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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Quase como ler a HQ

Representação quase fiel da HQ: ponto para a produção de Rodríguez

Não li a série de graphic novels de Frank Miller, mas a sensação que fica ao assistir a Sin City - A cidade do pecado (Sin City, 2005) é a de que estamos fazendo uma leitura visual das HQ's. Pode ser que não  seja exatamente fiel à história, mas basta fazer uma busca rápida por imagens na internet para ver que as referências todas estão lá no filme. Os efeitos visuais para a estética em preto e branco com apenas alguns detalhes coloridos é muito bem feito. As personagens são, por si só, interessantes e a forma como as violentas histórias são intercaladas e interligadas é empolgante. Grandes astros fazem parte do elenco, mas destaco as interpretações instigantes de Brittany Murphy como a prostituta Shellie, que namora o policial bêbado e brutamontes Jackie-Boy, vivido por um inspirado Benício del Toro, e de Mickey Rourke, coberto de maquiagem especial para se transformar em Marv, um atormentado homem que conhece o amor nos braços de uma prostituta. Por uma única noite. E isso vai ser suficiente para ele... 

Brittany Murphy: atuação inspirada em participação pequena, dupla significativa com Del Toro

São várias as histórias contadas, mas, de longe, as mais bem explicadas são a de Marv, que resolve sair numa vingança implacável por sua Goldie (Jaime King) que fora assassinada ao seu lado na cama, enquanto ele dormia; e a do detetive sessentão Hartigan (Bruce Willis, limitado como sempre) em sua heroica proteção à pequena Nancy (interpretada depois por Jessica Alba). São as histórias que levam mais tempo para serem desenroladas, porque precisam de detalhes para fazer sentido. Marv tem problemas de comportamento e vive em condicional e toma remédios controlados. Sua aparência grotesca não permitia que nenhuma mulher se aproximasse dele, nem mesmo se ele quisesse pagar. Mas Goldie estava desesperada por proteção, então ela foi até Marv. Ele sabia que havia alguma coisa errada, mas mesmo assim, se permitiu chegar um pouquinho perto do paraíso nos braços daquela mulher (que não havia dito que era uma prostituta). Quando ela amanhece morta ao seu lado da cama, ele estava certo de três coisas: 1) armaram para que ele parecesse o culpado do crime; 2) o assassino era muito bom para não ter acordado ele enquanto matava Goldie; 3) o filh*&¨&*$#@ ia se arrepender por ter feito aquilo. Muitas pancadas depois, Marv descobre que Goldie tinha uma irmã gêmea, e ela acredita que Marv tenha matado sua irmã. Depois de esclarecido que ele também estava atrás do assassino, ela o ajuda a encontrar e estraçalhar o verdadeiro monstro: Kevin (Elijah Wood, que não dá um pio em todo o filme), um sujeito franzino e demoníaco que gosta de comer carne humana para se sentir na presença de Deus e manter as cabeças das prostitutas que matava como um souvenir. A vingança custa a vida de meia dúzia de capangas, de Kevin e do cardeal da cidade, que também estava envolvido. 

Goldie e Marv: da importância de ser gentil com desconhecidos
O detetive Harrigan arriscou sua vida para salvar a pequena Nancy de ser a próxima vítima do odioso estuprador Roark Jr. (Nick Stahl, tão bom no desempenho que dá nojo vê-lo em cena) e foi traído pelo próprio parceiro, que atirou várias vezes nele. O detetive havia mexido num vespeiro muito grande, Roark Jr. era filho único do senador que controlava toda a cidade, e era criado acima de qualquer lei por conta das costas quentes. Afinal, era ele quem concorreria á presidência no futuro e continuaria a trajetória de sucesso do pai. Ele sobreviveu ao ataque, e o senador até pagou seu tratamento, mas com um único objetivo: que ele assumisse todos os crimes do filho. Assim, o herói se tornaria o monstro, e o monstro que o filho era e que se transformou depois das inúmeras cirurgias feitas para salvar sua vida ficasse impune e incólume, continuando as atrocidades que fazia. Por 8 anos Harrigan ficou preso, aguentando todo tipo de tortura e sem assumir uma culpa que não era dele. Mas quando parou de receber as cartas de Cordélia, o codinome usado por Nancy, ele foi levado a pensar no pior. Sua angústia era tanta que não podia ficar atrás das grades sem saber do paradeiro daquela que foi sua única companhia na cadeia - o detetive assume a culpa pelos crimes de Jr. e vai à procura de Nancy. O que ele não esperava era que ela estivesse na Cidade Velha, dançando num bar, trabalhando com as prostitutas. Ao perceber que havia caído numa armadilha, não havia mais volta; para proteger a menina, que agora era a mais bela moça da cidade, ele tem que voltar à ação. Consegue atingir e despistar o vilão, mas é pego no quarto com Nancy, quando ela se declarava para seu herói. Deixado para morrer enforcado enquanto sua menina era levada para a tortura antes de uma morte horrível, ele consegue reunir forças para se safar dessa e ir salvá-la de novo. Num galpão na fazenda dos Roark, o duelo final: Harrigan chega como a salvação de Nancy, mas já não tem os mesmos reflexos de antes. Nem por isso ele falharia com o amor de sua vida. Uma faca no peito e uns bons murros na cabeça até que ela vire uma massa amarela no chão resolvem o caso. Mas não são o suficiente para a plena segurança de Nancy, ela nunca estaria segura enquanto ele estivesse vivo. Então, ele salva sua Nancy pela terceira e última vez.

Jessica Alba como Nancy: o amor e a desgraça de Harttigan

O ritmo do filme, como um todo, é meio lento. Mas nem por isso dá vontade de desligar a tv. A crueldade da natureza humana se mostra em pequenas doses: o pedófilo que gosta de torturar as garotinhas antes de abusar e matá-las, o assassino que coleciona as cabeças das vítimas que matou e comeu, a omissão dos pecados do clero, a conivência e corrupção da polícia e dos políticos, a curiosa forma de autoproteção das meninas da Cidade Velha (muito charme e chumbo grosso)... Sangue para todo o lado não é novidade nos filmes de Rodríguez, mas essa história não faria sentido sem ele. A cidade em si é um organismo vivo e depende do bom funcionamento de todo o sistema, como a quebra do frágil acordo entre policiais e as prostituas sugeriu. A vida da cidade do pecado corre acelerado nas veias dos homens e mulheres que tentam não ser a pior versão de si mesmos. Exceto pelos vilões, claro. Mas como haveria um equilíbrio se não houvesse a possibilidade do caos? Uma leitura interessante do mundo através da releitura de uma graphic novel que pinta em preto e branco e sangue vermelho os contrastes da nossa realidade. 

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