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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

De tirar o chapéu


Acho que qualquer coisa que eu diga sobre Cidadão Kane corre o sério risco de se aproximar do clichê. Porque é praticamente impossível não se desmanchar em elogios à obra-prima de Orson Welles, citada em todas as listas de melhores filmes de todos os tempos. Com um roteiro original, edição primorosa e atuações perfeitas, é simplesmente impecável. Vai ver que foi a conjunção dos astros. Ou vai ver que é talento mesmo.

O filme é superbem amarrado, com flashbacks perfeitamente encaixados nas memórias dos entrevistados durante a pesquisa. A transição entre passado e presente é sempre feita de maneira deliciosa com cenas semelhantes, jogos de imagens... Algumas sequências são verdadeiras pinturas. "Rosebud", a última palavra dita pelo protagonista em seu leito de morte é o "mistério" que serve como desculpa para acompanharmos uma verdadeira viagem por toda sua vida. A morte é o ponto de partida da vida, adoro esses paradoxos cinematográficos. Para que ser óbvio, certo? 


Mas o mais legal é que o próprio filme explica por que é tão bom: logo no início vemos um documentário, aparentemente já finalizado, sobre o influente magnata. Acontece que sua vida era pública, e muitos dos seus feitos eram conhecidos de todos. Portanto, falar da excentricidade de Kane ou contar apenas sua trajetória como jornalista até se tornar o homem poderoso que era nos últimos dias de vida não acrescentaria muito a  ninguém. Dizer que ele construiu um teatro para a mulher é uma coisa. Mostrar que ele praticamente obrigou a coitada a ser cantora é outra. Reforçar que ele foi capaz de escrever a continuação de uma crítica negativa da apresentação dela para, logo em seguida, demitir o responsável é mergulhar ainda mais fundo no personagem. Mas nada supera a imagem do protagonista ao levar um tapa com luva de pelica ao se dar conta de que feriu a própria declaração de princípios. Todos estes homens são a mesma pessoa.

Para ser fiel à trajetória de uma pessoa com uma vida tão rica e dona de uma personalidade tão marcante, faltavam os detalhes que dão sabor a qualquer história, seja ela ficcional ou não. E esses detalhes, não vamos nos esquecer, são fornecidos por depoimentos de gente que conviveu com o personagem. E esses depoimentos são cheios de subjetividade e de falhas, assim como tudo na vida, que pode ser tudo, menos ciência exata. São esses detalhes que fazem a diferença das grandes reportagens para as banais, dos grandes filmes para... os outros. Contar bem uma história é uma arte, e isso é para poucos. Orson Welles era um deles. Diante deste longa, qualquer cinebiografia é um rascunho malfeito. Sorry.

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