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sábado, 4 de maio de 2013

Mais que amigos

Mary (Whitmore): sua curiosidade sobre o mundo a fez descobrir a amizade verdadeira
Não, não estou falando de um relacionamento amoroso. Estou falando de um nível de amizade maior do que a compreensão humana, mais profundo que qualquer outro que se tenha notícia. Mary e Max - Uma amizade diferente (Mary & Max, 2009) é um filme lindíssimo e tocante; uma animação fofa e uma história forte, que toca o coração - mesmo aquele mais duro e congelado. Uma menininha australiana e um senhor obeso de Nova York, duas pessoas completamente distintas e distante como somente o mapa mundi seria capaz de separar, se complementam quando se conhecem. 

Mary Dinkle (voz de Bethany Whitmore quando criança e de Toni Collete na fase adulta) é uma criança típica, curiosa e de imaginação fértil, mas encontra dificuldades em se socializar com outras crianças. Desengonçada e com todos os problemas que tem em casa (com uma mãe alcoólatra e cleptomaníaca e um pai ausente do dia a dia da menina), com uma mancha de nascença em sua testa que faz os meninos rirem dela, Mary é uma menina estranha, fora dos padrões. E isso faz com que ela não tenha nenhum amigo. Um dia, Mary foi com a mãe nos correios e, curiosa, perguntou-se porque tinham tantos nomes estranhos e endereços em um livro de lá. Resolveu anotar um deles, aleatoriamente, e resolveu que escreveria para lá. Foi assim que ela conseguiu o endereço de Max Horowitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um senhor judeu - que tornou-se ateu - obeso e que sofria de uma doença chamada Síndrome de Asperger (um tipo de autismo), em que ele tem crises fortes e paralisantes de ansiedade e dificuldade em reconhecer expressões faciais. O que fazia de Max uma pessoa estranha, fora dos padrões. E ele também não tinha nenhum amigo - exceto seu amigo imaginário, que, depois das sessões de terapia, passou a ficar no seu cantinho lendo um livro enquanto Max tentava viver.

Max (Seymour) lendo a primeira cartinha de muitas. A influência de Mary na vida de Max é traduzida nas cores
A pergunta que Mary faz a Max em sua cartinha é a típica pergunta embaraçosa que as crianças fazem e que deixam os pais de cabelo em pé: de onde vem os bebês? Para ser simpática, ela envia também uma barra de chocolate para Max (que ele adorou, tanto que estava disposto a passar para ela sua receita exclusiva de cachorro-quente de chocolate). A simples pergunta acabou por desencadear uma crise de ansiedade em Max, mas ele ficou também tentado a responder aquela cartinha. Afinal, ele tinha três objetivos na vida: completar a sua coleção de Noblets (miniaturas de bichinhos que fazem parte de um programa de televisão, o favorito de Max e de Mary também) ,um suprimento de chocolate para a eternidade, além de ter um amigo que não fosse imaginário. Se ele respondesse à cartinha de Mary, ele poderia conseguir ter um amigo. E foi o que ele fez. Retribuiu a generosa descrição da vida de Mary em sua cartinha (em que ela falava dos Noblets, da mãe, do pai, do vizinho veterano de guerra e agorafóbico, do seu galinho de estimação) com uma descrição da sua: os encontros do programa de redução de peso, do assédio da colega de programa, seus primeiros empregos, sua doença, sua vizinha ainda mais velhinha que ele, seus bichinhos de estimação. E, claro, ele responde à pergunta de Mary sobre onde vem os bebês - e a resposta não é nada convencional.

O que não assustou a pequena Mary. Aliás, ela ficou muito feliz de ter recebido a resposta da sua cartinha, significava que ela tinha mesmo um amigo. Ainda mais um amigo que gostava de Noblets e de chocolate também. Mary então resolveu escrever outra carta, contando mais do seu dia a dia e perguntando novas coisas, sua curiosidade sobre o mundo era imensa. Max acabou tendo outra crise de ansiedade, dessa vez mais severa, quando Mary o perguntou sobre o que o excitava e ele não soube o que responder. Max precisou ser internado e ficou muito tempo sem responder à Mary. Ela acreditava que ele já não iria mais responder, que tinha se cansado dela. Em um momento de raiva, queima as cartas que seu amigo mandou. Quando Max finalmente se recupera, resolve escrever novamente para Mary. E a menina finalmente acredita que tem um amigo de verdade, e então a troca de cartas entre eles passam a ser uma constante. Além das cartas, pequenos presentes são trocados entre eles - como o vidrinho de lágrimas que Mary mandou para Max depois que ele comentou que não conseguia chorar de verdade.

Max (Seymour): velho, obeso, ateu e autista.
Mary cresce, torna-se uma adolescente complexada (sua adorável manchinha de nascença na testa era funcionava como um ímã para deboche dos meninos) e sua paixão platônica pelo vizinho grego e gago Damian Popodopoulos (voz de Eric Bana) também é relatada para Max. Um dia, Mary resolve pegar suas economias e fazer um procedimento estético para retirar a mancha. Com o novo corte de cabelo e sem a manchinha, Mary ganhou confiança o suficiente para paquerar Damian. Eles se casam e Mary não esquece de seu melhor amigo Max, sempre contando para ele de sua vida e recebendo notícias dele. Mary cresceu, casou-se com Damian, e resolveu estudar sobre doenças mentais na faculdade. Foi brilhante em sua especialização em Síndrome de Asperger, a doença de seu amigo Max. Ao contar-lhe, feliz da vida, que o livro que ela escreveu em sua homenagem, contando seu caso e enviando uma cópia dele para seu amigo, Mary não poderia adivinhar a angústia que lhe causaria. Sentindo-se traído, com raiva e uma ansiedade sem precedentes, sem saber como explicar seus sentimentos, Max simplesmente não consegue responder a Mary. Não sabe o que fazer. Então, ele arranca a letra M de sua máquina de escrever, a que ele usava para escrever à Mary, e a envia para a Austrália. Ao receber aquilo como resposta, Mary entende que Max havia terminado a amizade entre eles. Então o caos se estabelece na vida de dela: sem o amigo, os pais já haviam falecido, o marido resolve assumir sua homossexualidade e ir morar com um pastor de ovelhas. Em nome da amizade e do amor que sentia por Max, Mary destruiu todos os livros antes de irem para as lojas. Mas sem seu amigo para conversar, o mundo perdeu o sentido para ela.

Enquanto isso, Max tentava reaver a vida que tinha antes de conhecer Mary. Continuava indo ao grupo de apoio para obesos mórbidos, à terapia, comprando novos peixes quando o que tinha morria, acompanhando o resultado da loteria. Até o dia em que, finalmente, os números em que sempre apostava foram sorteados. Hora de rever suas metas: com o dinheiro, ele pode comprar os chocolates que queria para toda a vida e completou sua coleção de Noblets. Faltava o terceiro item, aquele que era o primeiro da lista. Faltava o amigo, que não era imaginário. Ele teve essa amiga, mas ele havia terminado com ela. Pensando em reativar a amizade, ele envia para ela toda sua coleção de Noblets para Mary, junto com sua carta explicando o que havia se passado, querendo que ela o perdoasse - quando ele não conseguiu fazê-lo à época. Então a amizade salva a vida dos dois mais uma vez.

As diferentes fotografias ajudam a entender as semelhanças e diferenças dos mundos
Deprimida, Mary estava prestes a se matar quando a encomenda chegou. Uma feliz coincidência fez com que o vizinho agorafóbico o fez finalmente enfrentar seu medo e ir até a casa de Mary (era só atravessar a rua) para chamá-la e avisar que a encomenda estava em sua porta. Max salvou a vida de Mary, assim como ela havia salvado a dele quase 20 anos antes, no dia em que ela mandou uma cartinha para um desconhecido perguntando de onde vem os bebês. No dia em que ela iniciou aquela amizade, eles assumiram um compromisso de cuidar um do outro, involuntariamente. Mary sobreviveu ao caos de sua vida e pode dar vida a seu bebê graças ao pedido de desculpas de Max, e suas economias agora estavam focadas para um objetivo: sumir com a distância física entre eles. Eles conheciam os rostos um do outro graças às fotos e desenhos que tinham trocado, mas pessoalmente, nunca haviam se visto. Não tinham ouvido as vozes um do outro. Um dia, Mary chega à Nova York, com o endereço do amigo querido e um bebê à tiracolo, feliz da vida por finalmente conhecer seu amigo de tantos anos. Mas Max não estava mais lá. Havia partido desta vida com  um sorriso no rosto, contemplando as cartinhas que sua única amiga, aquela que não era presente fisicamente, mas também não era imaginária, a que lhe alegrou a vida por muitos anos e que o havia trazido de volta à vida. 

O filme todo é divertido e ao mesmo tempo trata de assuntos espinhosos, pesados, numa abordagem leve e tocante. É de uma sensibilidade absurda a forma como a inusitada amizade é mostrada na tela: dois opostos que são tão próximos e tão distantes, um paradoxo tão complexo e simples de ser resolvido - eles precisavam de um amigo, e se encontraram no mundo. Os destinos trágicos desenhados, os passados traumáticos, tão vivo, tão humano, tão real pintado em tons fortes na emoção e em preto e branco e tons pastéis na tela - uma solução interessante para aproximar e distinguir as estranhas vidas desses personagens já tão queridos. Os bonequinhos são uma fofura e a produção, direção de arte, criação de miniaturas, fotografia, roteiro - tudo é um primor de acabamento, dedicação, carinho. Um filme que me tocou o coração e me fez chorar, mas que não deixou meu coração triste. Entrou fácil pra minha lista de favoritos, e foi a mais bela surpresa do ano no blog até agora.

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