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sábado, 14 de dezembro de 2013

Mais trágico que a ficção

Vicky (Shearer): uma aristocrata que vai ter sua vida
transformada pelo seu amor à dança
Ok, todo mundo sabe que os contos de fada são mais trágicos do que o que acostumamos a ver nas versões da Disney (e há aqueles que achem isso um crime; eu, pessoalmente, acho que é só uma outra versão de um clássico - e não há nada de errado nisso), mas o desfecho desse conto deve ser um dos mais tristes de todos os tempos. Hans Christian Andersen devia ser um cara bem depressivo, coitado. Se em seu conto mais famoso a pobre sereiazinha morre depois que seu amor casa com outra, é bem compreensível do ponto de vista humano. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca sofreu por amor! Mas em Os sapatinhos vermelhos, ele deu um novo sentido à expressão morrer por amor. E aqui, é sobre um amor visceral, algo que completa a vida de alguém - não uma pessoa.

Na história, uma menina apaixonada por dança quer muito ser a melhor dançarina do mundo, e nunca mais parar de dançar porque isso a faz feliz. Com a ajuda dos sapatinhos vermelhos mágicos, ela consegue realizar seu sonho e é momentaneamente feliz até que, cansada de tanto dançar, não consegue parar por causa da mágica dos sapatos. Então, ela literalmente morre dançando. Essa é a essência do conto, e a moral da história é tomar cuidado com os excessos de suas paixões. Muito bem. E como se faz um filme sendo fiel a uma história dessas sem ser tão chocante assim? A dupla de diretores Michael Powell e Emeric Pressburguer decidiram transformar o conto em um espetáculo de balé filmado, onde o trágico final da mocinha teria um lindíssimo grand finale

A tentação dos sapatinhos vermelhos: um efeito especial muito bacana
Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, 1948) ganhou uma história e diálogos adicionais e tomou forma: Vicky Page (Moira Shearer) é uma jovem aristocrata com o sonho de se tornar uma bailarina famosa. Sua tia aproveita a chance de um jantar para conseguir que ela dance para um renomado dono de companhia de balé, o senhor Lermontov (Anton Walbrook). Apesar de achar inadequado o oportunismo, ele acaba por conhecer a jovem e a oferecer uma audição. A polêmica montagem de seu novo balé, que envolvia uma canção original roubada de um jovem e inexperiente compositor, ia ligeiramente desandando quando sua primeira bailarina resolveu largar o balé para se casar. Enciumado e com raiva por perder sua grande estrela, Lermontov resolve apostar em Julian Craster (Marius Goring) - o tal compositor - e em Vicky. As músicas de Julian são um sucesso e Vicky se mostra cada vez mais apaixonada e esforçada em sua dança. É a hora do grande pulo do gato.

Lermontov aposta suas fichas em uma montagem ousada: em poucas semanas, Os sapatos vermelhos deveria ser apresentado em Monte Carlo. As músicas ruins são substituídas pelas melodias e regência perfeitas de Julian e Vicky tem que se esforçar ainda mais para que sua personagem, a jovem obcecada pela dança, seja incrível: a técnica tem que ser perfeita, a emoção tem que ser perfeita. E quando o balé é apresentado, o sucesso é imediato. Vicky dança como nunca, e seu nome e o da companhia de dança é alavancado. Uma série de novos balés se enfileiram e cada um tem mais sucesso que o outro. Lermontov está radiante, e novamente apaixonado por sua prima ballarina. Ao descobrir que Vicky e Julian estão tendo um caso, Lermontov se sente traído. Decide então demitir Julian, e Vicky também deixa a companhia por amor a Craster. 
Vicky (Shearer) encenando o trágico final de Os Sapatinhos Vermelhos
Lermontov leva adiante a companhia, mesmo sem seus representantes mais famosos. Julian e Vicky se casam, mas, ao que parece, ela esta ligeiramente arrependida de ter abandonado sua carreira artística para ficar com o amado. Percebendo aí uma oportunidade, Lermontov usa sua mais brilhante tática: aproveitando que Vicky foi visitar sua tia, ele a procura e propõe remontar "Os sapatinhos vermelhos" em Londres, coisa que ainda não havia sido feita. Apelando para o saudosismo e o ego da bailarina, dizendo que nunca ninguém dançou como ela aquela obra - e que ninguém jamais dançaria, ele a convence a voltar para a companhia. Julian descobre que sua esposa não estava somente visitando a tia, então no dia da estreia do balé, ele aparece no camarim. Vicky então é obrigada a enfrentar seu dilema mais cruel: qual dos seus dois amores é mais importante para ela? Julian ou a dança? 

Incapaz de abandonar os palcos por um instante, ela acaba por se decidir que Julian é mais importante para ela ao vê-lo sair do teatro, rompendo o casamento. Dilacerada pela dor, ela decide que não pode viver sem um nem o outro: acaba por se matar, jogando-se à frente de um trem. O balé, tão esperado pela população e tão querido para a companhia e por Lemontov, acaba acontecendo: após um discurso emocionado de seu dono, o balé é totalmente reencenado, mas (como o próprio Lermontov prometera) ninguém ocupou o lugar de Vicky. Uma luz indicava o lugar onde a estrela estaria dançando enquanto todo o restante do balé se desenvolve. Uma homenagem à única dançarina capaz de dar (a) vida aos sapatinhos vermelhos. 
Lermontov (Wallbrook), Vicky (Shearer) e Julian (Goring): amor e arte se misturam
Esse final poético alivia demais o peso do conto, e é uma solução esteticamente bonita e funcional. Afinal, toco final trágico em um palco parece menos doloroso e mais magnífico do que se fosse retratado como uma história real. A parte cênica do balé foi muito bem incorporada (apesar de eu achar, na minha completa ignorância sobre a arte, que a bailarina era meio fraca), e os efeitos especiais foram super bem encaixados. Para quem não sabia o que esperar, esse filme foi uma grata surpresa. Pode ser que daqui a alguns anos eu esqueça de detalhes do filme, mas a história do balé e dos sapatos vermelhos... Isso eu dificilmente esquecerei.

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