3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

terça-feira, 10 de julho de 2018

Hotel Transilvânia 3 - Férias Monstruosas

Hotel Transilvânia 3 - Férias Monstruosas

No terceiro longa da divertida série de animação, a ação sai do hotel de Drácula (Adam Sandler) pela primeira vez. Em Hotel Transilvânia 3 – Férias Monstruosas (Hotel Transylvania 3 – Summer Vacation, 2018), Mavis (Selena Gomes) percebe que o pai está um tanto tristonho e acha que o problema é o excesso de trabalho. Com o Hotel Transilvânia fazendo um enorme sucesso entre os monstros, ela decide que o melhor seria um tempinho longe do trabalho para ele relaxar.

Mavis (Gomez) e Drácula (Sandler) a caminho das férias:eles só querem relaxar
Acontece que a tristeza de Drácula não é exatamente cansaço: ele vem se sentindo sozinho desde que perdera a mãe de Mavis, e ele se dá conta disso ao ver que todos os outros monstros têm um amor para chamar de seu. O “tcham” (a paixão à primeira vista que gera um amor eterno, na gíria dos monstros) já havia rolado e ele agora estava condenado a viver na solidão para sempre. O que ele não esperava era que nessas férias programadas por Maevis ele poderia se apaixonar de novo. Érica (Kathryn Hahn), a capitã do navio onde os monstros embarcaram para um cruzeiro repleto de emoções, rouba o coração – e a fala – de Drácula. Incentivado pelos amigos, ele vai correr atrás e investir nessa paquera, sem saber que a graciosa capitã tem planos muito diferentes para essas férias.

Drácula se apaixona pela capitã Érica (Hahn), para susto de Frank (Kevin James)
Apostando no carisma dos personagens, esse filme é o que parece mais voltado para as crianças. Brincadeiras com onomatopéias soam até infantis, mas são divertidas mesmo para os adultos. Ainda assim, não há espaço para o tédio aqui: piadas com aplicativos de namoro, a alegria de finalmente ter um momento a dois (e a tão merecida liberdade quando se está longe dos filhos bagunceiros por alguns momentos), e até o aparecimento de um lendário e clássico caçador de monstros vão agradar e entreter os responsáveis que levarão os pequenos ao cinema. 
Drácula e o caçador de montros Van Helsing (Gaffigan): vilão clássico de volta às telas
Um dos trunfos da franquia Hotel Transilvânia é brincar com o inusitado: invertendo os papéis, onde humanos são os grandes vilões que ameaçam a paz e a tranquilidade dos monstros, fica mais fácil mostrar os efeitos negativos do comportamento humano. Em cada um dos três filmes, há um tipo diferente que precisa ser combatido. No primeiro, a super-proteção de Drácula com sua filha Maevis, impedindo-a de decidir seu futuro por conta própria; no segundo, é a vez do preconceito: seu neto (meio vampiro, meio humano) sofre a pressão para se mostrar um verdadeiro vampiro. Nesta terceira aventura, a tolerância à diversidade e o perdão entram em pauta. Sempre através de alegorias e tratado com muito bom humor, são importantes lições para os pequenos – e, quem sabe, até para os adultos.

Visual deslumbrante e carisma dos personagens são marca registrada da franquia
O elenco estelar, com nomes como Mel Brooks, Frans Drescher, Steve Buschemi, David Spade entre outros abrilhanta o roteiro bem amarrado de Michael McCuller, Todd Durham e do também diretor Genndy Tartakovsky. Méritos também para a versão dublada, que manteve o elenco original desde o primeiro filme e que sempre dão um toque a mais na adaptação para nossa versão brasileira. Uma série divertida e que começou bem despretensiosa, mas que ganhou maior relevância e consciência de seu alcance, merecia um terceiro capítulo como esse. Hotel Transilvânia 3 – Férias Monstruosas segue leve e divertido, e mesmo que possa parecer mais voltado para um público bem mais jovem, ainda conversa com as outras faixas etárias. O riso está garantido, e a pipoca do fim de semana vai ter gostinho extra de gargalhada.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Homem-Formiga e A Vespa

Homem-Formiga e A Vespa (Ant-Man and The Wasp, 2018) estreia nessa quinta - às vésperas das semifinais da Copa -  e promete ser um ótimo alívio para a tensão da torcida. Localizado no tempo poucos dias antes dos acontecimentos de Vingadores: Guerra Infinita - parte 1 (lançado também este ano), é aparentemente desconectado da saga - eu disse aparentemente. Na verdade, ele explica porquê o herói não apareceu na briga contra o supervilão Thanos (Josh Brolin). E, bem, ele teve seus motivos.

Cassie (Fortson) é o motivo porque Scott (Rudd) quer se livrar logo do passado criminoso
Scott Lang (Paul Rudd) está em vias de terminar sua sentença de 2 anos de prisão domiciliar após ter atendido ao chamado de Sam Wilson (Anthony Mackie) para ajudar Steve Rogers (Chris Evans), como é mostrado em Capitão América - Guerra Civil (2016). Como não pode pôr os pés fora de casa (literalmente), ele precisa aproveitar o tempo de forma produtiva. Assim, além de criar várias brincadeiras divertidas para sua filha Cassie (Abby Ryder Forston), ele e seus ex-comparsas estão criando uma firma de segurança - é, você não leu errado. Mas, apesar da boa vontade de Scott em não se meter em encrencas para se ver livre da condicional, os problemas acabam o encontrando. Sempre.

O agente Woo (Park) é um dos melhores novos personagens do longa
Após uma estranha visão do mundo quântico, ele decide quebrar o gelo e ligar para o Dr. Pym (Michael Douglas). Apesar da mensagem curta e sem sentido, logo Hope (Evangeline Lilly) vai buscá-lo: o pesadelo de Scott com um experimento que ela e o pai conduziam podia ser mais do que apenas uma estranha coincidência. Agora, mesmo que as relações entre os três estivessem bastante estremecidas e que tivessem objetivos diferentes, eles precisarão trabalhar em conjunto antes que o oficial Woo (Richard Park, hilário) descobrisse que Scott tinha violado a condicional. Obviamente, esse seria o menor dos problemas, já que um estranho vilão com poderes de invisibilidade e de atravessar paredes estava no encalço do trio.
A vilã Fantasma (John-Kamen) tem pouco destaque: indícios de nova aparição
Apostando no humor e no carisma dos atores e personagens (fatores que fizeram o surpreendente sucesso do primeiro longa do super-herói), o roteiro dá a sensação de se apoiar nesse trunfo para se demorar em explicar o que aconteceu com o Homem-Formiga - e porquê ele não foi ajudar os Vingadores - mais do que em desenvolver o ressurgimento da Vespa.  Nesse sentido, o filme de Peyton Reed soa quase burocrático e se revela bem mais fraco que o primeiro. Os novos vilões, Fantasma (Hannah John-Kamen) e Sonny Burch (Walton Goggins), não tiveram o destaque que mereciam, mas fica o indício de que eles devem aparecer novamente mais à frente. Nada disso, porém, compromete a diversão e o entendimento de que este é um momento chave para a trama maior, embora possa parecer para os fãs mais "caxias" que este longa é meio lento e deslocado.

Ótima utilização dos poderes de heróis e vilões garantem boas (mesmo que poucas) cenas de luta
A boa notícia é que, no final, o resultado é positivo. Há boas cenas de luta para os que curtem mais adrenalina, efeitos especiais de  primeira qualidade (tanto nos poderes dos super-heróis e vilões, quanto no rejuvenescimento de Douglas e Michelle Pfeiffer - que faz uma participação como a mãe de Hope, Janet) e a impagável participação do trio Luís (Michael Peña), Dave (Tip "T.I." Harris) e Kurt (David Dastmalchian). As pistas para a Parte 2 de Guerra Infinita são pequenas, porém importantes - então vale a pena conferir o filme até as cenas pós-créditos (um adendo: a primeira cena é bem melhor - e mais relevante - que a segunda). Boa pipoca!

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Jurassic World: Reino Ameaçado

O primeiro Jurassic Park entrou para a história do cinema ao nos fazer acreditar que dinossauros existem, enquanto suas sequências são esquecíveis. Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros apostou na combinação de nostalgia e encantamento por ver o parque finalmente funcionando, para conquistar um espaço na memória afetiva dos espectadores, entregando uma sequência com características de re-make que respeita a franquia original, mas a reinicia. Assim, Jurassic World: Reino Ameaçado herdou uma tarefa difícil, dar continuidade à uma franquia adorada, mas que nunca teve sequências muito inspiradas.

O parque deu errado, outra vez, e agora os dinos vivem por conta própria na ilha Nublar, que está prestes a ser dizimada por uma erupção vulcânica. Os dinossauros serão extintos, de novo. A discussão é se os humanos devem tentar salvar estes animais, ou deixar a natureza seguir seu curso. Ainda se sentindo responsável pelas criaturas Claire (Bryce Dallas Howard), embarca em uma jornada para resgatar os animais e recruta Owen (Chris Pratt) para acompanha-la. É claro, a ganância e burrice humana continua presente para colocar tudo em risco.

Sim, todos os elementos tradicionais* da franquia estão lá. Os cientistas e profissionais bem intencionados, aqueles com segundas intenções e sua tradicional falta de senso de perigo, crianças, vilões caricatos, gente sendo devorada, monstros e cenas de ação maiores e mais elaborados. E embora isso seja o que a maioria das pessoas espera encontrar ao pensar em Jurassic World, a opção segura de entregar "mais do mesmo", pode soar como preguiçosa e diminuir o envolvimento do espectador. Não demora muito para descobrirmos o verdadeiro vilão, ou mesmo para identificar quem sobreviverá ao final da jornada. E dessa vez, não temos o encantamento de ver os gigantes jurássicos pela primeira vez, ou mesmo a novidade de ver o parque em atividade para ajudar.

Se os personagens humanos são caricatos e a história previsível, as sequências de ação e os efeitos especiais não decepcionam. A tecnologia para criar os animais, que ainda combina animatrônicos e computação gráfica, continua evoluindo e entregando criaturas cada vez mais convincentes. Enquanto o diretor J.A. Bayona (O Orfanato, Sete Minutos Depois da Meia-Noite e O Impossível), consegue imprimir sua identidade nas sequências de ação, acrescentando tons mais fortes de terror e fantasia às cenas.

De volta aos humanos, se torcemos por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard é graças ao carisma dos intérpretes, e pela relação que criamos com eles no filme anterior quando ainda tinham um pequeno arco a ser desenvolvido, não por mérito de seus personagens de poucas camadas. A única coisa que a dupla trabalha neste filme é uma longa "DR". Vale apontar aqui, que o diretor tem obsessão por mostrar os pés de Claire, abusando da possibilidade de piada com os polêmicos saltos da moça no primeiro filme.

Jeff Goldblum é escalado apenas para atender ao fator nostalgia, e podia ser melhor utilizado. A novata Isabella Sermon é eficiente ao dar vida à criança da vez. Maisie traz uma discussão que a franquia demorou a abordar, mas a novidade é tratada como mistério por grande parte da produção, sendo jogada ao fim do filme quando não há mais tempo para trabalhar o tema. O assunto deve ficar para uma possível próximo filme, assim como uma participação melhor de Goldblum.

É também na sequência que reside a esperança por uma grande novidade na franquia, já que Reino Ameaçado deixa gancho para uma situação inédita neste mundo onde dinossauros existem. Resta saber se a produção vai agradar o suficiente para garantir a continuação da história. Tudo depende da expectativa de cada em relação à produção. Quem busca grandes novidades deve se decepcionar, mas quem estiver à procura a familiaridade de uma aventura com gigantes que devoram gente, deve se divertir.

Jurassic World: Reino Ameaçado, não é tão esquecível quando as sequências de Jurassic Park, mas também não surpreende. Apesar dos personagens caricatos e da repetição no roteiro, é bem sucedido no que se propõe, entreter. Mérito das boas cenas de ação, efeitos especiais excelentes e o carisma da franquia. Como bônus, abre a possibilidade de bem vidas novidades caso a jornada continue. Particularmente, eu adoraria ver para onde a evolução levaria os dinossauros em uma próxima aventura.

Crítica originalmente postada no blog Ah! E por falar nisso...

terça-feira, 26 de junho de 2018

50 São Os Novos 30


50 São Os Novos 30 (Marie-Francine, 2017) chega aos cinemas brasileiros como uma ótima opção para quem quer se divertir e refletir ao mesmo tempo. Com uma sinceridade cortante e um humor agridoce, Valérie Lemercier protagoniza essa estória de autoconhecimento que ela também escreveu e dirigiu. Aliás, essa múltipla visão de Lemercier como atriz, roteirista e diretora se reflete muito bem nas diversas camadas dos personagens, o que dá o toque especial dessa deliciosa comédia romântica francesa.

O mundo de Marie-Francine (Lemercier) está prestes a desabar, mas ela nem faz ideia: dedicada ao seu trabalho, ela mal percebe que o marido, Emmanuel (Denis Podalydès), quer acabar com o casamento. Depois de receber a notícia bombástica, ela decide sair de casa. A tarefa, porém, não será tão fácil: desempregada e sem condições de conseguir manter o novo aluguel, sua única opção é voltar para a casa dos pais. Não bastasse estar no fundo do poço, ela ainda é obrigada a viver com as comparações constantes com a irmã gêmea Marie-Noële, bem sucedida e queridinha dos pais.

Marie-Francine (Lemercier): entre as quinquilharias para se vender online
Então, de uma hora para a outra, ela se vê completamente fora da sua zona de conforto. As filhas já não dependem dela, os pais tentam empurrá-la para outros namorados, recusas de emprego. Com tudo saindo do seu controle, Marie-Francine acaba aceitando uma "ajuda" de seu pai: mesmo a contragosto, começa a trabalhar na loja de cigarros eletrônicos do bairro (um projeto "genial" de seu próprio pai). E é ali que ela conhece Miguel (Patrick Timsit), o chef do restaurante ao lado. 

Miguel também passa por uma situação parecida: voltou a viver com a mãe portuguesa e o filho em um apartamento minúsculo, além de ter que trabalhar em um restaurante que não é dele - e onde o gerente não entende nada de seu talento. E em meio a conselhos amorosos truncados e indiscrições generalizadas, acompanhamos a amizade entre os dois crescer e se transformar.

Marie-Francine e Miguel (Timsit): como não amar esses dois?
O maior trunfo de 50 São Os Novos 30 é o carisma dos personagens: não tem como não se afeiçoar à Marie-Francine ou Miguel. Eles são reais, gente como a gente - sem excessos, consciente e deliciosamente imperfeitos. E, apesar disso, os personagens sabem rir de si próprios (o que é um alívio e um alento). As situações são absurdas não ao ponto do inacreditável, mas duramente reais: algumas das palavras mais ácidas que Marie-Francine ouve, por exemplo, são de sua própria mãe - mas nem por isso ela se torna uma carrasca por dizê-las. Além disso, a forma verdadeira e sem grandes atos de heroísmo com que a protagonista enfrenta seus dilemas a torna real: uma pessoa que luta como pode, com as armas que tem, que nem sempre consegue enfrentar as situações, mas que ainda não se deu por vencida.

O riso vem fácil nessa comédia romântica leve e divertida, especialmente pelo olhar sagaz das roteiristas Lemercier e Sabine Haudepin: expondo aqueles preconceitos cotidianos, as hipocrisias que às vezes fazemos questão de ignorar e as dificuldades que todo recomeço enfrenta, ambas criaram um gostoso microcosmo atual. O elenco maravilhoso também cria nuances divertidíssimas para os principais personagens que cercam Marie-Francine: além de Timsit e do impagável Podalydés, destaco as interpretações de Helène Vincent e Phillippe Laudenbach. Eles dão vida aos pais de Marie-Francine, literalmente - e a gente se diverte vendo como eles tentam se ajustar à volta da filha. 

Marie-Francine com os pais: cafés da manhã recheados de conselhos amorosos
Diversão garantida para toda a família, uma ótima opção para quem quer fugir dos jogos da Copa do Mundo - ou comer uma pipoquinha depois da maratona de jogos. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Hereditário


Hereditário (Hereditary, 2018) é uma bela homenagem aos antigos filmes de terror clássico: a trama envolve rituais de magia negra e uma família tragada para dentro do horror, com direito a segredos antigos, tensão crescente e atuações memoráveis. Sem apelar para os sustos gratuitos, excesso de sangue ou fotografia extremamente escura o tempo todo, o longa consegue prender a atenção do espectador durante as mais de 2h de exibição.

Annie (Toni Collette) volta do enterro da mãe com a estranha sensação de não estar sentindo verdadeiramente o luto. Ela tenta retornar à rotina normalmente, mas algo a perturba profundamente - e ela não consegue identificar o quê. Enquanto tenta terminar seus projetos de miniatura para a exposição na galeria, ela tenta encontrar algum conforto em sessões de um grupo de terapia comunitário. 

Annie (Collette): trabalhos de miniatura aos poucos revelam sua obsessão
A família vai, aos poucos, desmoronando. Peter (Alex Wolff), o filho adolescente, parece anestesiado quanto ao fato recente - assim como a mãe - e mais interessado em virtualmente se desligar da realidade; mas Charlie (Milly Shapiro), a mais nova, sente demais a falta da avó e parece mais deslocada do que nunca. Quando uma fatalidade (ou não?) acontece, Steve (Gabriel Byrne), marido de Annie, sente que precisa tomar as rédeas da família, além de ter que lidar com a possibilidade de Annie estar enlouquecendo. 

Steve (Byrne ): preocupação com a saúde mental de Annie
Aliando um suspense crescente a inteligentes brincadeiras de luz e sombra, o diretor e roteirista Ari Aster mexe com os sentidos do espectador. Várias são as cenas em que somos deixados na dúvida se vimos mesmo aquilo ou se foi só nossa imaginação - o que nos imerge diretamente no dilema de Annie - sem que o recurso se esgote. É como se o "sensor-aranha" ficasse ligado o tempo todo, e o sentimento de inevitabilidade não nos impede de querer testemunhar o terrível desenrolar da trama. 

Há algumas semelhanças com o clássico O Bebê de Rosemary (que nós já vimos aqui) e por isso acredito que este longa seja uma ótima homenagem ao filme de Roman Polanski (apesar de as cenas finais deste serem bem mais memoráveis, mesmo depois de mais de 50 anos após o lançamento). As atuações incríveis de Toni Collette e da estreante Milly Shapiro também são pontos altos: enquanto Collette esbanja controle na montanha-russa emocional de Annie, a novata causa sentimentos conflitantes e angustiantes de proteção e medo de sua jovem Charlie. 

Milly Shapiro faz ótima estreia com a sua inocente (e sinistra) Charlie
Hereditário merece ser visto no cinema, apesar de que uma audiência que espere assistir a um banho de sangue ou pular da cadeira a todo instante possa se decepcionar um pouco. O Terror propriamente dito só vai aparecer no final, porém o Suspense sustenta bem a estrutura do início ao fim. Uma ótima pedida para quem curte um bom filme.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vingança


A premissa de Vingança (Revenge, 2017) é muito boa: uma jovem busca vingança contra os homens que a brutalizaram e deixaram para morrer no deserto. A vingança acontece, mas de forma mais violenta do que a imaginada. Tecnicamente bem trabalhado (com destaque para a Fotografia, que brinca com ângulos e cores vibrantes), o filme da diretora Coralie Fargeat - e também roteirista deste longa - se destaca pelo tom empoderado da protagonista (que na maioria dos filmes desse estilo são meramente a vítima que desencadeia a vingança) e por ser falado quase em sua totalidade em francês, além das grandes atuações do pequeno elenco. Porém, como um filme Trash - mesmo disfarçado de Thriller de Ação e Suspense - ele foi pensado para agradar aos fãs de seu nicho. Então, prepare-se para muito sangue (mesmo) e altas doses de sensualidade. 

Richard (Janssens) e Jen (Lutz): casal chega para o exclusivo fim de semana romântico
Jennifer (Matilda Lutz) é uma jovem que sonha ser atriz em Hollywood e que acaba se envolvendo com um homem rico e poderoso. Casado, Richard (Kevin Janssens) usa de brechas na agenda para namorar sua amante. Em um fim-de-semana no deserto, onde apenas o casal desfrutaria de uma mansão e da bela paisagem, os dois são surpreendidos por uma dupla de amigos de Richard. Stan (Vincent Colombe, espetacular) e Dimitri (Guillaume Bouchède) chegaram mais cedo para a temporada de caça, acabando com o clima romântico. E o que era para ser um sonho acaba se transformando em um pesadelo.

O invejoso Stan (Colombe) não hesita em cometer um crime apenas para satisfazer seu ego
Stan a deseja também, e, aproveitando um momento em que Richard não está em casa, ela a estupra - com a conivência de Dimitri, que nada faz para impedir o abuso. Quando o namorado retorna, a situação piora para Jen: ao invés de protegê-la, ele tenta suborná-la para que nada daquilo venha à tona. Ao ameaçar contar para a esposa dele sobre o romance caso ele não fizesse nada, Richard torna-se violento. Acuada e sozinha, Jen tenta fugir a pé pelo deserto, mas é encurralada pelos três homens e jogada de um penhasco. Enquanto eles pensam em álibis e estratégias para se livrar do crime e do corpo de Jen, ela sobrevive e busca forças para se vingar dos seus malfeitores. E é aqui que começam os problemas.

Jen depois da queda: prepare-se para um literal banho de sangue
Há muitos furos no contexto da queda e “ressurreição” de Jen. É bastante improvável que tivesse conseguido sobreviver àquela queda, quanto mais ter forças para conseguir planejar uma vingança contra os homens que a perseguem. Vale lembrar que, na queda, ela atingiu uma árvore e foi trespassada na barriga por um de seus galhos. É bem provável que tenha partido a coluna também, mas tudo isso é ignorado: Jen tem um jeito engenhoso (à la MacGuyver) de sair daquela situação - e mesmo com um pedaço do tronco ainda em seu corpo e sangrando em profusão, emenda uma bem-sucedida fuga à pé dos assassinos motorizados. Difícil de acreditar? As coisas vão ficar ainda mais estranhas. Extremamente debilitada, ela se torna uma caçadora implacável e extremamente habilidosa, capaz de usar armamento pesado contra os seus caçadores (que são muito mais experientes que ela no assunto). Eu mencionei que ela estava descalça o tempo todo durante essa perseguição? E que sua única fonte de energia depois da violência dentro da casa foi meia lata de cerveja quente? Pois é.

De caça à caçadora: difícil acreditar que é a mesma mulher que caiu do penhasco

Os fãs de trash, porém, podem estar acostumados a relevar essas incongruências se as cenas com sangue forem impactantes - e, nesse ponto, eles não vão se decepcionar. Há espaço para muita violência, com direito a entranhas expostas, miolos voando, pessoas banhadas no próprio sangue e no de outros também. O efeito é ainda mais forte porque, em boa parte da cenas, a situação não é absurda, do tipo inacreditável - apesar da quantidade de sangue ser extremamente exagerada. Para quem não está acostumado, porém, pode ser de embrulhar o estômago - algumas cenas são quase intragáveis. Mas aqui entram os méritos do filme: apesar de tudo, o clima de tensão impresso por Fargeat se mantém do início ao fim. Desde a parte inicial, com os homens cercando Jen em um ambiente apenas aparentemente amigável, até a parte final - com um plano-sequência de perseguição de prender a respiração - a sensação de que aquilo não vai acabar bem faz o espectador ficar atento o tempo todo. E é exatamente isso o que faz com que o espectador geral aguente a tanto horror na tela.

Stan e Dimitri (Bouchède): cúmplices
Outra grande sacada foi ver que os três homens representam os tipos de agressor que uma mulher pode encontrar na vida: Richard é o cara que finge estar apaixonado, mas só quer uma distração do casamento e cuidar de sua reputação; Stan é o machista que trata mulher como objeto; e Dimitri é o omisso, que finge não ver o abuso e que, na hora de agir, se junta aos agressores ao invés de defender alguém em clara situação de desvantagem. Tudo isso seria uma ótima forma de analtecer a coragem e a força de Jen, mas a personagem perde força ao ser explorada como um fetiche. A intenção é ótima e super-válida a tentativa de criar uma obra diferente, ainda mais quando se tem uma mulher atrás das câmeras em um gênero dominado por produções feitas por e para homens. No fim, ela acaba resumida à uma justiceira sensual, cheia de cicatrizes, que corre um deserto descalça e armada até os dentes para matar sua sede de vingança. Ainda assim, assistir a Vingança é uma boa oportunidade de experimentar uma ótica diferente sobre um gênero que apresenta poucas variações de tema.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Deadpool 2


Se o primeiro longa de Deadpool (2016) precisou escrachar nas piadas e no banho de sangue para desfazer a primeira aparição desastrosa do anti-herói, Deadpool 2 (2018) veio humanizá-lo sem descaracterizá-lo - e foi um tiro certeiro. Conhecido nos quadrinhos como um mercenário desbocado , falastrão e ultra-violento, Deadpool agora busca se reencontrar depois de mais uma tragédia pessoal.  Encontrando o equilíbrio entre as piadas grosseiras (sem serem ofensivas) e a violência e um bom arco desenhado para delimitar que ele, apesar de tudo, é um dos mocinhos, o filme de David Leitch diverte desde o início.

Vanessa (Baccarin): peça-chave na mudança do mercenário - para o bem e para o mal
O mercenário Deadpool agora é um sucesso internacional: contratado para matar os piores bandidos, tem cumprido sua missão e ganhado muito dinheiro. Ainda assim, ele encontra tempo para viver o romance com Vanessa (Morena Baccarin) em sua plenitude. Tudo muda quando um dos homens que ele não conseguiu matar acaba voltando para se vingar - e quem leva a pior é Vanessa. Completamente desacreditado na vida, ele vai receber ajuda novamente do X-man “de segundo escalão” Colossus (Stefan Kapicic). Ele o leva de volta para a mansão X e tenta integrá-lo à equipe. Mas as coisas não saem muito bem como planejadas pelo grandalhão de metal.

Cable (Brolin): vindo do futuro para vingar a família
No futuro, um homem vê sua casa destruída e sua família arruinada. Mas ele não é um homem comum: ele é Cable (Josh Brolin, em mais uma atuação espetacular), um soldado mutante que tem metade do corpo mesclada a uma estrutura de metal. Com cara e jeito de poucos amigos, Cable não perde tempo ao decidir o que fazer para se vingar. Usando um dispositivo de viagem no tempo, ele retorna até o presente atrás do causador daquela destruição. O que ele não esperava era que Deadpool se meteria, sem querer, no seu caminho. E, pior, que ele não estaria sozinho.

Deadpool (Reynolds) e Colossus (Kapicic): X-man estagiário
A introdução de novos personagens servem para entreter, mas também humanizar o violento anti-herói - destaque para o próprio Cable, pintado como vilão nesse filme.  Nos quadrinhos dos anos 1990, ele era um grande personagem e chefiava a X-Force (um esquadrão de elite formado por mutantes) e um conhecido rival de Deadpool - porém pouco conhecido do grande público. Com sua aparição e a menção do grupo neste longa, pode-se acreditar que um possível sucesso de bilheteria desta sequência possa render planos mais audaciosos para o futuro. Mas, mesmo que nada disso ocorra, Deadpool 2 tem alguns méritos que o primeiro longa deixou a desejar.

Ah, é. Essa cena acontece.
As novas participações de Dopinder (Karan Soni), Al (Leslie Uggams) e Weasel (T. J. Miller), além da chegada de Domino (Zazie Beetz), Zeitgeist (Bill Skarsgard), Bedlam (Terry Crew) - outros futuros integrantes da X-Force - só comprovam que ele não é tão desconectado dos outros quanto gostaria de ser. Aliás, os personagens secundários aqui tem um espaço maior para brilhar - diferente do primeiro, onde apenas Vanessa tinha um certo destaque. Tanto vilão quanto associados de Deadpool tem direito a um espaço maior e maior importância no desenrolar da trama, que apesar de toda brincadeira, não deixa de falar de temas importantes como perdas, bullying, abuso infantil, escolhas difíceis e o re-significado de família.  

E essa aqui também
Tirando sarro de todo mundo, desde James Bond e outros filmes dos X-men - incluindo o aclamado Logan, sucesso de público e crítica - até o próprio ator protagonista (Ryan Reynolds assina o roteiro do longa junto com Paul Wernick e Rhett Reese, dupla da primeira incursão do mercenário nas telonas - e eu acredito que todas as piadas envolvendo o Canadá e sua própria carreira tenham sido obra dele), Deadpool 2 acerta no tom ridículo e dramático. Há aparições surpresas bastante interessantes, uma chuva de referências divertidas, muita ação e, por que não?, alguma reflexão. Como o próprio diz, é “um filme família” - mas não recomendado para menores de 16 anos. E, como de costume, não esqueça de ficar para assistir à divertida sequência pós-créditos!