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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Vencendo preconceitos

Por muitos anos eu evitei assistir a Meu pé esquerdo (My left foot, 1989) por um simples detalhe: eu temia que o filme fosse daqueles chororôs intermináveis que passam na Sessão da Tarde; aqueles que buscam te emocionar com a estória de superação do protagonista, mas são mais água com açúcar do que qualquer coisa. Preconceito? Sim, totalmente. Mas acho bacana que não tenha visto antes, talvez eu não estivesse pronta para apreciar toda a beleza dessa obra - talvez, nem mesmo agora eu o esteja.

Christy Brown (Lewis, sensacional é pouco) é um menino que nasceu em uma família muito pobre. Sua deficiência motora o limitava a mal conseguir balbuciar algumas palavras mesmo quando já deveria saber andar e falar normalmente, mas o garoto não se deixava abater.  Apesar da frustração por não poder se comunicar como deveria, com o apoio da mãe amorosa e dos irmãos, Christy conseguiu sobreviver à infância dura e o preconceito de seu próprio pai, o que foi muito mais difícil do que vencer suas próprias limitações.

Christy se torna um exemplo para qualquer ser humano de que se houver vontade de ser mais do que se pode ser, e com o apoio e incentivos certos, qualquer um pode ser feliz. A premiada e delicada interpretação de Lewis, que viveu com maestria as diferentes fases da vida de Christy e não se limitou a apenas algo físico - as emoções de Christy borbulhavam sob a sua dificuldade motora, e foram maravilhosamente expressas pelo ator - são o principal atrativo do filme, mas não é a única coisa boa do filme. Sem apelar para o melodrama, a relação mãe e filho emociona e encoraja a rever nossa perspectiva de vida: e se fosse mos nós, mãe ou filho, nessa situação? Sensacional.

Um filme delicado, emocionante e divertido, com uma grande lição de vida ao final. O tipo exato de filme que eu adoro. Suspeitíssima em recomendar para alguém, mas mesmo assim, insisto: vale mais do que a pena.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A lenda de Tarzan

A lenda de Tarzan (The legend of Tarzan, 2016) é um filme fraco. A empolgação pelos efeitos visuais e pela história pós-descoberta do Rei da Selva morre na praia depois de tentar se salvar em nomes de peso no elenco. Além das jovens promessas Margot Robbie, que interpreta Jane, e de Alexander Skasgaard, o próprio Tarzan, Samuel L. Jackson, Christoph Waltz, Djimon Housoun e Jim Broadbent engrossam a lista dos atores que participam do longa - mas que, infelizmente, não impedem que o barco afunde.

A estória começa com um grupo de estrangeiros liderados pelo capitão Rom (Waltz), um enviado do rei belga, invadindo o coração da África atrás de diamantes raros. Eles já contavamm com a presença da perigosa tribo que protegia o lugar, mas ninguém esperava o que viria a seguir. O chefe da tribo, Mbonga (Housoun), faz um acordo com Rom: o deixaria explorar a região atrás de diamantes se ele lhe trouxesse seu maior inimigo: Tarzan (Skarsgaard). Na Inglaterra, o jovem John Clayton III, conhecido como lorde Greystone (o nome verdadeiro de Tarzan), recebe propostas de voltar ao Congo para promover um acordoe paz: as circunstâncias envolviam a exploração de terras africanas por um rei praticamente falido e boatos de escravidão, além de uma tentativa política obtenção do monopólio de extração de diamantes no Congo ao custo de um genocídio em massa.

Relutante, pois agora já estava há quase dez anos longe da floresta - e porque estava finalmente cumprindo o sonho de seu pai, de voltar ao seu lar - e se habituava com os novos costumes e confortos de uma vida civilizada (e rica), Tarzan acaba convencido a intervir na questão pelo aconselhamento de George Washington Williams (Jackson), um político americano amigo de Tarzan disposto a impedir que o tal rei seja bem sucedido na empreitada.

Quem fica empolgada com a volta à África é Jane Porter(Robbie), agora casada com John/Tarzan. Ela fica feliz pela oportunidade de se reencontrar com suas raízes e seus amigos - afinal fora criada também na selva africana, mesmo que em condições bem mais favoráveis que o próprio marido. Assim, eles voltam para o Congo e se reencontram com a antiga tribo onde Jane fora criada e ajudava o pai a ensinar inglês para os nativos. Por alguns momentos, tudo parecia dar certo.

Logo que a notícia de que Tarzan estava a caminho do Congo, Lom preparou sua armadilha. Sua ideia era capturar Tarzan e entregá-lo a Mbonga, mas ele não contava com a ajuda de Washington nem com a resistência dos homens da tribo. Com Jane cativa, ele sabia que era questão de tempo até que Tarzan fosse atrás dele para salvá-la - então o plano B estava em ação.

O roteiro é a principal falha, pois tenta emendar várias nuances em um único longa e nada parece funcionar direito. Há muito o que se poderia explorar, mas tudo fica superficial e fica bem claro que é tudo desculpa para efeitos especiais jorrarem na tela - até o físico de Tarzan é alterado digitalmente, e não funciona. O drama de adaptação ao novo mundo e o conflito de volta às origens é muito mal explorado, a intervenção-americana-defensora-da-liberdade-do-mundo é quase patética (a não ser por uma sequência onde o personagem de Samuel L. Jackson praticamente personifica a história do país e faz um mea culpa naquele discurso), a mal resolvida querela  entre Tarzan e Mbonga é um bom argumento que foi praticamente ignorado - e o talentoso Housoun foi terrivelmente subaproveitado.

São muitas as falhas no caminho, mas o filme também tem seus méritos: Jane vem embalada no empoderamento feminino, mas tudo dentro do contexto (afinal, o filme se passa no início do século XX), o personagem de Jackson funciona bem como alívio cômico apesar de estar muito deslocado no contexto, além da fotografia que se sobressai aos efeitos especiais em excesso (e, por várias vezes, toscos).

Por fim, A lenda de Tarzan é um filme de roteiro e direção confusos, onde fica claro que muitas vontades diferentes tentaram se encaixar em um único roteiro e não deu muito certo. Ficamos sem entender se é um drama, um romance ou um filme de ação. Deve surpreender quem esperava uma versão live action da animação da Disney (a memória mais acessada da maioria do público) ou até um reboot dos filmes clássicos do rei da selva, mas também deve decepcionar quem esperava algo mais do longa.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Caça-fantasmas


Sabe aquele povo que reclamou muito de ter uma nova equipe de caçadores de fantasmas formada só por mulheres? Que não deveriam mexer em clássicos e tentar renovar franquias adoradas pelo público? Pois bem. Esse povo está prestes a queimar a língua como nunca antes. Caça-fantasmas (Ghostbusters, 2016) é uma delícia de filme, que respeita os seus antecessores e consegue se firmar como uma obra memorável: mais do que um simples reboot, o longa é o primeiro passo para a renovação. 

Erin Gilbert (Kristen Wiig) está se preparando para uma apresentação na Universidade de Columbia que poderá lhe render uma cadeira na instituição. Preocupada em não fazer feio, ela se aquece na sala - porém é interrompida por um homem. Ele tem um livro em suas mãos, um livro escrito por Erin, mas ela nega até a morte que isso tenha acontecido. Afinal, uma professora universitária de ciências não poderia se dar ao luxo de acreditar em fantasmas, não é? Mas o homem precisava de ajuda: segundo ele, um fantasma havia se manifestado no museu que era sua propriedade. O que a intrigava era como ele havia descoberto aquele livro. Uma simples pesquisa na internet e ela descobre que ex-amiga e co-autora do livro, Abby Yates (Melissa McCarthy) fora a responsável por colocar o livro online. Pressionada por seu chefe a ser exemplar ou sua chance de obter a cadeira iria pelo ralo, ela resolve procurar Abby para convencê-la a tirar o livro de circulação de vez.

Durante um passeio no museu, você vê um fantasma: quem você vai chamar?
Mas ao encontrar Abby em um laboratório experimental, as coisas não saem como o planejado. Ao contar do ocorrido, Abby e sua assistente Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) encontram uma coincidência - e, em se tratando de cientistas, elas não acreditam em tais coisas. Abby combina com Erin que vai tirar o livro do ar se ela a apresentar a esse homem misterioso. Erin concorda, louca para se ver livre daquele passado. Mas o que elas testemunham na casa reaviva as crenças de Erin em fantasmas - e a fazem perder seu emprego. Quando elas decidem reativar suas pesquisas, elas agora vão precisar de um novo lugar para começar.

Abby (McCarthy), Erin (Wiig), Holtzman (McKinnon) e Patty (Jones) no metrô: coragem
Ao mesmo tempo, Patty Tolan (Leslie Jones), uma funcionária do metrô, tem um dia diferente em sua rotina. Surpreendida por um cara muito esquisito, que começa uma estória sobre "o quarto cataclismo" e depois some nos trilhos do metrô, Patty se vê obrigada a ir atrás do cara antes que ele se machuque. O que ela vê, porém, é um fantasma muito pouco amigável. Impressionada, só existe uma alternativa para ela. Quem vocês acham que ela vai chamar? Chegando ao novo QG das cientistas especializadas em fantasmas pouco depois de elas terem escolhido seu novo assistente/secretário Kevin Beckman (Chris Hemsworth), ela pede ajuda às moças. Com um segundo fantasma aparecendo em tão pouco tempo, as cientistas vão à loucura - Holtz estava doida para estar os novos "brinquedinhos".

As Caça-Fantasmas prontas para ação!
Depois de comprovarem a existência de outros fantasmas em Nova Iorque, e de chamarem muita atenção para si (e para o fato de existirem fantasmas de verdade), as caça-fantasmas agora tem que enfrentar outra ameaça: os que querem desmascará-las. Para evitar causar pânico generalizado, muitos vão tentar ridicularizá-las. Justo agora que um grupo tão heterogêneo conseguiu se entender e que elas estavam cada vez mais próximas de provar que não eram loucas? Seria esse o fim do sonho?!

Kevin (Hemsworth): a prova de que beleza não serve pra muita coisa
Devo dizer que me contive ao contar esse breve resumo do roteiro. As piadas, as sacadas, as referências... Tudo foi tão bem azeitado que fica difícil comentar qualquer coisa sem estragar as surpresas. As risadas vem com naturalidade, seja pela nostalgia gostosa que nos invade, seja pelas interpretações inspiradas do quarteto principal. McCarthy, Wiig, McKinnon e Leslie estão absolutamente à vontade e se divertindo, e isso se reflete no trabalho que elas entregaram. Dá gosto de ver como as meninas estão afinadas! Quem surpreende é Hemsworth, que não teve medo de sair da pose de galã e "enfiou o pé na jaca" em um personagem divertido, completamente diferente daquele super-herói famoso - e não deixa a desejar ao contracenar com comediantes de peso. O roteiro é bem amarrado, salpicando com humor e referências o bom mote do novo surgimento da equipe. As luxuosas participações especiais, principalmente a dos caça-fantasmas originais, estão espalhadas por todo o longa. Ah!, e não se esqueça: não saia da sala antes dos créditos finais! 


A tarefa era hercúlea: atualizar o clássico mantendo seu espírito, agradar aos fãs mais ferrenhos e conquistar toda uma nova geração de fãs, não decepcionar nos efeitos especiais e superar as expectativas (e comentários preconceituosos) de muita gente "do contra". Fico extremamente feliz de ver que a produção tirou de letra! - e  ainda aproveitou para brincar com isso. O diretor Paul Feig acertou em cheio, orquestrando com maestria elenco, produção, ritmo, humor, referências, efeitos especiais e transformando tudo em um longa divertidamente delicioso. O gostinho de anos 80 está presente, mesmo com toda a nova tecnologia envolvida. Que venham as continuações.