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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Menos é mais, sempre


Eu achava que novelas como Passione e Terra Nostra exageravam na hora de retratar as famílias italianas, mas depois de assistir a Rocco e seus irmãos, acho até que elas pegaram leve. Jura que tudo tem que ser mesmo tão exagerado e dramático? Um falou uma coisa que desagradou o outro, leva um tapa na cara. O cara quis ser um pouquinho mais ousado com a noiva, outro tapa. Gente, o que houve com os diálogos?

Fiquei um pouco assustada quando a história (longa, né?) ameaça descambar para um dramalhão, e olha que isso acontece repetidas vezes. Até Rocco (Alain Delon, lindo de morrer), que parece ser a pessoa mais "anormal" da família Parondi, de tão contido, mostra que não dá pra negar suas origens em uma sequência meio constrangedora no final. Se não fosse o áudio em italiano, eu juraria estar diante de uma novela mexicana. (Esta é a parte em que uns vão me chamar de insensível; outros, de ignorante. Fique à vontade para escolher o seu lado, caro leitor)

Agora, falando sério: a história é muito boa, e Luchino Visconti tinha ótimos personagens e um grande elenco em mãos. Annie Girardot, poderosa, encanta na pele de Nadia, uma mulher independente e descompomissada, que causa a discórdia que vai abalar de vez a estrutura dos Parondi. A cena em que Simone (Renato Salvatori) flagra sua ex-namorada com o irmão é de uma brutalidade imensa. E comove. Não só um dos belos momentos do filme, como o ponto que marca a virada dos personagens: Simone, que já era um malandro incorrigível, torna-se um homem obcecado por Nadia. Ela, inconformada com a situação, abre mão de sua antiga liberdade para infernizar a vida do ex e encher Rocco de remorsos. Este, por sua vez, sempre correto, comedido e altruísta (difícil acreditar que exista alguém assim), não luta por sua amada porque preza demais sua família. Família essa que vai desmoronando aos poucos, o que só faz tudo soar ainda mais triste... E a vida tem mesmo dessas pequenas tragédias, não é?

Na verdade, vamos admitir, Rocco foi um covarde. Dá pra entender tamanha raiva de Nadia. Amei a sequência com eles na ponte, em que ela ameaça se jogar se ele desistir dela. Apesar de todo o exagero e das atuações afetadas, essas cenas mostram bem a dualidade dos sentimentos que tomavam conta da angustiada moça. Primeiro, ela repete veementemente: "Eu te amo, te amo, te amo". Diante da negativa do rapaz, ela responde: "Eu te odeio, te odeio, te odeio". Tudo com a mesma intensidade. Amor e ódio são mesmo sentimentos que andam de mãos dadas. Em contrapartida, tudo que ela consegue dizer a Simone,  mais tarde, depois de ter tentado fazer de sua vida um inferno, tem uma temperatura bem mais fria: "Eu te desprezo". Simples assim.

Mas não é surpreendente como a história, que começou um tanto arrastada, foi encontrando seu rumo até chegar a um final forte e emocionante? Entretanto, a exagerada teatralidade me incomodou muito e, a meu ver, comprometeu até a dramaticidade das últimas cenas. E sei que a gente não deve tirar o filme de seu contexto histórico, mas hoje as falas idealistas de Rocco, que queria voltar a qualquer custo à sua vila, no sul da Itália, soam equivocadas ou, no mínimo, ingênuas demais. No fim das contas, achei um grande filme, especialmente da metade para o final, embora com algumas ressalvas. Tanto dramalhão não faz muito o meu estilo, capisce?

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