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domingo, 28 de julho de 2013

O desperdício de uma boa polêmica


Eu não sei vocês, mas sou daquelas pessoas que adoram teorias da conspiração. E exatamente por isso me pareceu muito interessante a proposta de Anônimo, que adota a antiga teoria que questiona a autoria de clássicos da dramaturgia mundial normalmente atribuídos a um tal de William Shakespeare. Se gente como Freud, Orson Welles e Charles Chaplin e outros estudiosos tiveram suas dúvidas, é porque deve ser uma discussão válida. Só não atentei para um detalhe: o nome de Roland Emmerich nos créditos. Diretor de filmes catástrofe como Independence day, 2012 e O dia depois de amanhã, seria esse o sinal de que viria um novo desastre pela frente? Ou a figura do autor não é mais importante do que a obra em questão? Está aí uma boa pergunta que o filme insiste em ignorar.

Segundo o filme, o Bardo não passava de um ator medíocre em busca de fama a qualquer preço. Macbeth, Romeu e Julieta, Othello e tantas outras peças que hoje fazem parte do imaginário coletivo nasceram da mente fértil e culta do conde Edward de Vere (Rhys Ifans), um nobre que não queria arriscar sua posição social e riqueza nos teatros populares da Inglaterra elizabetana. Então o verdadeiro dramaturgo pede a Ben Jonson (Sebastian Armesto) que assuma suas criações. Mas, diante da hesitação deste, devido a divergências criativas, Shakespeare (Rafe Spall) vê a oportunidade perfeita e toma a iniciativa. Deslumbrado pelo sucesso, desmancha-se a cada aplauso da multidão e age com pouco ou nenhum escrúpulo para manter o status. Em outras palavras: um fanfarrão.


Desnecessário dizer que os personagens apresentados são apenas caricaturas: o covarde, o ambicioso, o invejoso e por aí vai. A galeria de tipos aumenta com os representantes da corte: a rainha Elizabeth, por exemplo, vivida na juventude por Joely Richardson e na idade avançada por sua mãe, Vanessa Redgrave. A monarca vai de uma mulher frívola e inconsequente a uma senhora ingênua e fria em cada alternância de cenas. Os vilões, William Cecil (Jamie Campbell Bower e David Thewlis, prejudicado por uma maquiagem pouco sutil) e seu filho, Robert (Edward Hogg), que planejam manipular a sucessão do trono, não poderiam ser mais maquiavélicos.

Mas tudo seria perfeitamente aceitável se o filme tratasse da teoria com certo humor ou ironia, como uma farsa. O problema é que roteirista e diretor acreditam piamente na história, mas se perdem na hora de conduzi-la. A ambientação temporal é bastante confusa desde o início, quando se alternam períodos diferentes com uma rapidez alucinante, deixando o espectador um bocado perdido no meio de tantos personagens. Já a revelação bombástica feita ao conde no seu terço final só torna a trama ainda mais novelesca e pouco crível. 


Mas acredito que o maior equívoco do longa seja reduzir a importância de Shakespeare como criador, seja ele um nobre conde ou um ator semianalfabeto. Suas peças são tratadas como mera propaganda política (visão que culmina com uma sequência de revolta bem inverossímil) e não como obras que reverberam na cultura mundial até hoje. Por todos esses motivos e também por não admitir que é apenas uma das inúmeras versões para a verdadeira identidade do autor em discussão, Anônimo não passa de uma falsa polêmica, se torna apenas uma teoria questionável que se leva a sério demais.

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