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domingo, 11 de agosto de 2013

Criança sim, inocente nunca


Rhoda Pennmark (McCormack): 
quem diria que essa doce garotinha poderia ser tão má?


A tara maldita (The bad seed, 1956) é o típico caso de ótimo filme com o título pessimamente traduzido. Literalmente, the bad seed pode ser traduzido como 'semente ruim', ou 'semente do mal'. Faria muito mais sentido. Tudo bem que a visão de psicopatia infantil ser gerada por um componente genético e/ou do ambiente em que ela cresce é bem deturpada, mas temos que ser compreensivos: eram plenos anos 1950, nos EUA mais conservadores do mundo, em que Hollywood fazia filmes glamourosos e alegres musicais, então tratar de uma criança que não sente remorsos pelos crimes que comete, bem, era um grande passo - e precisava de uma 'boa' explicação.

Rhoda Pennmark (Patty McCormac, assustadora) é apresentada como a filha que toda mãe queria ter: obediente, inteligente, nunca dava trabalho. Até que a simpática senhora Mônica Breedlove (Evelyn Varden) a lembra de um concurso de caligrafia que a pequena havia perdido. Imediatamente Rhoda se transfigura, mal contendo toda a raiva que sente da criança que lhe 'roubara' a medalha. Para que ela esqueça desse pequeno dissabor, a senhora lhe oferece um colar de muita estima, e Rhoda mostra-se interesseira - o que deixa sua mãe Cristine (Nancy Kelly) perplexa e envergonhada. Ali ela já começava a desconfiar de que havia algo errado com seu anjinho. A quem a pequena nunca enganou foi ao faz-tudo LeRoy (Henry Jones, excelente). Ele se descrevia como um homem mau, e que reconhecia na garota todas as características dos maus.

Rhoda (McCormack) e LeRoy (Jones): os maus, assim como os loucos, se reconhecem
Quando o coleguinha de Rhoda aparece morto na escola onde ambos estudavam, o mundo cor-de-rosa de Cristine começa a desmoronar. Rhoda se comporta como se nada tivesse acontecido - não está em choque, nem melancólica, nem absorta... Apenas parece não ligar para uma tragédia tão próxima à ela. Cismada com o comportamento da filha, Cristine procura saber com os amigos e com o próprio pai sobre o comportamento estranho dela. O marido de Cristine, Kenneth (William Hopper), estava ausente por conta de seu trabalho no Exército, mas ligava para saber notícias da sua adorada filha - e Cristine, como toda boa esposa dos anos 1950, dizia que estava tudo perfeitamente bem.

Mas Cristine descobriu a medalha do menino morto entre os tesouros de Rhoda e desconfiou que ela tivesse algo a ver com o acidente fatal no píer. Depois de muita enrolação por parte da menina, que tentava de toda forma agradar à mãe e fazê-la mudar de assunto, ela consegue a verdade quando Rhoda já não tem mais como fugir. Após uma emocionante visita da mãe do garoto, aquela mulher bêbada e arrasada que entrou por sua porta querendo expiar um pouco da dor pela perda do único filho e da vida dura que teve somente por saber o que realmente aconteceu, mexeu com Cristine. Hortense Daigle (Eileen Heckart, excelente) era uma mulher miseravelmente destruída, e Cristine sabia que sua filha, seu anjinho, tinha sido responsável por isso. Foi quando a viu se esgueirando do quarto pra jogar algo no incinerador que ela teve certeza de que a filha tinha matado o coleguinha: os sapatos de salto especiais para sapateado que ela mesma fizera pra filha podiam produzir as marcas estranhas encontradas no garoto. Então Rhoda já não tem mais como fugir, e só lhe resta esperar que a mãe seja sua cúmplice.

Bêbada, a sra. Daigle (Heckart) vai atrás da última pessoa que viu seu filho vivo
Atormentada pelos sentimentos tão adversos de justiça, pena pela desgraça da família Daigle, o horror de descobrir que sua filha já tinha cometido outros crimes antes e seu imenso amor pela única filha, a fazem cair num poço de desespero sem fim. Decidida a proteger a filha, após a confissão de Rhoda, ela espera que ao incinerar o par de sapatos usados no crime elas possam dar um fim ao caso, esquecer que tudo aquilo aconteceu e voltar a ser felizes. Mas LeRoy, atentando o juízo da menina, consegue descobrir a verdade e fica aterrorizado por descobrir que ela realmente matou o garoto. LeRoy, na verdade, é meio doente e instigava a menina dizendo que ela era tão malvada quanto ele, mas o que parecia era que ele falava isso mais para intimidá-la do que se ele realmente fosse mau. Após seu crime descoberto pelo pobre trabalhador, Rhoda decide eliminar também aquela ameaça. Sentindo que a tragédia não terá fim, Cristine decide que ela então teria que dar um fim a isso...

Opa, quase me esqueci. No fim do filme, após o desfecho da história, há um interessante aviso aos espectadores para que não divulguem o final do filme, para que a surpresa não seja perdida. Ok, o filme tem pra lá de 50 anos, mas aposto que muita gente deixou de ver porque não levou a sério o equivocado título traduzido. Mas vou evitar falar de como se deu o final, apesar de eu já ter falado bastante do enredo. Confesso que podia ser melhor, se não existissem os 5 minutos finais, mas fez sentido - levando em conta, sempre, que o mote do filme era de difícil digestão (ainda é, não é verdade?) e que a sociedade era muito mais conservadora que a de hoje em dia. As atuações brilhantes de Heckart e Jones, como a pobre mãe do menino morto e do meio abobado faz-tudo que só queria meter medo nos outros. Patty McCormack também impressiona, sua transformação súbita de anjinho-doce-de-menina para a careta enfurecida e ameaçadora de seu lado mais obscuro é de espantar. Manipuladora, interesseira, ambiciosa, sem remorso; a primeira psicopata infantil do cinema. Apesar do final, um bom filme.

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