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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A vida é um cabaré

Senhoras e senhores... Bem-vindos ao Kit Kat Club!
Cabaret (Cabaret, 1972) é um filme estranho. Estranho como sua personagem principal, Sally Bowles - aquele tipo de estranho peculiar, que nos deixa curiosos, que envolve e irrita ao mesmo tempo. Em tempos de pré-guerra, o cabaré é o local onde as pessoas ainda encontram lugar para o riso, onde tudo ainda parece normal. As oportunidades vão minguar, o mundo vai mudar, mas o cabaré vai continuar o mesmo. Um lugar estranho, porém divertido, onde pessoas simples tem sua chance de ser estrelas. Como não querer fazer parte disso? Sally é assim: divertida, excêntrica, meio infeliz. Mas quem não é? 

No cabaré alemão Kit Kat Club, a cantora americana Sally Bowles (Liza Minnelli, impressionante) é a maior das atrações. Com voz doce e ritmo alucinado de dança, a jovem é a maior estrela do local. Ela vive em um pensionato e acaba por ser a anfitriã do jovem e tímido professor inglês Brian Roberts (Michael York), que chega à Alemanha em busca de oportunidade. Eles são o típico caso de pessoas opostas que se completam: ela, sempre espoleta; ele, sempre calmo. A amizade entre eles cresce, conforme o professor vai se adaptando à vida no local. Com a ajuda de Sally, consegue seu primeiro aluno, Bobby (Gerd Vespermann) - um jovem alemão que pretendia se casar com uma rica socialite e aprendia inglês para aumentar suas possibilidades.

As vidas do trio mudarão quando a senhorita Natalia Lindauer vai ter aulas de inglês com Brian. Linda e rica, ela desperta os ciúmes de Sally e rouba o coração de Bobby. A amizade do quarteto se fortalece com o passar do tempo, e Bobby está cada vez mais apaixonado. Porém, a ascensão nazista vai atrapalhar o possível namoro: Natalia é judia e sua família já começa a sentir a pressão do movimento: retaliações, pixações, crueldades de todos os lados. Para o bem de seus amigos, ela se afasta. Mas Bobby não quer saber desse afastamento. Abrindo o coração para Brian, este declara que é, na verdade, judeu, mas que havia se declarado cristão ao chegar a Berlim por medo. Com medo de que Natalia o considere um mentiroso, ele esconde esse segredo dela. Aconselhado por Brian, ele abre o coração para a jovem e depois se casam. 

Sally (Minneli) e sua impressionante performance no palco do Kit Kat Club
E sobre Sally e Brian? Bem, a vida foi um pouco mais cruel com eles. Sally, impulsiva que só, havia começado um "relacionamento aberto" com Brian. Após perguntar de forma bem direta se ele gostava de homens (um comportamento escandaloso para mulheres à época, perguntar intimidades a um homem - ainda mais da forma como ela perguntou) e provocá-lo por um tempo, eles começaram um tipo de namoro. Foi quando Maximillian Von Heute (Helmut Griem, perfeito) entrou em sua vida. Ainda pouco acostumada à língua alemã, ela se enrolava enquanto tentava explicar à lavadeira que queria suas roupas prontas para terça-feira quando Max a ajuda. Rico e bonito, oferece a ela um vislumbre do que seria sua vida se ela fosse realmente uma estrela do cinema. Encantada, ela arrasta Brian com eles para eventos e viagens, Max comprando para ela casacos de peles e todas as mordomias, e tentando ganhar/comprar a confiança de Brian - a essa altura, morto de ciúmes de sua Sally.

Passado algum tempo, algo começa a se agitar dentro de Brian. Ele percebe que não se afastou de Max pelo mesmo motivo que Sally - ambos estão atraídos por ele. E Max corresponde a esse sentimento. Sally parece não perceber que algo entre eles está para acontecer, mas se vê feliz por poder ter os dois homens que ama com ela. Quando o limite é ultrapassado, o encanto se quebra. Max e Brian se despedem de forma estranha, indicando que não haverá volta, e Sally finalmente percebe o que houve. Ela sabia que Brian havia tido poucas relações com mulheres antes dela e que ele talvez gostasse de homens, mas eles se davam tão bem e amam um ao outro da forma estranha e extraordinária (como ela mesma diz) que ela talvez não tenha percebido. 

Como uma forma de se punir, camuflada na raiva por ser um estrangeiro acompanhando a ascensão de um movimento racista e violento (como se estivesse prevendo os horrores que viriam a ser seguir), Brian se mete em confusões com os nazistas, arrumando brigas para apanhar. Sally cuida dele quando volta para casa e as pazes são feitas. Novo desafio para o casal: Sally descobre que está grávida, sem ao menos saber se o filho é de Max ou de Brian. Animado com a  notícia, Brian propõe que eles se casem e que vão viver no interior da Inglaterra, sua terra natal. Sally aceita, mas depois reavalia sua decisão. Esse é um momento crítico do filme, o choque de realidade de Sally é impactante. Ela opta pelo aborto e enfrenta as consequências  a raiva de Brian, a frustração de ambos por verem a impossibilidade do sonho vir a se tornar realidade, a condição de Sally se tornar uma futura dona de casa infeliz e ver sua chance de ser uma estrela jogada no lixo de vez... É uma sequência realmente comovente. O filme termina com o casal se despedindo, ele voltando para casa e ela para o palco do Kit Kat. Cada um procurando seus sonhos e levando na bagagem o aprendizado que tiveram no tempo em que estiveram juntos. Sally volta ao palco para um último número emocionante, onde põe o coração na canção que canta e se mostra à beira das lágrimas durante a performance, tal qual estava antes de se apresentar, porém seu radiante sorriso está intacto. Afinal, o show não pode parar.

Brian e Sally, celebrando a vida antes do choque de realidade
O Kit Kat, em si, é um ótimo personagem. O enigmático e quase assustador apresentador do espetáculo, vivido por Joel Grey, funciona como a consciência do espectador. As canções do filme são colocadas entre as outras cenas da trama de forma a provar um ponto de vista. Quando o trio "assume" uma postura de um relacionamento a três, a canção do cabaré satiriza a relação de um homem com duas mulheres, por exemplo. Ou quando a brutalidade da perseguição nazista começa a se tornar mais presente, o apresentador vem com suas meninas dançando obscenamente para logo em seguida se transformarem em um exército alemão (uma alfinetada na dissimulação das boas intenções dos nazistas). O próprio apresentador (que não tem nome) pontua com suas caretas as entonações e denotações a serem dadas na cena (a mais emblemática delas é durante a apresentação da música sobre o casamento, mais não conto para não estragar a surpresa para quem não viu).

Liza Minnelli está absurdamente à vontade com sua personagem, sendo impossível desassociar uma da outra. Ela não parece estar atuando, em momento algum. Um trabalho brilhante, merecedor de todos os prêmios recebidos por ela. Confesso que não sabia muito mais dela do que das poucas vezes em que a vi no "Domingão do Faustão" cantando algumas músicas (e faz anos que ela não aparece), e não ligava muito para o nome. Mas essa interpretação me impressionou: é o que eu realmente acho que atores e atrizes devem fazer: ignorar a própria persona e se jogar de cabeça no personagem, sem julgamentos, sem freios. Sally é elétrica, mas tem uma melancolia profunda - só que não deixa se abater por nada no mundo, tenta ser uma estrela o tempo todo. E não há resquícios de interpretação na tela, é uma Sally viva e não uma personagem bem interpretada que salta aos olhos. Não tenho palavras para demonstrar a admiração que tenho por este trabalho. Além disso, os outros atores também estão muito bem, principalmente York (Brian) e Griem (Max). A tensão entre o trio é perfeita. Parabéns ao diretor, que soube conduzir o filme com classe, sem apelar para extremos.

Um filme corajoso, que fala de amor, guerra, sonhos e desilusões. Uma interpretação absurdamente impressionante de Liza, um clube de vida própria e que simula a vida em si, uma estória sobre coragem de ser você mesmo, sem medo de ser feliz - ou infeliz. Arrisque e talvez ganhe, ou sempre perca. Essa me pareceu ser a lição final do filme. E aproveite a vida, porque uma hora as luzes irão se apagar. De vez.

1 comentários:

Anônimo disse...
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