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sábado, 8 de setembro de 2012

Uma comédia para nos fazer rir e pensar


Que atire a primeira pedra quem nunca apelou para a ficção para escapar da realidade, nem que seja por alguns minutos. Pois essa ideia, elevada à enésima potência, é o simpático e divertido mote de A rosa púrpura do Cairo. Woody Allen faz questão de desrespeitar as fronteiras entre real e imaginário e propõe uma reflexão nada acadêmica sobre a nossa experiência cinematográfica. Até que ponto nós nos deixamos conduzir ao entrar na sala escura do cinema? Até que ponto ativamos nossa consciência crítica? Até que ponto queremos ser enganados?

Impressionante como uma comédia leve como essa consegue conter tantos questionamentos e, ao mesmo tempo, construir um panorama tão realista da vida da protagonista, Cecilia, interpretado com delicadeza por Mia Farrow. A lista de problemas é imensa: em plena Depressão, quando a crise econômica nos Estados Unidos atinge níveis alarmantes, ela sustenta o marido, Monk (Danny Aiello), com seu parco salário de garçonete. Ele, por sua vez, gasta seu tempo com jogos e amantes, em vez de procurar trabalho. Como se a situação não pudesse piorar, o sujeito bebe em excesso e a agride, verbal e fisicamente. Não poderia haver pior cenário para ela, que só encontra o mínimo de conforto na ilusão que o cinema proporciona.

De tanto ver A rosa púrpura do Cairo (o filme dentro do filme), Cecilia desperta a atenção de Tom Baxter (Jeff Daniels), o explorador da história. Seria uma história de amor proibido perfeita se ele... existisse. A princípio, nenhum dos dois parece se importar com esse detalhe, mas a confusão causada pela fuga do personagem repercute tanto que eles precisam reavaliar a insólita situação. A inocência do explorador emociona quando ele é levado por Emma (Dianne Weist) a um bordel. Seu romantismo idealizado, embora sincero, fazia suspirar as prostitutas assim como as mocinhas que assistem a seus filmes. Existiria um homem como aquele no mundo real ou o discurso do amor eterno é mesmo só ilusão? É emblemático o que ele diz a Cecilia durante seus encontros furtivos: "De onde eu venho, as pessoas não lhe desapontam. Elas são confiáveis e você pode contar com elas". Seria essa uma sentença que opõe os dois mundos? Não se pode contar com ninguém na vida real?

Mas a ingenuidade de Tom também garante momentos impagáveis: ele, que não sangra nem se desarruma, estranha quando os carros não ligam automaticamente ou quando um momento romântico não termina com o clássico "fade out", dentre as muitas referências que o longa faz a  práticas comuns no cinema, cheias de uma deliciosa ironia. A maior delas está em Gil Shepherd, também vivido por Jeff Daniels com maestria. O estereótipo de ator de ego inflado ("Fui aclamado pela crítica" é uma de suas frases favoritas) também serve para questionar o papel da criação no cinema, essa arte que é essencialmente coletiva. Gil se refere o tempo todo a Tom como criação sua, até que é questionado por Cecilia: "Mas não foi criação do escritor?". Pausa. Silêncio. Acho que alguns atores devem ter entendido a mensagem mais que direta de Allen....

Alheio a toda essa discussão, Tom Baxter enuncia diversas vezes seu desejo maior: liberdade. Ele, que não conheceu seu pai, morto antes do filme começar, quer fazer suas próprias escolhas, quer sair do script, quer a incerteza. Cecilia quer justamente o contrário, a repetição, a segurança, o final feliz com garantia. Curiosamente, mesmo não sendo de carne e osso, Tom é capaz de modificar a vida de Cecilia. Somente a partir do inusitado encontro, ela toma atitudes até então impensáveis, como mentir para o marido e enfrentá-lo, quando ele usa de toda sua "autoridade". É bonito de ver como toda essa ilusão, que logo se revela passageira, consegue fazê-la repensar sua vida e criar coragem de agir. O cinema sempre foi o refúgio da garçonete, que se ampara naqueles breves momentos de felicidade (do outro, repare) para esquecer tudo aquilo que lhe oprime. O melancólico final, que poderia ser encarado como um balde de água fria nos mais otimistas, é bastante realista. Será que estamos dando à arte sua verdadeira função, de servir de projeção para nós mesmos e de provocar reflexão? Ou mais uma vez vamos voltar para nossa vidinha de sempre sem nos deixar modificar depois que o "The end" aparece na tela?  

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