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sábado, 15 de outubro de 2011

Nasce um mito





Há quem prefira versões mais modernas, como vampiros que brilham ao sol (!), mas ninguém pode negar o poder de um clássico. Com toda sua limitação técnica e resquícios de interpretações teatrais herdadas do cinema mudo, Drácula tem o mérito de estabelecer o visual mais marcante para essas criaturas que nos fascinam até hoje. Ao contrário de vários filmes que tentam reinventar a mitologia dos mortos-vivos, dando-lhes uma aparência mais comum ou atribuindo-lhes sentimentos românticos até dizer chega, o longa de Tod Browning é terror puro e simples. Quem não teria medo do misterioso conde da Transilvânia, interpretado por Bela Lugosi, sempre impecável em sua capa preta e perigosamente sedutor?

A fotografia em branco e preto, a maquiagem, o figurino e a direção e a trilha sonora - esta uma poderosa e recém-descoberta ferramenta - são elementos importantíssimos para construir esse clima. Não é à toa que Reinfield (Dwight Frye) fica chocado ao entrar pela primeira vez no imponente castelo de Drácula. A enormidade do lugar o faz parecer apenas uma presa fácil logo no contato inicial com seu anfitrião. Pequeno e inocente como uma mosca desavisada caindo na teia da aranha que anseia por comida. Bela imagem, não? Poética mas direta, como tudo neste filme.


Sem dar ouvidos aos alertas da população do vilarejo próximo ("São apenas superstições"), o advogado ignora todos os sinais de perigo para firmar um contrato. Mal sabe ele que tal ato de bravura é sua própria condenação. Logo transformado em servo do poderoso conde, que segue para Londres, Reinfeld é considerado louco por seu repentino e estranho desejo de comer seres vivos. A peculiaridade chama a atenção do professor Van Helsing (Edward Van Sloan), que rapidamente julga estar diante de um caso de vampirismo: "Posso dar provas de que a superstição de ontem pode se tornar a realidade científica de hoje". E não é que ele tem razão?

Enquanto isso, Drácula se aproxima da bela Mina (Helen Chandler). A transformação propriamente dita não é mostrada: nenhuma prótese dentária com caninos prolongados foi usada durante as filmagens. O que vemos são closes da vítima, completamente indefesa, na cama, e de Bela Lugosi franzindo a sobrancelha, arregalando os olhos e contorcendo as mãos, numa postura supostamente assustadora, mas que pode provocar alguns risos hoje em dia. A mordida é apenas sugerida, talvez pelo erotismo que está implícito no ato. Mas é fácil perceber que a jovem está diferente, apesar de acreditar ter tido apenas um sonho ruim.Aposto que ela nunca olhou para o pescoço de John (David Manners) com olhos tão famintos...


E não deixa de ser engraçado ver que o verdadeiro herói da história não é o noivo desesperado, mas um cientista, armado apenas com seus conhecimentos e com um pequeno crucifixo. Nada mais poderoso que um objeto sagrado para afastar o ser das trevas, e disso o professor Van Helsing sabe muito bem. É curioso também que uma certa erva (e não alho, reparem) seja sinônimo de proteção contra uma criatura tão poderosa a ponto de assumir formas não-humanas (no caso, o morcego de papel e um lobo que nunca aparece em quadro) e controlar pessoas. E gostei da explicação para os vampiros dormirem em caixões, essa parte da lenda eu desconhecia. Para completar a mitologia, só senti falta da água benta e do fato de eles não entrarem em um lugar sem serem convidados. Mas o conjunto, que inclui ainda a falta de reflexo numa cena aparentemente despretensiosa, que acaba se tornando importante, é impecável.

A construção do mito é tão interessante que chega a se sobrepor ao roteiro em certos momentos. Quando o longa vai se encaminhando para o final, a ação não é exatamente imprevisível. Mas a graça é justamente mergulhar nesse universo tão peculiar. Não há purpurina, digo, nova roupagem na literatura vampiresca que faça este clássico envelhecer.

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