embora não haja tantas surpresas ou reviravoltas no roteiro - o que, aliás, não é a proposta mesmo. 

A escolha acertada do elenco também ajuda na credibilidade dos personagens - e Scarlett Johansson pode até não ganhar nenhuma indicação a prêmios por essa interpretação, mas com certeza irá silenciar os haters que criticaram sua escolha para a protagonista (eles sempre existem). Confesso que até eu fiquei descrente a princípio, pois mesmo sem ter visto o longa original eu sabia se tratar de uma adaptação de animação japonesa - e a atriz não possui qualquer traço oriental. Mas, para o bem de todos, ela dá conta do recado. O incômodo de estar em um corpo que não lhe pertence fica evidente no trabalho corporal de Johansson.

Aramaki (Kitano): melhor ator em cena
A vigilante do amanhã renova o fôlego de um gênero que vem sofrendo com muitos lançamentos mais preocupados com efeitos especiais mirabolantes do que um roteiro que tenha algo a dizer, e é um alívio ver que a ficção científica sobrevive. Se pensar que o original foi criado nos anos 1990 e está ainda mais atual, volto a ter esperança de que novos bons filmes sobre o gênero ainda estão por vir. Vale a pipoca e o ingresso mais caro do 3D (não perca os lindos efeitos visuais nessa modalidade!).