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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O carnaval que o francês via!

Orfeu ama Eurídice, e esta o amava também. Mas a bela moça é picada por uma cobra e morre. Inconsolável, Orfeu a segue para o submundo "encantando" os obstáculos com suas músicas. Lá convence Hades a deixar Eurídice voltar a vida sob uma condição, que o poeta não olhasse para trás até estarem  novamente no mundo dos vivos. Mas Orfeu, com medo de sua amada não o estar seguindo, olha para trás e  a perde novamente, desta vez para sempre. O reencontro só acontecerá após sua morte.

É assim, a versão mais conhecida do mito greco-romano de Orfeu e Eurídice. Criativa é a ideia de trazer esta história de amor para o Rio de Janeiro, transformar Orfeu em um sambista e situar tudo durante a magia do carnaval. Não tão bem sucedida sua execução, no entanto.

Eurídice já chega à cidade maravilhosa em fuga. Um homem quer mata-la, sem motivo aparente. Ok, eu sei que é uma metáfora para a morte, mas não dava para criar algo mais "crível". Especialmente pelo fato de o filme se passar no carnaval, a figura misteriosa e mascarada que devia causar temor parece apenas mais um dos mascarados da festa. E se este era mesmo a morte, Eurídice não poderia fugir dela apenas mudando de cidade não é mesmo.

"Filosofamentos" à parte, o maior problema do filme é mesmo a caricata visão dos brasileiros. Não se enganem, não sou do tipo que acha que não pode haver filmes sobre carnaval e futebol. Mas sério que o pessoal esquece da vida, quando pensa em carnaval? Que a cidade para e o batuque está presente em todo lugar, até nos (então verdes) bondinhos? Exagero, com certeza!

E por falar em carnaval, que coisa caótica que devia ser a festança em tempos "pré-sambódromo". Segundo os mais velhos era assim mesmo, com cordinhas separando a multidão do desfile e muito tumulto.

De volta ao filme, Orfeu é o mocinho perfeito, e passa por todas as etapas de sua mitologia, claro adaptadas para o carnaval carioca de meados do século XX. Difícil não simpatizar com o moço e seu charme de sambista (vivido pelo jogador do fluminense!? Breno Melo), apesar das interpretações artificiais da época. Deve ser carisma, já que atuar bem o rapaz não sabia. Já Eurídice (vivida pela estadunidense Marpressa Dawn) é bonita e em perigo, e só. 

Um jogador de futebol e uma gringa? Tá explicada a sensação de que ninguém sabia sambar de verdade, e de que a moça estava dublada. (Juro que aquela é a voz original da cinderela da Disney.)

Já o cenário não precisa de esforço para ser belo. Cheio de panorâmicas do alto da favela, quando não tem cartão postal, tem pessoas sambando com fantasias bastante diferentes das que estamos acostumados. Aliais o registro do carnaval da época é um detalhe a parte. Apesar de sabermos que há um pouco de caricatura, não deixa de ser curioso, a festa muda e se adapta a novos tempos. 

Musa bem vestida, tenta achar uma no carnaval atual!
Sobra ainda espaço para mostrar um pouco do nosso sincretismo religioso. Curiosamente com muito menos preconceito que muita produção atual traz. Se descontarmos, é claro, a parte caricata. Orfeu vai buscar Eurídice em um terreiro, e não há julgamentos por isso.

Orfeu Negro, é gravado aqui, em nossa língua, e com grande parte do elenco composta por brasileiros. Mas é a visão de um francês, que embora apaixonado pelas nossas terras, não conseguiu fugir do caricato. E se já era caricato na época, não resistiria ao teste do tempo. E não resistiu. Mas vale como curioso registro de uma época. Se não o registro de como o Brasil era, ao menos um registro de como era visto pelo mundo a fora. 


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