3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

sábado, 16 de agosto de 2014

As últimas horas de um péssimo ideal

A Queda ficou conhecido e é frequentemente apontado como o filme que humaniza Hitler. O que não é necessariamente exato. Aliais, apesar do subtítulo As Últimas Horas de Hitler nem é apenas do ditador que trata a reconstrução histórica romanceada.

Traudl Junge (Alexanda Maria Lara)
Apresentado principalmente através do ponto de vista de Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) secretária de Hitler durante o cerco a Berlin dias antes da derrota Nazista. O longa também reserva espaço para personagens menores, alguns até sem nome. Retratando assim como foi a tal queda para os oficiais, os médicos, doentes e civis além do Fuhrer e as pessoas próximas a ele.

Muitos personagens ajudam a contar esta história. Tantos, que mesmo que você não tenha cochilado na aula de história, pode deixar escapar algumas identidades. Nada que prejudique muito, afinal a situação é a mesma para todos: a derrota anunciada, e a negação de seu já decadente, teimoso e insano líder.

E por falar em Adolf Hitler, Bruno Ganz faz um trabalho extraordinário ao oscilar entre o Fuhrer, dos discursos inflamados, imagem carismática e firme em público, e o Adolf da vida real, que fora dos olofotes falava normalmente e era carinhoso e compreensivo com os seus. É nesse ponto que o expectador se assusta, e alega - o filme humaniza Hitler - nada mais equivocado. O filme apenas expõe a figura "não pública" de um homem que aprendemos a demonizar desde pequenos. À certa altura da projeção, inclusive uma personagem indaga: - Ele é tão doce, compreensivo mas as vezes não - ao que sua esposa Eva Braun (Juliane Köhler) responde: Isto é quando ele está sendo o Fuhrer!
Titio Hitler curtindo o coral dos sobrinhos Goebbels
Cercado no gigantesco (pelo numero de pessoas que comporta), mas ainda sim claustrofóbico bunker, Hitler, manda ordens de contra-ataque para tropas que não existem, põe em prática as medidas para eliminar documentos que incriminem o alto escalão do Partido Nazista e sacrifica seus últimos homens como traidores quando este percebem a derrota. Caótico e claramente perdido, sua figura ainda incita admiração e mantém seguidores fiéis, até após seu suicídio. Uma expressão de fé cega, que vai muito além de acreditar em um ideal. Certamente se estivessem vivos (os realmente fiéis, preferiram a morte à rendição) deveriam ser estudados pela psicologia. O que gera tamanha fascinação?

Família Goebbels
Nenhum deles entretanto é mais repugnante que o casal Goebbels, voluntários para morrer junto com seu líder. O que inclui seus filhos pequenos completamente alheios à verdadeira razão de sua visita ao Tio Hitler. A sequencia em que a mãe prova que realmente não quer que seus filhos vivam em um mundo sem os ideais Nazistas, deixa a sensação de nó na garganta por dias. Já a afirmação do pai Goebbels, em relação ao povo  nos faz crer que ele merecia destino pior - O povo nos deu um mandato. E agora está pagando por isto!

O filme faz questão de mostrar que o povo realmente pagou. Seja ao ver seus jovens iludidos, como última e inútil força de resistência contra o exercito vermelho, na Juventude Hitlerista. No abandono decalrado dos oficiais, aos idosos, crianças e feridos. E até no assassinato a sangue frio de civis que não queriam, ou mesmo eram capazes de enfrentar o inimigo.

Juventude Hitlerista sendo condecorada pelo próprio Fuhrer
Mas também, mostra um pai que tenta resgatar inutilmente as crianças da Juventude Hitlerista  ingrato trabalho de "caçar tanques vermelhos". O médico ignorou as ordens de sair de Berlin e sozinho atravessou as linhas inimigas, para levar remédios e suprimentos para os necessitados. Além de vários oficiais, que tentam alertar a quem vivem no bunker que é hora de desistir. Sim são todos nazistas, mas não são exatamente maus.

Hitler dividindo a mesa com seus subordinados
Com uma produção de arte caprichada desde a criação do sufocante bunker até o detalhismo da Berlim destruída. A Queda: As Últimas Horas de Hitler não é um filme fácil, mas extremamente corajoso. Ao apresentar um homem comum capaz de mobilizar dezenas mesmo com discursos vazios e infundados. Ao fazer você lamentar a morte dos filhos de um casal repugnante.

Enfim, apresentar pessoas com um péssimo ideal, e valores repulsivos, mas ainda sim, pessoas. E todas em uma situação de tensão extrema e medidas desesperadas. O que faz o expectador repensar sua capacidade de empatia mesmo com a mais repugnante figura histórica que conhecemos.

2 comentários:

Hugo disse...

É um filmaço, a obra prima de Hirschbiegel e um atuação fantástica de Bruno Ganz.

Pena que o diretor não acertou a mãos nos seus trabalhos em Hollywood.

Abraço

Fabiane Bastos disse...

Nunca tinha visto nada de nenhum deles, mas a autenticidade desse trabalho me deixou interessada. E ainda está em tempo da dupla despontar em Hollywood não?

Valeu pela visita...