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sábado, 29 de outubro de 2011

Versão primitiva do Conde Drácula


Nosferatu me deixou confusa. Porque, ao mesmo tempo em que carrega os principais elementos da clássica história de Bram Stoker, consegue ser uma obra extremamente diferente de Drácula. À parte a questão dos direitos autorais, que foi "resolvida" com uma preguiçosa (e até picareta, eu diria) mudança de nomes e a alteração do desfecho, creio mesmo que F.W. Murnau tinha ambições distintas das de Tod Browning, diretor responsável pela adaptação com Bela Lugosi. Pesando os prós e os contras, acho que fico com a versão de 1931, embora digam que a produção alemã tenha conseguido ser mais fiel na caracterização do papel-título. Questão de gosto. Mas também fiquei curiosíssima para ler o romance original e ver o que, afinal, é baseado no livro e o que é pode ser considerado livre interpretação.

Embora o longa tenha suas qualidades - pioneirismo entre elas, sem sombra de dúvida -, não pude evitar a decepção. A começar pelo próprio Nosferatu: seguindo a estética do expressionismo alemão, a caracterização da criatura é propositalmente exagerada e assustadora, com suas orelhas disformes, dentes pontiagudos e garras enormes. Esqueça o título de nobreza, o conde Orlok/Dracula (Max Schrek) não passa de um monstro, uma besta que espalha doença por onde passa. Causa espanto até o fato de ele falar tão articuladamente (apenas nas primeiras participações, reparem), já que o visual é de um animal ávido por sangue bem próximo da irracionalidade. Confesso que a ideia de um vampiro dissimulado e sutil a ponto de se misturar aos demais me soa mais atraente. Outro aspecto interessante é que, apesar de ser o personagem principal, ele aparece muito pouco e, muitas vezes, acaba ofuscado pelos coadjuvantes. Sem falar que chegam a ser ridículas as cenas de Orlok correndo pela cidade de Bremen sorrateiramente, com seu caixãozinho debaixo do braço. Ele não poderia arrumar um servo só com o poder da sugestão para ajudá-lo nas tarefas mundanas?


Além disso, fazer um filme mudo tem suas limitações: o uso das cartelas, necessárias para a compreensão da história, ainda que comedido, acaba prejudicando o ritmo da narrativa. Elas não só diminuem a tensão em momentos decisivos como impossibilitam que o espectador faça suas próprias associações de ideias a partir das imagens. E nem vamos mencionar as interpretações, sempre um tom acima, como é inevitável em produções do tipo. Junte-se isso a uma certa inabilidade de conduzir as tramas paralelas (falha que poderia ser corrigida na hora da montagem) e o resultado são trechos absolutamente deslocados, como a "apresentação" do doutor Bullwer/Van Helsing (John Gottowt) numa chata aula sobre plantas carnívoras e pólipos. Era para ser uma metáfora, mas não funcionou muito bem. O personagem, que deveria ser importante, poderia ser totalmente limado da história que não faria a menor falta. Uma pena.

Acho que ficou bem claro que Murnau não tinha a pretensão de eternizar a figura de Orlok/Dracula como o vampiro-modelo que ele viria a se tornar nas décadas seguintes. Para ele, mais importante que caracterizar um ser mitológico vulnerável a água benta, alho e estacas era criar um ambiente de medo que tomasse conta de toda a população. Na trama, todos acreditam que uma pesta seja a causa de tanta morte e destruição, o que muitos associam ao clima pós-Primeira Guerra Mundial. A questão fica ainda mais alegórica ao pensarmos que a ameaça termina assim que Orlok/Dracula é atingido pelos primeiros raios de sol da manhã. Imediatamente, a doença desaparece. Não deixa de ser um fim esperançoso: por mais longo que seja o período das trevas, amanhã é outro dia.

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