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domingo, 31 de maio de 2015

Crescer pode ser um problema....

...ou não.

Nunca foi segredo, Os Saltimbancos Trapalhões sempre fora meu filme favorito do quarteto. E segundo Renato Aragão, também é queridinho do público. O filme foi lançado em 1981, reprisado exaustivamente na Sessão da Tarde até meados dos anos 90, quando a sessão da tarde começou a ser influenciada pelo politicamente correto.

A questão é: esses poucos sortudos que assistiram a esta pérola do cinema nacional na época de seu lançamento, ou em uma de suas inúmeras reprises, já tiveram a oportunidade de rever o longa na idade adulta? Eu tive, e adivinha.... assisti à um filme completamente novo!

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias trabalham no circo na nada pomposa posição de "faz tudo". Mas eles são os Trapalhões né! Logo, não demora muito para o dono do circo, o Barão, ver em sua comédia de pantomima, a salvação da companhia. Mas o sucesso dos Saltimbancos acaba incomodando o mágico antiga estrela, agora em decadência. Inclua aqui a filha idealista do Barão, que também é a mocinha da vez, seu par romântico o recém chegado trapezista, e a assistente do ilusionista do mal, que tem uma queda pelo moço, além de ser a domadora de leões. Mencionei que é um musical?

Sim é confuso. Mas o plot é simples, o Barão (Paulo Fortes) explora os artistas do circo e os Trapalhões vão combatê-lo ao lado da mocinha Karinha (Lucinha Lins). O mágico Assis Satã (interpretado por Eduardo Conde) e sua assistente Tigrana (Mila Moreira), além de ostentarem ótimos nomes, estão ali para complicar, uma vez que hora agem em dupla, hora a favor do barão, hora perseguem interesses próprios.

Tudo muito divertido, eu lembrava...

Também lembrava, que na primeira cena minha mãe sempre mencionava - Olha, filha ali é Andorinhas*, os Trapalhões gravaram aqui pertinho - Mas esta semana eu reparei, não tinha Trapalhão nenhum naquela cena, apenas dublês. Começa aqui, a derrocada das minhas memórias de infância!

Olha lá quantos animais talentosos no circo. Pena que a grande maioria sofria de maus tratos e por isso não são mais permitidos.

Os Trapalhões e Karina curtindo a liberdade, andando livres pela rua ao som de uma música poética e pra cima. Se apresentando com cobras (esse não é o Mussum de verdade adestrando a víbora). Abrindo uma caixa misteriosa sob os Arcos da Lapa, sob o olhar ansioso de muitos, pixando um muro, escapando da polícia feita de boba. Dizendo para as crianças que pra ser artista não precisa casa, documentos, dinheiro, estudo....... peraí!!! Pode isso???

Olha lá, a Tigrana descobriu onde o mocinho sequestrado está escondido, ela gosta dele, vai fazer algo útil: "Ei, cuidado Satã, está atras de você!" - Sério Capitã Óbvia! Aposto que o autor desta fala também foi responsável pela pérola: "Como você conseguiu a chave? - Satã é uma besta!"

Então o barão guarda toda sua fortuna no formato de notas, em grandes baús em um casarão velho. Isso, no ano de 1981, bem em meio a instabilidade econômica que nos fazia trocar mais de moeda que de camisa. Fico feliz, mesmo que os heróis fracassem esse vilão não vai terminar bem.

Olha a Lucinha Lins cantando aquela musica legal sobre a terra do cinema. "Tem de tudo nessa Hollywood. Vi um índio cheio de saúde!" - Pera? O que eles queriam dizer com isso???

Calma, não me levem à mal. Os Saltimbancos Trapalhões ainda é meu queridinho da trupe. E sim, eu consegui ver coisas interessantes nesta sessão pós idade adulta. Como este último detalhe sobre a situação indígena, que mencionei no parágrafo anterior.

Também reparei, o "porão" onde prendem o mocinho lembra muito uma senzala, com direito a grilhões e correntes. O Barão menciona, o passado áureo de sua família. Seria ele descendente de uma família escravagista, ainda atrelado aos conceitos da época. Isso explicaria o visual retrô que ele assume ao entrar no casarão. E o trabalho escravo ainda existe no Brasil de hoje, imagina então três décadas atrás em cidadezinhas esquecidas por deus. Será esta uma crítica intencional, acidental, ou coisa da minha cabeça? Bom, me fez pensar e isso já é o suficiente.  

Saudades de um mundo onde a única consequência de acidentalmente bater repetidamente
com uma marreta na cabeça de seu amigo, era ele ficar enterrado no chão. 
Detalhe divertido, hoje eu reconheço que a cidade grande que a trupe visita é o Rio de Janeiro, na infância eu jurava, tinha que ser São Paulo. O longa ainda mostra de forma bem interessante os bastidores do circo. Onde os artistas precisam fazer de tudo um pouco para manter aquela lona de pé. Realidade que perdura nos dias de hoje. 

Pois é,crescer pode ser um problema, já que destrói a magia de obras afetivas de infância. Mas, também pode esclarecer outros detalhes sobre elas. No final o balanço de "rever alguma coisa com outros olhos", é sempre positivo!

*Andorinhas é um bairro do municipio de Magé, onde esta blogueira que vos escreve cresceu.

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