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sábado, 17 de julho de 2010

Quando a fantasia supera a realidade

Assisti a Blow up - Depois daquele beijo totalmente desavisada. Não sabia nem mesmo do que se tratava a história. Às vezes gosto de fazer isso. Primeiro porque muitas sinopses não fazem jus ao filme, principalmente aquelas "orelhas" dos DVDs; segundo, porque gosto de surpresas. No caso do longa de Antonioni, isso pode ter dificultado a compreensão, mas me permite mudar de opinião conforme o desenrolar da trama. Vejamos.

Logo no início acompanhamos o fotógrafo Thomas (David Hemmings) em ação, fotografando várias sessões de moda. Enquanto com a top Veruschka (como era magra!) ele demonstra bastante intimidade, com as demais ele se transforma em um verdadeiro carrasco: criticando sem parar o desempenho das moças, ele é estupido, impaciente, grosseiro. Juro que me senti vendo Brazil's next top model ali, fiquei com peninha. Mas já deu pra sentir a personalidade do cara, o que o torna ainda mais interessante. Um protagonista detestável? Adoro.

Em seguida, vem o momento-chave do filme, quando Thomas descobre, meio sem querer, um casal num parque praticamente deserto. Imediatamente, ele começa a clicar o que seriam momentos da intimidade dos dois. Pensei: agora ele vai bancar o paparazzi? Mas ele não estava atrás de um flagra, e sim de uma bela imagem. E isso se encaixaria perfeitamente no seu projeto de livro que estava em andamento. E poderia continuar sendo só isso se Jane (Vanessa Redgrave, linda e misteriosa na medida) não surgisse, perturbada e suplicante, pedindo as fotos. Gostei bastante do embate dos dois: ele, mais arrogante do que nunca; ela, completamente desnorteada, aparentemente frágil, possivelmente lamentando ter sido vista com alguém em uma situação comprometedora. Tudo nos leva a simpatizar com a pobrezinha, não é? Mas nem tudo é o que parece.

Mais tarde, ela descobre o endereço de Thomas e vai cobrar satisfações. Se ele não ficou com medo, eu fiquei. No mínimo, ele estava sendo vigiado. Mas o que era para ser uma conversa tensa foi, na verdade, uma das melhores sequências do filme, sensual até dizer chega. Mas tudo conduzido com muita elegância por Antonioni: corpos nus sem mostrar mais do que o necessário, diálogos enxutos. Depois de enganar nossa amiga, o fotógrafo percebe o quanto o material que ele tem em mãos é importante. E aí é um tal de ampliar e ampliar fotos para descobrir o que seria... um assassinato. Nossa, então o que seria um furtivo encontro de amantes era, na verdade, um crime premeditado! Tudo fazia sentido, e a história muda completamente.

A partir de então, Thomas fica obcecado em descobrir mais sobre a história. Só que tudo que era muito nítido até agora fica somente a cargo do protagonista. Ele foi o único que viu as fotos, o corpo no parque, a arma ampliada etc. etc. Conduzido até então como um filme realista, Blow up nos faz crer exatamente em tudo que foi dito até este momento como sendo verdadeiro. Quando nos deparamos com uma situação que pode ter ocorrido apenas na mente de Thomas, passamos a questionar tudo que foi visto até então. O estranhamento é inevitável.

O roteiro, que é inspirado em um conto do argentino Julio Cortázar, consegue captar uma característica literária  bastante interessante: o narrador personagem, aquele que conta e vivencia a história ao mesmo tempo. E aí, nós, espectadores, ficamos de mãos atadas, sem saber até que ponto tudo que nos foi dito realmente aconteceu ou não foi distorcido, exagerado ou omitido pela mente fantasiosa de alguém. Não vamos esquecer de que estamos falando da juventude londrina da década de 1960, embalada mais que nunca por sexo, drogas e rock'n'roll. Aliás, todos os ingredientes estão no filme, só que de uma forma tão suave, que não nos damos conta de que tudo pode ser uma grande viagem. Como diz Veruschka em uma cena do filme, ao ser perguntada se ela não deveria estar em Paris: "Mas eu estou em Paris". Alguém vai contrariá-la?


E eu não poderia deixar de falar sobre a belíssima cena final, um imaginário jogo de tênis entre dois mímicos. Poesia pura. Confesso que quando Thomas "joga" a bola de volta para a quadra e aparece um imenso The end na tela, eu exclamei um sonoro "Como assim?". Mas, depois, pensando sobre o que escrever aqui neste post, me dei conta de que a fantasia, às vezes, é bem mais interessante que a realidade.

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