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sábado, 8 de abril de 2017

Além das palavras



Eu precisei de alguns dias refletindo sobre Além das palavras (A quiet passion, 2016), filme de Terence Davies sobre a vida da poetisa americana Emily Dickinson. Eu pouco conhecia de sua história e obra, e uma pesquisa após a sessão me disse que alguns fatos sofreram pequenas alterações na versão para o cinema. Mas nem por isso o longa perde seu impacto.

A jovem Emily (Emma Bell) estuda em uma escola religiosa e se nega a seguir uma doutrina de fé. Uma rebeldia sem tamanho para uma moça do interior dos Estados Unidos no século 19, ferozmente contrastante com sua figura miúda e pálida. Aceita novamente em casa, entende-se o porquê: a educação refinada a que o pai, advogado e político, fazia questão de dar aos três filhos, dava liberdade questionadora e base sólida para uma fé cristã nada fanática.

Emily (Bell): rebeldia controlada

Vinnie (Rose Williams/Jennifer Ehle) e Austin (Benjamin Wainwright/Duncan Duff), irmãos de Emily, são tão inteligentes e obedientes a Deus e a seus pais quanto a jovem. Uma família onde as mentes eram tão afiadas quanto as maneiras eram polidas. Todo esse ambiente, somados à extrema opressão feminina típica da época, fizeram de Emily uma figura única. A alma vivaz em um corpo frágil, a opressão fortemente combatida - embora ela raramente perdesse a compostura, a reclusão voluntária para se proteger contra o mundo tão brutal. Compreender esse ambiente é vital para acessá-la.

A bela fotografia nos imerge nesse universo: o acolhimento e segurança da grande casa, a melancolia quase palpável do entardecer, a solidão criativa das madrugadas, o passar do tempo e o lento sufocamento daquele espírito livre. A direção delicada de Davies trata com carinho e respeito a figura de Emily, mesmo quando expõe a dor e desespero que ela, reservada, guardava para si. Meu único porém é que o tom ligeiramente teatral imposto aos atores me incomodou um pouco, mas isso de forma alguma atrapalha a narrativa.

Cynthia Nixon faz um grande trabalho interpretando a escritora

A poesia tocante de Emily permeia todo o longa, ora em sua narrativa, ora em sua fala - principalmente para nos fazer entender que ela retratou sua alma naqueles pequenos pedaços de papel que costurava em silêncio. A passagem do tempo também é importante pois mudanças significativas ocorrem nos personagens que a rodeiam e a sensível Emily (agora interpretada por Cynthia Nixon) reage a essa nova dinâmica. O lento espiral de dor e desespero que a envolve até seus últimos dias é belo e triste. Mais do que apenas uma biografia, o filme é um homenagem à poetisa que quase não conhecemos.

Por pouco seu verdadeiro trabalho nunca chegou ao grande público, e agora há uma boa oportunidade para que mais pessoas se interessem pela escritora. Da dor e da vida simples, da solidão e da análise consciente de sua condição de mulher na sociedade em que se emcontrava, do desespero e do medo da morte, do desamor, nasceu uma das mais belas e puras almas - e que bom que ela pode transbordar isso até nós.

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