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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Modernidade mais do que atual

Chaplin cantando e fazendo graça



Chaplin é gênio e eu sou fã de carteirinha. Dados os fatos, vamos à análise do filme. Tempos Modernos (Modern Times, 1936) é, como todo filme de Chaplin, uma deliciosa e divertida troça com a realidade. É uma visão que ele tem para além do seu tempo, é uma previsão do que seria a vida quando chegada a época em que as máquinas ditariam o tempo. Além disso, Chaplin também se adaptava ao cinema falado: é perceptível o esforço em manter a tradição do filme mudo, mas já era impossível fugir do som. A maior parte das sequências é muda, mas somos brindados ao fim do filme com um número musical do vagabundo mais amado do mundo.

A máquina alimentadora de funcionários: uma das sequências mais hilárias do filme


Mais máquinas, menos gente, tempo é dinheiro - para o dono da indústria. Os peões, que se virem para dar conta do trabalho, sem falhas - quase como as máquinas fariam. A hilaridade do mecanismo de movimentos dos braços do operário, que só fazia apertar parafusos o dia inteiro, e cada vez mais com mais velocidade para dar conta da demanda, chega a ser triste: pensar que você é treinado para uma atividade e trabalhar nela exaustivamente, não ter tempo para relaxar (sequer havia tempo para comer) e sair de lá somente pensando em voltar ao trabalho.Aliás, impagável a sequência da máquina de alimentar os funcionários é genial. Fala da ganância industrial de aproveitar todo o tempo do funcionário, sem que ele perca tempo se alimentando. Fala da automação dos homens e ainda faz gargalhar. É ou não é sensacional? Quando o operário vivido por Chaplin surta de vez e sai apertando todos os botões que vê pela frente (inclusive os da saia da secretária, na sequência impagável) e puxando alavancas, é hilário (eu tenho que me lembrar de não assistir aos filmes de Chaplin de madrugada, ou vou ser expulsa do prédio por causa do barulho das minhas gargalhadas incontroláveis) e ao mesmo tempo comovente. Pensar que qualquer um pode enlouquecer de tanto trabalhar é assustador, porém muito próximo à nossa realidade atual. A cena em que o operário é engolido pelas máquinas é uma metáfora assustadoramente verdadeira - ou será que hoje é possível trabalhar sem ter alguma máquina (computador, celular etc.) por perto?




Paralelo à história do trabalhador que surta, ocorre a da pequena órfã que cuida das irmãs menores. O pai delas estava desempregado, e quando acaba morrendo em meio à confusão de uma passeata, ela se vê obrigada a fugir para não ir para adoção. Os personagens se encontram quando esta roubava um pão para sobreviver, e Carlitos acaba por assumir a culpa porque queria voltar para a cadeia (tinha ido parar lá quando foi confundido com o líder da passeata contra o desemprego), pois era muito melhor lá: depois de ter impedido uma fuga em massa, havia caído nas graças dos policiais. Em tempo, uma sequência que me fez perder o fôlego de tanto rir. Em outros encontros, enquanto ele tenta salvar a bela, tem uma sequencia comovente deles sonhando em ter uma casa de verdade. Depois, quando ela consegue arrumar uma casa para eles, a realidade é bem diferente. Nem quando ambos conseguem um emprego de verdade (ela dançarina, ele cantor no mesmo clube) a vida consegue ser mais fácil: os agentes do governo vão atrás da jovem, já que ela estava sendo procurada por ter fugido da adoção. O filme termina meio melancólico, com ambos sem destino, sem emprego e sem muitas perspectivas. Mas o clima é de esperança: enquanto houver aquela vontade de procurar o seu lugar no mundo, o seu lar, então vale a pena caminhar. Lindo, divertido, que faz refletir e ainda tem um bônus: ver Chaplin cantando. Por isso amo tanto esse gênio e suas obras.

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