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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma linda e mágica homenagem ao cinema


Sinceramente, chamar A invenção de Hugo Cabret de filme infantil parece mais uma equivocada estratégia de marketing do que qualquer outra coisa, o que, infelizmente, pode afugentar os telespectadores mais crescidos. Apesar de seu protagonista ser uma criança, o longa de Martin Scorsese é, na verdade, uma aventura mágica e envolvente. E para embarcar nessa viagem não há limite de idade, apenas um requisito: amor incondicional pelo cinema.

Logo de início, somos apresentados à história de Hugo Cabret (Asa Butterfield), um órfão que vive clandestinamente numa estação de trem parisiense. Sua atividade preferida é trabalhar no conserto de um autômato descoberto por seu pai em um museu. Em sua incansável busca por ferramentas, ele encontra um empecilho na figura do ranzinza Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos dentro da estação, que confisca, arbitrariamente, a caderneta com preciosas informações sobre o projeto. A partir daí, Hugo conta somente com a ajuda de Isabelle (Chloë Grace Moretz) para reaver o objeto. E o que parece ser apenas um inofensivo passatempo vira uma pesquisa, digamos, histórica.

Quando as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar, é delicioso e emocionante acompanhar a saga de Hugo e Isabelle pelo passado de Papa Georges, ou melhor, Georges Méliès, um ex-ilusionista que enxergou as possibilidades criativas do cinematógrafo, a mais recente invenção dos irmãos Lumière. Enquanto eles viam sua criação como um modo de registrar a realidade mecanicamente, Méliès foi quem resolveu investir na própria imaginação para levar a fantasia à sétima arte. A cada descoberta dos meninos, um capítulo dos primórdios do cinema é revelado, o que pode tornar o filme um pouco didático demais em determinados momentos, mas certamente encantador. E não importa muito se você é um especialista no assunto ou está descobrindo essa história pela primeira vez: "entrar" no set de filmagens de Viagem à Lua é uma experiência única.


Ben Kingsley consegue achar o tom exato de amargura para o cineasta aposentado, que tem seus motivos para renegar o passado, mas não consegue ser feliz sem fazer o que realmente sabe. Helen McCrory está ótima como uma envelhecida Mama Jeanne, que se divide entre o respeito pelo "luto" do marido e a certeza de que a carreira dele merece ser lembrada. Já o protagonista Asa Butterfield parece hesitante em alguns momentos importantes, e Chloë Grace Moretz, segura e competente, acaba roubando muitas de suas cenas. Mas é uma pena que bons atores como Sacha Baron Coen, Emily Mortimer, Frances de la Tour e Richard Griffiths, fiquem reduzidos a subtramas sem muita importância.

Baseado no livro de Brian Selznick, A invenção de Hugo Cabret é daquelas histórias que nasceram para a telona. Porque não há maneira mais perfeita de prestar uma homenagem ao cinema do que fazendo cinema. E aqui vale um parêntese: no longa de Scorsese, a volta ao passado tem tom de reconhecimento, não de nostalgia. A primeira obra em 3D da carreira do cineasta - curiosamente ambientada numa estação de trem, assim como no pioneiro filme dos irmãos Lumière - mostra que é possível acompanhar a evolução tecnológica sem esquecer o legado de quem impulsionou a sétima arte.  E se é verdade que finais felizes só existem nos filmes, temos muito que agradecer a Méliès e Scorsese.

* Texto publicado originalmente no blog Comentar é preciso

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