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domingo, 9 de junho de 2013

Terror às claras


Rosemary (Mia Farrow) e o amuleto da sorte
O bebê de Rosemary (Rosemary's baby, 1968) é um filme atípico. O diretor Roman Polanski fugiu da maioria dos clichês (que funcionam), e criou um filme de terror que não parece um filme de terror. Sensacional. Afinal, imaginar algo aterrorizante numa noite escura e fria, quando você está sozinho e indefeso é muito fácil. Mas e quando você está feliz, recém-casada e cercada de amigos? É possível achar que o Mal vai te encontrar nessas circunstâncias? Muito mais difícil. 

Um jovem casal, Rosemary (Mia Farrow, fantástica) e Guy Woodhouse (Jon Cassavetes), se muda para um apartamento num prédio com fama de mal-assombrado - sem ligar muito pra isso, mesmo com os aterrorizantes fatos ocorridos por lá que seu amigo Hutch (Maurice Evans) havia detalhado - conhece seus novos vizinhos. Um extremamente simpático e bastante bisbilhoteiro casal de velhinhos, Minnie (Ruth Gordon, excelente) e Roman Castevetes (Sidney Blackmer). Eles haviam adotado uma jovem moça que Rosemary conhece na lavanderia - eles a haviam tirado das ruas e davam tudo o que ela queria e precisava, e ela era extremamente grata por isso. Essa jovem morre misteriosamente alguns dias depois, ao cair da janela do apartamento. Com isso, o casal acaba por se aproximar dos velhinhos. Ao aceitarem um convite para jantar, Roman acaba por criar uma amizade com Guy, enquanto a intromissão da velha incomoda a jovem Rosemary. Ela não quer mais saber de muita conversa, porém seu marido vê na ajuda de Roman uma chance de conseguir finalmente um bom papel para atuar.

Não demora muito e ele consegue o papel principal em um programa de tv após o ator escalado ter perdido repentinamente a visão. Alheia a esses acontecimentos, Rosemary só quer saber de terminar a decoração do apartamento e de engravidar. Quando seu marido finalmente se mostra disposto, chegando a marcar no calendário os melhores dias para a fertilização dela, Mary não suspeita de nada errado. Pelo contrário, junto com o marido preparam a noite especial - que é ligeiramente interrompida pela senhora Castevetes, que foi somente oferecer uma mousse de chocolate. Rosemary não toma todo o conteúdo de sua taça por não gostar do sabor (havia algo estranho ali), apesar da insistência de seu marido. Ao levantar-se, sente-se muito mal e é levada para o quarto por seu marido. Julgando ter caído no sono e estar um pesadelo terrível, ela se vê na casa dos vizinhos e seu marido a possuía na frente dos vizinhos e outras pessoas que não conhecia, completamente nus e entoando cânticos estranhos. Seu marido se transforma em uma criatura horrenda, de olhos amarelos, e a consciência oscilante desperta: ela não estava dormindo! Finalmente sedada, o ritual macabro termina e Rosemary acorda em seu quarto, com seu amado marido do lado. Certa de que teve realmente um pesadelo, apesar de estranhar as terríveis cicatrizes em seu corpo, resolve ignorar o acontecido.

Rosemary e os machucados: não foi só um pesadelo
Pouco tempo depois, descobre estar grávida. Felizes com a notícia, o casal de vizinhos indica 'o melhor obstetra da cidade', desprezando a confiança que ela tinha em seu médico. O doutor Sapierstein (Ralph Bellamy, sinistro) recomenda a ela que tome o suco diário que Minnie a ofereceria - seria muito melhor que as vitaminas industrializadas que ela tomaria se fosse a outro médico. Sem desconfiar, Rosemary aceita a indicação e resolve tirar do armário o amuleto da sorte que a mesma senhora havia dado à ela quando se conheceram. O amuleto era uma bola de metal com uma erva malcheirosa dentro, algo desagradável. Mas a pobre moça que morreu o usava com frequência, como uma forma de gratidão pelos cuidados do casal Castevetes. Então, ela resolveu usar também.

A gravidez não foi fácil. Sentindo intensas dores, que não passavam por nada, e com o seu obstetra dizendo que era muito normal, Rosemary começou a perder muito peso. Sua aparência estava cada vez pior, ela estava fraca, seu marido estava quase sempre ausente ensaiando o personagem, a vizinha estava cada vez mais intrometida em sua vida, aquela vitamina horrorosa que ela aceitava de bom grado já estava enjoando... A cada dia ela se sentia mais sozinha e isolada, e começava uma ligeira paranoia. Não queria mais saber dos vizinhos se intrometendo em sua vida (com a conivência do marido), seus amigos estavam afastados, ela quase não saía de casa. Resolveu parar de tomar a vitamina e dar uma festa para rever os amigos. Contou às amigas o que sentia, das dores terríveis e incapacitantes que sentia, recebeu a visita de seu amigo Hutch novamente - e foi aí que ela começou a suspeitar de que havia algo errado. Hutch estranhou o amuleto e foi pesquisar sobre, e quando ligou para ela marcando um encontro para contar-lhe o que havia descoberto, misteriosamente caiu em coma na manhã seguinte.

Rosemary continuou os preparativos para a chegada do bebê, e com a morte de seu amigo (que lhe deixou um livro sobre a história do prédio onde morava e um enigma, passado a ela por uma amiga: 'o nome é um anagrama'), ela começou a desconfiar que havia algo de errado. O livro falava sobre bruxaria e a história de um bruxo poderoso que havia morado ali no prédio e os rituais de magia negra que ocorreram ali. Seguindo a indicação do amigo Hutch, ela trabalha o nome do livro em anagramas e descobre várias frases de sentido maligno ocultas em seu significado - mas nada que fizesse sentido. Então decide fazer um anagrama com o nome do bruxo que ali morou e descobre que Roman Castevetes é o tal bruxo. Começa então a paranoia dela. Desconfiada que seus vizinhos queriam seu bebê para rituais de sacrifício, tira do pescoço o amuleto que usava e proíbe que o marido volte a deixá-los entrar em sua casa. Preocupada com a saúde de seu bebê, vai até o consultório do doutor Sapierstein, e descobre casualmente que ele usa um colar como o seu. Sentindo que ele também faz parte do complô, ela liga para o seu primeiro médico e marca uma consulta de emergência. Lá ela conta tudo o que aconteceu, e todas as suas suspeitas. Ele pede para que ela se acalme e diz que vai tomar providências. Ele acaba por chamar seu marido e o doutor, que a levam à força pra casa e ameaçam  interná-la em um sanatório se continuar com a paranoia de rituais e bruxarias.

Minnie Castevetes (Ruth Gordon): mais sinistra do que a maquiagem dela...
Sem ter para onde ir ou a quem recorrer, Rosemary volta para casa e entra em trabalho de parto. Preocupada com a saúde e a segurança de seu filho, pede que a levem para um hospital - mas o parto acaba acontecendo ali mesmo, enquanto todos os outros membros da seita chegavam. Rosemary perde a consciência quando é dopada e acorda em seu quarto, vigiada e sem notícias do bebê. Seu marido aparece e diz que a criança não resistiu, mas que eles ainda terão oportunidade de ter outros filhos. Arrasada, Rosemary toma as pílulas que lhe oferecem sem contestar. Até que começa a ouvir um choro de bebê ao longe e desconfia que a estão enganando novamente. Decide parar de tomar os remédios que lhe dão e percebe que, mesmo sem ter seu bebê por perto, continuam retirando seu leite. Uma tarde, quando acorda sozinha, decide investigar. Um antigo armário embutido em sua casa, que estava bloqueado por um pesado armário de madeira quando eles se mudaram, formava uma passagem para a casa dos Castevetes. Armada com uma faca de cozinha, ela encontra várias pessoas reunidas ali, em torno de um berço negro e um crucifixo de cabeça para baixo pendendo sobre ele. Sobressaltados com a presença dela, tentam impedi-la de avançar. Mas o senhor Castevetes deixa que ela se aproxime e veja a criança. Para o horror de Rosemary, o bebê tem inexplicáveis olhos amarelos (a criança não é mostrada em momento algum). É quando Roman revela o grande segredo: o bebê de Rosemary não seria sacrificado, mas era na verdade o filho de Satã - e ela estava certa quando teve a impressão de que seu sonho não era só um sonho. Então vem o dilema dela: cuidar de seu rebento como uma mãe deveria cuidar ou deixar a criança demoníaca nas mãos da seita e tentar esquecer o que houve? O que se passou na cabeça de Rosemary naqueles minutos em que ela se deu conta do quanto havia sido enganada e traída (até mesmo pelo marido, que não hesitou em trocar seu filho pela fama e sucesso na carreira), as fatalidades inexplicáveis àqueles que estavam no caminho, a solidão, isolamento e sofrimento que ela passou... E seu bebê. Aquele que ela esperou tanto, que amou tanto. Importava tanto assim o que ele era ou viria a se tornar? A criança chora insistentemente e a forma com que ninam o bebê só deixa mais irritado. Por puro instinto, Rosemary vai até o berço e passa a embalá-lo, aceitando seu destino.

O maior trunfo do filme é ser um terror fora dos clichês. Ok, pra ambientar a trama como terror, teve lá o clichê do prédio mal-assombrado e dos rituais de bruxaria com sangue e sacrifício. Mas é impressionante como o restante do filme causa uma sensação incômoda de medo mesmo com a fotografia ensolarada: o filme se passa quase que em tempo integral dentro do prédio, mais especificamente dentro do apartamento dos Woodhouse. Na reforma, o apartamento escuro e sombrio ganha paredes claras, Rosemary se veste com estampas floridas e alegres, e até mesmo os pesadelos de Rosemary são nítidos, claros. Bem diferente dos filmes de terror, em que a fotografia escura é quase uma regra pra causar medo, a sensação que Roman Polanski parece querer passar é a de que o mal está à espreita e vai te pegar em qualquer lugar, você não precisa de um dia frio e chuvoso de inverno ou ir para uma floresta deserta, uma cabana abandonada, um culto religioso maluco ou qualquer outra coisa mais 'sinistra' para que o Mal chegue até você. Seus simpáticos vizinhos podem estar tramando contra você. Seus pesadelos mais tenebrosos podem ter realmente acontecido. Golpes de sorte podem não ser exatamente aleatórios. Vai dizer que isso não dá medo? Por fugir dos clichês (subgênero gore, como eu descobri nas minhas pesquisas) e por ser malignamente genial, este é meu filme favorito do gênero menos favorito de todos. Provavelmente o único que será inesquecível sem me deixar insone, e que eu consegui ver o tempo inteiro sem pôr as mãos à frente dos olhos em alguma cena mais forte. Brilhante, com atuações excepcionais de Ruth Gordon e Mia Farrow, tomadas de cena inteligentes e direção fenomenal. Clássico sim, e por ser absurdamente plausível, aterrorizante também.

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