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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mitologia para francês ver


Antes de ver Orfeu negro, eu achava uma injustiça o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960 ter ficado com a França, apesar de esta ser uma produção franco-ítalo-brasileira, rodada no Rio de Janeiro e falada em português. Agora posso dizer: a Academia nos fez um grande favor. Porque o longa de Marcel Camus em nada representa a cultura tupiniquim e nem faz jus à obra de Vinicius de Moraes. Melhor torcer que a estatueta venha para o Brasil com um filme, no mínimo, decente.

As primeiras cenas já indicam que o que viria a seguir: carnaval e as belezas cariocas, praticamente um vídeo institucional de turismo temperado com o que há de pior dos clichês que os gringos gostam tanto.  Segundo Camus, todos os cariocas andam alegres e saltitantes, seja para pegar o bonde ou ir a um cartório. E o pior é que não há um mísero figurante que saiba sambar de verdade... Ninguém precisa de dinheiro também, já que se pode fazer compras na vendinha com tranquilidade se a moça der um beijo no dono do armazém. A vida é uma festa. Mas a situação consegue ficar ainda pior. À parte a visão deturpada da vida nos morros e asfaltos do Rio, estrago que poderia ser minimizado com a presença de algum produtor de bom senso, sobra um fiapo de roteiro, com diálogos mal trabalhados e sem sentido, além de atuações constrangedoras. 


Na trama, baseada na peça de Vinicius e roteirizada pelo próprio Camus e por Jacques Viot, o personagem-título vivido por Bernardo Mello é um motorneiro, noivo de Mira (Lourdes de Oliveira), que se apaixona pela bela Eurídice (a americana Marpessa Dawn, mulher do diretor) num instante. Além do ciúme de Mira, os dois têm como obstáculo principal a Morte (Ademar da Silva) que persegue Eurídice sem descanso, o que leva o casal a um final trágico. Pela sinopse, pode até parecer que restou do mito original um pouco de poesia na transferência do Olimpo para o Morro da Babilônia. Mas nem isso. Creio que Orfeu e Eurídice se matariam de vergonha, isso sim.

Em meio a um elenco totalmente inexpressivo, a única exceção é Léa Garcia, como Serafina, prima de Euridície. Leve e divertida, ela faz o que pode para defender sua personagem, mesmo que o filme insista em ter um tom de musical da Disney. Pena que tanto esforço não seja suficiente para sustentar uma história sem base como essa, mas a dupla de roteiristas confia plenamente que todo o espetáculo visual garantido pelas paisagens cariocas e pelo carnaval baste. E Camus gasta tempo à beça filmando escolas de samba como Portela e Mangueira, torcendo para que o espectador esqueça que a trama não se desenvolve.


Outro "trunfo" do diretor é a trilha sonora: músicas como "Manhã de carnaval" e "A felicidade" eram o fator que faltava para transformar o longa em produto de exportação. E aqui é preciso reconhecer: talvez esta seja a única qualidade dessa produção, equivocada do início ao fim. Já no desfecho, chega a ser bonito ver dois meninos empunhando o violão de Orfeu para fazer o sol se levantar. Raro momento de real beleza no filme, que não dura mais que poucos segundos, porque logo em seguida vem um novo batuque... Para os gringos, não existe Quarta-Feira de Cinzas.

2 comentários:

disse...

Excelente crítica! Também fiquei chateada com o excesso de estereótipos, como o de que durante o Carnaval "ninguém é de ninguém". Os atores também me decepcionaram, tanto é que hoje ninguém se lembra deles, mas muitos de seus contemporâneos brasileiros ainda são reverenciados.
Beijos!

Giselle de Almeida disse...

E eu fui ver o filme cheia de expectativa, hein! É uma pena que seja tão ruim. Agora fiquei curiosa para conferir a versão do Cacá Diegues.

Obrigada pela visita e pelo comentário!

bjs