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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Como contar um romance adolescente

Comece escalando Molly Ringwald, já são 50% de chance de acerto
A garota de rosa shocking (Pretty in pink, 1986) é quase um conto de fadas. Menina pobre é apaixonada por menino rico, que se apaixona por ela e depois de percalços, vivem juntos para sempre. Mesmo que esse 'para sempre' seja só a noite do baile. O filme é fofo e tem coisa bem engraçadas, principalmente nas cenas em que Jon Cryer aparece - ele rouba a cena com seus trejeitos esquisitos e óculos escuros à la John Lennon. Há também o humor involuntário da indumentária oitentista, claro, e da tecnologia avançada dos computadores da biblioteca. Fora isso, é um filme adolescente normal. E isso não é demérito.

Andie (Molly Ringwald, musa esquisita e desengonçada - tipicamente adolescente) é uma menina pobre que tem gosto pela moda. Cria seus próprios modelitos, o que a faz diferente das patricinhas oxigenadas da escola. Ela não sabia, mas já tinha chamado a atenção do bonitão Blane (Andrew McCarthy, gatinho), mas sabia que o interesse do outro bonitão, Steff (James Spader), era pura massagem no ego - dele. O que Andie não sabia era dos sentimentos de seu melhor amigo Duckie (Jon Cryer, hilário), que sempre fora dedicado à ela, mas nunca havia aberto o bico pra se declarar. E que momento ele resolve escolher pra isso: dentro da loja de discos (reparem, eu disse loja de discos) onde Andie trabalha, ele resolve cantar para a amada, para expor seus sentimentos. Vergonha alheia define. Se bem que a declaração propriamente dita não é nessa cena, mas ali já estava mais do que claro para qualquer um que quisesse ver (o que não era o caso da Andie) que ele estava perdidamente e idiotamente apaixonado pela melhor amiga. Quem nunca?

Duckie (Jon Cryer) em sua fase paixão-obssessiva
Então acontece aquilo que todo mundo já sabia que ia acontecer: Andie fica meio abalada por descobrir os sentimentos do amigo e porque tem vergonha de ser pobre, o amigo rico e seboso acaba por abalar a confiança de Blane e o clima entre os pombinhos fica meio estranho. E então... Aparece ele: o vestido cor de rosa. O tal do nome do filme. Que, na verdade não é assim tão rosa-choque. É um rosa normal, e um vestido lindo até - inspirado nos anos 1950, com lacinho, anágua de tom mais claro... Mas a nossa protagonista é uma especialista em moda, certo? E o que ela fez? Customizou, antes de isso virar modinha. E gente... Que decepção! O vestido ficou horrível. Ok, isso é um comentário muito mulherzinha, mas o vestido é o que dá o nome do filme - traduzindo bem toscamente do inglês, bela em cor-de-rosa. Ou seja, era pra ela estar linda com o vestido, e uma vez que este não está, assim, tão bonito... Enfim. Ela aparece no baile, sozinha, com seu vestido rosa e encontra Duckie, também arrasador. O que Andie não esperava era que Blane também tivesse ido sozinho ao baile, demonstrando que ele realmente não estava afim de ter nenhuma outra garota que não ela. Duckie finalmente se dá conta de que está sobrando, e pede para a amiga correr atrás do príncipe encantado dela. Lógico, um personagem tão bacana e divertido não podia terminar o filme numa bad. Então, ele logo se arruma com outra menina do baile, também vestida de rosa - mas com um vestido mil vezes mais feio e cafona, inclusive para padrões oitentistas. Então chegamos na cena final, o beijo de reconciliação do casalzinho fofo Andie e Blane.

Arrasando em pink. Ou não?

As angústias da adolescente que sabe que é esquisita, mas que é assim porque não quer ser igual ao resto das patricinhas do colégio, o que vai ser do futuro?, melhor amigo que gosta da melhor amiga, conflito entre classes sociais... Um simples filme de romance adolescente tem tudo isso e ainda diverte, anos depois de filmado. Por isso John Hugues é um gênio. Conseguiu eternizar essas dúvidas e criar moldes para os milhares de filmes com a mesma temática, porque os anos passam, mas os adolescentes passa por esses mesmos dilemas - e em qualquer lugar do planeta. Uma cena ótima e que traduz bem isso é quando Andie vai visitar a amiga punk, mais velha e dona da loja onde ela trabalha, e vê o vestido rosa pela primeira vez. Ela conta uma história de quando ela foi ao baile, 'uma das piores coisas que aconteceram na vida dela', e a de uma amiga que optou por não ir. A vida desta é supertranquila, mas de vez em quando ela se pergunta se tem alguma coisa errada e se dá conta de que o que está faltando é a experiência de ter ido ao baile de formatura. Hugues vai além de só mostrar a história, ainda nos faz refletir sobre o futuro - será que não deixamos passar nada em branco? Será que aproveitamos a nossa adolescência direito? Será que não vamos nos culpar por não ter ido àquele baile?

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