3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O mal do século

É incrível como o ser humano é um ser dominado por seus instintos - e mais incrível (e assustador) ainda é o que certos indivíduos são capazes de fazer quando esses instintos são negados. Um dia de fúria (Falling down, 1993) mostra bem isso. Tente sufocar seus instintos mais primários, e tudo vai abaixo.

Will (Michael Douglas, excelente) parecia um cara normal, mas seus instintos estavam um tanto desconectados de sua realidade. Aos poucos, conforme o dia de cão dele vai se desenrolando, a gente percebe que ele tem uma questão familiar forte. Assim como Prendergast (Robert Duvall), que se sentia pressionado a se aposentar logo da polícia para cuidar da mulher emocionalmente fragilizada. Dois homens lutando contra seus instintos: enquanto um luta para manter sua raiva sob controle, o outro quer provar para os outros que está fazendo a coisa certa.

Will estava a caminho da casa de sua ex mulher, Beth (Barbara Hershey), para o aniversário de sua filhinha, Adele (Joe Hope Singer). Porém, seu dia não foi nada bom. Cansado de perder tempo no tráfego, abandonou o carro por lá mesmo e começou uma peregrinação para continuar sua jornada. O que ele não contava era com a quantidade de pessoas que cruzariam seu caminho e despertariam seu lado mais sombrio. A cada passo que dá ara frente, é uma queda na estrutura emocional de Will. Ele mesmo admite, em certo ponto, que já faz muito tempo que passou do limite de volta. A única coisa que lhe resta é seguir em frente. Seguir seu instinto.

Prendergast sabe que ainda poderia durar um pouco mais na polícia, que podia ter feito mais em seu tempo lá. Mas por amor à esposa doente, em respeito à ela, ele suportou todo o tipo de piadinha e acusações de covardia por não sair mais às ruas para cumprir a lei. Mesmo passando o que passou, e somente querendo que aquele dia acabe logo, ele segue seu instinto: quando duas informações sobre um homem branco de camisa e gravata causando problemas na região, ele sabe que os crimes, aparentemrnte desconectados, estão interligados. Usando de toda sua paciência contra as crises da mulher e a intolerância de seus companheiros, ele segue sua intuição e busca uma solução para o caso.

O filme tem diálogos interessantes e ácidos, alfinetadas que devem ter doído muito na sociedade americana - especialmente quando, depois de vociferar direitos e leis sobre estrangeiros em situações anteriores, Will se vê afrontado quando um simpatizante nazista se reconhece nele. É tudo uma questão de perspectiva, e a de Will estava extremamente alterada. Assim como a dos homens mais jovens, que relutavam em aceitar a experiência e cautela de Prendergast somente por ele ser velho e estar prestes a se aposentar.

É interessante pensar como, em alguma parte do filme, nós vamos nos identificar com alguém ou alguma situação. Seja na famosa cena da lanchonete, quando nos vemos enganados por fotos publicitárias, seja quando apenas observamos a revolta e a injustiça alheia - mas, como aquilo não nos afeta, não nos metemos no assunto. Seja parado no trânsito que não anda, ou sendo enfrentando lembranças tristes com amor e esperança, o filme toca em feridas que todos temos. Quem nunca se revoltou quando se sentiu injustiçado? Quem nunca se sentiu a ponto de pirar de vez, seja por qualquer motivo?
Lutamos todos os dias contra nossos próprios medos, raivas, insegurança. Nem todos conseguem lidar bem com isso. Uns colapsam implodindo, levando seu mundo para um abismo de depressão; outros explodem, e acabam destruindo muita coisa além do necessário. Em tempos cada vez mais estranhos, como esses que nós estamos vivendo hoje, é cada vez mais comum ter bombas-relógios como o Will por aí. Difícil é encontrar os que são como Prendergast, que ainda encontram forças pra lutar por mais alguns anos.

0 comentários: