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sábado, 20 de dezembro de 2014

O Hobbit - A batalha dos cinco exércitos tem mais erros que acertos


"O Hobbit - A batalha dos cinco exércitos" dá um passo além em relação aos filmes anteriores da trilogia: começa com uma ameaça real, o dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbatch) à solta e sedento por vingança, e promete, como diz o título, um confronto grandioso. Até então, os outros dois longas jamais conseguiram atingir o nível épico esperado para a nova saga na Terra Média: poderiam ser descritos, em resumo, como uma longa jornada com algumas peripécias pelo caminho. O problema é que a terceira parte da aventura de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) não cumpre o que promete. Quando a imagem em 4K é a coisa que mais te impressiona em algum filme, é sinal de que algo está errado.

Para uma trama de 144 minutos, resolver um dos principais conflitos da história antes dos créditos de abertura parece um pouco apressado. O roteiro leva o espectador a acreditar que foi só um aperitivo, e que algo maior está por vir. De fato, a dinâmica da disputa pelo tesouro de Erebor lembra, timidamente, um grande momento de "As duas torres": a batalha do abismo de Helm. Humanos da Cidade do Lago dispostos a se reerguer, sob o comando de Bard (Luke Evans); elfos determinados a retomar o que lhes pertence da montanha, chefiados por Thranduil (Lee Pace); e os orcs liderados por Azog (Manu Bennett), que querem... destruição.

A batalha, que ocupa boa parte do filme, tem seus momentos de destaque. Peter Jackson já provou que comandar sequências do tipo é tarefa que ele domina. Além disso, os efeitos especiais não decepcionam. Mas toda a qualidade técnica não esconde o maior defeito do filme: o enredo. Um exemplo é a Pedra Arken, conhecida como Coração da Montanha, que é anunciada como um objeto de extrema importância e é usada como o estopim da guerra, mas acaba negligenciada pelos roteiristas.


Mas "A batalha dos cinco exércitos" tem ainda outras dificuldades. Na hora em que seu personagem mais exigiu, por exemplo, Richard Armitage não deu conta do recado. O aguardado momento em que Thorin Escudo de Carvalho é tomado pela maldição de Erebor tinha tudo para ser um dos pontos altos do filme, mas isso é tratado de forma superficial na história. E os olhares enviesados do ator não transmitiram nem de longe o tormento do rei dos anões.

Já Alfrid (Ryan Gage), apresentado como um novo antagonista, poderia ser melhor aproveitado. Com potencial para se tornar um personagem marcante, como uma espécie de novo Grima Língua de Cobra (Brad Dourif), em "As duas torres", ou Denethor (John Noble), em "O retorno do rei", ele ganhou pouco tempo de tela para mostrar a que veio, mas garantiu algumas boas cenas. Destaque também para Evans, que defendeu com bravura o posto de herói da vez, e Freeman, que achou o tom exato para a oscilação entre coragem e medo de Bilbo.

Quanto aos personagens antigos, fica a impressão de que foram inseridos apenas para reforçar a ligação com a saga anterior. Até mesmo Gandalf (Ian McKellen), figura sempre decisiva na história, tem participação discreta. É o caso também de Galadriel (Cate Blanchett), numa cena que remete a "A sociedade do anel", e Saruman (Christopher Lee). Elrond (Hugo Weaving), por sua vez, é quase uma figuração de luxo.


Mas quem mais deixa a desejar é Legolas (Orlando Bloom), teoricamente um guerreiro ativo na narrativa. Perdido na trama em função da insossa Tauriel (Evangeline Lily), é bastante desperdiçado. Algumas informações cifradas sobre seu passado são levantadas ao longo do filme, sem nunca fazerem sentido (aposto um doce como serão explicadas na versão estendida do DVD). Mas nada supera o diálogo final entre o elfo e seu pai, que procura desesperadamente explicar a futura relação do filho com os personagens de "O senhor dos anéis", sem, no entanto, oferecer uma justificativa plausível.

Assim como toda a trilogia, "O Hobbit - A batalha dos cinco exércitos" é problemático. Tem a vantagem de ter uma grande guerra, que lhe dá um ar mais épico, como era de se esperar de um desfecho para uma obra de Tolkien. Mas o roteiro irregular apresenta tantas falhas que o espectador sai do cinema com mais perguntas do que respostas. E a certeza de que Peter Jackson fez a coisa certa ao dirigir a outra trilogia primeiro. Se o cineasta neozelandês tivesse optado por seguir a ordem cronológica de Bilbo e companhia, talvez a história fosse outra, bem diferente.

Cativados por aquele universo fantástico e seus personagens, nos sentimos quase obrigados a visitar os velhos amigos para amenizar a saudade. Mas esse impulso é pouco para manter o interesse em nove horas de história que nunca chegam a empolgar. Um filme único mostrando o início da saga do anel (o único fato realmente importante da nova empreitada) estaria de bom tamanho - e a impagável sequência de Gollum (Andy Serkis) e Bilbo já valeria o ingresso. O restante foi só para cumprir tabela. Da próxima vez que sentir falta da Terra Média, saiba que "O senhor dos anéis" sempre pode ser visto em DVD.

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