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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Não mexe com quem tá quieto

Se elas soubessem do que ela seria capaz...
Existem vários motivos para Carrie, a estranha (Carrie, 1976) ser considerado um clássico, mas o principal deles é a incrível atuação de uma jovem chamada Sissy Spacek. Uma estranha e perfeita mistura entre inocência e ódio em estado bruto, a atriz conseguiu criar uma Carrie incomodamente real. Todo mundo conhece alguém como ela, e todo mundo já se viu entre rir dessa pessoa ou ajudá-la. Carrie é uma menina normal, desengonçada e sem nenhum charme. Depois de ser hostilizada pelas colegas de turma durante uma partida de vôlei, ela ainda tem que encarar uma humilhação sem tamanho dentro do vestiário. A jovem fica menstruada pela primeira vez, mas ela não sabia o que isso significava. Entrou em pânico, achando que sangraria até a morte. As colegas, que já não eram suas amigas, só aproveitaram o desespero da garota para humilhá-la ainda mais. Por sorte a professora de educação física estava por perto e compreendeu o drama de Carrie, e então nós começamos a entender também.

O desespero da inocência: interpretação marcante de Spacek
A mãe de Carrie, Margaret (Piper Laurie, fantástica), é uma fanática religiosa e cria a filha de um modo totalmente opressor, culpabilizando a garota por tudo - até mesmo por coisas naturais, como menstruar, e a punindo severamente em busca da purificação. Fica bem óbvio porque Carrie é como é. Acontece que a garota, cansada de tantas regras absurdas que a mãe lhe impõe, acaba por acidentalmente descobrir que tem poderes telecinéticos. Pesquisando mais sobre isso, Carrie pensa nessa nova característica como uma possibilidade de mudar de vida. E quem também se oferece para ajudar Carrie é a professora de educação física, que resolve manter as meninas que a humilharam no vestiário sob rédeas curtas. A maioria das garotas não curtiu muito a reprimenda, especialmente Nancy (Chris Hargensen) e Norma (P. J. Soles). Por não aceitar o castigo, Nancy acaba sendo proibida de participar do baile da escola - e, com raiva, ela promete se vingar de Carrie, por ter lhe causado tudo aquilo. 

Um sonho se tornando realidade - e depois virando um pesadelo
Na contramão, Sue (Amy Irving) se vê realmente arrependida por ter humilhado a garota e tenta remediar a situação. Pede a seu paquera (fiquei meio na dúvida se ele era reamente namorado dela, explico mais tarde), Tommy (William Katt, ah, os anos 1970 e suas cabeleiras de poodle...)  que convide Carrie para o baile. Sue acreditava que, se a ajudasse a realizar um sonho e a fizesse se sentir popular por um dia, talvez sua consciência a deixasse dormir em paz. O que ela não contava era com o que sua generosidade iria gerar. Carrie estava ficando cada vez mais confiante, conforme descobria mais sobre sua telecinese e agora já começava a enfrentar a mãe. Enquanto isso, Nancy usava seu namorado idiota e valentão (vivido por John Travolta) para executar seu plano de vingança. Quando ela aceita o convite, a receita para a catástrofe está pronta.

Carrie (Spacek) e Margaret (Laurie): as melhores em cena
Violência doméstica, fanatismo religioso, paranormalidade, bullying escolar, manipulação psicológica. todos assuntos espinhosos e explorados com calma nesse longa. O diretor Brian de Palma acertou em cheio ao escolher as suas peças principais, Spacek e Laurie, que aparecem pouco durante a primeira metade do filme - mesmo sendo protagonistas da estória - e que simplesmente arrasam no final. O ritmo gradual de ação demonstra a evolução lenta de Carrie rumo a um destino extraordinário (independente de ser bom ou ruim). Repleto de ironias finas (a começar pela assustadora estátua de São Sebastião que deveria inspirar Carrie em suas orações) e tomadas geniais, o filme contém a força de uma boa estória contada da forma correta, que capta a sua atenção e surpreende no momento certo (imagine que você nunca ouviu falar sobre a garota que incendeia sua escola durante o baile de formatura e veja como o filme parte de um lugar-comum para um final épico). 

Carrie (Spacek) em seu momento de fúria
É interessante também ver como algumas coisas que eram super comuns na década de 1970 agora nos parecem absurdas, como professores fumando, nudez e masturbação enquanto rolam os créditos iniciais, e a quantidade de tapas na cara distribuídas - sempre me mulheres, que aceitavam passivamente. Carrie, na verdade, é uma crítica à nossa sociedade moralista e opressora, que apesar de ter disfarçado algumas de suas piores características, continua fazendo suas vítimas por aí - mesmo tanto tempo depois de ter sido lançado. Como disse lá no início do texto, não foi à toa que esse filme tornou-se um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos.

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