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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A vida e suas pequenas tragédias


Victor se apaixonou por Elena, que se encantou com David, que é parceiro de Sancho, que é casado com Clara, que... É fácil perceber que o roteiro de Carne trêmula anda em círculos, mas é difícil contar mais alguma coisa da história sem estragar o prazer de acompanhá-la. Não que seja uma trama de mistérios ou surpresas. Na verdade, muito do que se vê pode ser antecipado pelo próprio espectador. Mas é interessante observar como os acontecimentos se desencadeiam de uma forma natural e cumulativa, reunindo pequenas tragédias e suas inevitáveis consequências, nem sempre tão pequenas assim. Mais ou menos como na vida...

Na cabeça do inexperiente Victor (Liberto Rabal), uma noite de sexo significava muito mais do que representou para Elena (Francesca Neri). Decidido a ir até o apartamento da jovem para dar continuidade ao suposto relacionamento, ele acaba gerando uma confusão que culmina na chegada dos policiais Sancho (José Sancho) e David (Javier Bardem). Um tiro inesperado muda para sempre o destino de todos os envolvidos. Seis anos mais tarde, motivado por um desejo de vingança (ridículo, como ele mesmo reconhece), Victor se aproxima novamente de Elena e David e entra, sem querer, na vida de Sancho e Clara (Ángela Molina), a esposa frequentemente agredida pelo policial alcoólatra. A partir daí, é quase possível ver as cordas com que o destino brinca com cada um deles a seu bel prazer.

Almodóvar consegue lidar bem com essa dinâmica, um tanto diferente à que estamos acostumados a ver em seus filmes. Desta vez, sem o apoio de uma personagem feminina madura como fio condutor, o diretor consegue equilibrar perfeitamente a trama em seus cinco protagonistas, a maioria bem jovens, que se complementam e se modificam com o passar do tempo e com os acontecimentos. Quando verdades adormecidas vêm à tona, a aparente ordem das coisas é quebrada.

Além disso, o cineasta mantém a tradição de extrair ótimas interpretações de seu elenco, sempre muito afiado. Apesar de os homens terem um peso muito grande na história, o destaque vai mesmo para Francesca e Ángela. Esta consegue traduzir todo o sofrimento e a angústia de uma personagem que, mesmo com toda sua complexidade, poderia facilmente cair no estereótipo da mulher submissa e impotente. Já Francesca, com um papel menos tradicional em mãos, surpreende pela naturalidade. Na cena em que ela descobre toda a verdade sobre Victor durante uma sincera conversa, é só prestar atenção à expressão da atriz: em frações de segundo, Elena compreende o quanto tinha influenciado o passado daquele rapaz. É possível ver em seu semblante o longo caminho entre a compaixão, a vergonha e a culpa.


Enquanto as personagens femininas soam mais enigmáticas e elaboradas, as motivações masculinas tendem a ser mais óbvias, e suas ações, mais duras. Ao menos na aparência. A frieza de David, por exemplo, diante de duas grandes revelações importantes e inesperadas, é de espantar. Com uma decisão aparentemente calculada, no entanto, ele age motivado por sentimentos. Afinal, ele é humano.

O filme tem muito drama, como não poderia deixar de ser com um argumento como esse, mas nada é carregado demais. E o final, que remete ao início da narrativa, é bem bonito, não só por marcar o encerramento de um ciclo na vida dos personagens principais, como pela explícita mensagem política que carrega e pela declaração rasgada de amor que Almodóvar faz à Espanha e a Madri. Emocionante.


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