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sábado, 1 de outubro de 2011

Impossível não torcer por Charlie


A fantástica fábrica de chocolate fez parte da minha infância, e ainda assim é incrível rever esse filme depois de tanto tempo. O misterioso Willy Wonka de Gene Wilder e os curiosos Oompa Loompa estavam bem vivos na minha memória, mas já não lembrava de como a história de Charlie é contada de forma tão tocante. Muito mais do que na segunda versão, que também conta com um ótimo protagonista, mas peca ao privilegiar mesmo a excentricidade da interpretação de Johnny Depp. Engraçado que o filme de 1971 se chama Willy Wonka and the chocolate factory e a versão de 2005, Charlie and the chocolate factory. Irônico, não?

No longa de Mel Stuart, achar um dos cinco bilhetes dourados é um grande sonho para Charlie Bucket. De família bastante humilde, ele sabe que não tem condições de comprar milhares de barras de chocolate Wonka como as crianças mais abastadas, mas mantém viva a esperança. "Tenho chances como qualquer outro", diz Charlie, vivido por Peter Ostrum. Inocente como qualquer garoto de sua idade, ele tem bastante consciência da situação dos pais. É de cortar o coração vê-lo disposto a abrir mão do próprio presente de aniversário ou chorando ao ouvir que o quinto tíquete havia sido encontrado. Soa terno, sincero, verdadeiro, e nos faz vibrar junto com ele quando ele tem seu desejo magicamente realizado.

A cenografia do filme é tão marcante que foi difícil até para Tim Burton, um dos cineastas mais visuais que eu conheço, se superar. O rio de chocolate cercado por cogumelos e outras plantas comestíveis, as engenhocas da sala onde eram criadas as invenções de Wonka e tudo mais que compunha a fábrica não envelheceram e ainda hoje são mais convincentes que os ultramodernos efeitos especiais do remake. Os números musicais também são mais agradáveis no original. Na segunda versão, são só os Oompa Loompa que cantam, e as canções não são tão memoráveis assim.

O que o filme mais recente tem de mérito é o desdobramento de algumas subtramas que não foram exploradas no outro longa (e aqui abro um parêntese para explicar que não sei se já estavam no livro que deu origem às duas obras, mas funcionam dentro do roteiro): é o caso da história do pai de Charlie e o motivo de seu desemprego, o envolvimento do vovô Joe com a fábrica e, principalmente, a infância de Willy Wonka. Além de ser divertido ver a relação problemática dele com o pai (uma participação de luxo de Christopher Lee), os flashbacks servem para revelar algumas razões psicológicas para a personalidade do personagem e suas motivações. Afinal, como ele se tornou essa lenda? Por que esse interesse por doces se tornou a sua razão de viver?



Vendo por esse ângulo, consigo enxergar uma razão para a composição caricata que Johnny Depp fez para seu Wonka. Mas ainda prefiro o doceiro apenas misterioso de Wilder, que torna mais instigante a seleção das cinco crianças. Sendo apenas um milionário excêntrico e problemático, ele não precisa de motivação, apenas de um capricho. E se é verdade que Depp se inspirou mesmo em Michael Jackson em sua fase decadente para o papel, devo dizer que Keith Richards é um muso muito melhor (taí Jack Sparrow para provar).

Mais do que umas pequenas alterações durante o caminho, o que sempre me incomoda em casos de adaptações literárias, o desfecho da história é bem diferente. No longa de 71, Charlie não era um menino perfeito: junto com o avô, desrespeitou as regras, assim como as outras crianças. Mas se arrependeu, foi honesto e não quis prejudicar Wonka. Acabou recompensado por isso. No de 2005, o garoto, agora interpretado pelo fofo Freddie Highmore, é o único a não falhar durante toda a visita e só aceita a proposta (aparentemente irrecusável para alguém de sua idade) depois de dar uma lição de moral no doceiro - uma ligeira forçada de barra para chegar ao mesmo final feliz. Às vezes, menos é mais, nunca é demais lembrar.


2 comentários:

Carlos Romero disse...

Seu blog é simplesmente tão delicioso como a Fantástica Fábrica de Chocolates. Temos em em comum a devoção por esse filme fabuloso e também a predileção pelo Wonka de Gene Wilder. Em três anos e meio de blog, o post que eu tive mais satisfação em construir e pesquisar foi o do paradeiro atual das 5 crianças. Descobri que muitas pessoas já tinham feito algo semelhante, mas isto não tirou o meu prazer de tê-los reunidos lá em meu blog. O ponto mais vibrante foi ver que eles se reuniram ultimamente em comemoração ao 40º aniversário, assim como o fizeram em 2001, em homenagem aos 30. Escrevi um email para Rusty Goffe, o principal oompa-loompa, e ele me respondeu gentilmente, lamentando que dos dez anões, havia apenas três vivos. Adorei o seu site. Vai direto para os meus favoritos.

Giselle de Almeida disse...

Oi, Carlos. Que bom que você gostou do blog! As meninas do sofá agradecem a visita e o comentário tão simpático. Volte sempre!

Ah, fiquei curiosa pelo seu post. Vou lá conferir :)