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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um poema melancólico e um romance sentimentalista


Cidade dos anjos não é um remake à altura de Asas do desejo. Enquanto este é um drama profundamente melancólico e lírico sobre as dores e as delícias da existência humana, aquele não passa de um filme sentimentalista, feito sob medida para levar o público às lágrimas com uma história de amor impossível. Propostas bem diferentes, como se pode ver. Mas era mesmo difícil alcançar a beleza do original.

No longa alemão, Damiel (Bruno Ganz) é um anjo que quer ser humano. Acostumado a acompanhar o dia a dia das pessoas, ele não quer mais só ser testemunha, ele quer fazer parte. Ele gostaria de deixar de flutuar e sentir seu próprio peso. Gostaria de ser cumprimentado. Gostaria de alimentar o gato, ter febre e sujar os dedos com tinta de jornal. Pequenas coisas a que ele não tem acesso e que nós nem sequer nos damos conta, porque estamos preocupados demais com nossos afazeres diários, nossas vontades, nossas frustrações. É bonito demais pensar em tudo que nos faz humanos, em todos os prazeres simples da vida. Mas é triste demais perceber que viramos um bando de seres egoístas e ilhados em seus próprios mundos. Essa sensação de isolamento é reforçada pela quantidade mínima de diálogos durante a projeção. Na maior parte do tempo, o que se vê são pessoas absortas em seus próprios pensamentos. Muitas vezes, os anjos são os únicos que os ouvem e os compreendem.


Reproduzindo o olhar dos anjos sobre a Terra, a câmera de Win Wenders flanando por Berlim é de uma elegância ímpar. E dialoga poeticamente com o título original do filme, Der Himmel über Berlin (Os céus sobre Berlin), muito mais apropriado que sua tradução para o português. Em primeiro lugar, a cidade não foi citada apenas por acaso. A vida na Alemanha, ainda dividida em duas quando o filme foi rodado, influencia muito o clima de angústia e incerteza retratada na história. Segundo, porque a palavra desejo pode levar um espectador menos atento a uma interpretação errônea: não é só de amor carnal de que trata a história.  

Sim, Damiel também quer ser humano porque se apaixonou por Marion (Solveig Dommartin), uma angustiada trapezista de circo. Mas isso, a seu ver, é uma das coisas que ele deseja como humano. Ele quer viver todas as emoções, incertezas e possibilidades que o agora permite em vez da placidez, da segurança e da previsibilidade da eternidade. É uma boa troca? Talvez sim, talvez não. O certo é que somos todos uns eternos insatisfeitos. Nem mesmo os anjos se conformam com o que têm. Ao menos, temos alguma coisa em comum.


A fotografia do longa, quase todo rodado em preto e branco, também tem um papel importantíssimo para contar essa história, e nos permite várias leituras, uma mais interessante que a outra. A cena em que Damiel finalmente se torna um mortal é curiosa e encantadora, pela inocência e pelo tom de descoberta. Um de seus primeiros deslumbramentos é com as cores, que ele descobre com a ajuda de um estranho. Antes, ele não conseguia perceber tantas nuances da vida aqui embaixo, agora é que ele realmente vai compreender o que é a vida humana. Mas podemos ir ainda mais longe: como um ser celestial, ele não era capaz de ver detalhes, apenas enxergava o que era realmente importante. Era capaz de ver a essência das pessoas. Na Terra, vai aprender logo a importância que se dá à aparência.

Depois de ver tantas questões abordadas em uma só obra, não deixa de ser decepcionante a experiência com a refilmagem americana. Deixando de lado todos os aspectos que tornaram Asas do desejo um clássico, Cidade dos anjos se apropria do que está ao seu alcance, reforça os aspectos dramáticos da história e se torna apenas uma releitura bem rasa da trama que lhe deu origem. O foco agora é o amor de Seth (Nicolas Cage) por Maggie (Meg Ryan), uma cirurgiã que questiona a própria fé quando tem que encarar a morte. Essa é a ideia que ronda o filme, dando ao longa de Brad Silberling um aspecto religioso que não havia na produção de 1987.


Seth conhece Maggie no hospital, quando vai buscar um de seus pacientes. Admirado por sua beleza e por seu profissionalismo, ele escolhe ser visto por ela, e os dois vão se aproximando pouco a pouco. Acostumada ao papel de mocinha, Meg Ryan ainda convence como a médica comprometida e cética que se apaixona por esse homem misterioso e fica em dúvida se deve se deixar levar ou manter sua vida chata e certinha. Mas a atuação sempre sofrível de Nicolas Cage não nos ajuda a entrar no personagem. É quase impossível notar a transição do anjo para o homem. A partir do momento em que ele descobre ser possível abrir mão da eternidade, graças a um anjo caído (bela referência ao papel de Peter Falk no original), Seth já sabe o que fazer. Tornar-se mortal não é um problema para ele. Todo o questionamento moral, portanto, fica com a personagem de Maggie, que não quer ser responsável por essa decisão.

A partir daí, a trama segue os desencontros comuns em romances e termina com um desfecho trágico, que até poderia ser bonito se não fosse tão apressado e mal executado (como a inverossímil cena do acidente). Não custava nada trabalhar um pouco melhor esse vai e vem de emoções do protagonista. Em seguida, a cereja no bolo: diálogos piegas, trilha sonora lacrimosa e cenas clichês. Nada contra filmes água com açúcar, mas excesso de sentimentalismo pode causar indigestão.

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