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sábado, 4 de setembro de 2010

O melhor está nos detalhes

 
"Um, dois, um dois; vem o homem com a machadinha para fazer sua carne em picadinho". Esta nada inocente música, cantada por um grupo de crianças na sequência inicial de M, o vampiro de Dusseldorf consegue a façanha de traduzir em poucos segundos, e de um modo até irônico, a trama do longa. E vamos combinar que abrir seu primeiro filme falado com uma canção e criar uma marca sonora - no caso, um assobio - para o assassino em série à solta na cidade foram grandes sacadas de Fritz Lang. Se temos novos recursos, por que não aproveitá-los ao máximo? Boa, gosto assim.

Mas, apesar de ter gostado do conjunto da obra, tenho que dizer que M alterna bons e maus momentos. O começo é bem promissor, na apresentação dos personagens e planos bem interessantes. Além de belas imagens, como a silhueta do serial killer no anúncio dos crimes, o diretor consegue criar o clima perfeito para uma história de suspense sem recorrer a sangue jorrando e corpos à mostra. Pelo contrário, a morte da menina Elsie, por exemplo, não é mostrada explicitamente, o que aumenta muito a dramaticidade do momento. Conseguimos acompanhar direitinho o desespero da mãe ao reparar no silêncio da casa, a mesa posta e o lugar vazio... Pra gente, fica muito claro o que aconteceu. O balão voando dá até um aperto no coração.


Só que lá pelo meio do filme, confesso que fiquei um pouco aborrecida com a falta de ritmo, o que deu até uma soneca. Talvez uns minutos a menos fariam bem ao longa como um todo. Mas quando o assassino surge em cena, tudo volta a melhorar. Peter Lorre consegue prender nossa atenção o tempo todo, seja pelo olhar esbugalhado e assustado (que, a princípio, não condiz com a sua personalidade cruel), seja pela movimentação que ele cria com os demais personagens. E, depois de tanta perseguição, que termina de uma forma inusitada, chegamos a um dos momentos mais interessantes (com alguns, hã, spoilers): o assassino tentando desesperadamente se livrar da morte, dizendo que o desejo de matar era mais forte do que ele; a  reação irada das pessoas que o capturaram; o discurso do advogado de defesa, que nem acredita no que está dizendo sobre seu cliente; a conclusão a que chega a mãe de uma das vítimas: "Isso não vai trazer nossas crianças de volta". 

É impressionante como esse final traz questões que são debatidas até hoje, sem nenhuma conclusão definitiva. Afinal, criminosos assim merecem a morte, ou justiça pelas próprias mãos não é um tal crime tão grave quanto os cometidos por ele? É possível perdoar alguém que tenha cometido tantas atrocidades? Até que ponto com problemas psiquiátricos pode ser responsabilizado por seus atos? Eu não sei vocês, mas eu fiquei com essas questões na cabeça depois de ver o filme. Claro que eu não tenho respostas, mas... quem tem?

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