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sábado, 20 de agosto de 2011

A vida como ela é

Um brinde às doces descobertas da vida, que sempre acontecem depois que se prova o amargo

Bittersweet é uma palavra inglesa de que gosto muito: resume muita coisa numa única palavra, amargo, doce, gostoso, estranho, azedo, gostinho de "quero mais". Acho que essa seria a palavra que eu descreveria a vida. E então eu acho bem lógico usar a mesma palavra pra descrever esse retrato que Almodóvar fez da vida. A flor do meu segredo (La flor de mi secreto, 1995) conta a história de Leo (Marisa Paredes, divina), uma escritora que se esconde atrás de um pseudônimo - Amanda Gris - e escreve romances água-com-açúcar, mas que fazem o maior sucesso. Mas em seu interior, Leo está morrendo... Seu casamento está em pedaços, e sua dor não deixa que sua escrita seja tão leve quanto os seus editores gostariam.

Pra completar, a mãe dela, que mora com a irmã, não dá sossego: faz drama por qualquer coisa, implica com a filha mais nova, que, apesar das dificuldades, cuida dela. A única segurança e apoio que encontra é em Blanca (Manuela Vargas), sua empregada. Aos poucos a vida vai pregando peças - como ver um livro seu ser publicado por outra pessoa, ser obrigada a escrever uma resenha sobre seu próprio livro e descobrir que seu marido a traía com sua melhor amiga, mas também vai dando oportunidades. A amizade com o novo editor, a volta pra casa com a mãe (e o afastamento merecido do sofrimento que passava), a descoberta do talento da empregada. Coisas simples, mas que fazem a diferença na vida de quem acha que não tem mais chance de ser feliz na vida. E quando ela descobre que certas coisas são inevitáveis, e ela encontra coragem para enfrentar seu maior medo e finalmente ouve aquilo que nunca gostaria de ouvir, então as coisas começam a melhorar. Ninguém disse que seria fácil, mas depois que o medo é vencido, fica mais fácil se manter na luta.

Então Leo volta para Madri, mais forte, mais decidida. O medo ainda existe, mas ela se acha mais forte pra enfrentar a vida. Está livre de seu contrato porque Ángel (Juan Echanove) assumiu seu pseudônimo e escreveu dois livros como Amanda Gris. Ela já não tem as garantias de um casamento nem de um emprego fixo, mas a vida nunca pareceu tão boa e viva.

Quem não se apaixonar por esta senhorinha bom da cabeça não é!

O talento de Marisa Paredes é explorado ao máximo, e ela não se poupa. O desespero de Leo fica evidente em todas as tomadas, até que ela finalmente se livra desse peso em sua vida: então ela aparece radiante, renovada, maravilhosa. E a gente fica feliz de vê-la tão bem. Todo o elenco de apoio também é muito bom: destaco Juan Echanove, que fez de seu Ángel um cara apaixonado sem ser melodramático ou piegas - apesar de ele ser um escritor de romances "incubado", e a fofíssima Chus Lampreave, que faz a mãe de Leo. Gargalhei horrores com as loucuras da mãe chantagista emocional de primeira, mas que ainda tinha no coração muito amor pelas filhas e sábios conselhos a dar.

O filme é mais uma observação atenta aos detalhes da vida. O ritmo é tranquilo, nós somos observadores do desenrolar da história - assim como somos do espetáculo da vida. Não há acontecimentos extraordinários, tudo é muito linear - nada demais, porém não significa que não é importante. Toda vida tem drama, só existem pessoas que tem mais dificuldade em se livrar daquilo que as faz mal. Escritores usam seu talento para criar fugas dessa realidade ou dissecam o que veem. No filme, Almodóvar disseca a vida simples de quem escolheu melhorar a vida dos outros, mesmo quando sua própria vida não estava tão bem assim. A vida é tão simples quanto a palavra bittersweet, reúne tudo numa síntese difícil de explicar - mas que todo mundo entende.

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