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sábado, 14 de julho de 2012

Toda a beleza de uma história trágica


Estrada para perdição é daquelas lindas histórias trágicas que não seriam lindas se não fossem trágicas. A ideia de morte é intrínseca a todos os contos que envolvem gângsters, e não seria diferente com a família de Michael Sullivan (Tom Hanks). Quando seu filho mais velho, Michael Jr. (Tyler Hoechlin), descobre os negócios em que seu pai está metido e presencia um assassinato, toda a família fica em perigo. É como uma maldição: todos com aquele sobrenome estão condenados a se sujar, mais cedo ou mais tarde, num indelével rastro de sangue. 

Mas bonito de se ver mesmo é o medo de Sullivan de que o filho herde mais do que o seu nome: seu verdadeiro pavor é de que o menino siga também sua escolha de vida, um caminho que ele, melhor do que ninguém, sabe que não tem volta. Esse sentimento, tão complexo para ele próprio, acaba criando uma relação distante entre os dois. Num diálogo interessante, em que o garoto pergunta se o pai amava mais  o caçula, Peter (Liam Aiken), Mike nega e tenta se justificar. Uma declaração de amor mais direta, um gesto mais afetuoso, tornaria a cena mais piegas e menos significativa. Aquele era o modo de um assassino demonstrar seu amor. Com poucas palavras, do jeito que ele conseguia se expressar, sincero. 

E, nas seis semanas que se seguem na estrada, a dupla consegue mais intimidade e mais cumplicidade do que nos anos em que viviam sob o mesmo teto. O menino, que até pouco tempo atrás, viu seu mundo ruir ao descobrir como seu pai ganhava a vida, aprende a respeitá-lo e admirá-lo. Tornam-se parceiros. 

Com um elenco irreparável em mãos, Sam Mendes consegue imprimir no filme com brilhantismo uma plasticidade impressionante ao contar essa história tão dura e, ao mesmo tempo, tão melancólica. Uma das sequências mais bonitas (e poéticas, eu diria) é a do acerto de contas do protagonista com seu antigo patrão, John Rooney (Paul Newman), sob uma implacável chuva. O momento em que os dois se encaram têm mais impacto do que todo o seu entorno. O resultado é sensível e de bom gosto.

Mas é possível encontrar em vários momentos do longa planos que remetem à estética dos quadrinhos como supercloses de Connor (Daniel Craig) fumando ou de Harlen Maguire (Jude Law), o excêntrico fotógrafo de defuntos, fazendo malabarismo com uma moeda entre os dedos. Já o tão aguardado reencontro entre o jovem Rooney e Mike é extremamente bem resolvida com o simples fechar de uma porta. Essa é a diferença entre um diretor habilidoso e um burocrático: Estrada para perdição seria um filme trágico se não fosse lindo.

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