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sábado, 27 de agosto de 2011

De perto ninguém é normal


Existe uma razão para eu ser fã de Almodóvar. Aliás, duas: ao mesmo tempo em que é um diretor único em termos de estilo e sensível, é um roteirista originalíssimo. Eu não sei como ele faz isso, mas consegue me convencer da história mais mirabolante do mundo. Acha que estou exagerando? Então faça um exercício e me diga quem mais poderia filmar Mulheres à beira de um ataque de nervos sem cair no ridículo, um filme que envolve o drama de uma mulher abandonada pelo amante, o filho dele e a noiva esquisita, a ex-mulher enlouquecida e uma modelo enganada por um terrorista xiita (!). Tudo muito improvável, mas perfeitamente possível nessa gama de personagens almodovarianos, onde, de perto, ninguém é mesmo muito normal.

Na trama, Pepa (Carmen Maura) passa por todos os estágios de sentimentos em relação a Iván (Fernando Guillén): o amor se despedaçou em tristeza, angústia, desespero, ódio. O sujeito, um ator metido a galã da terceira idade, não se digna nem mesmo a aparecer para buscar suas coisas e se limita a deixar recados covardes na secretária eletrônica dela. Entre tantos desencontros, outras personagens vão surgindo na vida de Pepa, tão perdidas quanto ela.



Responsável por tornar o cineasta conhecido no resto do mundo, Mulheres à beira de um ataque de nervos tem vários dos elementos perfeitamente identificáveis na filmografia do diretor: personagens exóticos, situações inusitadas, cores fortes (com destaque especial para o vermelho) e uma extrema sensibilidade para retratar o universo feminino. E não deixa de ser curioso como o fio central deste longa lembra o filme da semana passada, A flor do meu segredo. A diferença é que este transforma em risos o que no outro provocava lágrimas. Interessante como o sofrimento de uma mulher abandonada pode ser vista por ângulos tão diferentes. 

Nessa produção, no entanto, os coadjuvantes não só tem mais força como são essenciais para segurar a história. Carmen Maura dá o tom exato a Pepa em todas as suas nuances, mas a comédia só funciona graças a eles. Gosto muito da trama de Candela (María Barranco), por exemplo. Sem nenhum vínculo familiar com os outros personagens, ela é a mais deslocada e, talvez por isso mesmo, a mais divertida. Medrosa e histérica, ela não consegue chamar a atenção para si, apesar de estar realmente em apuros, até resolver apelar para um ato extremo. E a relação dela com Carlos (Antonio Banderas, antes de se tornar o latin lover de Hollywood) também é divertida. 


Mas é Julieta Serrano, como Lucía, quem rouba a cena sempre que pode. Outra vítima da lábia de Iván, ela vive como se os últimos 20 anos, período em que esteve internada, não tivessem existido e agora busca vingança. Se todas as outras estavam à beira de um ataque de nervos, ela já havia entrado em colapso há muito tempo. As sequências finais são todas dela, merecidíssimas. E, apesar de toda a loucura da personagem, impossível não simpatizar com ela, ou, ao menos, compreender sua motivação. O que não dá para entender é o que elas viram nesse Iván...

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