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Crítica: O Oficial e o Espião



Por Ana Beatriz Marin

Após duas grandiosas incursões no cinema de época - Tess (1979) e O pianista (2003), Roman Polanski volta ao filão com O Oficial e o Espião (J'Accuse), que estreia nesta quinta-feira (12). O diretor franco-polonês retoma ao tema que lhe é caro: a perseguição aos judeus. Mas, se em O Pianista, ele conta a história de como o músico polonês (e judeu) Wadyslaw Szpilman logrou sobreviver aos horrores do Holocausto, no novo trabalho, o cineasta narra as artimanhas do exército francês para condenar à morte o capitão Alfred Dreyfus (Louis Garrel, em convincente atuação contida), acusado de espionar a favor do governo alemão. O ano é 1894 e as provas contra ele são frágeis. Ainda assim, é considerado culpado de alta traição e levado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. O evento, conhecido como o Caso Dreyfus, é uma mancha na história do exército francês e mostra como o preconceito contra os judeus já existia muito antes de Hitler. O filme de Polanski é baseado no livro homônimo do jornalista e escritor Robert Harris, coautor do roteiro.

Polanski faz um filme convencional, com roteiro esquemático, o que não tira o brilho do trabalho. Em entrevistas, ele explicou que optou por conduzir o longa como uma investigação policial para que os espectadores que não estão familiarizados com o caso pudessem entender. Ele se refere ao trabalho do coronel Picquart (Jean Dujardin), que, após ser promovido a chefe do departamento de inteligência, sem querer acaba encontrado documentos que o fazem duvidar da culpabilidade de seu ex-aluno. Daí em diante, o oficial empreende uma cruzada para descobrir a verdade e inocentar Dreyfus. Age assim impelido muito mais pela consciência de que não pode deixar que um inocente pague por um crime que não cometeu do que por simpatia ao capitão. Além do mais, é sabido (e o filme deixa isso bem claro) que Picquart não nutria grande simpatia por judeus.

Logo na abertura do longa, um grande plano aberto mostra o momento em que Dreyfus é sentenciado à prisão perpétua na Ilha do Diabo. O sofrimento fica contido no corpo rígido enquanto vai sendo despido de sua espada e de todas as condecorações recebidas. Nas sequências seguintes, os planos vão se fechando, ressaltando detalhes das ações individuais de cada personagem, que ajudam a conduzir a narrativa e a trazer os verdadeiros fatos à tona.

O coronel Picquart (Jean Dujardin) busca verdade sobre condenação de um músico judeu

Fatos que, por sinal, demoram a aparecer. E isso é bom. Pois, apesar de o caso ser conhecido - portanto, sabe-se exatamente como acaba -, gera tensão. No roteiro, Polanski e Harris não procuram desvendar logo a verdade, e sim mostrar todas as situações que levam Picquart a desconfiar de que há algo de errado no julgamento de Dreyfus. Primeiro, o coronel é promovido a chefe do departamento de Inteligência. E aí tudo começa. Ele é conduzido ao prédio onde a equipe trabalha por um oficial, seu subordinado direto, mas que está acima dos outros. Em cada plano, aparece um funcionário ou um grupo deles. Quase todos estão trabalhando na reconstituição de um documento, que imediatamente é escondido com a chegada do novo chefe. Fica evidente que algo escuso está sendo feito ali. A primeira pista que leva à desconfiança de que Dreyfus possa ser inocente aparece por acaso. A partir de então, tem início o périplo de Picquart em busca da verdade.

Vale destacar também o desempenho de Jean Dujardin, que interpreta um homem sério e centrado, disposto a enfrentar o que for preciso para fazer justiça. Até mesmo o Exército, instituição pelo qual nutre um enorme orgulho.

Indicado a 12 categorias no César - principal prêmio do cinema francês -, O Oficial e o Espião venceu nas categorias de Direção, Roteiro Adaptado e Figurino. Polanski não compareceu à cerimônia, no final de fevereiro (assim como o resto da equipe), devido às acusações de estupro que enfrenta. Em setembro de 2019, o longa conquistou o Grande Prêmio do Júri na 75ª edição do Festival de Veneza.

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