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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Jura que foi rodado em 1927?


Impossível não chamar certos cineastas de visionários. Fritz Lang foi, certamente, um deles. Filmar um argumento tão crítico e fazer dele uma história interessante e que atravessasse gerações incólume não é fácil. "Metropolis" é referência em História, em Cinema, em Comunicação, e até influência na música - ou você nunca viu o clipe de "Radio Ga Ga"? Uma senhora aula, muito menos enfadonha do que você possa imaginar. Filme mudo? Sim, mas a história não poderia ser contada de modo melhor. Preto e branco? Sim, e com efeitos especiais impressionantes, se você pensar que o filme foi produzido em 1927. História muito bem contada e amarrada, mesmo com os pedaços faltantes - que, aliás, a gente não deixa de perder por causa de uma saída muito esperta.


De cara, pra quem tá tão acostumado a ver filmes visual e sonoramente poluídos, é um choque ter que acompanhar uma história em que só se pode ver o que os atores fazem e o que incrementa as cenas é uma trilha "infinita". Não há pausas para diálogo. Até mesmo nas sequências de palheta (onde a história é contada através do que está escrito, não por imagens) ela está lá, te preparando para a próxima cena. Aliás, agora eu finalmente entendi porque os atores dos grandes estúdios tinham um estilo tão diferente de atuar: apesar de já poderem usar a própria voz para se expressar, ainda era muito forte a interpretação visual. Nunca mais sacaneio esse tipo de atuação. Surte muito efeito. Quem não fica agoniado de ver o terror de Maria ao fugir do cientista lunático? E não foi preciso muita coisa para fazer a cena espetacular: uma boa atriz (exageros à parte, ela diferenciou muito bem a Maria real da Maria-máquina), um ótimo ator muito bem caracterizado, um cenário cru e jogo de luzes. Genial.
Outra coisa que me impressionou muito foi a forma como o diretor mostra homem e máquina como coisas iguais. As máquinas funcionam como seres vivos alimentados com a carne e lubrificadas com o sangue dos operários, como chega a falar a própria Maria-máquina; e os homens trabalham sem descanso, como máquinas, só parando quando a pressão é demais e eles precisam de "reparos". A entrada e saída dos funcionários, os carros correndo para cima e para baixo na grande metrópole parecem sangue correndo nas veias. A máquina principal não pode parar - não lembra muito o conselho dos médicos para cuidar bem da sua saúde?


"O mediador entre as mão e a cabeça deve ser o coração". Esse é o mote o filme. A ácida crítica ao desenvolvimento em detrimento da saúde do cidadão, a ânsia de poder ilimitado, à ganância, as analogias religiosas - nada disso é mais importante do que realmente usar o coração para mediar o que a cabeça pensa e as mãos fazem. É sobre isso que o filme trata e é por isso que continua tão atual. Acredito realmente que "Metropolis" só se mantém tão atual porque não quis se datar. Se tomasse a questão da opressão da classe operária, se quisesse ser anarquista e proclamar rebeliões, se pendesse um pouco mais para o lado religioso e questionasse a criação do universo e o poder de um Deus supremo ao conseguir dar vida à uma máquina - então não seria essa obra maravilhosa. Esse filme só é o que é porque tem tudo isso, mas não é só isso. Não é só o cérebro inteligente que criou ou adaptou a história nem tampouco somente as mãos habilidosas que filmaram e atuaram no filme. É a mensagem que quis passar para o espectador que faz todo o caos ter sentido. Ter coração - sentir compaixão, medo, raiva, amor - isso nos faz diferentes da máquina, que só obedece. Uma pequena dica para sobrevivência em meio ao caos em que vivemos.

1 comentários:

Daniel Caetano disse...

Ok, ok... comprei o DVD. :)