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sábado, 20 de agosto de 2011

Discreto na forma, mas melodrama na essência


A flor do meu segredo é elegante na forma, mas é melodrama na alma. Apesar das interpretações contidas, dos tons mais sóbrios, dos diálogos moderados, Leo, interpretada com maestria por Marisa Paredes, está sempre a ponto de explodir. É uma personagem complexa, densa. Seus sentimentos vão da depressão ao ódio, da euforia à indiferença, da esperança à conformidade o tempo todo. Talvez todos eles possam ser exprimidos por uma palavra: dor. Uma dor intensa, mostrada sem excessos, com apenas algumas lágrimas discretas. É um Almodóvar comedido, sem perder a essência.

A solitária escritora que ganha a vida publicando romances cor de rosa, por meio de um pseudônimo (Amanda Gris, cujo sobrenome significa cinza em espanhol), já não consegue controlar mais as palavras. Todos saem negros, como ela mesma diz, diante dessa verdadeira gangorra emocional que se tornou sua rotina desde que se instaurou uma crise praticamente incontornável em seu casamento. Mas ela tenta, a todo custo, manter as aparências. Não por acaso, em várias passagens do filme, vemos a protagonista coberta por uma espécie de véu, de cortina, ou refletida em um espelho. E o cineasta brinca com eles o tempo todo, inclusive em uma das cenas mais esperadas pelos espectadores: o reencontro com Paco (Imanol Arias). Ela deseja esse momento mais do que tudo. Mas o que se vê é apenas um reflexo fragmentado de um ex-casal apaixonado, a imagem perfeita para representar uma relação que já não existe de verdade há algum tempo.

Depois de enfrentar a inevitável verdade, Leo vira uma "vaca sem badalo", como diz sua mãe, usando uma expressão comum em seu povoado. Sem rumo na vida, perdida, desamparada. Sorte que em seu caminho existe um anjo. Ángel (Juan Echanove), na verdade, o editor do El País que aceita publicar seus artigos sobre literatura. Belíssima a cena em que a escritora, usando um casaco azul, sai a esmo no meio de um protesto de estudantes, todos convenientemente vestidos de branco. Quando ela não consegue mais se encontrar, é nos braços do novo amigo que ela encontra algum conforto. Esse episódio, aliás, é relembrado mais tarde pelo próprio Ángel, que faz uma simpática analogia a Casablanca. Adoro esse jeito que Almodóvar encontra de citar seus filmes preferidos em suas obras.


O modo como essa relação se desenrola, contudo, me incomoda um pouco por ser previsível demais. O que salva é a solução divertida que o diretor encontra para que o jornalista ajude Leo a se livrar da pressão da editora, que exige de forma agressiva os romances pré-estabelecidos por contrato. Um pouco de sarcasmo sempre vai bem... E os mais atentos devem ter reparado que o romance "Frigorífico", rejeitado pela mesma editora por não seguir o perfil água com açúcar das novelas de Amanda Gris, nada mais é do que o argumento de Volver! Assim como a enfermeira Manuela, que aparece apenas no início do filme, é a mesma personagem que seria interpretada por Cecilia Roth em Tudo sobre minha mãe quatro anos mais tarde. Gosto muito dessa ideia de seus filmes falarem entre si.

Por fim, não poderia deixar de mencionar o trabalho impecável de Chus Lampreave, que interpreta a mãe de Leo e faz uma bela dupla com Rossy de Palma, no papel de Rosa. As duas são responsáveis pelos momentos mais divertidos do filme. Segundo Almodóvar, que sempre que pode faz referências a passagens de sua infância e inclui elementos autobiográficos em seus trabalhos, elas têm muito de sua mãe e suas irmãs, no jeito de falar e no convívio complicado. Aliás, toda família tem um pouco disso, não é? É bom ver que, na vida, nem tudo precisa ser tão pesado sempre. Às vezes também é bom rir de si mesmo.

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