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domingo, 7 de abril de 2013

Podia ser um curta...

Então. Eu precisei ver o filme em duas partes por questão de tempo. Mas eu acredito que isso só reforçou a sensação de que este filme realmente pode ser dividido em duas partes. E a segunda é bem mais interessante que a primeira... A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ, 1988) é um filme demasiado longo para o que se propõe. O título já é autoexplicativo, então dava pra reduzir boa parte da primeira fase, em que Jesus, vivido por Willem Dafoe (a.k.a. Duende Verde) está recrutando seus discípulos e entendendo que ser Deus na Terra não é coisa fácil. Acredito que tenha sido mais para que se estabelecesse a importância de Judas (Harvey Keitel, excelente) na vida e morte de Jesus. Tido como o traidor, vilanizado há mais de 2000 anos, ele era o mais próximo do messias.

Para os que não são cristãos e nãos estão acostumados à história, Jesus 'recruta' 12 discípulos entre o povo e os pede para que o acompanhem onde ele for a fim de dar testemunho a favor dele. Mas Judas era um soldado e fora ordenado que o matasse. Então ele fica 'entre a cruz e a espada' (perdoem meu trocadilho infame). No filme, Judas é retratado como se quisesse que Jesus fosse bem sucedido em sua revolução: um judeu que pregava que ele era o messias e que Roma usurpava o templo do Senhor, que não havia lugar para ouro no templo. Isso era uma ameaça política séria, uma vez que a pregação do amor ao próximo e os milagres feitos geravam cada vez mais seguidores para Cristo. O rebuliço era tanto que Judas, já cativado por Jesus, torcia para que a revolução desse certo para que ele não tivesse que entregar o amigo aos soldados romanos.

Tudo isso é, de certa forma, bem fiel ao que tem na bíblia (botei a memória pra funcionar, relembrando as aulas de catecismo) e já tinha um diferencial de outros filmes sobre a vida de Cristo por trazer à tona um Jesus mais homem que Filho de Deus. Achei um olhar bem interessante, pois Scorsese parece ter uma postura neutra na questão da fé e do fanatismo que envolvem a figura de Jesus, mas ao mesmo tempo não nega a divindade dele ou deixa de colocar alguns fenômenos sobrenaturais, como as vozes que o torturam ou a aparição de Satanás. Os milagres mostrados não são questionados, tampouco contestados: apenas registrados. Mas a partir da primeira tentação no deserto, o diretor começa a achar seu argumento.

A tentação é uma constante na vida de Jesus. Presumindo que este é o filho do Todo-Poderoso, é bem típico que ele seja o mais testado em sua fé. E como ele nasceu humano, não um semideus, ele tinha suas fraquezas apesar de sua convicção sobre Deus e sua própria divindade. Ele se desespera, sofre, fica em dúvida, luta contra o sentimento que nutre por Maria Madalena (Barbara Hershey). Dilemas absolutamente normais elevados à décima potência, uma vez que ele se preocupa com o bem estar de toda a humanidade (não só dos judeus ou de sua terra natal) e pelas terríveis revelações dos segredos divinos. Ele soube, a seu tempo, o que era necessário fazer. E isso o assustou, tanto quanto ele pregar o amor e ouvir gritos de 'morte!' após uma pregação. No fundo ele sabia que a mensagem que ele queria passar não seria ouvida, então partiu para a revolução da qual Judas lhe falava: se não tem amor, então que venha a guerra. Mas ainda assim, um homem. Aquele que amava a todos como irmãos. Não conseguiu levar sua revolta adiante e, enfim, temos o momento doloroso da crucificação. Seja você cristão ou não, não há como passar impassível à crueldade que era literalmente crucificar alguém. O filme torna-se muito mais interessante agora, quando Jesus pede a Judas que o traia e ele é levado à Pilatos (David Bowie, numa aparição curtíssima), torturado e crucificado. Enfim chegamos à tal última tentação do título: um anjo enviado por Deus diz a Jesus que ele não é o messias, e que ele deveria sair e viver sua vida como um homem normal, casar-se com a mulher que ama e ter filhos, ser feliz. Ele já havia sofrido demais. Que Deus era misericordioso e o havia livrado do sofrimento. Contente por ver seu sofrimento terminado, Jesus segue seu anjo e vai viver a vida que sempre quis. Até ouvir as palavras de Paulo (Harry Dean Stanton), seu discípulo, que pregava que o Cristo era o salvador, que tinha vencido a morte e ressuscitado ao terceiro dia, abrindo assim as portas do céu para aqueles que acreditassem nele, que vivessem segundo seu exemplo. Tentando desmascará-lo, ele volta-se para Paulo e o chama de mentiroso, que ele ainda está vivo. Mas não contava com a resposta do apóstolo, que lhe agradece por ter visto que ele havia desistido e que o Cristo que ele pregava era muito mais interessante e útil ao povo (ok, senti aqui um dedinho de posicionamento em relação às igrejas cristãs). Com isso, eles se separam e Jesus volta para terminar sua vida tranquila até que a cidade pega fogo nas mãos dos romanos. Seus antigos discípulos voltam para uma última visita e então Judas desmascara o anjo: ele era Satanás e havia iludido Cristo. Toda a vida que vivera fora uma alucinação, e talvez não houvesse mais o que fazer. Mas Jesus não desiste, se arrasta até o local onde deveria ter sido crucificado e pede perdão a Deus. A alucinação desaparece e ele se encontra nu, preso à cruz por pregos e com uma coroa de espinhos. Apesar do sofrimento, ele sorri e diz: 'está consumado', numa satisfação difícil de ser encontrada em alguém próximo de uma morte tão violenta.

O filme se baseia em passagens bíblicas, mas não as segue fielmente. Não há a famosa frase de Cristo 'dai a César o que é de césar', nem a absolvição de Barrabás e Pilatos lavando suas mãos, nem as três negações de Pedro antes que o galo cantasse - nem mesmo a morte do Cristo é retratada. A ênfase toda está na parte em que Jesus sofre a primeira tentação no deserto e a última, com todas as consequências que elas causaram no espírito do homem. A primeira o levou a querer guerra, a segunda o fez entender seu papel na História. Scorsese foi muito feliz em seu posicionamento mais neutro, sem negar ou ressaltar a divindade, quase um relato do que houve. A polêmica em torno do relacionamento (e da cena de sexo) entre Jesus e Madalena foi certamente porque alguém assistiu o filme e não entendeu que aquilo era a tentação em si, e não uma afirmação de que realmente houve aquilo. Judas ganha uma relevância que se faz perdoar sua traição e me levou a pensar no porquê de se ter o costume de malhar o judas nas páscoas: se ele fez o que seu senhor mandou, se até Jesus o perdoou, pra quê continuar a alimentar o ódio por ele? Ainda há na atualidade espaço para pessoas que gritam 'morte!' quando ouvem 'amor!'. Uma crítica social embutida num filme religioso, sem levantar bandeiras. Uma atuação maravilhosa de Harvey Keitel, endossando a importância de Judas no contexto, uma aparição surpresa de David Bowie como bônus e uma fotografia muito bem pensada e trabalhada (ou você acha que filmar no deserto de dia é mais fácil que à noite?). Um bom filme, menos polêmico do que eu imaginava que seria e que daria um ótimo curta.

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