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sábado, 12 de janeiro de 2013

Uma emocionante ode à vida

Terry (Bloom) e Calvero (Chaplin): lições para uma vida toda
Luzes da Ribalta (Limelight, 1952) é uma poesia filmada. É o que eu consigo pensar. Sensível, delicado, romântico, melancólico. Triste e, ao mesmo tempo, encorajador. Dá vontade de chorar feito um condenado e depois sair por aí, procurando aquilo que nos faz feliz, e agarrar aquela chance e nunca mais largar. É o primeiro filme de Chaplin que eu vejo em que ele não interpreta Carlitos, o famoso vagabundo - mas ele parece estar ali o tempo todo, nos trejeitos do palhaço. Um filme em que não se ri o tempo todo, e que em certos momentos o choro é quase inevitável. Exatamente como a vida é.

Chaplin interpreta Calvero, um palhaço em fim de carreira. Ninguém mais ri de suas piadas, e sua vida parece menos pior quando ele está bêbado. Um dia ele chega em casa e sente um forte cheiro de gás no apartamento debaixo, e salva, por acaso, a jovem Terry (Claire Bloom, perfeita) do suicídio. Ela o quis porque não conseguia arrumar mais emprego como dançarina, uma vez que já não conseguia mais dançar como antes. Por recomendação médica, Terry devia permanecer com Calvero até que estivesse recuperada. A senhora dona da pensão, não quis saber: despejou Terry e ainda queria que Calvero não a mantivesse ali sem que esta fosse sua esposa. Convalescente, Terry não podia fazer nada a não ser esperar melhorar. E Calvero, bem, ele não tinha nada melhor pra fazer. Então, foram ficando ambos morando no apartamento.

Aquele carinho e a atenção que o velho palhaço lhe rendia comoveram Terry. Ela se sentia segura ao lado dele, e ele pacientemente a ajudou a recobrar as forças - mais mentais do que físicas propriamente. Terry se sentia incapaz de dançar, por isso suas pernas não respondiam. Com sua experiência de vida e seus conselhos, Calvero conseguiu reinjetar vida na jovem. Mais bem disposta, ela finalmente conseguiu um papel em um balé. Era pequeno, mas ela ajudava a pagar o aluguel e a sustentar aquele a quem julgava ser seu amor. Calvero tinha consciência da diferença de idade, e de que não podia sustentar aquela ilusão da jovem. Perguntou a ela se não haveria algum rapaz por quem ela tivesse se interessado, e ela contou a história do jovem músico a quem ela ajudou quando trabalhava em uma papelaria. Ele ia comprar pautas para compor, mas nunca tinha dinheiro suficiente. Consciente do problema que ele passava, ela sempre ajudava, dando pautas extras ou troco a mais, para que ele pudesse comer um pouco. Mas um dia ela foi pega pelo dono da loja, e então fora demitida. Certo de que este rapaz era o amor da vida de Terry, ele tentava fazâ-la enxergar a realidade. Mas a jovem estava cega de amor e gratidão, não queria ouvir falar de outros homens para ela. Nem mesmo quando o jovem músico se tornara famoso e fora trabalhar na peça em que ela faria uma audição para o papel principal Terry lhe deu atenção. Ela o reconheceu, mas seu coração estava cheio de Calvero - que também estava ali para tentar um retorno aos palcos. O músico a reconhecera e quis puxar assunto, mas ela pouco lhe deu atenção. Estava feliz por ter conseguido seu papel, e por Calvero, que voltaria a se apresentar. A apresentação de Terry é um sucesso, e o povo a ama. Sua dança é impecável, apaixonante, e ela se torna uma estrela. Neville (Sidney Earle Chaplin), o músico, ainda tenta outros encontros com Terry, mas ela não parece ligar a mínima para ele. Calvero sente que a menina desperdiça seu tempo com ele, mas nada pode fazer: ela faz bem à ele também, que voltou a ter vontade de viver e atuar depois que eles se encontraram. Partir seria difícil e doloroso para ambos.

Mas era necessário. Após o triunfante début de Terry, Calvero resolve partir. Vai viver de sua arte, daquilo que o fazia bem. Trabalhar por amor à profissão, fazer rir. Nem que para isso fosse difícil conseguir um prato de comida no fim do dia. Num desses bares onde se apresentava, encontra-se com Neville. Depois desse encontro, Terry descobre onde ele estava e vai buscá-lo para conseguir trabalhar novamente no teatro, em uma peça junto com ela. O dono do teatro, fã de Calvero, prontamente aceita. E então chegamos na parte mais emocionante do filme. A peça final é uma mistura de várias esquetes, onde os atores e bailarinos teriam direito a alguns minutos no palco. A parte de Calvero era ser palhaço em duas delas: na primeira, ele contracena com bailarinas e outros palhaços; na segunda, seria uma performance em dupla com seu antigo parceiro de palco. Uma esquete pastelão, em que dois músicos atrapalhados tentam fazem música com um piano que não toca e um violino quebrado. O grand finale seria uma cambalhota e uma queda num bumbo, para fazer todos rirem às gargalhadas. E assim foi. Mas a queda foi muito dura para Calvero, que já não era mais nenhum jovem. Com o público indo à loucura com o triunfo da esquete, como ir embora sem se despedir? Num último esforço, Calvero pede para que o carreguem, ainda atolado no tambor, e agradece ao público, fazendo uma última piada. Levado para a coxia e colocado em um sofá cenográfico, espera por atendimento. Terry vem falar com ele antes de se apresentar, mas o show não pode parar. Calvero ainda não tinha visto a moça no palco, então pede que o levem para vê-la, compreendendo que aqueles eram seus últimos momentos. E ali ele morre, feliz por ter ouvido novamente o riso do público, por ver sua menina dançando belamente, dentro de um teatro - o lugar a que pertencia.

O palhaço e a bailarina: mesmos sonhos, tempos diferentes
O filme é lindíssimo. É triste, sim, mas a mensagem que passa é de vida. As palavras incentivadoras de Calvero para Terry são pertinentes, e nos instigam a pensar em nós mesmos e o que estamos fazendo com nossas vidas, com o tempo que nos é dado. A experiência do velho palhaço o fez sofrer quando o sucesso que ele conquistou foi embora, mas ele ainda tinha forças para lutar e querer ser feliz. A jovem Terry, que teria se matado porque não se sentia capaz de nada, conseguiu realizar seu sonho e ter uma promessa de futuro brilhante graças aos conselhos que teve. Eu fiquei extremamente emocionada com esse filme, e admiro cada vez mais o gênio que foi Charles Chaplin. Se suas nada ingênuas comédias, que lançavam um olhar crítico sobre nossa rotina e nos fazia rir do ridículo de nós mesmos, já eram o suficiente para que eu me considerasse fã, essa linda e melancólica obra me fez amá-lo de verdade. Raras são as pessoas que tem tal sensibilidade, tal clareza de percepção da vida, e mais raras ainda são aquelas que conseguem transmitir isso. Principalmente com essa grandeza de espetáculo. Um filme obrigatório na lista de qualquer cinéfilo que se preze e na vida de qualquer ser humano. Obrigada, Chaplin.

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