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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

E se Arthur não fosse um rei?

Lancelot (Gruffud) e Arthur (Owen): primeira vez que não vejo
a briga dos dois pelo amor de Guinevere
Como seria a história da Inglaterra se Arthur não fosse um rei, mas um guerreiro que se casa com uma selvagem? Confesso que me surpreendi revendo esse filme sobre a lendária figura de Arthur, o Rei dos Bretões. Rei Arthur (King Arthur, 2004) tem uma pegada completamente diferente das anteriores. Nisso eu vejo um mérito. Já não é um musical, isso também conta pontos (não que eu não goste de musicais, mas o musical que vimos sobre Arthur não foi lá das mais felizes adaptações...). Outra coisa boa foi ver que ele não foi chifrado pelo melhor amigo (porque, né? vamos combinar: esse, talvez, seja o fato mais triste da história do Rei Arthur). E, dessa vez, eu não dormi. Convenhamos, não é fácil encarar quase 3h de filme, independente de quem esteja na telona ou por trás dela. Bom, como eu disse antes, me surpreendi com o filme, e tenho um saldo positivo para ele, embora ele ainda não tenha caído em minhas graças. Vamos aos fatos.

O filme começa falando de Lancelot, então um rapazinho camponês ceifado dos campos para o exército cristão romano na Grã-Bretanha. O pequeno Arthur também fora ceifado, mas o pequeno fora educado no cristianismo - portanto, quando cresceu e tornou-se capitão dos seus conterrâneos (apesar de mais jovem), ele acreditava que sua missão era cumprir o que a Igreja/Roma queria era seguir o caminho certo. Arthur (Clive Owen, suspira) é a retidão em forma humana, e seus melhores amigos são seus companheiros de guerra. Sua famosa e legendária Távola Redonda já estava reduzida a poucos guerreiros quando finalmente eles cumprem o prazo de 15 anos contribuindo para a Igreja e finalmente voltarão a ser livres. Arthur é o único que adotou o Deus cristão, portanto seus amigos o seguem por lealdade. Quando o bispo chega para entregar-lhes as cartas de 'alforria', um último pedido veio de Roma: que o grupo trouxesse em segurança para casa uma família protegida da Igreja. O único problema é que os saxões estavam invadindo a Inglaterra pelo norte, e o local onde o 'amiguinho do Papa' resolveu ficar é pra lá da muralha, ou seja, em meio ao território inimigo. Como dizer a seus amigos que sua liberdade depende de voltarem vivos de uma missão suicida?

Tristan (Milkkensen) e seu falcão: presença forte em cena
A muito contragosto, Lancelot (Ioan Gruffudd, em interpretação bem mais vitaminada que a do Sr. Fantástico), Gawain (Joel Edgerton), Gallahad (Hugh Dancy), Tristan (Mads Mikkelsen, participação marcante como um calado e mais que eficiente guerreiro), Bors (Ray Winstone, ótimo), Dagonet (Ray Stevenson, também muito bem) e o escudeiro Jols (Sean Gilder) partiram nessa missão. Enquanto Arthur rezava para seu Deus católico, os outros ainda rezavam para os deuses pagãos. Haviam lutado, matado e morrido em busca de uma liberdade que, na verdade, não passava de uma formalidade. Todo bretão era, por direito, livre. Eles lutavam por mais do que isso, lutavam por Arthur. E ele decidiu cumprir a tarefa que lhe foi dada. Então, encarando um cerco de selvagens, o frio e a neve que chegavam sem dó, e a ameaça saxã, os cavaleiros foram para o resgate da família. Lá chegando, o senhor da terra havia reunido em si tudo  que de pior havia na fé cristã: tornara-se um fanático, avarento, acreditava ser a voz de Deus na terra e que seus servos deviam ser escravos, castigava os que ousavam desobedecer e dizia que era pecado ir contra o que ele determinava... Enfim, fazia da vida dos camponeses um inferno. Ao ver aquilo, e a recusa do senhor  em sair e abandonar seu castelo e sua riqueza, e as torturas que causava em seu povo, Arthur começou a repensar sua fé. Salvou da morte Guinevere (Keira Knightley, terrível como sempre) e o menino Lucan , a quem o cavaleiro Dagonet havia se apegado. Dagonet cuida do menino como a um filho, e Guinevere sente-se atraída por Arthur enquanto desperta o desejo em Lancelot. E ao resgatar todos da vila, a volta em segurança do grupo está ameaçada. Os saxões estão cada vez mais perto, e todos se deslocam com lentidão. Há crianças, feridos e idosos, e apenas sete cavaleiros para protegê-los.

No meio do caminho, o tal ricaço ainda quis aprontar uma: teve a cara de pau de ameaçar uma criança para conseguir ter o controle de volta sobre seus vassalos - e ia fazer a idiotice de levar todos de volta para o castelo abandonado. Tudo por causa do orgulho. Mas Guinevere provara que já estava melhor do machucado que tinha nas mãos e mata o idiota com uma flechada certeira. O comando estava de novo nas mãos dos cavaleiros. Estes, cansados de tentar fugir, e com a chance de correr absolutamente atrasadas por um rio congelado que eles deveriam usar como estrada, o grupo finalmente parte para o primeiro embate com os saxões. Jols seguiu liderando o bando, enquanto os cavaleiros ficavam para lutar. Essa cena da luta foi particularmente interessante. Oito arqueiros contra uns 100 soldados sobre um rio congelado. Eletrizante, todos poderiam morrer. Após perceberem que seu plano de compactar o inimigo para que seu peso quebrasse o gelo não ia funcionar, eles iam partir em retirada, mas Dagonet, com sua força incrível, e seu machado, fizeram o trabalho. Isso custou a sua vida, mas o grupo saxão, liderado pelo príncipe Cynric (Til Schweiger, dá até pena desse bruto quando a gente vê como o pai o trata), foi muito mais afetado.

Cynric (Schweiger) e Ceric(Skarsgard): saxões retratados como um povo sem misericórdia
Arthur consegue levar a sua missão a cabo, mas a vitória tem um sabor amargo. O valioso papel que lhe renderia sua liberdade e a de seus amigos não passa mais de mera formalidade. Ele já está consciente de que a Roma benevolente que ele acredita existir, não passa de uma farsa e que todos são iguais ou piores do que o babaca que ele foi resgatar. Nessa parte eu fiquei confusa: ainda atiçado pelo curioso encontro com Merlin (Stephen Dillane, em participação mínima como um líder de selvagens e nada de magia) que propusera que o verdadeiro inimigo era Roma ou os saxões, qualquer um que realmente quisessem tomar a terra que era deles por direito, Arthur decide que deveria continuar e lutar com os saxões enquanto seus amigos iriam continuar a escolta dos resgatados até o embarque para Roma. Ora, ele ainda não estava plenamente convencido de que seu dever era com sua gente, e seus cavaleiros tinham total certeza de que era para eles defenderem suas terras e lá estavam eles, indo embora, deixando Arthur sozinho para lutar contra um exército inteiro. Mas ok, eles não iam deixá-lo lá pra morrer sozinho.

Obviamente os cavaleiros voltaram, após um encontro arrepiante entre Arthur e o horrendo rei saxão, Cerdic (Stellan Skarsgard, perfeito), e a cena mais bizarra de guerra que eu já vi. Não importa o quão bom arqueiro Tristan era, não havia como ele acertar o traidor escondido naquela árvore! Passada minha revolta, vem o lenga-lenga: a estratégia de atrair os saxões para dentro da muralha e usar a fumaça e os arqueiros selvagens a seu favor, foi muito bacana. Só não precisava ser uma sequência tão longa. Essa parte é muito, muito cansativa. Até que os principais morram, Lancelot, Tristan, o rei e o príncipe saxão, rola muito sangue e terra voando, muita fumaça e ação em câmera lenta. Então, o rei morre nas mãos de Arthur como ele prometera ("quando vir meu rosto no meio da batalha, saiba que é a última coisa que verás") e o filme termina com o casamento de Arthur e Guinevere em Stonehenge. Tipo fim de novela das oito. Sol brilahndo, promessa de uma vida nova. Um rei proclamado sem coroa. Então tá, né? 

Guinevere (Knightley): não convenceu
Fiquei bem frustrada com essa versão, que tinha tudo pra ser ótima, mas acabou pecando pelo excesso de confiança nas estrelas (Owen e Knightley) e um fim de roteiro muito fraco. O filme parece perder a força do argumento quando acabam a última batalha. É quase como se tivesse tentado amarrar de qualquer forma o fim da história. A produção é impecável, os atores que interpretam os cavaleiros realmente parecem guerreiros dispostos a dar seu sangue pelo seu povo, sua terra e seu maior amigo. E Keira Knightley... Só os anjos podem dizer porquê gostam tanto dela... Limitada e sem sal, não se destaca em momento algum com a única personagem feminina de valia nessa versão. E olha que Guinevere não era retratada como uma princesa, mas como uma guerreira. Era pra ter 'botado pra quebrar'. Os erros são pequenos, mas são o suficiente para não deixar o filme ser tão grande quanto parecia e poderia ser. Uma pena.

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