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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Hipocrisia pouca é bobagem

Há algo de podre na vida de cada um dos personagens de A regra do jogo. Todo mundo tem um segredo, um desejo proibido, um interesse dissimulado, uma verdade devidamente encoberta por um monte de mentiras. É tanta cara de pau que ficamos até espantados. Mas será que na vida real é muito diferente disso? Claro que não. Só que, pelo menos na tela, dá pra rir de tamanha hipocrisia. E o tom de farsa adotado pelo diretor Jean Renoir faz saltar aos olhos como o ser humano pode ser patético às vezes. E olha que isso não é exclusividade da alta sociedade francesa pré-Segunda Guerra Mundial...

E aí temos quase uma quadrilha de Drummond: Octave é amigo de André, que é apaixonado por Christine, que é casada com Robert, que tem um caso com Geneviève... Complicado? Você ainda não viu nada. Todos mentem uns para os outros ou escondem alguma coisa, sofrem, ficam angustiados ou infelizes, mas mantêm a classe acima de qualquer coisa. Quer dizer, pelo menos na frente dos convidados. Afinal, pega mal estragar a festa das pessoas que só queriam se divertir, certo? (Aliás, caçar pobres e indefesos coelhinhos deve ser mesmo diversão pura.) O show não pode parar.

O estilo da filmagem é bastante teatral: planos abertos, muita gente em cena ao mesmo tempo, longas sequências, além da própria interpretação dos atores, alguns tons acima do que estamos acostumados a ver no cinema. Isso, no entanto, funciona bem, e reforça ainda mais a sátira. O que me incomodou um pouco foi o grande número de personagens, que acabava me confundindo no fim das contas. Quem disse o quê mesmo? Sem falar que atores olhando para a câmera, pelo menos para mim, é novidade (quando não é intencional, claro). E, embora a ação se desenrole o tempo todo, ficou faltando desenvolver mais o perfil de cada um. A gente acaba embarcando nas atitudes dos personagens sem conhecê-los direito.

Fora isso, o maior mérito do filme é mesmo escancarar a hipocrisia da sociedade: entender que o ser humano não pode ser levado tão a sério é um acerto e tanto.

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Ah, jura que aquela mulherada toda estava atrás de dois homens que fazem sobrancelha? Então tá.

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