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quarta-feira, 7 de março de 2012

Vingança é um prato que se come frio...


Nada vai impedí-la de ter sua vingança
"Olho por olho, dente por dente", "Aqui se faz, aqui se paga", "Quem com ferro fere, com ferro será ferido". Qualquer um desses ditados populares poderia ter sido usado para descrever o sentimento da Noiva (Uma Thurman, completamente confortável com a personalidade assassina da sua personagem) pela situação em que ela se meteu - mas nenhuma seria mais perfeita que o dito que abre o filme, em uma cartela singela e, como não poderia deixar de ser, com uma referência nerd. É basicamente isso o que vemos o filme todo: a história é a vingança da noiva, uma ex-assassina, que foi pega numa emboscada no dia de seu casamento. Todos foram assassinados, menos ela - que sobreviveu ao massacre, apesar da improbabilidade da coisa. Quatro anos após o ocorrido, a Noiva desperta de seu coma e resolve se vingar. Um por um, todos os que estiveram presentes no fatídico dia, irão morrer. A vingança não podia ser intempestiva, tinha que ser planejada cuidadosamente. Afinal, o massacre de seu casamento não havia sido planejado com desleixo. E ela não pouparia esforços para ver todos mortos, exatamente como foi feito com ela. 

Já é sabido que o diretor Quentin Tarantino gosta da cultura japonesa, com seus animes e histórias de samurais, mas a escolha desse estilo para esse filme é algo espetacular. Muitos filmes de ação com brutamontes tem em sua origem uma história de vingança (geralmente a esposa e o[s] filho[s] do cara foram mortos por algum rival/chefe da máfia), e tudo o que vemos é um festival de tiros a torto e a direito, até que todos estejam mortos e os mocinhos possam enfim descansar em paz. Mas em Kill Bill - o som vibrante da vingança (Kill Bill, 2003) isso seria um desperdício de argumento - e Tarantino foi brilhante ao adotar katanas mortais e muito sangue jorrando na tela. É uma forma implícita de "pôr pra fora" toda a raiva, o ódio, o ressentimento da Noiva pelos acontecimentos (seu quase assassinato, a perda de seu bebê, os quatro anos em coma). Ela queria vingança, mas não estava desesperada. Só precisava que todos soubessem que ela estava de volta - e que eles iriam morrer.

Um macacão amarelo, uma katana Hanzo, 88 Loucos e sangue, muito sangue

O mais curioso dessa lógica tarantina é que tudo pode ser muito violento, muito inteligente e muito divertido. Uma mãe de família que quebra a casa inteira tentando matar uma oponente, mas pede pra não ser morta na frente da filha que acaba de chegar da escola; estupradores mortos por uma paciente recém desperta de seu coma, um por hemorragia após ter a língua arrancada a dentadas, o outro com a cabeça arrebentada na porta; cabeças voadoras, braços decepados... Tudo repugnante a qualquer ser humano dito normal - e você se pega olhando pra tela incrivelmente seduzido por essa história violentíssima. As cenas são marcantes, mais ainda as violentas (principalmente na batalha entre a Noiva e os 88 Loucos, já um clássico dos filmes de ação). Luz, cor, movimento, música, texto, interpretações, personagens complexos e construídos com perfeição, uma argumento controverso porém absolutamente aceitável - tudo milimetricamente pensado para o entretenimento inteligente.

É um tanto óbvio que eu estou dando todo o crédito do sucesso de Kill Bill ao diretor. Afinal, foi ele quem escolheu a dedo sua musa, quem deu o toque sutilmente irônico em toda a situação, quem foi o responsável pela mistura de estética setentista com espírito samurai. Considero esse filme muito autoral, muito "a cara do Tarantino". Fosse essa ideia levada adiante por outro diretor e seria um desastre. Eu não sei qual é a fórmula mágica usada por ele para fazer bons filmes, mas sei que dão certo. Em Kill Bill, deu muito certo. E o final, tão enfático da Noiva ameaçando matar todos é sufocado pela carta na manga que Bill (David Carradine, que não mostra o rosto em momento algum no filme) tem: "Ela por acaso sabe que a filha dela está viva?" Pronto, estamos todos fisgados para a segunda parte da vingança!

"O problema foi que eles mataram 9 pessoas. Deviam ter matado 10."
Nesse primeiro volume, os personagens vingados são O-Ren I-ishi (Lucy Liu, enigmática) e Vernita Green (Vivica Fox, ótima em sua pequena aparição). Mas outros tantos personagens intrigantes aparecem. Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama, excelente), a adolescente sanguinária com cara de inocente, mas especialista em usar katanas e aquele instrumento poderoso que-eu-não-sei-o-nome (a pavorosa bola de ferro presa a uma corrente, tão ameaçadora, imprevisível e fatal); Sofie Fatale (Julie Dreyfus), a segunda em comando do Bando de Loucos de O-Ren - dá até pena saber que ela foi mutilada para que a Noiva pudesse ter mais informações; Elle Drive (Daryl Hannah, a estrela resgatada do ostracismo da vez - uma especialidade de Tarantino), enigmática, perigosa e ícone com tapa-olho e uniforme de enfermeira; o próprio Bill, que na verdade, a gente não sabe nada sobre ele - só que ele foi o mandante, ex-chefe e pai do bebê da Noiva. 

Alguns desses personagens vão receber sua parte de vingança no segundo volume. Outros, reza a lenda, vão reaparecer nos volumes 3 e 4 (falo da suposta continuação, em que Nikki, a filha de Vernita Green, teria a sua vingança). O próprio Tarantino não descarta a hipótese, segundo consta. A espera é grande, e não há sinais de que já esteja acontecendo. Mas vingança é um prato que se come frio, não é?

1 comentários:

Fabiane Bastos disse...

Também reza a lenda que Tarantino quer manter Ambrosia Kelley, a atriz-mirim que interpreta a filha de Vernita, na possível vingança. Mas a garota precisa crescer primeiro (nem todas podem ser Hit Girl).

Obsessão de Tarantino? Pode até ser, mas a guria tem nome de refeição dos deuses gregos! Só pelo fato de isso ficar "maneiro" nos créditos eu também a manteria. heheheh