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sábado, 24 de agosto de 2013

Vale a pena ver de novo (e de novo)


Você só vai entender completamente esta cena quando revir o filme
Existem alguns filmes que são surpreendentes quando se vê pela primeira vez, mas perdem um pouco da graça quando você revê porque o elemento surpresa do final do filme foi revelado e já não tem impacto quando revelado de novo. Esse, definitivamente, não é o caso de O sexto sentido (The sixth sense, 1999). O filme tem uma revelação chocante logo no meio do filme e o final pegou muita gente de surpresa quando o filme foi lançado. E como só foi revelado na última sequência, os últimos 5 minutos de filme, pode dar essa falsa sensação de que rever não vai ser mais tão legal. Não é verdade. A história é muito boa e a abordagem do diretor M. Knight Shyamalan foi bastante criativa (o que, aliás, fica mais evidente quando se revê o filme). 

O filme começa num momento tranquilo a vida do Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis, quase inexpressivo como sempre) e sua esposa: eles comemoravam a placa de reconhecimento pelo trabalho do psicólogo com crianças na Filadélfia. A comemoração foi interrompida quando o casal foi surpreendido por um ex-paciente de Crowe invade a casa deles, acusando-o de não o ter ajudado, de não ter compreendido seu problema. Decidido a dar um basta e com uma raiva incontrolável, ele atira no doutor e depois em sua própria cabeça. Atormentado pela culpa de não ter podido ajudar Vincent (o problemático rapaz), Malcolm fica obcecado com o caso. Quando ele vê que o pequeno Cole Sear (Haley Joel Osment, provável garoto-mais-fofo-de-Hollywood-de-todos-os-tempos) e sua ficha incrivelmente parecida com a de Vincent, ele se decide: precisa ajudar aquele garoto porque sente que assim estaria ajudando ao outro menino do passado.

Cole mora com a mãe, Lynn (Toni Collete, maravilhosa como sempre) e é o típico menino desajustado: usa os grandes óculos do pai, sem as lentes, como uma máscara para se proteger do mundo, brinca com seus bonequinhos, não tem amigos na escola. Malcolm tem uma primeira conversa com Cole rapidamente, dentro da igreja (um local bem incomum para uma consulta) e conquista, aos poucos, a confiança do menino - até que ele lhe revele seu grande segredo. Após ser preso em um armário por seus colegas de escola durante uma festinha de aniversário, Cole precisou ir para o hospital: sem compreender o que realmente se passou, a mãe acreditava que o filho tivesse sofrido algum ataque de pânico, histeria ou convulsão dentro do armário, pois saíra de lá machucado. Os médicos chegaram a pensar que a própria mãe maltratava o menino. Cole então revela a Malcolm que ele podia ver gente morta, e que às vezes eles tinham tanta raiva que o machucavam. Frustrado em não poder ajudar o pequeno, pois acredita que ele sofre de paranoia e está além de seu poder ajudá-lo. Em casa, sua situação com a esposa piora cada vez mais. O casal quase não conversa mais e está se distanciando cada vez mais, e tudo por causa da obsessão de Malcolm em ajudar Cole.

A obsessão de Crowe (Willis) em solucionar o caso de Cole (Osment) o consumia
É nessa hora que as coisas começam a mudar. escutando novamente uma fita de uma sessão de Vincent em seu escritório, em casa, Malcolm percebe que o menino realmente estava sendo perseguido por algo que ele não conseguia compreender. Nos poucos minutos que deixou o menino sozinho no escritório e não havia mais ninguém ali, ele ouviu na gravação uma voz chorosa, desesperada, falando em espanhol para Vincent "yo no quiero morrir". Finalmente ele percebeu que era o mesmo que acontecia aos dois meninos: eles eram assombrados realmente por fantasmas, que procuravam ajuda. Ele corre de volta a Cole para informar que ele acreditava nele e que queria continuar ajudando o menino. Disse que, talvez, ao que os fantasmas queriam dele era somente ajuda. Então ele encorajou Cole a não fugir, mas a tentar conversar. Quando o fantasma de uma menina aparece no seu canto secreto, em seu quarto, a primeira reação do menino é fugir. mas depois, dominando o medo, ele volta até ela e pergunta o que ela quer dele. Ela queria que ele fosse até a casa dela e mostrasse pro pai a fita que ela gravou, mostrando que a mãe/madrasta a estava envenenando (e, pelos comentários entreouvidos da cena, envenenava à irmã mais nova dela também).

Cole encontrou o equilíbrio, já não tinha mais medo dos fantasmas. Malcolm já tinha feito o que podia para trazer paz para a criança, embora não tivesse podido resolver o problema - mas tinha achado uma solução satisfatória para o garoto. Cole se sente seguro o suficiente para contar à mãe sobre seu segredo (na cena mais emocionante do filme todo, quando ele conta para ela que sua avó - mãe de Lynn, já falecida - o visitava de vez em quando e conta sobre o mistério do pingente e que ela se orgulhava da filha todo dia). Era hora de ele voltar a cuidar de sua esposa, de seu casamento ou ele iria perdê-la em breve. Seguindo um conselho de Cole, Malcolm tenta conversar com a mulher enquanto ela está adormecida no sofá. Só então ele percebe que ele não resistiu ao tiro que levou, que ele não estava vivo. Então todas as frases de Cole fazem sentido: "eles não sabem que estão mortos, não podem se ver", "eles só veem o que querem ver". Finalmente pronto para partir, Malcolm se despede da esposa e ela pode, enfim, seguir a vida.

Cole (Osment) finalmente conta pra sua mãe (Collete) o seu segredo
Quando eu falei, logo no início, que rever o filme é interessante e acrescenta ao filme, eu quis dizer que é só quando a gente revê que percebemos a sutileza do trabalho de Shyamalan. As soluções visuais que ele encontrou para manter o suspense são inteligentíssimas: cortes de cenas na hora certa, direção de atores em cena (nenhum ator esbarra em outro, nem mesmo os figurantes, em momento algum - funciona como uma orquestra, não dá pra perceber que Malcolm está realmente morto até que ele mesmo se dê conta disso), a preferência por maquiagens e mudanças de ponto de vista ao invés de utilizar efeitos especiais mirabolantes... Antes de O sexto sentido, esses recursos não eram tão bem explorados e, principalmente, pareciam ter sido esquecidos nos filmes de terror/suspense. Ok, ele apela quando sincroniza um som alto súbito quando um fantasma cruza a tela, mas nem por isso chega a irritar. Com certeza o filme tem mais méritos pra compensar isso. A começar pela escalação de Toni Collete e de Haley Joel Osment. Toni é excelente, e sua relação com o pequeno é emocionante. Dá pra ver o quanto ela sofre por ter que cuidar do menino sozinha, trabalhando duro, sem entender porque aqueles machucados aparecem ou porque seu filho tem tanto medo. Mas ela nunca deixaria de amar o garoto, e foi como uma leoa para cima das mães dos amiguinhos que possivelmente estavam maltratando Cole. 

Osment é tão talentoso quanto fofo: que vontade de apertar essas bochechas!
E Haley Joel, bem... O que dizer? Extremamente fofo e talentoso, dá vontade de agarrar o menino no colo toda vez que ele fazia cara de assustado. Desde a primeira vez que ele aparece, correndo de Malcolm e indo se esconder na igreja; ele se certificando que a casa está vazia antes de se arriscar a ir ao banheiro, ele contando pra mãe que não mexeu no pingente da avó, quando ele chega pedindo pra dormir com a mãe (se ela não estiver muito brava com ele)... Houve muitas cenas difíceis pra um ator, com extremos de emoção ou situações amedrontadoras (possivelmente traumatizantes, falo por mim - uma medrosa de carteirinha) e, pra usar uma expressão bem acertiva, Haley own it. Impossível nçao se deixar levar por aquela carinha inocente, pelo crescente sutil da narrativa. Shyamalan fez todas as opções certas para o filme, mas sem Haley o filme nunca seria tão bom.

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