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sábado, 20 de abril de 2013

Psicosociopatia

Travis (De Niro): aquele cara estranho que não se adequa a lugar nenhum
Nem sei se a palavra existe de verdade, mas foi o que eu percebi ser a 'doença' de Travis (Robert De Niro, nem precisa de comentários). Taxi driver (Taxi driver, 1976) é um filme estranho, assim como seu protagonista. Parece não saber para onde ir, e acaba se deixando levar pelos acontecimentos, que apontam para um final absolutamente violento. A gente dica pensando o tempo todo "quando será que o Travis vai surtar e começar a matar todo mundo?" Bem, isso quase acontece. Mas vamos com calma.

Travis tem problemas com insônia, então procura um emprego como motorista de táxi no turno noturno para completar suas intermináveis horas do dia e ver se, cansando o corpo, o sono chega. Mas não é isso o que acontece. Acordado e andando pela noite, ele vê todo o tipo de violência e sordidez da existência humana. Seu alívio no dia parece ser stalkear (me faltou uma palavra melhor, mais completa) a bela (e meio esquisita também) Betsy (Cybill Shepherd), uma voluntária na campanha de um senador candidato à presidência. Ela a princípio estranha a mania de ele ficar a observá-la (lógico), mas decide por dar uma chance a ele. Sem nenhum tato ou convívio social, ele acaba por levá-la a um cinema pornô. e achava que era a coisa mais normal do mundo. Escandalizada, ela vai embora e não quer mais ter notícias daquele homem estranho. 

Travis então se aprofunda ainda mais na solidão que o consumia. Torturado pela rejeição e massacrado pela falta de afeto (que ele fala claramente nas cartas que escreve - e narra), começa a acreditar que o mundo não tem mais jeito. e que precisa existir alguém que 'lave das ruas a escória'. Quando, por acidente, o tal candidato aparece em seu táxi e ele fala que isso o encomoda, mas que na prática ele não se mostrou favorável ao seu pedido de limpeza das ruas, aí sim ele teve certeza de que o mundo tava indo pro brejo. Então ele começa a planejar, mesmo sem planejar, sua vingança contra o mundo. Sua limpeza das ruas. O herói que salvaria o mundo. E salvaria também aquela menina, uma desesperada garotinha que entrou em seu carro e pediu para que a levasse para casa.
 
Iris (Jodie Foster) e Travis: um improvável encontro que mudou a vida de ambos

Aquela menina não era mais só uma menina. Era uma prostituta. E seu cafetão não ficou nada feliz com essa atitude dela. Algum tempo depois, passando pelas ruas, ele reencontrou a menina. Linda e jovial, com seu chapéu de verão, mais conformadado que antes. E então ele decide conhecer melhor essa menina. Conhece Sport (Harvey Keitel), o cafetão dela e paga por um tempo para ficar com ela. No quarto alugado, ele não quer saber de tê-la na cama. Ele quer realmente conhecê-la. Saber seu nome, seus sonhos, o que ela está fazendo ali, como ela foi parar ali, se ela lembrava dele. Mas 15 minutos não são suficientes para isso. Então, ele marca um encontro com ela no dia seguinte, na hora do almoço. E fica sabendo seu verdadeiro nome: Iris (Jodie Foster, criancinha ainda e já extremamente talentosa). Então ele a inclui na lista de salvações do dia.
Travis arranja uma arma, aliás, várias armas, de diferentes calibres e potências. Seus alvos também parecem ser muitos: Betsy e o suposto namorado, o senador, o cafetão Sport, o cara pra quem ele teve que pagar 10 dólares por 15 minutos no quarto com Iris. Mas nenhum deles foi seu primeiro alvo. O primeiro alvo foi um ladrão de ocasião, numa noite absolutamente normal. Ele só resolveu assaltar o lugar onde Travis estava comprando comida, e acabou morto. Não pelo tiro que levou, mas pelo ódio irrestrito que movia Travis. O tal ódio generalizado que o motivou a comprar armas e treinar tiro ao alvo e planejar o atentado ao candidato. Então, Travis organiza tudo: prepara a mente e o corpo para o atentado, deixa o dinheiro pra Iris voltar pra casa, manda uma carta para os pais com algumas mentiras para abrandar a notícia de sua trágica futura morte. Chega o grande momento e ele... Não consegue. Sua chance de conseguir atingir o candidato, um símbolo do que seria atingir toda a sociedade, passou e ele não sabia mais o que fazer. Mas ainda tinha uma chance de ele extravasar esse ódio e cumprir uma parte de seu destino: ele podia salvar Iris e limpar um pouco da escória das ruas.

Travis, suas armas e o espelho: 'You talking to me?'
Essa fase do filme é quase tarantinesca: sangue, muito sangue, pedaços de dedos saindo por todo o lado... E ainda assim você não consegue tirar os olhos da tela. Não pude deixar de fazer esse paralelo. Travis está armado com todas as armas que comprou e atira em Sport, no homem do aluguel do quarto, é atingido por um tiro de Sport, atira no cliente  que estava com Iris, é atingido por ele... Um banho de sangue. E quando parece que o filme vai acabar ali, naquela tragédia, que o destino de Travis tinha chegado finalmente, há uma sutil mudança nos planos. Apesar de ferido gravemente, Travis sobrevive e é tratado como herói por ter salvado a pequena Iris. Sai nos jornais, recebe uma carta emocionada dos pais da menina. E volta para sua rotina, como se nada tivesse acontecido. Nem mesmo Betsy em seu carro, em uma corrida noturna, o abalava mais: ele já tinha feito sua parte na limpeza das ruas.

Achei o filme, num todo, mediano. De Niro interpretando é algo extraordinário em qualquer filme que apareça, portanto acho que esse filme não seria considerado o clássico que é hoje não fosse a presença magnética e carismática (mesmo num personagem tão estranho e controverso quanto Travis) de De Niro. É a presença e interpretação dele que sustentam o filme, ou de outra forma ele seria apenas mais um. Scorcese tem uma direção segura e a fotografia do filme é muito bem cuidada, mas falta "mojo". Jodie Foster é um achado, tão segura e aparentando uma inocência ímpar, uma participação pequena porém muito impactante. Talvez eu tenha esperado mais, mas, ao fim do filme, a sensação que ficou para mim foi apenas de "menos um na lista de 'clássicos que não vi'".

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