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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Suspense que não fica no óbvio

 

Confesso a vocês que as lembranças que tinha de Tubarão eram apenas as imagens de pessoas se sacudindo na água ao som da inconfundível trilha sonora de John Williams. Mas acho que isso se deve mais ao fato de o filme ter virado um clássico e essas sequências terem sido repetidas à exaustão (isso sem falar no enorme número de continuações do longa de Spielberg). Da história mesmo, não lembrava quase nada.  Aliás, nem tenho certeza de ter assistido ao longa até o final. E este post foi a desculpa perfeita para refrescar minha memória. Até aí, ótimo, mas lembrei também do pavor que tenho do mar. E ver gente sendo devorada não é assim das experiências mais agradáveis, vamos combinar.

Dito isto, primeira observação que vem à mente: oba, não é um filme do tipo "resta um"! Coisa mais irritante história capenga que só serve como pretexto para você tentar adivinhar a próxima vítima. E, na maioria das vezes, você já sabe de antemão como vai acontecer. Suspense dos bons tem permissão pra brincar com o espectador, e é isso que acontece, por exemplo, em uma determinada sequência do filme: os moradores de Amity na praia, na maior tranquilidade. Close na gordinha, no menininho, no cachorrinho... Todo mundo apostando suas fichas em quem vai virar comida de tubarão primeiro, e, no fim das contas, não passa de uma brincadeira de criança. Bom demais.

Mas Tubarão não se resume a isso: o filme dá uma guinada bem interessante na segunda metade, quando a caça ao animal assassino começa de verdade. O chefe de polícia, o oceanógrafo e o pescador valentão, isolados em um barquinho, perto de um bichão de três toneladas pra lá de faminto, travam uma verdadeira luta pela sobrevivência, e arriscam suas vidas por gente que foi egoísta até o último fio de cabelo. Ou o que dizer do prefeito, preocupado em não afastar os turistas em pleno feriadão de 4 de julho, incentivando o velhinho a entrar na água, e deixando seus filhos brincarem perto da morte? E os pescadores, que  protestam contra o fechamento das praias, e das autoridades que negam o óbvio, dizendo que a primeira vítima foi morta pela hélice de um barco?

Considerações à parte, é nessa parte final que Spielberg consegue provocar ainda mais agonia. Se ele nos poupa, ao máximo, de ver cadáveres durante o filme (bom gosto nessas horas é fundamental), ele nos faz pular na cadeira toda vez que o animal se aproxima. Na cena (muito bem feita) em que Matt mergulha dentro de uma gaiola para se aproximar do bicho, o nível de desespero da pessoa aqui chega perto do máximo. Ou quando Quint luta desesperadamente para sobreviver, não dá para deixar de torcer por ele, mesmo sabendo que a tragédia é inevitável. Cinema bom é isso, o resto é brincadeira.

1 comentários:

Daniel Caetano disse...

Eu já assisti Tubarão tantas vezes que já perdeu um pouco a graça, mas é um dos filmes do Spielberg que mostra que ele sabe fazer bem feito, ainda que nem sempre opte por usar sua sapiência. :)