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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ih! O Bruce Willis...


Não. Eu não vivenciei aquela incrível surpresa ao final de O Sexto Sentido na primeira vez que assisti ao longa. Lá, nos tempos do VHS, cometi o erro de assistir ao longa com a minha mãe, e pelo meio da sessão ela percebeu (inconvenientemente em voz alta): ih! O Bruce Willis...

O final da frase acima você já deve imaginar. Se não, admito, tenho inveja de você, que ainda pode se surpreender com este filme que colocou o, agora malfadado, nome de M. Night Shyamalan no mapa. E me questiono, como ainda você não sabe?

O psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis), ganhou um prêmio por seu trabalho e viu um de seus pacientes cometer suicídio na mesma noite. Após viver céu e inferno com a distância de segundos, não é de se admirar que ele precise recuperar a auto-confiança. É nesse momento que ele decide tratar de Cole (Haley Joel Osment), que aos 8 anos apresenta problemas semelhantes ao de seu paciente suicida.

Simples assim. O roteiro acompanha a relação entre médico e paciente, assim como a relação de Cole com sua mãe, e de Malcolm com sua esposa, enquanto tenta desvendar o que realmente acontece com o menino. Apesar do contexto de mistério, são as relações que dão o tom de suspense.

Intimista e sem exageros Shyamalan leva o espectador a vivenciar o dia-a-dia destas "pessoas comuns". Como não se importar com quem você toma café da manhã ou faz compras no mercado? As informações incomuns que ajudam a desvendar o mistério, são apresentadas de forma orgânica, a maioria passa despercebida, sendo notada apenas quando desvendada a importância de seu conhecimento, ou nem isso.

Cena estrategicamente pensada para te enganar!

Claro! Para basear o filme apenas em seus personagens e relações, estes tem de ser bem construídos, o que inclui o trabalho do elenco. Sim, a maioria de nós vai tratar Malcolm pelo nome de seu intérprete e não pelo nome de seu personagem. O que não significa que Bruce Willis não entrega um ótimo trabalho ao mostrar a dedicação, fragilidade e ansiedade de seu psicólogo, que tenta compreender e solucionar dois grandes problemas: o quadro de Cole, e o distanciamento de sua esposa. Não aprendemos a chamá-lo de Malcolm, mas acreditamos e nos preocupamos com ele da mesma forma.


Haley Joel Osment já tinha 11 anos (e não 8 como seu personagem) quando deu vida a Cole. Ainda assim idade pouca para um personagem tão complexo. Mesmo assim, o menino entrega um personagem incrivelmente verossímil, apesar das coisas impossíveis que o cercam. Construindo um menino atormentado com trejeitos e expressões sutis.

Menos alardeada, mas tão eficiente quanto, Toni Collette apresenta uma mãe dos nossos tempos. Abandonada pelo marido, trabalha demais para conseguir criar o filho sozinha. Não consegue compreender o que se passa com Cole, sabe que o filho está sofrendo e sente que não tem as ferramentas para ajuda-lo. É muito peso para uma pessoa carregar, e Collette deixa isso evidente. Mesmo assim é uma personagem forte, que não desiste e com doçura faz o melhor que pode pela felicidade do filho. Seja empenhando uma corrida em um carrinho de supermercado, ou inventando um dia melhor do que tiveram.

É fato, 99% das pessoas, quando questionadas, vai lembrar de O Sexto Sentido como o filme com uma das melhores reviravoltas do cinema. Mas a grande revelação não seria nada se roteiro e personagens bem construídos e desenvolvidos não nos fizessem importar tanto com eles. E nem mencionei a direção de arte e fotografia melancólicas que ajudam a dar o tom daquele triste universo. Duvida? Faça o teste, remova tudo da equação e o surpreendente "ih! O Bruce Willis..." não terá efeito nenhum.

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